Buva resistente a Paraquat: situação atual e perspectivas


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Publicado em: 01/12/2018

A buva (Conyza spp.) está consolidada como uma importante planta daninha nos sistemas agrícolas brasileiros, sendo em algumas regiões, sem sombra de dúvida, a principal planta daninha nestes cultivos. Esse destaque se dá, principalmente, devido a sua característica de apresentar biótipos resistentes a herbicidas, ocasionada pela pressão de seleção e que vem se intensificando com relatos recentes de novos casos de resistência, que demonstram a complexidade desta planta. A buva vêm trazendo mais prejuízos do que imaginamos As altas produtividade buscadas pelos produtores brasileiros estão baseadas no maior aproveitamento dos recursos provenientes do ambiente durante o crescimento e desenvolvimento da cultura. Para isso sabemos que as plantas precisam aproveitar ao máximo a disponibilidade de espaço, nutrientes, água e luz durante o ciclo para suprir suas demandas. Portanto, quando uma planta daninha, neste caso, a buva, se apresente dentro do sistema de cultivo concomitante à espécie cultivada, irá competir pela disponibilidade destes recursos e causar perdas de rendimento. Isso demonstra a importância econômica das plantas daninhas para o produtor. Alguns trabalhos já foram realizados a fim de se conhecer o quanto de produtividade da soja a buva é capaz de reduzir. Resultados apresentados por Gazziero e colaboradores, no Congresso Brasileiro da Ciência das Plantas Daninhas de 2010, demonstraram que populações relativamente baixas, de 4,7 plantas/m2, foram suficientes para ocasionar a perda expressiva de 23% na produtividade da soja. Em pesquisa semelhante, Fornarolli e demais pesquisadores, constataram que a competição exercida por apenas 1 planta/m2 de buva reduziu a produtividade da soja em 1.500 kg/ha. Nota-se desta forma que são perdas de produtividade significativas para densidades baixas de buva, se considerarmos as altas populações que podem ser encontradas muitas vezes em campo conforme a Figura 1 pode ilustrar bem a interferência de buva em lavouras de soja. Estes dados citados acima corroboram com os encontrados em quatro ensaios de perda de produtividade da soja por interferência com populações de buva, realizados pela equipe Supra Pesquisa, no Município de Palotina – PR, em que foram realizados dois experimentos na safra 2016/2017 e dois na safra 2017/2018. A média destes quatro experimentos encontra-se na Figura 2. Estes resultados apresentados na Figura 2 demonstram que a perda média de produtividade com a presença de uma planta por Buva resistente a Paraquat: situação atual e perspectivas Alfredo Junior Paiola Albrecht1, Arthur Arrobas Martins Barroso2, Enoir Cristiano Pellizzaro3, Guilherme Thomazini4, Juliano Bortoluzzi Lorenzetti5 Leandro Paiola Albrecht1 e Maikon Tiago Yamada Danilussi5 1Professores da UFPR Setor Palotina e Supervisores do Grupo Supra Pesquisa

2Professor da UFPR – Setor Agrárias – 3Eng. Agrônomo, Mestre em Ciências Agrárias, Supervisor do Campo Experimental na C.Vale Cooperativa Agroindustrial

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metro quadrado foi de 565 kg/ha (13,8%), em comparação com área sem buva. Na presença de duas, três e quatro plantas por metro quadrado, a redução de produtividade causada pela competição foi de 859 kg/ha (21%), 928 kg/ha (22,8%) e 1.350 kg/ha (33%). Ao nível de infestação de 6 e 8 plantas/m2 a produtividade decresceu 1.753 kg/ha (43%), 1.969 kg/ha (48%). Frente ao maior nível de infestação, 10 plantas/m2, a produtividade diminui 2.406 kg/ha, apresentando 59% de redução. Isso chama atenção para o fato que as cultivares modernas de soja vêm sofrendo mais com a interferência de plantas daninhas como a buva do que as cultivares antigas, isso devido ao maior teto produtivo e menor ciclo que estas apresentam, deixando-as mais “sensíveis” a estas perdas. Além da perda de produtividade que pode ser muito expressiva, as plantas daninhas servem como ponte verde de doenças e pragas (Figura 3) e podem reduzir a qualidade dos grãos colhidos. Somado a isto, temos a grande problemática da resistência a herbicidas por dificultar e encarecer o controle de tais plantas, hoje, tida como a maior dificuldade encontrada pelos produtores no momento da dessecação pré-semeadura e durante o ciclo das culturas RR. Mais algumas características desta planta “maligna” Nesse cenário entra em destaque a buva, uma das espécies de plantas daninhas mais importantes nas lavouras de soja e milho na Região Oeste do Paraná, assim como nos Estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Palotina-PR, safra 2018/2019. RPD 166_final.indd 5 13/12/2018 08:43:18 Grosso do Sul. Havendo presença de três espécies de buva nestes locais, sendo, Conyza bonariensis, Conyza canadensis e Conyza sumatrensis, esta última a de maior presença na região Oeste do Paraná. O ciclo da buva é anual para Conyza bonariensis e C. sumatrensis, havendo germinação no outono e inverno e pode ser bianual para a C. canadensis, de ocorrência na primavera/verão. A capacidade de produção de sementes, conforme a espécie, pode atingir até 350 mil sementes, estas apresentam características de serem muito pequenas e leves, favorecendo sua dispersão pelo vento. Aproximadamente 90% das sementes produzidas atingem somente 100 metros de dispersão da planta mãe, caracterizando as conhecidas reboleiras nas lavouras, o restante, composto por os 10%, podem atingir 1000 metros de distância, havendo relatos de dispersão em até 50 km. Estas maiores distâncias são responsáveis pela disseminação das populações entre as regiões. A infestação das áreas comerciais brasileiras, conforme estudos da Embrapa, atinge cerca de metade da área cultivada com soja, aproximadamente 16 milhões de hectares e sua abrangência cresce a taxa superior a 20% ao ano. Panorama da resistência da buva a herbicidas A buva, pertencente ao gênero Conyza, se encontra em varias regiões agrícolas do globo. Para termos ideia de sua presença global, o primeiro caso relatado de resistência ao herbicida paraquat ocorreu em Taiwan e no Japão em 1980, na espécie Conyza canadensis. E, desde então, registraram-se 102 casos de resistência em mais de 20 países para seis mecanismos de ação. No Brasil tivemos o primeiro caso de resistência registrado em 2005, ao herbicida glyphosate, pertencente ao mecanismo de ação inibidor da EPSPs, nas espécies de C. bonariensis e C. canadenses, no Estado de São Paulo e do Rio Grande do Sul, respectivamente. No ano de 2010 encontrou-se a mesma resistência na espécie de C. sumatrensis. Nessa espécie, em 2011, identificou-se resistência ao grupo dos inibidores da ALS, para o herbicida chlorimuron e resistência múltipla aos inibidores da ALS e EPSPs. Em 2016, a equipe

Supra Pesquisa e colaboradores, confirmaram a existência de biótipos de buva (C. sumatrensis) resistentes ao herbicida paraquat, inibidor do fotossistema I. Em 2017, também a equipe Supra Pesquisa e colaboradores comprovaram a resistência múltipla tripla para ALS, EPSP e Fotossistema I em C. sumatrensis. Ainda em 2017, outra equipe de pesquisa relatou a resistência da mesma espécie a cinco mecanismos de ação (paraquat, saflufenacil, 2,4-D, diuron e glyphosate). Informações relacionadas a resistência de buva e outras plantas daninhas, são atualizadas constantemente e podem ser consultadas no “International Survey of Herbicide Resistant Weeds” (http://www.weedscience. org/). Frente a isto evidencia-se a grande problemática enfrentada atualmente por os produtores e pesquisadores, assim como, os desafios futuros para as instituições publicas e privadas em busca de soluções para seu manejo.

Mapeamento da buva resistente ao paraquat no Oeste do Paraná Os primeiros relatos de escapes de buva ao herbicida paraquat ocorreram por agricultores e técnicos de Palotina-PR e Assis Chateaubriand-PR, durante as safras de 2014/2015 e 2015/2016. Na entressafra de 2016 experimentos realizados em campo em áreas diagnosticadas como suspeitas, pela equipe Supra Pesquisa e colaboradores comprovaram o problema e, na sequência foram realizadas baterias de experimentos em casa de vegetação, como será explicado a frente. Após então confirmada a resistência ao paraquat, a equipe Supra Pesquisa buscou realizar testes em campo que permitissem diagnóstico prático e confiável da resistência da buva a paraquat na microrregião, pois esta região apresenta grande fluxo e desenvolvimento de buva após a colheita do milho de segunda safra, conforme pode ser visualizado na Figura 4 e 5. Para isso foram efetuadas aplicações de paraquat, em faixas, em várias propriedades e sempre uma testemunha sem aplicação era mantida ao lado. As aplicações eram realizadas sob condições ambientais favoráveis, na dose de bula (400 g i.a./ha), utilizando volume de calda equivalente a 200 L/ ha. Para obter as frequências estimadas de buva resistente a paraquat, foi avaliado o número de plantas antes da aplicação e as que não foram controladas após a aplicação, considerando plantas apresentando de 6 a 10 folhas (de 4 a 8 cm). Em algumas áreas foi possível fazer uma segunda aplicação de paraquat após uma semana, para confirmação do comportamento e em outras áreas, plantas que permaneceram sem sintomas foram coletadas, cultivadas em casa de Palotina-PR, 2017. RPD 166_final.indd 7 13/12/2018 08:43:20 vegetação e receberam nova aplicação após um mês. As que sobreviveram e produziram sementes, tiveram suas sementes coletas (F1) para realização de outros trabalhos científicos. Esse processo a campo permite identificar e mensurar a frequência da dispersão e que se encontram as populações de buva. Os resultados encontrados nos permitem traçar estratégias para auxiliar na contenção e possível redução deste problema, por meio do controle mais eficiente dessas populações para evitar a dispersão para novas regiões do Brasil. Este monitoramento continua sendo realizado nas entressafras até o momento, pelo grupo, com o objetivo de acompanhar a dispersão dessas populações e diagnosticar novas áreas com presença de resistência ao herbicida paraquat. Até então, utilizando esta metodologia, foram diagnosticadas cerca de 70 áreas com presença de buva resistente ao paraquat (conforme Figura 6). Destaca-se que em nenhuma área houve presença de população com 100% das plantas com indicativo de resistência, o máximo encontrado de indicativo de resistência ficou próximo a 50%. Nota-se, conforme o mapa, que a dispersão se encontra em um momento inicial, havendo maior presença no interior do Município de Assis Chateubriandt – PR. Contudo, existem relatos da presença de plantas de buva com indicativo de resistência ao paraquat em outras regiões do Estado do Paraná, também no Sul do Mato Grosso do Sul, Centro de Santa Catarina e Norte do Rio Grande do Sul. Destacando que a equipe Supra Pesquisa vem monitorando esta problemática em todas estas regiões citadas, com o auxílio de vários colaboradores. Salienta-se que na execução e acompanhamento da resistência da buva a herbicidas que continuará nos próximos anos, estão envolvidos pesquisadores da UFPR, da C.Vale Cooperativa Agroindustrial, HRAC-BR (Associação Brasileira de Ação à Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas) como também produtores rurais, engenheiros agrônomos da extensão rural, iniciativa pública e privada, acadêmicos de graduação e pós-graduação.

Confirmação de resistência ao herbicida paraquat e resistência múltipla Após o diagnostico e reconhecimento a campo das plantas com indicativo de resistência, estas foram cultivadas para produ- Palotina-PR, safrinha de 2017.

zirem sementes, suas sementes foram coletadas (F1) para dar continuidade a realização dos ensaios de confirmação de resistência ao herbicida paraquat, cumprindo todos os critérios exigidos para fim de confirmação da resistência na comunidade cientifica. Assim, no ano de 2016 e 2017 foram conduzidos os ensaios para comprovação da resistência da buva ao herbicida paraquat, inicialmente em Palotina-PR e depois também em instituições parceiras, localizadas em Londrina – PR e Mogi Mirim-SP. Nestes ensaios foram realizadas aplicações de paraquat nas doses de 0, 50, 100, 200, 400, 800, 1600 e 3200 g i.a./ ha e realizadas avaliações de porcentagem de controle e aferição de massa seca. Após, identificou-se um fator de resistência variando entre 3,57 e 34,29, isto é, as plantas de buvas resistentes sobreviveram a doses 3,57 a 34,29 vezes superiores as doses utilizadas para controlar plantas do mesmo local que não apresentavam resistências. Cabe destacar que os biótipos resistentes ao paraquat também são resistentes ao diquat, devido a semelhança entre os produtos. Complementar a esta identificação seguiram-se trabalhos realizados somente em Palotina- PR, para verificar a possibilidade destas plantas apresentarem resistência múltipla a herbicidas, neste caso, ao glyphosate, chlorimuron e paraquat. Uma vez que, nesta região a presença de plantas de buva com resistência múltipla ao glyphosate e chlorimuron já era relatada. Para tanto, a partir de sementes (F2) coletadas de vários biótipos de plantas de buva já identificadas como resistentes ao herbicida paraquat, procederam os experimentos de dose-resposta em casa de vegetação para os três herbicidas citados acima. As aplicações foram realizadas no está- Mapa adaptado e editado a partir do Google Maps. RPD 166_final.indd 9 13/12/2018 08:43:23