Aniversário de 100 anos de nascimento de Norman Borlaug: o pai da revolução verde
Luiz Carlos Federizzi1 e Ribas Antonio Vidal11Eng. Agr., Ph. D., Professores da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sulfederizi@ufrgs.br; ribas.vidal@ufrgs.br
O cientista Norman Borlaug, falecido em setembro de 2009, foi laureado com o prêmio Nobel da Paz em 1970. Borlaug esteve várias vezes no Brasil, na esquerda com Herbert Bartz; e na direita com Manoel Henrique Pereira (Nonô), ambos pioneiros nacionais no sistema de plantio direto na palha.
Norman Ernst Borlaug foi um Engenheiro Florestal que nasceu em 25 de março de 1914, no estado de Iowa, nos EUA. Até a idade de 19 anos de idade, Norman cresceu e ajudou no sítio da família (Bickel, 1974; Hesser, 2006; Vietmeyer, 2009a; Vietmeyer, 2009b; Swanson, 2009; Woodward et al., 2009). Quando Norman contava com quase 16 anos de idade, seu país (e o mundo) entrou numa profunda recessão econômica, denominada ”a grande depressão”. A agricultura dos EUA entrou em colapso total à partir de 1930 devido às secas rigorosas que se prolongaram até 1939. Esta seca atingiu toda a região do vale do Mississipi, incluindo o cinturão do milho dos EUA, denominada ”Vale do pó” (Dust Bowl), devido à erosão eólica e consequente carregamento de solo pelo vento. Isto levou à bancarrota de muitas propriedades agrícolas e provocou intenso êxodo rural, o que agravou, ainda mais, os efeitos da grande depressão econômica.
Em 1933, Norman começou o curso de Ciências Florestais na Universidade de Minnesota. Após concluir a Faculdade, com 26 anos de idade, ele começa a trabalhar em estações experimentais do Instituto Florestal dos EUA. Em 1938, Norman volta para a Universidade de Minnesota para fazer o mestrado em fitopatologia e posteriormente prossegue no doutorado em fitopatologia e melhoramento genético de plantas.
Na década de 1940, a produção de trigo no México era pequena e os rendimentos de grãos eram muito baixos. Frequentemente ocorriam sérias epidemias de ferrugem do colmo com perdas totais das colheitas e, assim, os agricultores ficavam desestimulados de plantarem trigo no México. Para sanar esses problemas é criado um programa de cooperação técnico entre os EUA e o México para o desenvolvimento da agricultura. Em 1944, Norman Borlaug é convidado para liderar o Programa Cooperativo de Pesquisa e Produção de Trigo, localizado na cidade do México. A missão inicial era realizar um programa de melhoramento para desenvolver cv. de trigo resistentes à ferrugem do colmo. Nos primeiros anos, Borlaug concentrou esforços no desenvolvimento de variedades de trigo com resistência a ferrugem do colmo. Graças a esse trabalho, o México tornou-se auto-suficiente na produção de trigo (Borlaug, 2000; Borlaug & Dowswell, 2004; Borlaug, 2007).
Como a ferrugem do colmo tem um ciclo de vida muito rápido, Borlaug pensou que tinha que ser mais rápido no desenvolvimento de cultivares. Para isso, em 1945 criou o programa ”shutlle breeding”. Este programa consistia em fazer duas gerações da cultura por ano. Uma delas era realizada numa estação experimental localizada no Norte do México, no estado do Sonora (Ciudad Obregon). A outra era realizada em Toluca, próximo da cidade do México, em região de altitude. Com isso, os cv. eram desenvolvidos com muito mais rapidez. Portanto, em vez de levarem 12 anos, um novo cv. era lançado com menos do que sete anos de melhoramento. Como consequência deste trabalho, todos os cv. originados no programa eram insensíveis ao foto-período o que permitia sua adaptação a muitos ambientes, de forma que puderam ser utilizados diretamente em diferentes regiões do mundo (Borlaug, 2000; Borlaug & Dowswell, 2004; Borlaug, 2007).
Outro conhecimento importante, somente adquirido entre os anos 1950 e 1960, foi a constatação de que os solos tinham diferentes composições de elementos químicos, em função da origem de sua rocha matriz. Portanto, nem todos os solos tinham os elementos essenciais para o crescimento e para o desenvolvimento das plantas. Também, nesta mesma época, as pesquisas demonstravam que o rendimento de grãos dos cereais era diretamente dependente dos níveis de nitrogênio (N) no solo. No México, Borlaug começou a utilizar doses crescentes de N nos cv. mexicanos. Mas, os ganhos de rendimento eram perdidos por causa do generalizado acamamento das plantas. Isso ocorria pelo fato dos cv. então disponíveis aos agricultores apresentarem estatura elevada (Borlaug, 2000; Borlaug & Dowswell, 2004; Borlaug, 2007). Para evitar estas perdas, foram realizados cruzamentos com linhagens de trigos de porte reduzidos cedidos por Orville Vogel, pesquisador do Departamento de Agricultura dos EUA, que trabalhava na Universidade de Washington.
Para resumir a História, em 1945 o México produzia somente 250 mil toneladas de trigo. Todavia, em 1965, já estava produzindo 5 milhões de toneladas de grãos de trigo, ou seja, vinte vezes mais em 20 anos. Isso ocorreu porque os cv. de trigo com porte reduzido puderam receber fertilizantes, especialmente o nitrogênio, e como consequência, ocorreu um aumento no rendimento de grãos. Estes conhecimentos foram repassados aos agricultores que rapidamente adotaram os cv. e as novas técnicas de cultivo (novos espaçamentos, densidades, etc).
Logo na sequência, os países asiáticos que enfrentavam grandes dificuldades na produção de alimentos, especialmente Índia, Paquistão e China, testaram os novos cv. nos seus ambientes e obtiveram grande sucesso (Borlaug, 2000; Borlaug & Dowswell, 2004; Borlaug, 2007). Por exemplo, a Índia importou mais de 5,6 milhões de toneladas de grãos de trigo e de farinha de trigo em 1964. Mas, já em 1968, conseguiu ser auto-suficiente neste cereal, pois produziu 16,5 milhões de toneladas. Convém destacar que as áreas de cultivo neste país são de pequenas dimensões, inclusive atualmente (a grande maioria dos agricultores cultiva menos do que meio hectare cada um). O desenvolvimento de trigo de porte baixo e insensível ao foto-período tem permitido à Índia produzir anualmente aproximadamente 90 milhões de toneladas nos últimos anos.
Em 1970 Norman Borlaug recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelas contribuições para aliviar a fome no mundo. Inúmeras outras honrarias foram concedidas ao Norman, mas com certeza sua maior alegria foi a satisfação da ”missão impossível” concluída. Norman continuou atuando profissionalmente até 12 de setembro de 2009, quando deixou a vida e se transformou numa lenda. Ele deixou como herança para a humanidade toda uma trajetória de dedicação, compromisso, colaboração e capacitação de pessoas, as quais foram responsáveis por salvar da morte por inanição mais de um bilhão de vidas.
Na América Latina, especialmente Brasil, Argentina, Chile e Paraguai, houve grandes introduções de material de trigo mexicano. O sucesso desses cv. ficou mais evidente nas áreas de menor pluviosidade e sem a presença de alumínio no solo.
Merece destacar que um dos centros que contribuíram para o sucesso da revolução verde foi o CIMMYT (Centro Internacional para o Melhoramento de Milho e de Trigo ou em inglês ”International Maize and Wheat Improvement Center”), localizado no México. Em suas instalações foram educados milhares de jovens, sendo capacitados nas práticas agronômicas e, também, na identificação e na seleção de cv. superiores.
No início dos anos 70, o CIMMYT estabeleceu uma série de experimentos globais onde linhas fixas e gerações segregantes eram enviadas aos cooperadores no mundo inteiro e estes podiam selecionar o material para sua utilização local. Assim, muitos cv. originados no CIMMYT foram lançados comercialmente em diferentes países do mundo. A livre troca de germoplasma entre os diferentes programas de melhoramento genético continua uma prática comum ainda hoje em muitas espécies cultivadas de interesse agronômico (Borlaug, 2000; Borlaug & Dowswell, 2004; Borlaug, 2007).
Com a descoberta do cultivar de arroz de porte baixo, o mesmo modelo obtido com trigo foi aplicado com sucesso para a cultura do arroz. Assim, o incremento no rendimento de grãos de trigo e de arroz minimizou os problemas de subnutrição e de fome para milhões de pessoas, especialmente na Ásia.
A revolução verde foi o resultado do avanço científico da genética e do melhoramento de plantas que possibilitaram o desenvolvimento de cv. de porte baixo, com resistência ao acamamento, insensíveis ao foto-período, com ciclo precoce, responsivos à aplicação de fertilizantes e com elevados índices de colheita (quantidade de grãos dividida pela massa da parte aérea superior a 50%). Seguiram-se diversas outras melhorias agronômicas, incluindo na tecnologia de aplicação de fertilizantes, na produção de sementes e no controle de plantas daninhas, entre outros.
O contínuo aumento da população humana e as constantes catástrofes climáticas reduzindo as safras agrícolas fazem com que as previsões fatalistas de Malthus de que grande parte da humanidade morreria de inanição sempre esteja no noticiário. Mas, cabe ressaltar que as calamidades podem ser vencidas (ou mesmo prevenidas) graças à imaginação e ao talento dos humanos para encontrar novas soluções para a produção de alimentos. Rogamos que a humanidade siga o seu processo civilizatório. Temos confiança de que ela será capaz de continuar a desenvolver novos caminhos para produzir alimentos em abundância, cada vez melhores e mais saudáveis.
Referencias consultadas
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Publicado na Revista Plantio Direto, edição 139, janeiro/fevereiro de 2014.