Produção de soja em plantio direto sobre palhadas de milho, em monocultivo, e de suas consorciações com quatro forrageiras tropicais no Mato Grosso do Sul
Ademir Hugo Zimmer2, Carlo A. Zimmer3, Klaus A. Zimmer4, Roberto Giolo de Almeida2, Armindo N. Kichel2, Manuel C. M. Macedo2, Alexandre R. de Araújo2.
1Trabalho financiado pela Embrapa, Projeto PRODESILP, Rede de Fomento em ILPF.2Pesquisadores da Embrapa Gado de Corte, Av. Rádio Maia, 830, Vila Popular, Campo Grande, MS. CEP 79002-550, Fone: (67) 3368-2026. E-mail: ademir.zimmer@embrapa.br3Eng. Agr.º Consultor Técnico do Governo da Nigéria, 4 Eng. Agr.º Estudante de Mestrado da UNESP, Ilha Solteira, SP.
Apresentação
A soja e o milho são as culturas de maior importância econômica no Brasil. Destinam-se principalmente à produção de grãos, mas a cultura do milho também é destinada produção de silagens, para alimentação de animais de corte e de leite. Além da importância econômica, estas culturas tem grande importância na rotação de culturas e em sistemas de integração lavoura-pecuária. O cultivo de capins consorciados com o milho objetiva a produção de grãos, forragem no período de outono-inverno, e de palhada em quantidade e qualidade para o sistema de plantio direto no verão (KLUTHCOUSKI e AIDAR, 2003). Além disto, pode proporcionar maiores quantidades de palhada e com qualidade para os sistemas de plantio direto em cultivos sequenciais, favorecendo culturas como a soja, feijão e outras.Um aspecto importante no plantio consorciado de lavouras anuais com capins é que estes apresentam lento acúmulo de massa seca na fase inicial e, portanto, competem menos com as culturas anuais (COBUCCI & PORTELA, 2003). Forrageiras dos gêneros Panicum e Brachiaria apresentam boa tolerância ao sombreamento, pois mesmo 50% de interceptação da luz solar não acarreta redução significativa em suas taxas de crescimento (CARVALHO et al. 1997; LAURA et al, 2006). Com o sombreamento, as forrageiras persistem com porte reduzido e aceleram o crescimento a partir da maturação e colheita da cultura anual, completando o estabelecimento e a produção de massa pela pastagem. O cultivo de capins tropicais associados ao milho pode proporcionar incrementos na produção de forragem total sem implicar em reduções da produção de grãos da cultura, desde que se aplique um manejo adequado as consorciações, evitando que a forrageira apresente competição excessiva com o milho na fase inicial de crescimento. Para isto, Cobucci e Portela (2003) recomendam a aplicação de sub-doses do herbicida Nicossulfuron (6 a 8 g/ha do i.a.) adicionadas ao herbicida atrazine, quando da aplicação para o controle de ervas daninhas. Neste sentido, foram conduzidos dois experimentos cujo objetivo, em uma primeira etapa, foi comparar a produção de massa verde e massa seca do milho no ponto de silagem e de grãos desta cultura em cultivo solteiro e consorciado com quatro forrageiras tropicais, com e sem aplicação de herbicidas em plantio de safrinha. A segunda etapa do trabalho teve como objetivo avaliar o efeito dos cultivos de milho solteiro e consorciado com forrageiras dos gêneros Panicum e Brachiaria, sobre a produtividade da cultura da soja, na safra subsequente.
Material e Métodos
Os experimentos foram conduzidos na Embrapa Gado de Corte, 20º 27’ de latitude S, 54º 37’ de longitude W, a 530 m de altitude. O padrão climático, segundo Köppen, encontra-se na faixa de transição entre Cfa e Aw tropical úmido. A precipitação média anual é de 1.500 mm, sendo considerados meses de seca, o período de maio a setembro (30% da precipitação anual). O solo da área é um Latossolo Vermelho Distroférrico, de textura argilosa (Embrapa, 2013). As avaliações foram realizadas em duas etapas, o cultivo do milho safrinha 2008 e o cultivo de soja sobre estas palhadas safra 2008/2009.O delineamento dos experimentos foi o de blocos ao acaso, em parcelas subdivididas, com quatro repetições. Na etapa do milho, nas parcelas principais foram alocados os tratamentos: com ou sem aplicação de atrazine+nicossulfuron, e nas subparcelas as espécies e cultivares: milho solteiro e consorciado com as forrageiras Brachiaria brizantha cv Marandu e Piatã, Panicum maximum cv. Mombaça e Massai. Adicionalmente foi estabelecida uma testemunha com a cultura de milho capinada. As parcelas tinham 5,4 x 8,0 m. O preparo do solo foi convencional, com uma aração e duas gradagens no final de janeiro de 2008. As forrageiras foram semeadas a lanço e cobertas com grade niveladora ligeiramente aberta (discos paralelos), em 04/02/2008. A taxa de semeadura foi de 60 sementes puras viáveis (SPV) por metro quadrado para as Brachiarias, e de 300 SPV/m2 para os Panicuns. O milho foi semeado logo em seguida com semeadora, em seis linhas espaçadas de 0,9 m/parcela, na taxa de 5 a 6 sementes/m. A adubação foi de 450 kg/ha da formula 04-20-15. A adubação de cobertura foi de 100 kg/ha de 07-20-15, mais 112 kg/ha de uréia, aplicados em 18/02/2008. Os tratamentos com herbicida foram aplicados nas doses de 2000 g i.a./ha de atrazine (4 L/ha Atrazina Nortox 500 SC) mais 7 g i.a./ha de nicossulfuron (0,175 L/ha de Sanson 40 SC) , aos 21 dias após a emergência do milho. No milho capinado foram realizadas capinas aos 21 e 42 dias após a emergência do milho. As produções de massa do milho e dos capins foram estimadas por amostragens aos 122 dias após o plantio no ponto de silagem do milho. Foram retiradas quatro amostras equivalentes de 0,9 x 1,0m por parcela, tanto para o milho, como para os capins. Estas foram agrupadas, pesadas e subamostradas de onde foi feita a separação forragem e plantas daninhas, para secagem em estufa e determinação da matéria seca. Durante o ciclo da cultura foi feita uma aplicação de inseticida para controle da lagarta do cartucho. Na segunda etapa do trabalho foi feita a avaliação da cultura da soja cv. BRS 245 RR, no período de safra 2008/09. Nesta etapa foi feito o plantio direto de soja sobre as palhadas do experimento anterior do milho em cultivo solteiro e em consórcio com as forrageiras. A dessecação, com herbicida a base glyphosate, foi feita em duas etapas com 3L/ha (03/11/08) e 1,5 L/ha em (20/11/08). O plantio da soja foi feito em 20/11/08, com linhas espaçadas de 45 cm e semeadura de 28 sementes por metro linear, num total de 12 linhas por parcela. A adubação foi de 450 kg/ha da fórmula 04-20-16, aplicados na linha de semeadura da soja.Durante o ciclo da cultura não foi realizado o controle de plantas daninhas para possibilitar a avaliação das diferentes palhadas no controle das mesmas. O controle de ferrugem foi feita com duas aplicações de fungicida especifico. Para o controle de lagartas foram feitas duas aplicações de inseticida e uma aplicação mais ao final do ciclo para o controle de percevejos.Nesta segunda etapa, foi avaliada a quantidade de palhada após a dessecação e semeadura da soja, o número de plantas de soja/m, o número de plantas daninhas/m2 e a produtividade da soja nos diferentes tratamentos. A quantidade de palhada foi medida por meio de quadros de 0,45 x 1,0 m em seis amostras por parcela. O número de plantas de soja foi avaliado em seis amostras de 1,0 metro linear em cada parcela. A avaliação das plantas daninhas foi realizada na entrelinha da soja, também com seis amostras/parcela. A produtividade da soja foi medida nas seis linhas centrais da parcela, considerando-se uma bordadura de um metro nas extremidades. Os dados dos dois experimentos foram submetidos a análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Waller-Duncan a 5% de probabilidade, utilizando-se o aplicativo SAS.
Resultados e Discussão As produções do ciclo de cultivo do milho safrinha 2008, proporcionaram resultados interessantes e significativos quanto a comparação dos diferentes sistemas de cultivo, especialmente quanto a aplicação ou não de herbicidas. As produções de massa verde (MV) e massa seca (MS) dos capins foram significativamente distintas, e influenciadas pela aplicação de herbicidas com 10.299 e 8.642 kg MV/ha, e 2.405 e 2038 kg MS/ha, sem e com aplicação de herbicidas, respectivamente, na media dos quaro capins. Isto indica claramente o efeito supressivo do nicossulfurom sobre o desenvolvimento dos capins na etapa subsequente a aplicação dos mesmos, como observado por COBUCCI & PORTELA (2003). Quanto a cultura do milho, as produções de MV e de MS, não foram influenciadas significativamente pela aplicação dos herbicidas com 26.647 e 29.117 kg MV/ha, e 7.567 e 7.762 kg MS/ha, sem e com aplicação de herbicidas, respectivamente. Este resultado explica-se pelo fato da ausência de efeitos do herbicida nesta cultura, mostrando que a cultivar não é afetada pelo herbicida nicossulfurom. De forma semelhante, não houve diferença significativa para a produção de MV e MS total milho mais as forrageiras (milho+capim) entre os tratamentos com e sem aplicação de herbicidas, cujas produções foram de 36.857 e 37.831 kg/MV/ha e 9.970 e 9800 kg MS/ha, respectivamente, na média dos quatro capinas (ZIMMER et al., 2009). As produções de MV e MS dos capins e do milho, separadamente, e da soma dos dois componentes, obtidas nas diferentes combinações de cultivo são apresentados na Tabela 1. Os quatro capins diferiram entre si de forma significativa quanto à produção de MV e MS. O capim-mombaça foi o de maior produção de MV e os capins massai e marandu não diferiram entre si, com produção intermediaria, mas foram mais produtivos do que capim-piatã. Este fato pode ser explicado pelo desenvolvimento inicial mais lento do capim-piatã, quando comparado aos anteriores. A mesma tendência foi observada quanto a produção de MS. Neste caso o capim-massai apresentou produção semelhante a do mombaça e do marandu. Entretanto este último não diferiu do capim-piatã. Estes resultados confirmam observações anteriores de que as cultivares de P. maximum apresentariam melhor desenvolvimento quando consorciadas com o milho.
Tabela 1. Produção de massa verde (MV) e de massa seca (MS) do milho solteiro e consorciado com quatro capins, e dos capins em plantio de safrinha, aos 122 dias após o plantio. Média dos tratamentos com e sem aplicação de herbicidas. Campo Grande, MS, Brasil, fevereiro/junho, 2008.
As produções de MV e MS do milho foram semelhantes nas diferentes condições de cultivo. Indicando que os capins nestas condições de solo, de cultivo e de manejo, apresentam reduzida competição com o milho, portanto não afetaram a produção de MV e MS da cultura. Isto fica evidenciado quando se observa a produção do milho solteiro utilizado como tratamento testemunha e do milho solteiro capinado utilizado como tratamento adicional. As produções totais de MV dos tratamentos consorciados (capim+milho) não diferiram entre si, mas foram maiores do que às produções de MV do milho solteiro, em pelo menos duas das consorciações testadas, sendo elas: milho + mombaça e milho + marandu. A produção de MS das consorciações seguiu a mesma tendência, mas neste caso as consorciações com os capins massai e marandu não diferiram do milho solteiro. Importante notar que os capins de uma forma geral apresentaram um efeito reduzido sobre a produção de MV e MS do milho, mas resultaram em aumentos na produção total de MV e MS. Todas as interações entre condições de cultivo e herbicidas não foram significativas (p>0,05). Na tabela 2 são apresentados os dados referentes à produtividade de grãos de milho na safrinha, o número de plantas forrageiras estabelecidas e a MS das plantas daninhas nos diferentes tratamentos. Nota-se que houve diferença significativa quanto ao número de plantas forrageiras estabelecidas. Esta variação é esperada, já que o número de SPV/m2 semeada é variável em função do tamanho das sementes, da taxa de semeadura e da eficiência de estabelecimento. Mesmo com a variação entre o numero de plantas estabelecidas para cada forrageiras para todos os casos esta população foi satisfatória para possibilitar um bom estabelecimento destas. Entretanto a menor produção de forragem do capim-piatã pode ser devido ao crescimento mais lento desta forrageira na fase inicial como consta na Tabela 1, já a maior produção do capim-mombaça se deve a sua maior capacidade de competir com as culturas, como observado em outras condições. Ainda com relação a tabela 2, nota-se que independentemente da forrageira consorciada, houve uma redução significativa na MS de plantas daninhas quando comparada ao cultivo solteiro. Além disso, observa-se que o consórcio milho-forrageiras não influenciou significativamente a produtividade do milho safrinha, mostrando que a competição das forrageiras com a cultura do milho não afetou a produção de grãos.Importante ressaltar que na cultura do milho solteiro, sem herbicida, a MS de invasoras foi de 830 kg/ha contra somente 251 kg/ha, quando com a aplicação dos herbicidas, ao passo que nas consorciações as quantidades foram inferiores a 20 kg/ha de MS de invasoras, indicando nitidamente um efeito marcante das forrageiras no controle de plantas daninhas.As produções de grãos de milho, na média dos tratamentos foram de 3.750 kg/ha sem herbicida e de 4.180 kg/ha em com a aplicação de herbicidas, entretanto não diferiram estatisticamente entre si. Indicando assim apenas uma tendência do efeito da aplicação de herbicidas na redução da competição pelas forrageiras
Tabela 2. População de plantas forrageiras estabelecidas (nº pl./m2), produção de massa seca de plantas daninhas (kg/ha) e produção de grãos de milho (kg/ha), do milho safrinha solteiro e consorciado. Campo Grande, MS, Brasil, fevereiro/junho, 2008.
Para o ciclo da soja subsequente ao cultivo do milho safrinha, as quantidades de palha sobre o solo na semeadura da soja não diferiram entre os sistemas de cultivo, com herbicida e sem herbicida de forma idêntica a produção de MV total. Entretanto na média do cultivo com e sem herbicidas as quantidades de palha foram superiores a 8.050 kg/ha, nos consórcios e de somente 4.110 kg/ha no milho solteiro, como consta na tabela 3. O número de plantas de soja foi maior sobre as palhadas no milho consorciado que no milho solteiro. O número de plantas daninhas foi de 7,5/m2 no milho solteiro enquanto que nos consórcios este número variou de 0,4 a 1,6 plantas/m2.
Tabela 3. Produtividade de grãos de soja, palhada disponível (kg/ha), número de plantas de soja (nº/m linear), número de plantas daninhas (nº/m2), estabelecidas sobre palhadas de milho safrinha, em cultivo solteiro ou associado a gramíneas forrageiras e produtividade de grãos.
A produção de grãos de soja não diferiu entre os sistemas de cultivo consorciado e estas foram superiores quando comparadas à do milho solteiro. A maior produtividade da soja sobre os consórcios ocorreu possivelmente devido às melhores condições de umidade do solo e ciclagem de nutrientes, resultante da maior cobertura do solo pelas palhada presente nas consorciações. Este fato pode estar relacionado às precipitações mensais durante o ciclo da cultura da soja que foram inferiores às médias normais em 50, 73, 73 e 75%, respectivamente, para os meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro.
Conclusões
As consorciações de milho com forrageiras na safrinha proporcionaram maiores produções de forragem do que o milho solteiro e produções equivalentes de grãos. Nos cultivos consorciados houve redução na presença de plantas daninhas e estes proporcionaram maiores quantidades de palhada para a soja em cultivo sequencial. O cultivo da soja sequencial sobre palhadas dos consórcios resultou em melhor estabelecimento da soja com maiores produções de grãos e redução na presença de plantas daninhas. A presença das forrageiras nos sistemas de produção milho/soja proporciona ganhos de produção e qualidade nos sistemas de cultivo.
Literatura citada
CARVALHO, M. M.; SILVA, J. L. O.; CAMPOS JÚNIOR, B. A. Produção de matéria seca e composição mineral da forragem de seis gramíneas tropicais estabelecidas em um sub-bosque de angico-vermelho. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, MG, v. 26, n. 2, p. 213-218, 1997.
COBUCCI, T. & PORTELA, C. M. Manejo de herbicidas no sistema Santa Fé e na braquiária como fonte de cobertura morta. In: KLUTHCOUSKI, J.; STONE, L. F.; AIDAR, H. (Ed.) Integração lavoura-pecuária. Santo Antonio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2003. p. 444-458.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 3. ed. Brasilia – DF: Embrapa, 2013. 306 p..
KLUTHCOUSKI, J. & AIDAR, H. Implantação, condução e resultados obtidos com o Sistema Santa Fé. In: KLUTHCOUSKI, J.; STONE, L. F.; AIDAR, H. (Ed.) Integração lavoura-pecuária. Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2003. p. 407-441.
LAURA, V. A. ; JANK, L.; GONTIJO NETO, M. M. Área foliar específica, biomassa e taxa de crescimento relativo de folhas de cultivares comerciais de Panicum maximum sob sombreamento artificial. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 43., 2006, João Pessoa. Produção animal em biomas tropicais: anais... João Pessoa: SBZ: UFPB, 2006. CD-ROM.
ZIMMER, A.H. MACEDO M, C. M; ZIMMER, C.A.;ZIMMER K.A.; KICHEL A.N.;ALMEIDA, R.G.; COSTA, J.A.A. Produção de forragem de milho em cultivo solteiro e de sua consorciação com quatro forrageiras tropicais no Mato Grosso do Sul. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 46, 2009, Maringá Anais... Maringá: UEM; SBZ, 2009. 3 p. 1 CD-ROM
Artigo publicado na edição conjunto 142 e 143, julho a outubro de 2014.