Helmintosporeose comum na cultura do milho
João Américo Wordell Filho1 & Cristiano N. Nesi2 1Eng.-agr. D.Sc. em Fitopatologia, Epagri/Cepaf, Chapecó, SC, (49) 2049 7510, e-mail: wordell@epagri.sc.gov.br.2Eng.-agr. D.Sc. em Agronomia, Epagri/Cepaf, Chapecó, SC, (49) 2049 7510, e-mail: cristiano@epagri.sc.gov.br.
Introdução
O milho (Zea mays L.) é o cereal mais consumido no Estado de Santa Catarina devido, principalmente, a fabricação de rações para alimentar as criações suínos e aves e para fornecer ao rebanho bovino. Em Santa Catarina, a produção de milho é de 3,2 milhões de toneladas, obtida 456 mil hectares, que tem produtividade média de 7080 Kg ha-1, o que confere ao Estado a quinta posição brasileira, porém, ainda apresentou deficit de 2.800 mil toneladas de grãos, na safra 2013/14 (Síntese..., 2014).
A produtividade do milho nas lavouras catarinenses poderia ser maior se não ocorresse adversidades climáticas, incluindo o deficit hídrico, e a incidência de pragas e doenças, caso das ferrugens, podridões da base do colmo e as manchas foliares, que são doenças causadas por fungos (Wordell Filho & Casa, 2010). A complexidade de fatores envolvidos na ocorrência de doenças na cultura do milho requer, do produtor, a interação dos métodos de controle, permitindo, com mais segurança, o alcance de bons resultados. Daí a necessidade de concentrar esforços para combinar os métodos, físicos, mecânicos, culturais, genéticos, legislativos, químicos ou biológicos, o que normalmente reduz à intensidade das doenças e, consequentemente, melhora a produtividade, além de causar menor impacto ao ambiente. Nesse artigo é apresentada a importância, sintomatologia, etiologia, aspectos epidemiológicos e medidas de manejo à helmintosporiose comum do milho.
A helmintosporiose comum ou mancha foliar de turcicum, doença causada pelo fungo conhecido pelos seguintes nomes: Exserohilum turcicum (Pass.), Setosphaeria turcica, Bipolaris turcicum (Pass) ou Drechslera turcicum (Pass), está disseminada em todas às áreas de cultivo de milho no Brasil. A helmintosporiose causa destruição do tecido foliar, reduzindo a capacidade de fotossíntese da planta de milho. A intensidade dos danos varia com o estádio de desenvolvimento das plantas, podendo provocar perdas de até 50% de produtividade em ataques severos, quando acontecem antes do período reprodutivo das plantas (Shurtleef, 1992 e Wang et al., 2012). Os danos causados por essa doença podem ser mais expressivos em híbridos suscetíveis, especialmente em milho pipoca. No Estado de Santa Catarina, essa doença vem provocando, nos últimos anos, danos superiores a 70% em ataques severos, principalmente, quando o agricultor utiliza híbridos suscetíveis e não aplica fungicidas.
Etiologia da doença
O fungo que causa a helmintosporiose comum produz estruturas conhecidas pelo nome de conidióforos, que são isolados ou em grupos de dois a seis, lisos ou verruculosos, com dois a quatro septos e que medem 150-250 x 8-10 micrometros (mm) e são de coloração marrom-olivácea, tornando-se mais claros no ápice (Figura 1). Os conidióforos possuem conídios elipsóides à clavados, retos ou ligeiramente curvos, com coloração marrom-olivácea, lisos, e com quatro a nove septos, medindo de 50 - 144 por 18 - 33 mm. Os conídios apresentam hilos protuberantes, medindo dois a três por dois a três mm. A fase sexual desse fungo raramente ocorre na natureza, mas em laboratório, produz estruturas conhecidas por peritécio globoso e de coloração escura. Nos peritécios, as ascas são cilíndricas, contendo de um a oito ascósporos, usualmente de dois a quatro, e são de coloração hialina, retas ou ligeiramente curvas, com três septos e dimensões de 13 a 17 x 42 a 78 mm (Ellis, 1971 e Shurtleff, 1992).
Figura 1. Conidióforos e conídios do fungo Exserohilum turcicum (Pass.), patógeno que causa a doença conhecida por helmintosporiose comum em plantas de milho. Fonte: (Shurtleff, 1992).
Sintomatologia da doença
Os sintomas da helmintosporiose comum surgem aproximadamente uma semana após o início da infecção do patógeno nas folhas, caracterizados por lesões elípticas, de coloração palha, que medem 2,5 a 15 cm de comprimento, e que têm bordas bem definidas, que se tornam escuras devido à frutificação do fungo (Figura 2). Os primeiros sintomas aparecem nas folhas inferiores e avançam para a parte superior da planta, podendo haver o coalescimento das lesões, dando às folhas um aspecto de queima (Figura 3). Lesões com bordas amareladas indicam a presença de resistência das plantas à doença, sendo que nessas lesões praticamente não ocorre esporulação do fungo. As espigas não são diretamente afetadas pela doença, embora algumas lesões possam se formar sobre as palhas externas (White, 2000 e Vieira et al., 2014).
Figura 2. Lesão elíptica, de coloração palha em folha de milho, conhecida por helmintosporiose comum que é causada pelo fungo Exserohilum turcicum (Pass.).
Figura 3. Plantas de milho com sintomas de infecção do fungo Exserohilum turcicum (Pass.).
Aspectos epidemiológicos
O fungo que causa a helmintosporiose comum sobrevive em restos culturais, na forma de micélio e conídios, mas estruturas conhecidas por clamidósporos podem ser formadas. A dispersão dos esporos desse fungo ocorre pela ação do vento, alcançando longas distâncias. Em regiões tropicais, as condições ambientais favoráveis à doença ocorrem nas lavouras semeadas no cedo, em altitudes acima de 700 m, no período de agosto a setembro, e nas semeaduras após novembro no Brasil Central (Wordell Filho & Casa, 2010).
A germinação de conídios desse fungo ocorre três a seis horas após a inoculação, sendo que o seu tubo germinativo cresce paralelo às nervuras da folha, aonde penetra diretamente após desenvolver uma estrutura perfurante. Outros hospedeiros desse patógeno são: o sorgo Sorghum bicolor L., o capim-sudão, Sorghum sudanense (Piper), o capim-massabará ou sorgo-de-halepo, Sorghum halepense L. e o teosinto, Euchlaena mexicana Schrad. As condições ambientais que favorecem a doença são temperaturas situadas entre 18 e 27 oC, umidade relativa do ar elevada na fase vegetativa da cultura do milho e a presença de orvalho sobre as folhas, enquanto que a estiagem prolongada dificulta o seu desenvolvimento na região Sul do Brasil. As condições ambientais favoráveis para essa doença acontecem na semeadura da safra (agosto a setembro), e na semeadura das lavouras da ”safrinha” (Shurtleff, 1992 e Wordell Filho & Casa, 2010).
A helmintosporiose comum favorece a incidência de podridões do colmo, doenças causadas pelos fungos Diplodia sp. e Fusarium sp. (Balmer e Pereira, 1987). Esses patógenos causam podridões em tecidos senescentes, encontrados nas plantas de milho em final de ciclo em plantas debilitadas, que possuem teores de carboidratos e de substância fungistáticas em baixos níveis (Fernandes e Oliveira, 1997).
Manejo da doença
A incidência da helmintosporiose comum pode ser prevenida pela utilização de híbridos resistentes, rotação de culturas, semeadura em épocas recomendadas, uso de sementes sadias, população e arranjo de plantas adequadas, manejo da irrigação, adubação equilibrada com nitrogênio e potássio, eliminação de hospedeiros secundários desse fungo ou de plantas voluntárias de milho e, quando necessário, pela aplicação de fungicidas.
A rotação de culturas diminui significativamente o número de focos dessa doença, assumindo papel significativo no manejo da helmintosporiose. A adubação com excesso de nitrogênio favorece a doença, devendo seguir a recomendação da análise de solos. A resistência genética é uma ferramenta viável para o manejo dessa doença. O controle químico é uma medida alternativa para controlar essa doença.
Um dos principais hospedeiros secundários da helmintosporiose comum é o sorgo-de-alepo, que garante a sobrevivência de E. turcicum. A eliminação de plantas hospedeiras desse fungo na lavoura contribui para reduzir a chance de sobrevivência desse patógeno e, consequentemente, reduzir a fonte de inóculo. De modo geral, aplicações de fungicidas próximas do pré-pendoamento apresentam os melhores resultados no controle da doença. Existem dois ingredientes ativos fungicidas registrados para controle dessa doença, que são: o tebuconazole e o propiconazole, ambos da classe dos triazois. Esses fungicidas devem ser aplicados para proteger a folha da espiga e as folhas superiores, que são mais responsáveis pela produção de grãos (Costa & Cota, 2009). A escolha do fungicida e o número de aplicações devem ser definidos conforme a situação de cada cultivo, pois a decisão de pulverizar depende das condições climáticas, sistema de cultivo, nível tecnológico, custo de controle e do preço de venda do milho. Informações sobre os agrotóxicos registrados para controlar a helmintosporiose da cultura do milho podem ser obtidas em órgãos de assistência técnica ou no programa Agrofit (2014), que está disponível na internet, na página do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) (www.agricultura.gov.br).
Referências Bibliográficas
AGROFIT: Sistema de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em: . Acesso em: 18 mar. 2014.
BALMER, E.; PEREIRA, O.A.P. Doenças do milho. In: PATERNIANI, E.; VIEGAS, G. P. (Ed.) Melhoramento e produção do milho. 2 ed. Campinas: Fundação Cargill, v.2, p. 595-634, 1987.
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COSTA, R. V.; COTA, L. V. Controle químico de doenças na cultura do milho: aspectos a serem considerados na tomada de decisão sobre aplicação. Sete Lagoas:Embrapa, CNPMS (Circular Técnica, 125), 11 p. 2009.
ELLIS, M.B. Dematiaceous hyphomycetes. Kew: CAB. 1971. 608p.
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WHITE, D.G. Compendium of corn diseases. 3th ed. St. Paul:American Phytopathological Society, 2000, 78p.
WANG, H.; XIAO, Z.X. WANG, F.G. et al. Mapping of HtNB, a gene conferring non-lesion resistance before heading to Exserohilum turcicum (Pass.), in a maize inbred line derived from the Indonesian variety Bramadi. Genetics and Molecular Research, v.11, p. 2523-2533, 2012.
WORDELL FILHO, J.A. & CASA, R. T. Doenças na cultura do milho. In: WORDELL FILHO, J.A. & ELIAS, H. T. (Org.). A cultura do milho em Santa Catarina. Florianópolis: Epagri, 2010. p. 207-273.
Publicado na Revista PLantio Direto, edição 139, janeiro/fevereiro de 2014.