Fitotoxicidade de fungicidas em plantas
Carlos Alberto Forcelini1, Elias Zuchelli2, Guilherme Ferri2, Luciana Mauren2,Rudinei Zanon2 e Maurício Rizzardi2
1Professor da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, e-mail: forcelini@upf.br2Acadêmicos de Agronomia da Universidade de Passo Fundo
A safra de soja 2014 foi marcada pela ocorrência, em maior escala, de fitotoxicidade (Figura 1), ou seja, bronzeamento e queimadura das plantas por produtos químicos utilizados na lavoura. A intensidade do problema foi muito variável em função da combinação dos fatores ambientais, fase da planta e produtos que determinam a sua ocorrência. Estes fatores se alinharam de forma nunca vista em safras anteriores, por isso a maior intensidade e preocupação com a fitotoxicidade.
Figura 1. Vista de lavoura de soja com fitotoxicidade. Campinas do Sul, 2014.
Fungicidas são substâncias químicas que foram desenvolvidas para controlar fungos, os quais são os principais causadores de doenças nas plantas. Devido ao aumento das doenças e da sua intensidade, há a necessidade contínua do desenvolvimento de novos fungicidas, assim como o aumento da sua concentração nas formulações comerciais. Essa maior concentração pode levar à fitotoxicidade se as condições ambientais forem adversas durante ou após a aplicação.
Os principais fungicidas utilizados em grandes culturas como soja, milho e trigo tem na sua composição dois tipos de ingredientes ativos, um triazol e uma estrobilurina. A concentração da estrobilurina é muito similar entre os vários produtos comerciais (média de 60 g/ha por aplicação). A concentração de triazol (ou triazolintiona como no fungicida Fox) pode variar de 24 a 120 g por aplicação, dependendo do fungicida. Maior quantidade de triazol ou triazolintiona proporciona melhor controle das doenças, especialmente quando já instaladas na planta, porém requer cuidado maior em relação ao uso do produto para evitar a fitotoxicidade.
A fitotoxicidade nas plantas pode ser causada pelo fungicida ou por adjuvantes (óleos) utilizados na aplicação. Na fitotoxicidade por óleos o sintoma de bronzeamento das folhas (Figura 2) aparece pouco tempo após a aplicação, especialmente sob altas temperaturas. O óleo quebra a camada externa de cera das folhas para permitir a entrada do fungicida, e isso, combinado com o calor, causa o bronzeamento dos tecidos.
Na fitotoxicidade por fungicidas e, também alguns inseticidas (ex: fosforados), os sintomas mais comuns aparecem como queima do limbo foliar entre as nervuras (Figura 3). Nesse caso o produto é absorvido pela folha, mas pela falta de água na planta ele não se movimenta, ficando concentrado nos locais de aplicação e causando a morte parcial do tecido.
Figura 2. Bronzeamento em folhas de soja. Adjuvantes à base de óleo podem causar este tipo de fitotoxicidade nas folhas. Foto cedida por Dirceu Gassen.
Figura 3. Necrose entre as nervuras de folhas de soja causada por fitotoxicidade de fungicida e/ou inseticida. UPF, 2014.
Os fungicidas utilizados em soja, na sua maioria, penetram na planta e se movimentam em menor (estrobilurinas) ou maior intensidade (triazóis). O movimento interno dos fungicidas acompanha o fluxo da água, que a planta absorve do solo pelas raízes e transpira através das folhas. Quando há água disponível no solo a planta absorve e transpira continuamente, movimentando o fungicida. Nesse caso o risco de fitotoxicidade é mínimo. Quando há pouca água no solo, o produto fica concentrado nos locais de aplicação e a fitotoxicidade aumenta, especialmente pelos triazóis. Este problema foi marcante no início de fevereiro, período que o solo registrou seus menores teores de umidade (5,8 a 7,7%) (Figura 4).
Figura 4. Teor de umidade do solo em área cultivada com soja, em Passo Fundo. Medição realizada às 15h30min. UPF, 2014.
A transpiração nas plantas, assim como nos seres humanos, é um mecanismo de termoregulação (equilíbrio da temperatura). Havendo água no solo e umidade no ar, as plantas transpiram e sua temperatura permanece mais estável, apesar do calor do ar intenso. A diferença entre as temperaturas do ar e da folha varia, portanto, com a umidade do solo e do ar. No mês de janeiro deste ano, tomando com base medições monitoramento realizado no campo experimental da Universidade de Passo Fundo, a temperatura da folha da soja, em alguns momentos, foi até 9,6 oC menor que a do ar (Figura 5), evidenciando o efeito de termoregulação. Contudo, no início de fevereiro, as diferenças caíram para valores entre 0,9 e 2,3 oC devido à baixa ou não ocorrência de chuvas (Figura 6) e teor reduzido de umidade no solo. Com sol intenso e pouca água para absorver e transpirar, as folhas de soja começaram a mostrar sintomas de escaldadura (queima pelo calor) (Figura 7). A utilização de fungicidas concentrados nestas folhas já debilitadas resultou em fitotoxicidade.
Figura 5. Temperaturas do ar e de folhas de soja (trifólio superior), em Passo Fundo. Medições realizadas às 15h30min. UPF, 2014.
Figura 6. Ocorrência de chuvas em Passo Fundo, no período de 16/1 a 15/2/2014. Fonte: Embrapa Trigo.
Figura 7. Escaldadura em folhas de soja causadas pelo calor. UPF, 2014.
Em Passo Fundo, a média histórica das temperaturas máximas é 28,3 oC em janeiro e 28,0 oC em fevereiro. Em 2014 (Figura 8), no período entre 26/1 e 12/2, a temperatura máxima foi continuamente muito acima do normal. No início de fevereiro, por exemplo, a média das máximas ficou em 34,0 oC, ou seja, 6 oC acima do normal. Esse período foi o mais quente dos últimos 11 anos (Figura 9). É muito provável que outros municípios tenham registrado temperaturas ainda mais elevadas.
Figura 8. Temperaturas máximas ocorridas em Passo Fundo, de 16/1 a 15/2/14. A linha vermelha indica a normal histórica (28,3 oC em janeiro e 28,0 oC em fevereiro). Os pontos mostram a temperatura ocorrida. Fonte: Embrapa Trigo.
Figura 9. Médias das temperaturas máximas para o período de 1/2 a 12/2, de 2003 a 2014, em Passo Fundo. Fonte: Embrapa Trigo.
A maior parte dos casos de fitotoxicidade verificados nesta safra ocorreram a partir de aplicações realizadas na fase de enchimentos de grãos. Além da questão ambiental (calor e stress hídrico), a idade da folha também foi importante. Em experimentos com monitoramento de temperatura na Universidade de Passo Fundo, cultivares de ciclo curto mostraram temperaturas mais altas em cada data de avaliação (Figura 10). Isso ocorreu por que as folhas estavam em estágio mais adiantado, com menor capacidade de regulação da temperatura e movimentação do fungicida. Além disso, plantas na fase reprodutiva, especialmente nas cultivares com hábito de crescimento determinado, emitem pouca ou nenhuma folha nova, dificultando a recuperação da área foliar.
Figura 9. Médias das temperaturas máximas para o período de 1/2 a 12/2, de 2003 a 2014, em Passo Fundo. Fonte: Embrapa Trigo.
Quando as condições durante o dia não são favoráveis à aplicação de defensivos na lavoura, é comum a sua realização durante à noite. Dependendo do momento em que esta é efetuada, a fitotoxicidade pode ser aumentada. Se a aplicação for realizada de madrugada ou cedo pela manhã, a lavoura estará mais fechada (folhas na horizontal) devido ao peso do orvalho. Nesta situação, como já demonstrado em pesquisas realizadas pelo professor Walter Boller na UPF, o produto não é distribuído às camadas inferiores do dossel das plantas, ficando mais concentrado nas folhas superiores. O intervalo de tempo entre a aplicação pela manhã e o atingimento das temperaturas máxima à tarde é 6 a 8 horas, havendo pouco tempo para movimentação do fungicida internamente na planta. Com o aumento da temperatura da folha durante o dia (Figura 11) a fitotoxicidade se manifesta. Aplicações realizadas no início da noite ocorrem sobre plantas com as folhas ainda eretas (lavoura mais aberta), permitem que o produto seja melhor distribuído para as camadas de folhas inferiores e não expõem a plantas a temperaturas elevadas logo após a aplicação.
Figura 11. Temperatura da folha de soja às 8h da manhã e às 3h30min da tarde. UPF, Passo Fundo, 2014.
Em resumo, vários fatores contribuíram para ocorrência da fitotoxicidade em soja na safra 2014.
1. Uso de fungicidas mais concentrados em triazol ou triazolintiona devido à preocupação com o controle da ferrugem asiática.
2. Temperaturas do ar muito elevadas, as maiores dos últimos 11 anos.
3. Plantas sob stress hídrico, sem capacidade de movimentar e metabolizar o produto aplicado, assim como regular a temperatura da folha.
4. Aplicações na fase de enchimento de grãos da cultura, sobre folhas mais velhas e mais suscetíveis.
5. Maior concentração dos produtos aplicados nas folhas superiores da planta pela aplicação de madrugada em lavoura mais fechada.
A combinação destes fatores não se repete em todos os locais e safras. Em alguns municípios, como Passo Fundo, onde a distribuição de chuvas foi um pouco melhor, o problema foi menos importante.
Sugestões para diminuir o risco de fitotoxicidade por defensivos nas próximas safras.
1. Utilizar os produtos mais concentrados nas primeiras aplicações, na fase vegetativa até a floração.
2. Monitorar as condições ambientais (temperatura, umidade do ar e do solo) que antecedem a aplicação, assim como a previsão para os dias seguintes. Se elas forem desfavoráveis, substitua o produto por outro de menor risco.
3. Preferir cultivares com hábito de crescimento indeterminado, pois este emitem novas folhas após terem iniciado a floração, podendo recuperar parte da área foliar danificada pela fitotoxicidade.
4. Direcionar as aplicações para a noite.
5. Utilizar maior volume de água.
6. Evitar misturas de tanques com muitos produtos, especialmente quando as condições ambientais não forem favoráveis à aplicação.
7. Sempre levar em consideração os aspectos técnicos relacionados ao produto e à aplicação. Consulte o Engenheiro Agrônomo. Havendo dúvidas, converse com os especialistas.
Perguntas frequentes:
1. A fitotoxicidade causa dano às plantas? Sim, ela reduz a área foliar, porém o impacto dessa redução depende do balanço com o controle das doenças. Haverá muitas situações em que a fitotoxicidade será compensada pelo controle da ferrugem e outras doenças.
2. O dano da fitotoxicidade é o mesmo que o da doença? Não, a fitotoxicidade compromete apenas no local onde ocorre. As doenças causam dano local e à distância, pela interferência em outros processos fisiológicos vitais da planta.
3. A fitotoxicidade evolui de intensidade? Não, a menos que o produto que a causou seja reaplicado sobre as mesmas plantas. No caso da doença ocorre aumento da intensidade.
4. A fitotoxicidade ocorre em toda a lavoura ou em manchas? Em toda a lavoura, porém sua intensidade varia de acordo com a umidade do solo. Áreas mais férteis ou que retém mais umidade, como baixadas, são menos afetadas.
5. Os produtos mais concentrados sempre causam fitotoxicidade? Não, a ocorrência do problema depende da combinação de vários fatores como temperatura, umidade do solo, fase da cultura e horário de aplicação.
6. As plantas regeneram as folhas danificadas? Não, o tecido vegetal afetado por fitotoxicidade, pragas ou doenças não sara nem cicatriza.
7. O problema pode se repetir nas próximas safras? Depende das condições ambientais e de como os produtos serão utilizados. Por isso a importância das sugestões que seguem.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 139, janeiro/fevereiro de 2014.