Manejo de Plantas Daninhas em Sistemas


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Publicado em: 01/10/2015

Manejo de plantas daninhas em sistemas

Franciele Mariani1, Leandro Vargas2, Dirceu Agostinetto31Eng. Agr., D. Sc. marianifranciele@gmail.com, Passo Fundo, RS2Eng.-Agro., D. Sc., Pesquisador da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS3Eng.-Agro., D. Sc., Professor de Plantas Daninhas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, RS.

No final da safra de inverno, quando as lavouras de milho já foram implantadas e a soja está em fase de implantação, a presença de buva, poaia, maria-mole e leiteiro entre outras espécies daninhas nas lavouras significa que houve erro no manejo no inverno. O controle inadequado dessas espécies daninhas na dessecação pode resultar em perdas de rendimento por competição. Assim, esse é o momento de garantir o controle das daninhas e impedir perdas de rendimento por competição.

Controle antes da semeadura

O número de moléculas herbicidas registradas para controle (dessecação) de plantas daninhas antecedendo a semeadura das culturas é considerado pequeno. Os herbicidas disponíveis para uso são 2,4-D, glifosato e amônio-glufosinato. Enquanto o primeiro controla essencialmente plantas dicotiledôneas, o glifosato e glufosinato são herbicidas totais, controlando tanto dicotiledôneas quanto gramíneas. A ocorrência de buva e azevém resistentes ao glifosato e de azevém resistente aos graminicidas (cletodim, haloxifope entre outros) e inibidores da ALS (iodosulfurom, nicosulfurom), é um problema para o sistema de produção. As sementes de buva e azevém germinam durante o inverno, formando vegetação que necessita ser manejada antes de semear a cultura de verão. Geralmente o controle eficiente de buva pode ser obtido com o uso de glifosato associado com o 2,4-D. O azevém, resistente ao glifosato, e gramíneas como o capim pé-de-galinha, podem ser controlados com herbicidas graminicidas “fops e dims” como exemplos o haloxifope, o cletodim, o fenoxaprope, o fluazifope e o setoxidim. Alguns desses graminicidas, como o haloxifope, podem apresentar efeito residual e afetar a cultura do milho. Para evitar problemas de residual para cultura recomenda-se que a aplicação desses produtos ocorra com antecedência de 15 a 20 dias da semeadura do milho. Já o azevém resistente ao glifosato e inibidores da ACCase somente será controlado por inibidores da ALS (Hussar) ou por herbicida total. Já a poaia e a trapoeraba são controladas com aplicações sequenciais de glifosato associado ao 2,4-D. O importante é que as aplicações ocorram quando as espécies daninhas estejam em estados iniciais de desenvolvimento, pois espécies como a poaia aumentam a tolerância aos herbicidas com o avanço nos estádios vegetativos.

Manejo e controle de azevém com resistência múltipla

A resistência múltipla obriga os produtores a alternar os herbicidas de acordo com o tipo de resistência presente na área. Já foram identificados biótipos de azevém com resistência simples (somente ao glifosato) e resistência múltipla (glifosato+ALS e glifosato+ACCase) (Figura 1). Medidas de prevenção e manejo da resistência devem ser adotadas pelos produtores, para reduzir a dispersão e prolongar o tempo de uso dos herbicidas. Dentre as medidas de prevenção e manejo destaca-se: uso de sementes certificadas; não usar repetidamente o mesmo mecanismo herbicida; e considerando que a resistência se dispersa via pólen a eliminação de plantas “voluntárias” ou “escapes” é indispensável para evitar a dispersão.

Figura 1. Região infestada com azevém (Lolium multiflorum) resistente ao glifosato (A); região infestada com azevém resistente aos inibidores da ALS (B); região infestada com azevém resistente aos inibidores da ACCase no Rio Grande do Sul. Embrapa Trigo, 2015.

O controle de azevém, com resistência múltipla, deve ser planejamento com antecedência de 15 a 20 dias antes da semeadura das culturas, de forma a permitir o uso de medidas corretivas antes da semeadura e, ainda, o controle em tempo suficiente para evitar os efeitos negativos da competição e da alelopatia sobre as culturas. Com relação aos herbicidas, no caso de azevém resistente ao glifosato pode-se utilizar na área os herbicidas inibidores da ALS ou da ACCase. Já nos casos de resistência múltipla, ou seja, ao glifosato e aos inibidores da ALS, somente os inibidores da ACCase serão eficientes. Por outro lado, nos casos de resistência múltipla, que envolva o glifosato e os inibidores da ACCase, somente os inibidores da ALS serão eficientes (Tabela 1). Na dessecação de azevém podem ser utilizados herbicidas de contato como, por exemplo, o glufosinato, atentando-se para o estádio vegetativo, pois esse herbicida controla eficientemente plantas jovens de azevém, preferencialmente ainda não perfilhadas. Vale salientar que mesmo utilizando-se um graminicida para controle do azevém na pré-semeadura (dessecação), a necessidade de utilização de glifosato para controlar as espécies dicotiledôneas (folhas largas) permanece.

Tabela 1. Herbicidas graminicidas e não-seletivos que controlam azevém (Lolium multiflorum).

Assim, a resistência do azevém aos herbicidas glifosato, glifosato+ALS e glifosato+ACCase faz com que os produtores necessitem acrescentar mais um herbicida na lista de aplicações ou a alterar o manejo da vegetação nestas áreas, utilizando métodos de manejo e controle, muitas vezes menos eficientes e com maior custo de implantação. Esses fatos ilustram aumento do custo de produção devido à resistência.

Visão de futuro: novas moléculas e tecnologias para controle de plantas daninhas

Os casos de resistência no Brasil foram resolvidos historicamente com a introdução de novas moléculas ou de uma nova tecnologia que permitiu o uso de uma nova molécula. Para os novos casos de resistência múltipla (buva resistente ao glyphosate e inibidores da ALS e azevém resistente ao gyphosate e inibidores da ALS e ACCase) as perspectivas de lançamento de novas moléculas ou tecnologia com potencial de controle eficiente dessas plantas daninhas resistentes são restritas. As novas tecnologias, em termos de plantas cultivadas resistentes a herbicidas, relacionam-se com os herbicidas amônio-glufosinato, 2,4-D e dicamba. Em uma análise geral dessas tecnologias fica evidente que estas são eficientes e oferecem alternativas novas para controle seletivo de buva (2,4-D, dicamba e amônio-glufosinato), entretanto, isso não é observado para as espécies gramíneas, como o azevém. Portanto, considerando-se que não existem novos mecanismos de ação herbicida sendo introduzidos no mercado e que as novas tecnologias, envolvendo culturas modificadas para resistência a herbicidas, não oferecem solução para controle de azevém pode-se especular que essas espécies serão os principais problemas a serem manejados no futuro. Assim, o azevém torna-se atualmente a principal planta daninha para o RS.

MANEJO: o que fazer?

A maior motivação para adoção de práticas de prevenção e manejo da resistência por parte do produtor resulta da resposta da seguinte pergunta: Na impossibilidade de uso do glifosato ou de outros herbicidas como será realizado o controle de plantas daninhas? Seja qual for a resposta, certamente será com uso de métodos e produtos menos eficientes do que os que vinham sendo utilizados, com maior custo e, provavelmente, com maior impacto ambiental. A decisão está “nas mãos” do produtor. Porém, cabe a assistência técnica apresentar alternativas de manejo para que o produtor decida levando em consideração as suas preferências. Contudo, é importante salientar que para evitar o agravamento da seleção de espécies tolerantes e/ou resistentes, e prolongar o tempo de utilização eficiente da tecnologia das culturas resistentes ao glifosato e outros herbicidas, o produtor deve adotar medidas de manejo para prevenir a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes. Dentre várias práticas de manejo as principais indicadas são:

a) Não usar consecutivamente herbicidas com o mesmo mecanismo de ação na mesma safra ou área.Não repetir o uso de herbicidas com mesmo mecanismo em uma cultura. Além disso, se usar na dessecação um mecanismo herbicida não utilizar este mecanismo novamente na pré ou pós-emergência da cultura. Em casos onde a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes ocorrer, deve ser implantado um sistema de rotação de mecanismos de ação herbicida, eficazes sobre as espécies problema.

b) Monitorar e destruir plantas suspeitas de resistência.Após a aplicação do herbicida as plantas que sobreviverem devem ser arrancadas, capinadas, roçadas, ou seja, controladas de alguma forma evitando que essas plantas produzam flores ou sementes e se disseminem na área.

c) Fazer rotação de culturas. A rotação de culturas oportuniza a utilização de um número maior de mecanismos de ação herbicidas.O cultivo permanente da área, com culturas de valor comercial ou para cobertura do solo como trigo, centeio, canola, aveia, soja, milho, diminui o número de plantas daninhas quando comparado com áreas não cultivadas (mantidas em pousio). O uso de estratégias como sobre-semeadura de aveia ou azevém em lavouras de soja e cultivo de culturas concomitantes, como exemplo de Brachiaria ruziziensis cultivada juntamente com o milho apresenta-se como uma boa opção para regiões mais quentes como Paraná. Contudo, é importante que ao decidir o cultivo de uma espécie leve-se em consideração as opções e momento do controle dessa espécie antes do cultivo de cultura sucessiva.

Considerações finais

Em uma análise geral, o custo de controle em situações de resistência simples varia entre R$4,00 e R$153,00 e, em situações de resistência múltipla, entre R$20,00 e R$196,00. Considerando-se a área de cultivo de soja do Rio Grande do Sul como sendo de 4 milhões de hectares e a suposição de que 50% da área apresenta problemas de buva e azevém, os prejuízos advindos da resistência, com a necessidade de uso de herbicidas adicionais pode chegar a R$400 milhões por ano, além do impacto ambiental causado pelo maior uso de herbicidas. Adicionando-se a esses valores as perdas de rendimento, devido à competição das plantas daninhas com as culturas, os custos da resistência ultrapassam a R$1,0 por safra no RS. Se considerarmos o Brasil esse número aumenta mais de 10 vezes. As novas moléculas e tecnologias (culturas modificadas para resistência) aparecem como alternativa para controle de buva, contudo, para azevém e capim-amargoso (Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso) não apresentam-se como alternativas eficientes. Assim, o azevém e o capim-amargoso provavelmente serão as espécies de maior dificuldade de manejo no futuro.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 147/148, dezembro de 2015.