Perfil É necessário cuidar do alicerce de tudo: o solo


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Publicado em: 01/12/2017

Perfil É necessário cuidar do alicerce de tudo: o solo Marcos Roberto Fridrich A edição 129 da Revista Plantio Direto, que circulou em junho de 2012, contou um pouco da história da Família Fridrich, de Ajuricaba, no Rio Grande do Sul. A matéria falava da trajetória e descrevia o sistema de produção adotado na propriedade naquela época. Passados cinco anos, voltamos à Fazenda Faxinal Sul para conferir o que mudou, o que melhorou, as dificuldades, os avanços e mostramos alguns aspectos do manejo atual do agricultor Marcos Roberto Fridrich, que conduz junto com o pai Edelmar Fridrich e os irmãos André, Rubens e Luiz, duas propriedades, uma no município gaúcho de Ajuricaba e outra em Uruçuí, no Piauí. De acordo com Marcos, a história da família no Brasil iniciou com Ludwig Fridrich, bisavô paterno de Marcos, vindo da Europa em 1902. O envolvimento com a agricultura, no entanto, começou com o avô paterno Reinhard, que cultivava apenas para subsistência da família, sendo que o direcionamento para agricultura empresarial foi dado por Edelmar Fridrich, no final da década de 1960, quando a principal cultura nas propriedades rurais do Rio Grande do Sul era o trigo. Marcos e o pai hoje tocam juntos a Fazenda Faxinal Sul, conseguindo realizar um manejo exemplar do ponto de vista da agricultura conservacionista, e também, do ponto de vista de rentabilidade. O município de Ajuricaba localizase no noroeste do Rio Grande do Sul, com latitude 28º14’22” sul e a uma longitude 53º46’15” oeste, em uma altitude média de 336 metros. O clima é classificado como Cfa (subtropical) de acordo com Köppen e Geiger. Um aspecto da organização na propriedade, é o fato de que Marcos mantém dados de precipitação desde 1980, possibilitando a ele realizar análises por conta própria do seu negócio. Quando visitamos a propriedade pela primeira vez, na safra de 2012/2013, a área plantada no verão com milho era de 37%, enquanto que a área com soja era 63%. Hoje, na safra 2017/2018, a propriedade conta com 87% de soja e 13% de milho no verão. Anteriormente, após a colheita do verão, era feito um “pousio” controlado para realizar o controle das plantas daninhas com suspeita de resistência. Agora, o sistema utilizado por Marcos se baseia em inserir duas culturas entre as safras de verão. “Após a retirada da soja, é inserido o nabo forrageiro, no outono, e depois a aveia-preta, com adubação, para obter boa massa de raízes e boa cobertura do solo. Além disso, se consegue um controle eficiente das plantas daninhas”, conta Marcos. No inverno se planta trigo também, em mais ou menos 50% da área. No entanto, segundo o agricultor, a área com a cultura vem diminuindo gradativamente. No último ano, foi plantado pouco mais de 30% da área no inverno com trigo. Antes de soja, é inserido o trigo ou a aveia preta, e antes do milho, insere-se o nabo forrageiro, ou às vezes, nabo consorciado com aveia-preta. De acordo com Marcos, a planta que mais entra no sistema hoje é o nabo forrageiro, que antecede o trigo também. “Muitos têm restrições ao uso do nabo, principalmente pelo mofo-branco”. No entanto comenta que até o momento não tiveram problemas com o uso dessa cobertura na propriedade. Entre as maiores dificuldades na atividade, segundo Marcos, está a instabilidade do clima. Segundo os dados que o agricultor mantém sobre a precipitação, do início de maio até o final de junho de 2017, foram mais de 700 mm de chuva, sendo que en- Marcos Roberto Fridrich defende o uso de plantas de cobertura, pois é vantajoso para o controle de plantas daninhas, para a fertilidade e conservação do solo. tre o início de julho e o final de agosto choveu apenas 170 mm. Marcos comenta que essa instabilidade é um problema ainda maior para as culturas de inverno, além do milho. Segundo ele, na safra 2017 de trigo, houve áreas em que a produtividade não chegou a 1700 kg, com o agravante de apresentar uma produção com grãos de baixa qualidade. O milho também apresenta uma variação grande de produtividade em função do clima, sendo que a média dos últimos anos variou de 80 até 160 sc/ha. De acordo com o agricultor, a soja é a cultura mais estável na propriedade, e na última safra obteve média de 74,4 sc/ha. Além disso, comparando os dados de chuva com os de produtividade da cultura, percebe-se que com o passar dos anos, a produtividade aumentou, mesmo quando reduz a precipitação, o que pode indicar uma eficiência maior no armazenamento de água e no manejo em geral. De acordo com Marcos, o custo aproximado de insumos para a safra 2017/2018 será de 28 sacos em soja e 26 sacos em milho (dependendo do preço do saco). Ele ressalta que o avanço de tecnologia tem proporcionado muitas opções de cultivares, e que na sua opinião, isso pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. “Leva um tempo para que o agricultor aprenda e teste a melhor época e a melhor população para sua realidade. É bom que se tenha opções, mas é difícil de validálas”, considera. Além disso, a aquisição de equipamentos de agricultura de precisão, em especial que utilizam taxa variável, é pouco viável economicamente para a maioria das pequenas propriedades. Marcos afirma que enquanto a tecnologia não está tão acessível, o foco deve ficar na construção da fertilidade do solo, através de plantas de cobertura e rotação de culturas, principalmente. O solo da Fazenda Faxinal Sul é argiloso, variando entre 60 e 75% de argila. A análise de solo é realizada todo ano, e como padrão é amostra- Quadro 1. Análise de solo de uma das glebas na Fazenda Faxinal Sul. com plantas de cobertura para melhorar a situação”, destaca. Em relação à adubação e correção do solo, de acordo com Marcos, esse ano foi aplicado calcário em taxa variável, entre 1,5 a 2 t/ha. “Temos pensado em adubações mais completas, levando em conta a questão do Cálcio, Enxofre e outros nutrientes além do NPK”, conta. Para dar sustentação as crescentes produtividades de soja, Marcos faz adubações mais reforçadas a cada ano. Em geral, estão utilizando entre 500 a 600 kg/ha de 4-23-18 com 6% cálcio, 3% enxofre + micronutrientes cada ano. Também, em algumas áreas, é feita complementação com cloreto de potássio aplicado a lanço. Marcos não tem utilizado aplicações extras de micronutrientes em grande quantidade, apenas o tratamento com molibdênio e cobalto na semente de soja, e às vezes aplicação de boro, também. É realizada aplicação de gesso misturado no próprio calcário, e a inoculação de Bradyrhizobium para soja, feita anualmente com aplicação no sulco de semeadura, através de um tanque junto da semeadora. Em relação aos materiais utilizados, algumas áreas têm sido plantadas cedo (final de agosto e início de setembro) com híbridos de milho super-precoces, tendo o objetivo de inserir uma segunda safra de soja após o milho, colhendo o milho na segunda quinzena de janeiro no máximo. Na safra de 2012/2013, foram utilizadas três cultivares diferentes de soja, sendo todas com hábito indeterminado e grupo de maturação 5.3, 5.8 e 6.2. Cinco anos mais tarde, na safra da a camada de 0-20 cm, e em algumas áreas em específico fazendo análise estratificada de 0-10 e 10-20 cm. Marcos tem detectado visualmente alguns problemas pontuais de compactação do solo principalmente em áreas de manobra de máquinas. “Há pontos da lavoura onde se manobra bem mais com equipamentos, e não tem muito como fugir disso”, comenta. No entanto, segundo ele, não se percebe muita diferença de produtividade nas áreas com maior ou menor compactação de solo. Ele conta que foram realizados alguns testes escarificando a 25 cm de profundidade e que, visualmente. resultou em melhor enraizamento nas áreas escarificadas, mas que não refletiu em aumento da produtividade. “Por enquanto estamos trabalhando 2017/2018, continuam sendo plantadas cultivares de hábito indeterminado, com grupos de maturação 5.6, 5.8 e 6.3. Segundo Marcos, raramente é utilizada uma cultivar na área por mais de três anos. Além disso, cerca de 70% da área de soja possui tecnologia Bt. Em relação à fitossanidade das lavouras na Faxinal Sul, já são 2 ou 3 anos que o produtor utiliza fungicida multissítio (Mancozebe) em todas as aplicações para soja. Na última safra foram feitas entre 3 e 4 aplicações, dependendo da área, com resultado de controle muito bom. Marcos evita a utilização de inseticidas na lavoura apenas para economizar uma operação. Ele mantém a área sob monitoramento na medida do possível, e caso necessário, costuma aplicar inseticidas que alteram o desenvolvimento da praga (o “fisiológico”). Para eventuais casos de plantas daninhas no meio da soja, ele utiliza apenas o glifosato para manter o controle. Em milho, Marcos não identificou nas última safras problemas com doenças ou pragas. O manejo da cobertura anterior ao plantio das culturas de verão é feito com glifosato seguido do uso do rolo-faca. Em relação à conservação do solo, Fridrich conta que em alguns talhões da propriedade ocorre escorrimento de água, mas não se confirma em área total, o que favorece o manejo nas pontos afetados. Segundo ele, a ideia na propriedade é tentar plantar cada vez mais em nível, mesmo que isso exija um pouco mais de investimento em manobras dos equipamentos. Na opinião de Marcos Fridrich, o manejo do solo em Plantio Direto é um fato consumado, mas deve ser feito um aperfeiçoamento do Sistema. “Estamos tentando inserir mais uma planta de cobertura. Precisa de duas. Pode, precisa e deve”, afirma o produtor. Segundo ele, é vantajoso para o controle de plantas daninhas, é vantajoso para a fertilidade do solo e também para a conservação do solo. É interessante também, segundo ele, pensar na adubação dessas culturas de cobertura, visando incrementar a produtividade das culturas de verão. Segundo o agricultor está nos planos para os próximos anos, realizar um teste na propriedade: depois de colher a soja, utilizar o milho como planta de cobertura, de forma que ele atinja o pendoamento até o momento das primeiras geadas no sul. Nesse momento, a ideia é usar o rolo-faca, e em seguida plantar mais uma cultura de inverno. Segundo Marcos, alguns agricultores têm usado o Capim-Sudão dessa forma (após a soja), em seguida utilizam aveia-preta, anterior à soja. Para ele, a inserção de plantas de cobertura durante toda a entressafra de soja é o desafio para quem ainda não faz, e a grande jogada para quem já está fazendo. “Precisamos melhorar a qualidade do solo, e isso se melhora com palha e raiz. Tem muita pressão comercial, mas a essência, o alicerce, é o solo”, completa. Perguntamos para Marcos Fridrich se existe risco do milho sair do sistema. “Em muitas áreas de sequeiro ele está mais fora do que dentro. No meu caso, estou trabalhando para que isso não aconteça”, afirma bemhumorado. De acordo com o agricultor com a segunda safra de milho, o Brasil tem produzido grandes volumes do grão, e isso complica a rotação em muitas propriedades em função do preço. O custo de produção e a instabilidade também são fatores que vão cada vez mais eliminando a cultura do sistema em vários locais no Rio Grande do Sul. “As propriedades que conseguiram organizar um sistema de irrigação conseguem tornar mais estável a produção, o que viabiliza muitas vezes contratos futuros e preços favoráveis”, comenta. Em relação ao milho, Marcos falou também a respeito da rentabilidade real que muitos agricultores não têm conseguido atingir. Ele afirma que na próxima estiagem mais séria que ocorrer no Estado, vários produtores podem ter um grande prejuízo. Para Marcos, muitas vezes o agricultor tem feito investimentos pesados em equipamento e tecnologia, sendo que as condições de venda dos grãos não estão tão favoráveis, e o impacto disso às vezes não é percebido. “É importante ver se há realmente condições de se fazer esse investimento para não se ter surpresas depois”, finaliza Fridrich. Milho no sistema na Fazenda Faxinal Sul um investimento com certo risco que Marcos Fridrich não abre mão. A presença abundante de minhocas atesta a qualidade do solo na propriedade .