Encontro debateu estratégias de sustentabilidade em produção e técnicas de plantio direto na palha
O 14º Encontro Nacional do Plantio Direto na Palha, promovido pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp) e que ocorre a cada dois anos, sempre em uma região produtora em destaque no Brasil aconteceu em Bonito, MS. Nessa edição, a programação contemplou painéis com temas voltados à técnica do plantio e seus benefícios, bem como palestras e debates sobre fitossanidade, manejo adequado do solo, entre outros assuntos. As palestras simultâneas possibilitaram a variedade de temas e debates. Também foi discutido o plantio direto na cana-de-açúcar, tendo em vista a crescente produção sucroenergética no Estado.
Estiveram presentes aproximadamente 370 pessoas entre profissionais do agro, estudantes, professores, produtores rurais, além de representantes de sindicatos e associações.
O evento aconteceu no dias 12, 13 e 14 de agosto, no Centro de Convenções de Bonito, em parceria com a Fundação MS, Sistema Famasul e Embrapa Agropecuária Oeste, contou com o apoio do Sistema OCB-MS, Aprosoja MS, UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Unigran, Grupo Plantio na Palha (GPP) e outras instituições. Estiveram presentes cerca de 370 pessoas entre profissionais do agro, estudantes, professores, produtores do MS e outros estados, além de representantes de sindicatos e associações.
Enquanto apenas 8% do território mundial aproveita a técnica do plantio direto na palha, no Brasil são mais de 70% dos produtores que se beneficiam da tecnologia, que chega a economizar até 30% da água utilizada. A informação é do presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Alfonso Sleutjes, que falou sobre o assunto durante a abertura do 14º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, no Centro de Convenções de Bonito-MS.
Alfonso Sleutjes, Presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, na abertura do 14o Encontro Nacional, em Bonito, MS.
”Nosso desafio é difundir conhecimento para uma produção sustentável focada na alimentação das próximas gerações”, complementou Alfonso. Para o presidente da Fundação MS, Luis Alberto Moraes Novaes, o plantio direto é responsável pelos resultados que o agronegócio brasileiro tem alcançado. ”É o que provocou a verdadeira revolução na produção nacional”. O presidente da Aprosoja/MS, Maurício Saito, complementou apresentando os resultados que a agricultura tem oferecido. ”Nos últimos cinco anos, tivemos um incremento de 25% na produtividade de soja e de 125% na produtividade do milho safrinha. Dessa forma, mostramos a todos os segmentos da sociedade que somos responsáveis pela permanência e conservação do meio ambiente”.
Segundo o vice-presidente do Sistema Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária do Estado), Nilton Pickler, a realização do encontro em Bonito comprova a contribuição que o produtor rural tem dado a preservação dos recursos naturais. ”Há mais de 100 anos os produtores daqui geram resultados em um local que é hoje uma das maiores áreas de Preservação Permanente (APP) no País e isso mostra que a sustentabilidade não é um conceito novo, mas que vem sendo adotado desde os nossos mais antigos produtores”, afirmou Nilton.
A cerimônia de abertura contou com a participação da Associação Argentina de Produtores de Plantio Direto. ”Nosso País tem muito a agradecer pela contribuição em conhecimento, pesquisa e difusão brasileira”, disse a representante da entidade, Maria Beatriz Giraudo. Para o presidente da Aprosoja Nacional, Almir Dalpasquale, o desafio da produção agrícola brasileira agora está na biotecnologia. ”Passamos pela transgenia e sua contribuição na produtividade, dada graças também ao plantio direto, e agora nosso foco deverá ser o investimento em biotecnologia para produzirmos mais sem aumentar nossa área produtiva”, disse.
Estiveram presentes ainda, na abertura, o prefeito da cidade de Bonito, Leonel de Souza Brito, o chefe-geral da Embrapa Agropecuaria Oeste, Guilherme Asmus, entre outras autoridades do Estado. O início do evento foi marcado por homenagens feitas pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação a personalidades que se destacaram no incentivo a utilização da técnica, como a Fundação ABC e seu fundador Frank Dijkstra, o produtor visionário John Randers e, em memória, Pablo Thomaz recebeu a homenagem feita a seu pai, o ex-presidente do Sindicato Rural de Rio Brilhante, Leonardo Mendonça Thomaz. O Dr. Fernando Penteado Cardoso, da Fundação Agrisus, foi homenageado pela passagem dos seus 100 anos de vida e pela trajetória de esforço e dedicação ao desenvolvimento da agricultura brasileira.
Fernando Penteado Cardoso, fundador da Fundação Agrisus, recebeu homenagem pelo seus 100 anos de vida e pela dedicação a agricultura brasileira.
O evento teve a participação de Eliseu Alves, fundador da Embrapa, e do ex-ministro Alysson Paolinelli, que trataram da evolução das propriedades rurais e principais desafios para os próximos anos. O uso de tecnologia na agricultura brasileira ainda está longe de ser a realidade comum entre os produtores rurais. Segundo a Embrapa, de 4,4 milhões de propriedades brasileiras, somente 500 mil usam técnicas mais avançadas para aumento de produtividade.
”A tecnologia poupa terra, trabalho e evita o desperdício. Frente a uma demanda crescente de alimentos, o desafio é a adoção de tecnologias em todas as propriedades e não somente em 12%”, alertou Eliseu. Para o ex-ministro Paolinelli, falta gerenciamento correto do produtor e políticas públicas. ”Crescemos 3 milhões de hectares ao ano e não sabemos gerenciar. Estamos chegando ao limiar de uma exaustão de recursos de meio ambiente e financeiros”, afirma Paolinelli.
Segundo ele, a saída é a inovação. ”O governo não pode mais focar em linhas de crédito diferenciadas para maquinários. A inovação, a ciência e a tecnologia de fácil acesso ao produtor são as únicas saídas”, complementa. Paolinelli chegou a criticar a postura passiva dos produtores. ”Nossa agricultura gera 100 bilhões de dólares em exportação ao ano e isso deve ter um peso político. Não podemos mais ser ‘vaquinhas de presépio’ e precisamos cobrar políticas mais efetivas”, pontuou.
O Sistema de Plantio Direto na Argentina também foi abordado durante o Encontro. A presidente da Associação Argentina de Produtores de Plantio Direto, Maria Beatriz Giraudo, conhecida como Pilu, falou sobre os resultados da utilização da técnica no País vizinho. ”Temos 96% de redução de erosão do solo, 70% de redução da evaporação da água, 60% de redução de uso de combustíveis”, afirma. A técnica, segundo a presidente da Associação, ainda colabora para garantir o sequestro de carbono no solo, além de melhorar a fertilidade química e biológica, diminuindo o custo operacional.
Maria Beatriz Giraudo, da AAPRESID, falou aos participantes do 14o Encontro Nacional.
Outros aspectos do sistema plantio direto também foram apresentados como as práticas conservacionistas complementares, manejo de adubação, conhecimento de pragas e manejo correto como ferramentas para melhorias em SPD, rotação e diversidade de culturas para fitossanidade no Plantio Direto, entre outros.
A irrigação foi discutida no evento através da palestra ”A agricultura irrigada como alternativa para o aumento da produção agrícola” apresentada pelo engenheiro agrônomo e presidente da Febrapdp, Alfonso Sleutjes. Sleutjes explicou que o sistema de plantio direto irrigado auxilia na diminuição da perda de água no solo, por evaporação, e nas plantas, por transpiração, justamente pela presença da palha, economizando mais de 30% no uso de água para irrigação. Com isso, o produtor rural consegue manter uma média de produtividade ao longo dos anos com menor oscilação. ”Isso colabora na organização da atividade”, complementa.
Também ganhou espaço o Índice de Qualidade do Plantio Direto (IQP), metodologia desenvolvida pela Febrapdp em parceria com a Usina Hidrelétrica de Itaipu na região da Bacia do Paraná para auxiliar os produtores rurais na avaliação dos rendimentos com a prática de Plantio Direto na Palha que deve ser disseminada com o apoio da Embrapa. O ex-presidente e atual conselheiro da Federação, Ivo Mello, apresentou a metodologia que cria indicador para medir o índice de qualidade. ”Não mede apenas a produtividade, mas todo os itens que envolvem o gerenciamento da propriedade e quanto o produtor tem de lucro. Mostra, principalmente, se o produtor cumpre o que a sociedade deseja, com benefícios que ele presta como colocar menos gás de efeito estufa na atmosfera e contribuir para não aumentar o aquecimento global, para não poluir a água, por exemplo”, explica.
Foram inscritos 122 trabalhos científicos que estiveram expostos em murais durante todo o evento para destacar a importância de pesquisas científicas na área, que permitam aprofundar as discussões. Além disso, as apresentações possibilitaram maior interação da cadeia produtiva com a academia, incentivando jovens cientistas, acadêmicos, profissionais e agricultores a participarem do fórum de debates, valorizando suas contribuições.
Durante o encerramento foi apresentada a Carta de Bonito com os direcionamentos para uma agricultura sustentável, disponível em www.febrapdp.org.br.
Publicado na edição 141 da Revista Plantio Direto.