Utilização de Fungicidas em Milho com e sem Adição de Fertilizante Foliar Nitrogenado


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Publicado em: 01/10/2014

Utilização de fungicidas em milho com e sem adição de fertilizante foliar nitrogenado

Walter Boller1; Bianca de Moura2; Eduardo Brugnera31Eng.-Agr. Dr. Prof. do Programa de Pós Graduação em Agronomia (PPGAgro) da FAMV/UPF, Universidade de Passo Fundo-RS - e-mail: boller@upf.br 2Enga.-Agra., aluna do PPGAgro, área de Fitopatologia; FAMV/UPF, Universidade de Passo Fundo-RS - e-mail: bmoura@alunos.upf.br3Acadêmico do curso de Agronomia FAMV/UPF, bolsista Pibic-UPF - e-mail: edubrugnera@uol.com.br

Introdução

De acordo com os dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção brasileira de milho da última safra foi de 81 milhões de toneladas, o que garantiu ao país a terceira posição no ranking mundial de produção do grão, perdendo somente para os Estados Unidos e China (USDA, 2014).

A área de plantio de milho safrinha no Brasil deverá ocupar 7,17 milhões de hectares, 21% a mais que na temporada anterior (2011/2012), aumentando a área total nacional destinada ao cultivo de milho a 15,5 milhões de hectares (CONAB, 2013).

No ano de 2012, a onda de calor acompanhada da maior seca dos últimos 40 anos na região produtora de milho dos Estados Unidos (Corn Belt), trouxeram uma redução de 13% nas estimativas da USDA para a produção americana do grão. Situação essa que acarretou na diminuição da produção mundial esperada de milho de 945,8 para 899,5 milhões de toneladas (EMATER, 2012).

A diminuição da produção mundial do milho elevou significativamente o preço dessa commoditie, entusiasmando ainda mais o produtor rural brasileiro a investir nessa cultura. No entanto, um grande entrave à produção de milho tem sido o aumento de perdas em produtividade devido à crescente pressão de doenças fúngicas.

Modificações ocorridas no sistema de produção, que resultaram no aumento da produtividade da cultura, foram também, responsáveis pelo aumento da incidência e da severidade das doenças (Pioneer, 2007). A expansão da fronteira agrícola, a ampliação das épocas de plantio (safra e safrinha), a adoção do sistema plantio direto, o aumento do uso de sistemas de irrigação, a ausência de rotação de culturas e o uso de materiais suscetíveis têm promovido modificações importantes na dinâmica populacional dos patógenos, resultando no surgimento, a cada safra, de novos problemas para a cultura relacionados à ocorrência de doenças (JULIATTI et al., 2007 e EMBRAPA, 2009).

Recentemente, produtores de milho vêm utilizando a prática de aplicar fertilizantes foliares nitrogenados na fase final da cultura do milho, como uma forma de potencializar o rendimento de grãos. Quando estes são pulverizados junto com fungicidas poderia haver um efeito aditivo na ação destes, uma vez que fertilizantes nitrogenados também são mencionados como os adjuvantes (ARAÚJO & RAETANO, 2011).

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a eficiência de fungicidas quando aplicados com ou sem a adição de fertilizante foliar nitrogenado na cultura do milho.

Material e Métodos

O experimento foi conduzido no campo experimental da UPF, no município de Passo Fundo - RS, (latitude 28o 23’ 49” S, longitude 52o 38’ 06” O). Foi semeado o híbrido simples 30F53H, material indicado para o plantio na região sul do país, em 29/11/2012, sendo estabelecida uma população de 87.000 plantas/ha. A adubação realizada no momento da semeadura foi distribuída em linhas e constou de 250 kg/ha de N-P2O5-K2O 5-25-20. Aos 35 dias após a semeadura foram distribuídos 200 kg /ha de uréia em cobertura.

O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com três repetições por tratamento e cinco linhas por parcela. O comprimento de cada linha foi de 10 m com espaçamento entre as mesmas de 0,45 m, totalizando a área de 18 m2 por parcela.

No momento em que as plantas atingiram o estádio VT realizou-se a primeira pulverização dos diferentes fungicidas com ou sem a adição do fertilizante foliar nitrogenado Nitamin® (30 % N) conforme a Tabela 1. Uma segunda pulverização foi realizada 20 dias após, aplicando-se os mesmos tratamentos.

Tabela 1. Composição dos tratamentos, produtos e doses aplicadas

As pulverizações foram realizadas nos dias 22/01/2013 e 13/02/2013. Ambas ocorreram sob condições favoráveis de umidade relativa do ar, temperatura e velocidade do vento. As aplicações foram feitas com o uso de pulverizador costal pressurizado com CO2, sendo aplicados 100 L/ha de calda, através de pontas de pulverização de jato plano da série XR 11001, operadas com pressão de 250 kPa (gotas finas). A barra de pulverização foi conduzida a 0,40 m acima do ápice das plantas de milho.

Foram feitas três avaliações visuais da severidade de doenças a campo, de acordo com a escala da Agroceres (Agroceres 1996). Nesse método as notas variam de 1 a 9, onde a nota 1 refere-se a ausência de doenças e a nota 9 extrema severidade de manchas foliares e/ou ferrugem.

A primeira avaliação de severidade de doença foi feita 2 semanas após a primeira aplicação. A segunda, 4 semanas após a primeira aplicação e 1 semana após a segunda. Finalmente, a terceira avaliação foi feita 6 semanas após a primeira e 3 semanas após a segunda aplicação para as parcelas.

Ao final do ciclo da cultura realizou-se a colheita das espigas nas três linhas centrais de cada parcela, estimando-se o rendimento de grãos com teor de umidade padronizado para 13 %. Com estes dados calculou-se a produção adicional por hectare em sacas de 60 kg obtida nas parcelas tratadas em relação à testemunha sem aplicações de fungicida e de fertilizante foliar.

Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey, ambos a 5 % de probabilidade de erro.

Resultados e discussão

Dentre as doenças fúngicas, destacaram-se a ferrugem comum (Puccinia sorghi), mancha de helmintosporiose (Exserohilum turcicum), Cercosporiose (Cercospora zeae-maydis) e manchas de diplódia (Diplodia maydis) nas folhas, colmo e espigas.

Na Tabela 2 encontram-se as notas de doenças, indicando que houve diferença significativa na incidência de doenças entre as parcelas que receberam os tratamentos fitossanitários, daquelas que não foram pulverizadas (testemunha) ou que receberam apenas aplicação do fertilizante foliar nitrogenado (tratamento 7).

Tabela 2. Notas da leitura de doenças referente à avaliação realizada seis semanas após a primeira aplicação e três semanas após a segunda em milho híbrido 30F53H, como resposta aos respectivos tratamentos.

De acordo com os dados contidos na Tabela 2, pode-se observar que houve eficiência no controle da incidência de doenças com todos os fungicidas testados, destacando-se uma tendência de melhor performance no tratamento Priori Xtra + Nimbus + Nitamin. Esses resultados concordam parcialmente com aqueles obtidos por Costa (2009). Quanto à adição do fertilizante foliar nitrogenado Nitamin®, via-de-regra, favoreceu uma maior ação dos tratamentos com os três fungicidas aplicados, mas como era esperado, não apresentou diferença significativa, quanto ao controle de doenças em relação à testemunha quando aplicado sem adição de fungicidas.

Verifica-se que houve repostas positivas dos fungicidas Opera® e Priori-Xtra® sobre o rendimento de grãos (seu uso contribuiu com aumentos de produção entre 23 e 24 sacas de 60 kg/ha em relação à testemunha), o que torna esses tratamentos economicamente sustentáveis. Já o fungicida Nativo®, que apresentou menor eficiência no controle das doenças ocorridas (Tabela 3), também proporcionou ganhos menores no rendimento de grãos, que variaram entre 10,3 e 11,6 sc/ha. Essas observações concordam parcialmente com aquelas obtidas por Costa (2009), no município de Coxilha-RS, que demonstraram a viabilidade do uso de fungicida em híbrido de milho suscetível à ferrugem e à helmintosporiose.

Tabela 3. Rendimento de grãos (kg/ha) de milho híbrido 30F53H e produção adicional (sc 60 kg/ha) em resposta a aplicações de fungicidas com e sem adição de fertilizante foliar nitrogenado. FAMV/UPF, Passo Fundo-RS, 2014.

A aplicação combinada de qualquer um dos três fungicidas avaliados com o fertilizante foliar Nitamin® não se mostrou vantajosa do ponto de vista da produção adicional obtida. Apesar disso, quando o fertilizante foliar nitrogenado Nitamin® foi utilizado isoladamente, sem fungicidas, proporcionou ganho de 17,9 sc/ha, ficando intermediário aos dois grupos de fungicidas e revelando que seu uso também foi economicamente viável.

Para a correta interpretação desses resultados é importante considerar que entre a primeira e a segunda aplicação dos tratamentos ocorreu uma estiagem severa (precipitação pluvial de apenas 30,7 mm em 20 dias), o que pode ter interferido negativamente na manifestação do potencial dos tratamentos comparados, tanto no controle das doenças quanto na capacidade de gerar acréscimos de produção.

Outro aspecto que cabe considerar é que na prática as aplicações de produtos fitossanitários no final do ciclo do milho seriam viáveis somente por via aérea, uma vez que a entrada de pulverizador terrestre causa danos consideráveis por amassamento de plantas, podendo estes danos ser iguais ou até maiores do que os ganhos de produção proporcionados pelos tratamentos com fungicidas no presente experimento (COSTA, 2009). Neste sentido, duas pulverizações por via aérea, que segundo Costa, 2009 apresentam eficiência de controle das doenças comparável ás pulverizações por via terrestre representam um custo de 2,5 sacas de 60 kg de milho por hectare. Por sua vez, os fungicidas e adjuvantes utilizados nas duas aplicações apresentam custos aproximados de 4,0 sacas de 60 kg/ha. Analisando os efeitos dos tratamentos comparados por esta ótica, observa-se que os três fungicidas avaliados, assim como o uso isolado do fertilizante foliar nitrogenado apresentam viabilidade proporcionando maiores ganhos econômicos do que os custos decorrentes do seu uso (saldo positivo). Traduzindo estas observações em números, a receita líquida adicional variou entre R$ 125,00 e R$ 437,50 por hectare de milho cultivado, de acordo com o tratamento utilizado.

Conclusões

Os três fungicidas avaliados apresentam-se eficazes para controlar doenças em milho.

A combinação entre alguns fungicidas e o fertilizante foliar nitrogenado Nitamin® pode aumentar a eficácia do controle das doenças, porém isso não se traduz em maior acréscimo de rendimento de grãos do que os obtidos devido ao uso dos fungicidas.

Existem diferenças no potencial dos fungicidas comparados em relação à capacidade de promover aumentos no rendimento de grãos na cultura do milho.

O uso isolado do fertilizante foliar nitrogenado Nitamin®, na fase final do ciclo do milho mostra-se como alternativa sustentável para promover aumentos no rendimento de grãos de milho.

Referências

AGROCERES. Guia Agroceres de sanidade. 2. ed. São Paulo: Sementes Agroceres S/A, 1996. 72 p.

ARAÚJO, D.; RAETANO, C. G. In: ANTUNIASSI, U. R.; BOLLER, W. Tecnologia de Aplicação para culturas anuais. Passo Fundo: Aldeia Norte.; Botucatu: FEPAF. p. 35-36. 2011.

CONAB MILHO. Companhia Nacional de Abastecimento, primeiro relatório de 2013.

COSTA, D. I. Eficiência e qualidade de aplicações de fungicidas por vias terrestre e aérea no controle de doenças foliares e no rendimento de grãos de soja e milho. 126f. Tese (Doutorado em Agronomia) – Universidade de Passo Fundo, 2009.

EMATER GOVERNO DE GOIÁS. Conjuntura Agrícola, Perspectivas de safra de soja e milho 2012/2013, http://www.emater.go.gov.br.

EMBRAPA MILHO E SORGO. Sistemas de Produção, 1. Cultivo do milho. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2014.

JULIATTI, F. C.; BRANDÃO, A. M.; SANTOS, J. A.; LUZ, W. C. Fungicidas na parte aérea da cultura do milho: evolução de doenças fúngicas, perdas, resposta de híbridos e melhoria da qualidade da produção. Revisão Anual de Patologia de Plantas, v.15, p.277-334. 2007.

PIONEER SEMENTES LTDA. Manejo de doenças foliares no milho. In: ___. Tecnologia aplicada em milho. Santa Cruz do Sul, p.22-27, maio de 2007.

USDA, MILHO. United States Department of Agriculture, relatório de 14/03/2014. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2014.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 139, janeiro/feveriro de 2014.