Capim-amargoso: características,
Mauro RizzardiDoutor, Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS. E-mail: rizzardi@upf.br
O capim-amargoso (Digitaria insularis (L.) Fedde) está em evidência quando se discute o manejo de plantas daninhas na agricultura brasileira. Isso ocorre, principalmente, devido ao fato de esta gramínea ser perene, adaptada ao clima tropical e subtropical, de difícil controle quando adulta e apresentar biótipos resistentes ao herbicida glifosato. Além disso, possui características na sua biologia que a tornam uma espécie daninha com elevado potencial de agressividade.
O uso contínuo de glifosato nos diferentes sistemas de produção de soja no Brasil selecionou espécies daninhas tolerantes ou mesmo resistentes. Este foi o caso de espécies como azevém, buva e amargoso. O primeiro caso relatado sobre um biótipo do capim-amargoso resistente ao glifosato foi no Paraguai em 2006.
Características da planta
O capim-amargoso é uma espécie gramínea perene, herbácea, ereta, de colmos estriados, com 50 a 100 cm de altura (Figura 1). Entre as características que as diferem de outras espécies do gênero Digitaria destacam-se: capacidade de formar perfilhos; possuir caules aéreo tipo colmo e subterrâneo tipo rizoma, com elevado acúmulo de amido; sob condições especiais de temperatura forma touceiras a partir dos pequenos rizomas; floresce durante praticamente todo o ano, com inflorescências tipo panícula, com 6 a 49 ramos; e possui elevada capacidade de produção de sementes. Além disso, possui espigueta pilosa e cariopse lisa, formada por duas glumas.
Figura 1. Detalhe da planta adulta de capim-amargoso.
A existência de pilosidades nas suas espiguetas (Figuras 2 e 3) favorece a sua disseminação, sendo carregadas pelo vento a grandes distâncias, o que a torna uma importante espécie daninha para as culturas de verão, naquelas situações de períodos longos sem cultivo (Figura 4).
Figuras 2 e 3. Detalhes das estruturas de dispersão de capim-amargoso
Figura 4. Infestação de capim-amargoso após a colheita do milho. São Gabriel do Oeste, MS.
Ocorrência no Brasil
A sua ocorrência no Brasil sempre foi associada a áreas marginais ou abandonadas, sem o uso intensivo de culturas. Porém, nas últimas décadas, principalmente nas áreas de semeadura direta, com o uso intenso e exclusivo do herbicida glifosato, esta espécie vem apresentando maior relevância dentro da agricultura brasileira, principalmente no norte do estado do Paraná e em determinados estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste (Figura 5).
Figura 5. Distribuição e ocorrência de capim-amargoso no Brasil.
Desde a identificação de casos de resistência, no Paraguai, em 2006, começou-se a observar a ocorrência de capim-amargoso em áreas de lavoura do Paraná, principalmente no município de Guaíra. As características associadas a fácil disseminação pelo vento e a falta de cuidados com a limpeza de maquinários, principalmente colhedoras, fez com que fosse disseminado rapidamente para diferentes regiões agrícolas do Brasil (Figura 5). Em muitas dessas regiões há a presença de elevadas populações desta espécie, muitas delas resistentes ao glifosato. Nestas situações, se faz necessária a busca de alternativas químicas e de manejo para o seu controle.
Potencial ocorrência no Rio Grande do Sul
No Brasil, apesar de sua maior ocorrência estar associada às regiões Sudeste e Centro-Oeste, o fato de ser uma espécie nativa de regiões tropicais e subtropicais da América, pode indicar um potencial para infestação também na região Sul. Esta preocupação aumentou a partir da observação de sua presença em áreas colhidas de milho (”restevas”), em lavouras das regiões do Planalto e Missões do Rio Grande do Sul, na safra 2013/14.
A ampliação deste potencial problema estará diretamente associada com as práticas de manejo utilizadas pelos produtores. Estas práticas incluem evitar a disseminação de sementes; não deixar áreas de ”pousio”; manter coberturas vegetais e retirar eventuais plantas isoladas na lavoura ou no seu entorno.
Em relação à disseminação, as plantas daninhas apresentam mecanismos especializados que permitem sua sobrevivência sob condições adversas, durante vários anos. Estes mecanismos ajudam as plantas a ocupar os espaços disponíveis no ecossistema. Porém, é o solo que provê o meio físico onde permanecem viáveis os mecanismos de sobrevivência. Eventuais práticas de preparo do solo podem minimizar os efeitos competitivos das infestações de ervas sobre uma cultura, mas estas práticas são essencialmente ineficientes em atuar sobre os mecanismos básicos de sobrevivência destas espécies. Assim, como princípio básico, as medidas de controle deveriam ser dirigidas aos mecanismos de sobrevivência das ervas que se encontram no solo, dificultando ou impedindo a sua emergência.
Se for considerado que amargoso é uma espécie perene, o modelo de exploração agrícola do sul do Brasil, que inclui trigo/aveia/cevada no inverno, é uma excelente ferramenta para impedir a proliferação desta espécie daninha. Isso explica o por quê de terem sido observadas plantas de amargoso nas ”restevas” de milho. Nestas áreas, a colheita do milho realizada em meados do mês de fevereiro ainda possibilitou o estabelecimento destas plantas na área. Nestes casos, deve-se evitar a manutenção de áreas sem a presença de cobertura vegetal por período muito longo, após a colheita do milho, ou mesmo após a colheita de cultivares precoces de soja.
Danos e controle
A interferência de plantas daninhas com as culturas geralmente ocasiona perdas significativas na produtividade. Estudos que avaliam essa interferência indicam a relação negativa entre produtividade e número de plantas daninhas na área. No caso do capim-amargoso estas perdas podem chegar até a 44% da produtividade da soja (Figura 6).
Figura 6. Perdas de produtividade na soja pela presença de capim-amargoso (Embrapa soja, 2012. Congresso de Plantas Daninhas, 2012, Campo Grande)
As perdas provavelmente serão mais intensas naquelas plantas oriundas do rebrote dos rizomas. Quando oriundas de sementes as plantas apresentam crescimento inicial lento até os 45 dias da sua emergência e um rápido crescimento das raízes a partir deste período, crescimento esse associado a formação de rizomas. Essas características fazem com que as plantas sejam menos competitivas e de mais fácil controle quando oriundas de sementes.
Os herbicidas pré-emergentes, usados na soja, são alternativas para se evitar o seu estabelecimento, porém as opções são limitadas, e nem sempre efetivas, pois dependerão do conhecimento dos fluxos de emergência das sementes, que nem sempre ocorrem no início do estabelecimento da cultura da soja.
Figura 7. Plantas de capim-amargoso com formação de touceiras. Mariluz, Pr.
Na pós-emergência da soja, ou mesmo na dessecação pré-semeadura, a maior sensibilidade ocorre nas fases iniciais de desenvolvimento, quando as plantas se encontrarem com no máximo 3 a 4 perfilhos (Tabela 1). A partir desta fase, o seu crescimento é acelerado, com aumento significativo da sua biomassa aérea e subterrânea, com a formação dos rizomas. Assim, o grande desafio é o controle de plantas adultas, onde a sensibilidade aos herbicidas é menor e a produção de biomassa é maior.
Tabela 1. Eficiência de herbicidas para o capim-amargoso (Embrapa soja, 2013).
O ponto chave no incremento da ocorrência de amargoso é que, uma vez que a planta esteja estabelecida com o início da formação dos rizomas e posterior formação de grandes touceiras, ela se torna de difícil controle. Uma vez ocorrido o processo de perenização, esta planta pode florescer e disseminar sementes com baixos níveis de dormência durante o ano todo, naquelas regiões com temperaturas favoráveis, acima de 25oC. No caso das regiões frias, com ocorrência de geadas, ocorre a eliminação da parte aérea, mas os rizomas permanecem abaixo da superfície do solo.
Artigo publicado na edição 141 da Revista Plantio Direto.