Germinação e Vigor de Sementes Nuas e Incrustadas de Canola


Autores:
Publicado em: 01/02/2015

Germinação e vigor de sementes nuas e incrustadas de canola

Carlos Augusto Pizolotto1, Walter Boller2, Nadia Canali Lângaro31Engº.-Agrº. Estudante do Programa de Pós-Graduação em Agronomia da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo,RS. E-mail: 137796@upf.br2Engº.-Agrº. Doutor, Professor do PPGAgro/UPF. Passo Fundo-RS. e-mail: boller@upf.br3Engª.-Agrª. Doutora, Profª. do Curso de Agronomia da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo. Passo Fundo-RS. E-mail: nclangaro@upf.br

Introdução

A canola (Brassica napus L. var. oleífera) é uma espécie vegetal pertencente à família das crucíferas cultivada em períodos de estação fria, utilizada para compor sistemas de rotação de culturas, bem como cobertura do solo no período invernal (BAIER & ROMAN, 1992). Apresenta grande importância econômica, pois o óleo extraído de seus grãos apresenta múltiplos usos, nos setores industrial, cosmético, alimentício, farmacêutico e veterinário, com destaque para a alimentação humana e a produção de biodiesel (EL-NAKHLAWY & BAKHASHWAIN, 2009).

Em virtude do tamanho reduzido e da pequena quantidade de sementes utilizada por hectare (3,0 a 4,0 kg) informações sobre a qualidade de sementes de canola são de grande importância para a obtenção de um estande de plantas adequado no campo (PÓLA & BARROS, 1994). Neste sentido, há uma preocupação por parte das instituições que fomentam a canola, como a OCEPAR (1995), para que os produtores complementem o teste de germinação de sementes com o de vigor, pois este traduz o potencial da planta em se estabelecer em campo, rápida e uniformemente, sob condições de ambiente desfavoráveis.

Rotineiramente, a qualidade de sementes é avaliada por meio do teste de germinação, porém de acordo com MARTINS et al. (2002) para a qualidade fisiológica de um lote de sementes é necessário completar os resultados do teste de germinação, com os testes de vigor, índice de velocidade de emergência e comprimento de plântula, pois esses levam em consideração outros aspectos que também interferem na qualidade fisiológica das sementes.

Atualmente vêm sendo envidados esforços com a finalidade de minimizar os problemas de plantabilidade, quais sejam, entre outros, a busca pelo aumento de tamanho das sementes, o que poderia facilitar a semeadura dessa cultura. A incrustação de sementes surge como uma técnica promissora. Esse tratamento pode ser associado a fungicidas e inseticidas, contribuindo assim para o estabelecimento adequado das plantas no campo (BAUDET & PERES, 2004).

O objetivo desse trabalho foi comparar a qualidade fisiológica de sementes nuas e incrustadas do híbrido de canola Hyola 63, visando gerar informações para possíveis trabalhos que envolvam a utilização de sementes incrustadas em campo, onde as condições nem sempre são favoráveis.

Material e métodos

O experimento foi conduzido no ano de 2013 no laboratório de análise de sementes (LAS) da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAMV), da Universidade de Passo Fundo (UPF), Passo Fundo-RS. As sementes utilizadas foram do híbrido de canola Hyola 63, oriundas de doação da empresa BSBios® sediada no município de Passo Fundo/RS. A amostra de sementes fornecida pela referida empresa totalizava cinco (5) kg. Deste total, metade (2,5 kg) foi destinada à incrustação, e a outra metade permaneceu na forma de semente nua.

As sementes que foram destinadas ao processo de incrustação receberam a aplicação de material inerte (organomineral) e material adesivo (na cor branca) que desempenha o papel de unir as partículas do material de incrustamento, proporcionando aderência entre elas, o próprio material e as sementes.

As amostras de sementes nuas e incrustadas foram submetidas à avaliação da qualidade fisiológica, pelos testes de potencial de germinação (PG%) e vigor (V%).

O teste de PG% foi conduzido de acordo com os critérios estabelecidos nas regras para análise de sementes (RAS) (BRASIL, 2009), utilizando-se quatro repetições de 50 sementes para cada tratamento, considerando-se como resultado a média das repetições, expressa em porcentagem de plântulas normais.

No teste de V%, também composto de quatro repetições de 50 sementes para cada tratamento, as sementes foram submetidas à metodologia descrita por MARCOS FILHO (1999) na qual cada amostra de sementes foi distribuída em camada única sobre uma tela plástica e colocada no interior de caixas plásticas do tipo ”gerbox” contendo 40 mL de água destilada, com distância entre o nível de água e as sementes de aproximadamente 2,0 cm.

As caixas ”gerbox” foram levadas à câmara de germinação do tipo ”biochemical oxigen demand” (B.O.D.) em temperatura de 42ºC, por 24 horas. Encerrado este processo, as mesmas foram retiradas da câmara de germinação e submetidas ao teste de PG%, conforme descrito anteriormente. A avaliação foi realizada no sétimo dia após a transferência para o germinador, também considerando-se como germinadas as plântulas normais de cada repetição, obtendo-se, assim a média das repetições, com os resultados expressos em porcentagem de germinação.

Resultado e discussão

Com o advento da incrustação espera-se uma redução dos problemas referentes à plantabilidade de canola em campo, em razão do aumento do tamanho da semente e homogeneidade do lote, favorecendo assim a regulagem de máquinas semeadoras, como pode ser observado na Figura 1.

Figura 1. Comparativo entre o padrão de plantabilidade de sementes de canola nuas (esquerda) e incrustadas (direita) do híbrido Hyola 63 em disco alveolado.

Como pode ser observado na Figura 2, as sementes de canola nuas apresentaram maior PG% em relação às sementes incrustadas, 90,88% e 83,75%, respectivamente, indicando que os materiais empregados no processo de incrustação interferiram na germinação das sementes, muito provavelmente pela rigidez conferida pelo incrustamento, que pode ter causado redução na absorção de água e das trocas gasosas entre a semente e o ambiente externo.

Figura 2. Médias de PG% de sementes do híbrido de canola Hyola 63, nuas e incrustadas. FAMV, 2014.

Os resultados acima concordam com estudos realizados por MILLIER & SOOTER (1967) que ao comparar sementes nuas e incrustadas de cenoura (Daucus carota L.) constataram que as sementes não incrustadas apresentam maior emergência total de plantas, e um menor número de plântulas anormais.

Em pimentão (Capsicum annuum L.) SACHS et al. (1981) comprovaram o efeito inibitório do revestimento de sementes. A provável causa da redução de germinação nessas sementes se deu devido à limitação da disponibilidade de oxigênio a semente, tendo o incrustamento atuado como uma barreira mecânica.

De acordo com BERTAGNOLLI (2001) avaliando sementes nuas e incrustadas de alface (Lactuca sativa L.), maior germinação foi encontrada em sementes nuas do que incrustadas, porém as primeiras são mais afetadas por temperaturas elevadas e baixa disponibilidade hídrica, enquanto as incrustadas apresentam maior resistência a essas condições adversas. O desempenho de sementes incrustadas após o tratamento, segundo FRANZIN e MENEZES (2002) pode ser atribuído a diferentes fatores além da incrustação, dentre eles a qualidade das sementes, as condições de estudo, e principalmente, a composição do material de incrustação.

O processo de incrustação pode afetar o desempenho das sementes durante a germinação, e a superação das dificuldades impostas por este, no entanto não esta intimamente relacionada ao vigor das sementes, como exposto na Figura 3, pois nesse caso não houve diferença entre sementes nuas e incrustadas, que apresentaram os valores de vigor 79,19% e 78,87%, respectivamente.

Figura 3. Médias de Vigor (V%) de sementes do híbrido de canola Hyola 63, nuas e incrustadas. FAMV, 2014.

O que pode também explicar as sementes incrustadas não terem diferido das sementes nuas quanto ao V% é ao fato de que a camada de incrustação é composta de partículas muito finas, sendo essas unidas umas às outras formando assim uma espécie de capa, também muito fina que está intimamente aderida à superfície da semente, tendo assim o mínimo de porosidade e o máximo de retenção de água, não interferindo assim nesse processo.

De acordo com estudos realizados por MEDEIROS et al. (2006) com sementes de cenoura nuas e incrustadas não há diferenças significativas no teste de vigor (envelhecimento acelerado), concordando com os resultados encontrados por CORASPE et al. (1993) com sementes de alface da cultivar ‘Verônica’, nas quais não registraram diferenças significativas entre sementes nuas e incrustadas. De modo BINNECK et al. (1999) em pesquisas sobre o efeito da incrustação de sementes sobre a germinação e a emergência de sementes de trevo-branco (Trifolium repens L.) concluíram que o uso de sementes incrustadas, pode proporcionar populações com taxas altas de germinação e emergência de plântulas mais altas.

Conclusões

Os testes de laboratório evidenciaram redução de 7% quanto à germinação de sementes incrustadas de canola em comparação com sementes nuas. Já em relação ao teste de vigor a incrustação das sementes não causa interferência. Com isso espera-se que em campo a incrustação não prejudique o estande de plantas. Estudos estão sendo conduzidos e a viabilização da utilização da técnica em larga escala depende, além de aspectos de plantabilidade, da análise de custos do processo de incrustação, certamente influenciado pela escala que poderia ser utilizado.

Referências

BAIER, A. C.; ROMAN, E. S. Informações para a cultura da canola para o sul do Brasil. In: SEMINÁRIO ESTADUAL DE PESQUISA DE CANOLA, 1., 1992, Cascavel. Resultados... Passo Fundo: EMBRAPA/CNPT, 1992. 10p.

BAUDET, L.; PERES, W. Recobrimento de sementes. Seed News, v.8, n.1, p.20-23, 2004.

BERTAGNOLLI, C. M. Desempenho de sementes nuas e peletizadas de alface submetidas ao estresse hídrico e térmico e formação de mudas em cultivo hidropônico. 2001. 48f. Dissertação (Mestrado em Produção vegetal) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2001.

BINNECK, E.; BARROS, A. C. S. A.; VAHL, L. C. Peletização e aplicação de molibdênio em sementes de trevo-branco. Revista Brasileira de Sementes, Brasília, v. 21, n. 2, p. 203-207, 1999.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para Análise de Sementes. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Brasília, DF: Mapa/ACS, 2009. 395p.

CORASPE, H. M.; IDIARTE, H. G.; MINAMI, K. Avaliação do efeito da peletização sobre o vigor de sementes de alface (Lactuca sativa L.). Scientia Agrícola, Piracicaba, v.50, n.3, p.349-354, 1993.

EL-NAKHLAWY, F. S.; BAKHASHWAIN, A. A. Performance of Canola (Brassica napus L.) Seed Yield, Yield Components and Seed Quality under the Effects of Four Genotypes and Nitrogen Fertilizer Rates. Environment and Arid Land Agriculture, v. 20, p.33-47, 2009.

FRANZIN, S. M.; MENEZES, N. L. Análise de Sementes. 2 – temperaturas e qualidade de água para a germinação de sementes peletizadas de alface. Informe Técnico, Santa Maria, n.1, 2002, 4p. (CCR-UFSM).

MARCOS FILHO, J. Teste de envelhecimento acelerado. In: KRZYZANOWSKI, F.C.; VIEIRA, R.D.; FRANÇA-NETO, J.B. (Ed.). Vigor de sementes: conceitos e testes. Londrina: ABRATES, 1999. cap. 3, p.1-24.

MARTINS, C. C. et al. Comparação entre métodos para a avaliação do vigor de lotes de sementes de couve-brócolos (Brassica oleracea L. var. italica Plenk). Revista Brasileira de Sementes, Pelotas, v. 24, n.2. p. 96-101, 2002.

MEDEIROS, E. M. et al. Recobrimento de sementes de cenoura com aglomerante em diversas proporções e fungicida. Revista Brasileira de Sementes, vol. 28, nº 3, p.94-100, 2006.

MILLIER, W. F.; SOOTER, C. Improving emergence of pelleted vegetable seeds. Transactions of the ASAE, St. Joseph, v.10, n.5, p.658-666, 1967.

ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DO PARANÁ – OCEPAR. Recomendações técnicas para a cultura do trigo no Estado do Paraná. Cascavel: OCEPAR, 1995. 115p. Boletim Técnico, 37.

PÓLA, J. M.; BARROS, A. S. R. Avaliação da qualidade fisiológica de sementes de canola. Londrina: IAPAR, 1994. 20p. Mimeografado.

SACHS, M.; CANTLIFFE, D. J.; NELL, T. A. Germination of clay-coated sweet pepper seeds. Journal of the American Society for Horticultural Science, v.106, p.385-389, 1981.

VIEIRA, C. Influência das épocas de plantio sobre as etapas de desenvolvimento do feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.). Revista Ceres,Viçosa. v.38, n.219, p.438-443. 1991

Artigo Publicado na Revista Plantio Direto 141.