Argentina faz alerta sobre Amaranthus quitensis H.B.K. resistente a glifosato
Daniel Tuesca1, Juan Carlos Papa2, Sergio Morichetti3 e Nicolás Montero Bulacio4 1Professor de Plantas Daninhas, Faculdade de Ciências Agrarias-UNR;2Proteção Vegetal, EEA, INTA, Oliveros;3Aceitera General Deheza;4Professor de Plantas Daninhas, Faculdade de Ciências Agrarias-UNR.
Introdução
Problemas com plantas daninhas não surgem sem motivo, mas ocorrem dentro de um determinado contexto econômico, social, produtivo e cultural, que pressiona fortemente o sistema agrícola e todos os seus componentes bióticos, gerando mudanças as que ocorrem em uma escala espaço-temporal que transcende a individualidade de cada propriedade, assim como ao momento que corresponde a uma determinada prática de manejo dentro de uma safra.
A natureza biológica das plantas daninhas determina sua evolução, adaptando-se as práticas destinadas ao controle que por resultar, em algum sentido, convenientes ao esquema de produção, em geral mais rentável ao curto prazo, são usados com maior intensidade e frequência. Nesse artigo, corresponde ao uso de herbicidas de elevada eficácia e baixo custo relativo, como exemplo podemos citar o glifosato assim como alguns herbicidas de elevada persistência como o metsulfuron-metil e o clorimuron-etil aplicados, com muita frequência, em doses muito superiores as recomendadas e em casos não considerados adequados.
Plantas de Amaranthus quitensis em estado vegetativo.
O resultado do processo de adaptação pode ser resumido na manifestação da tolerância e da resistência, suas consequenciais imediatas são a redução significativa na utilidade prática da ferramenta química e as perdas de produção como consequência da interferência ocasionada pelas plantas daninhas mal controladas ou diretamente não controladas.
Por outro lado, a dispersão das plantas daninhas hoje não se limite as vias naturais; o homem intervém, na maioria dos casos de maneira inconsciente, através do movimento dos animais, no uso de sementes de procedência duvidosa, no movimento das máquinas etc. Dessa forma se contribui para que um problema de plantas daninhas que evoluiu em determinado lugar possa afetar a outros sistemas produtivos localizados a uma distância muito variável, às vezes muito grande, inclusive poderíamos falar de uma escala global.
Nos últimos anos se repetiram com elevada frequência as consultas sobre a presença de populações de Amaranthus quitensis que escapavam ao tratamento com glifosato. Num primeiro momento, se suspeitou de fatores fora da resistência como responsáveis pela dificuldade de controle, mas estudos de ”doses resposta” realizados sobre biótipos das províncias de Córdoba e Santa Fé, na Argentina, permitiram concluir que estamos frente a um novo caso de resistência a glifosato. É importante considerar que A. quitensis, já havia sido informada como resistente a herbicidas inibidores de ALS (imidazolinonas, sulfonilureas e triazolpirimidinas) em 1996, por Nisensohn e Tuesca (UNR) e que esses biótipos ainda se encontram presentes nos sistemas produtivos; sendo provável que exista também a resistência múltipla, ou seja, biótipos simultaneamente resistentes a glifosato e aos herbicidas inibidores de ALS.
Principais características
Amaranthus quitensis é uma espécie extremamente polimorfa que pode gerar confusão sobre sua identidade. Tem origem sulamericana, mas atualmente é cosmopolita, sendo encontrada em toda a América, desde o Canadá até a Argentina e está presente também na Oceania, África e Ásia. É uma planta anual, que atinge altura de 0,3 a 2,0 metros, geralmente muito ramificada, com caules robustos e inicialmente pubescentes. É composta de folhas simples, alternas, mais abundantes no terço superior, pecioladas, lenceoladas ou deltoides de 3,0 a 10 cm de comprimento por 1,5 a 6,0 cm de largura. Inflorescência, em uma panícula terminal ereta e pendente, formadas por espigas cilíndricas e densas de cor variável entre verde, púrpura ou avermelhada. As flores se dispõem em torno do eixo da espiga, são sésseis e unissexuais, com as flores masculinas na parte superior e as feminias na inferior. Os frutos são pixidios uniloculares e uniseminados; as sementes são lenticulares de contorno circular e de 0,7 a 1,0 mm de diâmetro e cor castanho-avermelhado. O nome comum dessa planta na Argentina é yuyo colorado.
Em experimentos realizados na Faculdade de Ciências Agrarias da Universidade Nacional de Rosário, se constatou nos biótipos provenientes das Províncias de Córdoba e Santa Fé, apresentam elevados níveis de resistência a glifosato, registrando-se a sobrevivência a doses de 32 litros/ha de uma formulação Premium com uma concentração de 540 g.e.a./litro.
O objetivo deste artigo é fornecer informação sobre está adversidade e contingência que pode afetar os sistemas produtivos, alertar sobre sua periculosidade e sobre a necessidade de gerar informações para prevenir ou, ao menos, atrasar sua dispersão.
Alternativas viáveis para o manejo de Amaranthus quitensis
PROATIVIDADE: a magnitude do potencial problema justifica realizar o esforço de prevenção, algumas das medidas poderiam ser a limpeza de veículos, máquinas e outros equipamentos antes de ingressar na lavoura, com ênfase especial nas colheitadeiras, no desbaste de animais, controle e limpeza de sementes ou forragens. Deve-se fazer o monitoramento frequente das lavouras e também de caminhos, valas, estradas e bordas de lavoura a fim de detectar cedo a presença de plantas que deveriam ser eliminadas antes de atingir o estádio reprodutivo. É importante que o agricultor e o técnico mantenham-se informados da evolução do problema no país, no estado, na região. Se detectada a presença de biótipos resistentes deve-se informar imediatamente os órgãos oficiais pertinentes.
CONTROLE CULTURAL: programar rotação de culturas que permitam alternar herbicidas com diferentes modos de ação; dispor de arranjo espacial dos cultivos de maneira a elevar sua capacidade competitiva com as plantas daninhas, por exemplo, reduzir a distância entre as fileiras e/ou selecionar as variedades que ocupem rapidamente o espaço procurando maximizar o aproveitamento dos recursos pelos cultivos.
CONTROLE POR MÉTODOS FÍSICOS: fundamentalmente por meios mecânicos ou manuais-mecânicos a fim de controlar as plantas daninhas em estádio vegetativo anterior a geração de sementes viáveis, evitando assim o aumento do banco de sementes.
CONTROLE QUÍMICO: neste sentido é importante destacar que atualmente na Argentina há herbicidas alternativos ao glifosato com registro específico para o controle químico desta planta daninha, o que representa importante vantagem.
Em primeiro lugar, a maioria dos herbicidas inibidores de ALS são eficazes sobre os biótipos suscetíveis a eles. Considerando os antecedentes locais sobre a resistência a esse mecanismo de ação seria oportuno considerar também os princípios ativos alternativos ao mesmo.
HERBICIDAS RESIDUAIS: seu uso oportuno seria a chave para evitar emergências de início de primavera e para contribuir para reduzir o tamanho do banco de sementes; dentro disto, podem ser citados alguns dos seguintes grupos:
Triazinas p.e. atrazina, zimazina, metribuzin, prometrina
Ureias: diuron, linuron
Cloroacetamidas: p.e. metalaclor, S-metolaclor, acetoclor, dimetenamida
Dinitroanilinas: pendimetalina, trifluralina
Inibidores de protox: flumioxazin, sulfentrazone
Inibidores de pigmentos: flurocloridona, clomazone, diflufenican, isoxaflutole
HERBICIDAS PÓS-EMERGENTES:
Inibidores de fotossistema: diquat, paraquat (de contato)
Inibidores da síntese de glutamina: glufosinato de amônio (de contato)
Herbicidas hormonais: 2,4-D, 2,4-D DB, MCPA, dicamba, picloram, benazolin (sistêmicos)
Inibidores de protox (PPO): saflufenacil, fomesafen, lactofen, acifluorfen, fluoroglicofen, oxifluorfen, aclonifen (de contato).
PUBLICADO NA REVISTA PLANTIO DIRETO EDIÇÃO 140 (Março/Abril de 2014).