Alexandre Ferreira
A convivência dos produtores rurais com plantas daninhas resistentes a herbicidas é uma realidade que faz parte da rotina de muitos produtores de grãos e fibras do Brasil. Desde o primeiro relato, que ocorreu em meados da década de 80, até os dias de hoje, o registro de espécies que apresentam biótipos (indíviduos) resistentes têm aumentado de maneira acentuada. Atualmente, há 28 espécies que apresentam biótipos resistentes a herbicidas registrados no Brasil (HEAP, 2021). Associado a este fato, nota-se rápida dispersão destas plantas para as principais regiões produtoras brasileiras. Estima-se que 30% das áreas cultivadas com soja no Brasil estejam infestadas por plantas daninhas resistentes a herbicidas, ocasinando perdas econômicas na ordem 9 bilhões de reais por ano (ADEGAS, 2017). Portanto, trata-se de um problema real que deve ser enfrentado com seriedade pelo setor produtivo.
Dentro do contexto atual da agricultura, o número de casos de resistência ao herbicida glifosato é o que ocasiona maior precupação aos produtores, pois trata-se da principal molécula utilizada para o controle de plantas daninhas. No ano de 2021, no Brasil, encontramse registradas 11 espécies que apresentam biótipos resistentes a este herbicida. Cronologia dos registros: em 2003 - azevém (Lolium perenne ssp multiflorum); 2005 e 2010 – buva (Conyza bonariensis, C. canadensis e C. sumatrensis); 2008 - capim-amargoso (Digitaria insularis); 2014 - capim-branco (Chloris elata); 2015 – caruru-palmeri (Amaranthus palmeri); 2016 – capim-pé-de-galinha (Eleusine indica); 2019 – leiteiro (Euphorbia heterophylla); 2020 - caruru (Amaranthus hybridus e A. retroflexus); 2021 – capim-arroz (Echinochloa crus-galli var crus-galli). Execção o caruru-palmeri, que se trata de uma planta daninha quarentenária presente, a dispersão dos demais biótipos resistentes tem ocorrido de maneira muita rápida e pode ser atribuído sobretudo ao trânsito de máquinas agrícolas. O aumento do número de relatos de falhas de controle, de espécies que apresentam biótipos resistentes, em áreas novas de cultivo, como em algumas regiões do Pará e Maranhão ilustram bem este fato.
O cenário da resistência ao glifosato torna-se ainda mais complicado ao verificarmos que dentre todas as espécies relatadas, somente, o capim-branco não apresenta resistência múltipla. Este fato, merece atenção por parte de produtores e técnicos, pois indica claramente que o controle destas plantas está sendo realizada de maneira equivocada. A estratégia de manejo adotada pela maioria dos produtores consiste no manejo reativo, que se caracteriza pelo uso da ferramenta (herbicida) até ela deixar de ser efetiva. Tratase de uma alternativa eficaz em um primeiro momento, mas que se adotada por muito tempo perde a sua efetividade. Isto, ilustra perfeitamente o que vem acontecendo com o herbicida glifosato.
O uso contínuo e indiscrimanado deste herbicida vem favorecendo a seleção de biótipos resistentes, ocasionando a sua perda de eficácia. Para resolver este problema, a estratégia de controle adotada, por muitos produtores, têm sido se apoiar em um único herbicida efetivo no controle da planta daninha-alvo para ser aplicado junto ao glifosato. Desta forma, é repetido o mesmo equívoco que ocasionou a perda efetividade do primeiro herbicida. Não há rotação de ingredientes ativos! Esta estratégia pode promover um feito bola-de-neve, e contribuir para o aparecimento de casos de resistência múltipla como o de um biótipo de buva (Conyza sumatrensis), caracterizado como resistente a cinco herbicidas de diferentes mencanimos de ação (EPSPs, ALS, PPO, AUX, FSII e FSI).
Um dos grandes nome da Ciência de Plantas Daninhas, munidalmente reconhecido sua contribuição na área de resistência a herbicidas, é o pesquisador australiano Steven Powles. Ele faz uma analogia interessante. Associa o aumento do número de casos de resistência a plantas daninhas a uma epidemia denomidada por ele de HOS (herbicide only syndrome) que em uma tradução livre seria algo como (“Sindrome do Uso Único de Herbicida”). Trata-se de um problema global que aflige os principais países produtores de alimentos. De maneira geral, produtores tem negligenciado as boas práticas agrícolas e apostam em soluções imediatistas/simplistas para a resolução do problema. Estes países tem observado aumentar de maneira muito rápida os números de casos de resistência, tornando o manejo cada vez mais oneroso. Há uma regra de ouro que todos os agrônomos aprendem na escola e se esquecem de aplicar: resistência/diversidade. Esta relação nos fala de maneira simples e direta que quanto maior a diversidade de controle, menor a resistência.
Desta forma, cabe sempre reforçar a importância de adoção por parte de produtores de estratégias de manejo pró-ativas, que objetivem preservar as alternativas disponíveis, através da diversificação das medidas de controle. Dentre as medidas eficazes para o manejo da resistência destaca-se: uso de plantas de cobertura; rotação de culturas e herbicidas; a adoção de práticas culturais que favoreçam o rápido e adequado estabelecimento da cultura; limpeza rigorosa de máquinas e implementos agrícolas; controle de plantas daninhas nas bordas das áreas de cultivo; catação mecânica ou química para evitar a dispersão em área total. É importante que as estratégias de manejo de plantas daninhas utilzem métodos diversificados.
O cenário atual demonstra que o manejo reativo não é uma estratégia sustentável. Não devemos esperar a que o problema ocorra ou se agrave para então reagir com medidas de controle. A prevenção para evitar a entrada da espécie em uma área ou para evitar que o problema se alastre assim como a integração de diferentes alternativas de controle são atitudes importantes para o adequado manejo da resistência.
Novas tecnologias são ferramentas importantes para o manejo da resistência, entretando elas devem ser sempre utilizadas levando em consideração os velhos e bom preceitos do Manejo Integrado de Plantas Daninhas.