Helicoverpa armigera: da invasão ao manejo na soja
Jerson Vanderlei Carús Guedes1, Jonas André Arnemann2, Clérison Régis Perini3, Adriano Arrué Melo2, Alberto Röhrig4, Regis Felipe Stacke3 e Maicon Roberto Ribeiro Machado41Prof. Dr. Departamento de Defesa Fitossanitária - CCR, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS - E-mail: jerson.guedes@ufsm.br2Doutorando em Engenharia agrícola, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS3Mestrando em Agronomia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS4Graduando em Agronomia Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS.
Foto: Jerson Vanderlei Carús Guedes
Introdução
A invasão de uma praga quarentenária de relevância mundial como Helicoverpa armigera, em um país com ampla e diversa atividade agrícola, produtor de grãos, frutas e fibras, em um primeiro momento, pode ter implicações diretas à agricultura, porém nesse caso, o Brasil poderá viver uma sequência imprevisível de implicações econômicas, sociais e ambientais. Dentre as consequências imediatas e primárias resultantes da ocorrência de H. armigera, está a tentativa dos agricultores de diminuir a densidade populacional da praga em seus cultivos agrícolas. Nestas áreas foram investidos trabalho e recursos e dos quais o produtor espera resposta aos seus investimentos, renda e sustentabilidade da atividade ao longo do tempo. Este cenário é representado por mais de 30 milhões de hectares de soja sob o risco de dano da praga, e a ”pesquisa brasileira” (Universidades, Institutos de Pesquisa Pública e Privada) precisa posicionar-se de forma clara e objetiva, evitando prejuízos ao agricultor, ao ambiente e a todo o agronegócio brasileiro.
A ocorrência de H. armigera determinou, imediatamente após sua detecção, que os produtores iniciassem tentativas de controle da praga, utilizando inseticidas químicos e biológicos, aplicados isolados ou em misturas, tantas quantas vezes foram necessárias, e às vezes muito além dessas necessidades. No sul do Brasil, na safra de soja 2013/14, as tentativas de controle de H. armigera se mostraram muitas vezes ineficazes, seja pela incorreta adoção dos tratamentos inseticidas, pelas doses inadequadas e/ou, pelo momento da aplicação dos tratamentos (densidade e tamanho das lagartas). Como resultado imediato destes erros, se observou a manutenção da ocorrência de H. armigera, a incidência de outras pragas, especialmente as lagartas falsa-medideiras, a aplicação de outros tratamentos (inseticidas isolados ou em mistura) e de forma mais grave, a continuidade da ocorrência da praga, ao longo do ciclo da soja. Esta ocorrência chegou até o período reprodutivo da soja, com severos danos aos legumes e aos grãos de soja e em consequência no rendimento da leguminosa, produzindo perdas aos sojicultores.
Helicoverpa armigera: a praga, ocorrência e distribuição
A lagarta H. armigera é uma praga polífaga, extremamente agressiva e amplamente distribuída no mundo. Em países agrícolas pode causar impactos difíceis de calcular, visto que a praga já está amplamente distribuída em culturas produtoras de grãos, de fibras, de frutas e em hortaliças. A lagarta H. armigera se alimenta de mais de 100 espécies de plantas, tem grande capacidade migratória, se reproduz em grande quantidade, é tolerante a alguns inseticidas e desenvolve resistência com muita facilidade a vários inseticidas. Esta lagarta está distribuída em toda a Ásia, Oceania, África e parte da Europa, e em muitos países destes continentes é considerada a praga mais importante, como em algodão na China, Índia, Paquistão e Austrália; em milho na Austrália e em hortaliças na Europa.
A espécie apresenta resistência às variações do clima, como calor ou baixas temperaturas, além de ser pouco afetada pela seca. Apresenta grande prolificidade. Nos locais onde a praga ocorre, há sérias dificuldades de controle, especialmente por tolerar naturalmente muitos inseticidas e doses que controlam outras espécies. De outro lado, estas populações locais, desenvolvem resistência para os inseticidas em uso, com grande rapidez. Este conjunto de características de H. armigera coloca esta espécie como a mais importante e temida pela agricultura brasileira em todos os tempos, visto apresentar riscos a mais de 50 milhões de hectares (soja, algodão, milho, feijão, tomate, etc) e possivelmente alguns bilhões de reais, seja pelo aumento do uso de inseticidas ou pelas perdas impostas aos cultivos como soja, algodão, milho, outros cereais, tabaco, batata, tomate, outras hortaliças, entre outras.
Taxonomia e bioecologia de Helicoverpa armigera
A identificação de H. armigera é muito difícil, inclusive nos últimos ínstares larvais, entretanto é possível separá-las dos outros grupos de lagartas da soja. Os heliotíneos tem um comportamento particular recurvando a cabeça e os segmentos abdominais em direção à região ventral, formando uma volta. Ao final da fase de lagarta, as larvas param de se alimentar e se deslocam até o solo, para pupar. Com a emergência do adulto, surgem as mariposas de H. armigera, que apresentam asas dianteiras amareladas com uma série de pontos sobre as margens e uma mancha escurecida no centro da asa. As asas posteriores são mais claras com uma borda marrom escura na sua extremidade apical.
A identificação morfológica dos adultos pelo padrão das asas permite separar as Helicoverpa spp. de Heliothis virescens (que ocorre em todo o Brasil) entretanto não permite separar as espécies de Helicoverpa, para as quais é necessário o exame da genitália, preferencialmente dos insetos machos. Este exame pode ser feito com insetos obtidos de criação e armadilha luminosa (machos e fêmeas) ou coletados nas armadilhas de feromônio sexual (somente machos). A identificação baseada nestes caracteres é realizada no Laboratório de Manejo Integrado de Pragas da Universidade Federal de Santa Maria (LabMIP-UFSM), seguindo a metodologia de Brambilla (2009).
O ciclo completo de H. armigera dura em média entre 30 e 60 dias, passando pelas fases de ovo, larva/pré-pupa, pupa e adulto, sendo influenciado pela qualidade nutricional do alimento e fatores ambientais, como temperatura e umidade. As mariposas colocam ovos isolados ou agrupados nas folhas, durante a noite, totalizando entre 300 até mais de 2000 ovos. O número e a fertilidade dos ovos são influenciados por diferentes fatores, como a cultivar de soja, podendo variar de 50 a 282 ovos por dia (Naseri et al., 2011). Os ovos são branco-amarelados, tornando-se marrom-escuros próximo ao momento da eclosão da larva, que ocorre entre 5 e 7 dias após a postura. A coloração das lagartas depende da alimentação sendo predominante do amarelo-palha ao verde com listras marrom na lateral do tórax, abdômen e na cabeça. O período larval varia de 17 a 35 dias, podendo variar dependendo da cultivar hospedeira e da estrutura consumida durante a alimentação.
A variação no período de desenvolvimento de H. armigera em diferentes variedades de plantas hospedeiras, pode ser resultado tanto da qualidade nutricional quanto de compostos secundários liberados pela planta para auto-defesa. As cultivares de soja podem apresentar mecanismos de defesa e atratividade que influenciam na sobrevivência, desenvolvimento e reprodução da praga.
Polifagia, injúria e danos de Helicoverpa armigera
Estudos no Laboratório de Manejo Integrado de Pragas (LabMIP) da UFSM comprovaram que os adultos de H. armigera apresentam grande capacidade migratória, confirmada pela rápida expansão nas lavouras de soja do Rio Grande do Sul, na safra 2013/14 (Guedes et al., 2013). Embora hospedadas por várias espécies vegetais, nesta safra a soja foi a cultura agrícola mais atacada por H. armigera no Sul do Brasil. As plantas de soja emitem sinais físicos e voláteis que atraem o inseto adulto, embora os fatores nutricionais do substrato alimentar determine o consumo, desenvolvimento e sobrevivência dos estágios larvais e adultos da próxima geração.
As fêmeas de H. armigera são atraídas por culturas que possuem substâncias adocicadas e néctar nas flores. Segundo Blaney e Simmonds (1990) os adultos percebem variações dos voláteis emitidos pelas plantas, para determinar o estágio de crescimento das mesmas e dessa forma a sua suscetibilidade. Na soja, o período de florescimento é considerado mais atrativo para oviposição de H. armigera, dando suporte às larvas, que terão flores e legumes para se alimentar. Em contrapartida, após o enchimento de grãos e grãos secos a soja diminui a atratividade para oviposição, resultando em baixa probabilidade de reinfestação da cultura após grãos cheios (Rogers & Brier, 2010a).
Os relatos de culturas atacadas no Brasil passam de 13 espécies, dentre elas, algodão, soja, milho, tomate, feijão, sorgo, milheto, guandu, trigo, crotalária, girassol, frutíferas, hortaliças, bem como algumas plantas daninhas (Ávila et al., 2013). A polifagia desta praga é outra característica comportamental que põe em alerta a agricultura brasileira. A capacidade polífaga está relacionada à quantidade e à diversidade de proteinases presentes no seu aparelho digestivo (Patankar et al., 2001).
Durante os estágios larvais de H. armigera, os níveis de proteinases no aparelho digestivo se alteram, explicando as diferentes estruturas vegetativas ou reprodutivas consumidas na alimentação. Segundo Patankar et al (2001) o primeiro e o sexto ínstar de H. armigera apresentam baixa atividade de proteinases, ocorrendo aumento a partir do segundo e chegando ao pico no quinto ínstar (Figura 1). Isso explica o comportamento alimentar da praga, que as lagartas de primeiros ínstares se alimentam de folhas e as lagartas maiores preferem botões florais, sementes ou outras partes reprodutivas.
Figura 1. Atividade relativa de proteinases no aparelho digestivo de H. armigera durante os estágios de desenvolvimento larval. (Adaptado de Patankar et al., 2001).
Na soja os danos de H. armigera ocorrem desde a emergência das plantas, quando ataca os cotilédones e secciona as plantas sob ou sobre os cotilédones. A partir do estágio V3 a lagarta se comporta como desfolhadora e ataca o broto terminal. No período reprodutivo se alimenta tanto do botão floral quanto dos grãos, fazendo uma pequena abertura circular no legume, justamente sobre o grão onde se alimenta (Figura 2C). Outra lagarta do mesmo gênero, a Helicoverpa gelotopoeon, que ocorre na Argentina e também está presente no sul do Brasil, consome de 8 a 15 grãos de soja, durante os dois últimos estágios larvais, demonstrando o grande potencial daninho (Igarzábal, 2008).
Com o surgimento das estruturas reprodutivas na planta de soja a sua alimentação concentra-se em botões florais e legumes, tanto no caule principal quanto nos ramos axilares da planta, conforme as razões discutidas por Patankar et al., 2001. Como especialmente nas cultivares de hábito de crescimento indeterminado, ocorrem flores por muito tempo, o problema se torna mais sério, porque os botões florais e legumes possuem mais água e nitrogênio do que as folhas. O resultado são lagartas mais saudáveis com crescimento rápido e provavelmente mais difíceis de controlar.
Um fator importante observado nas pesquisas de campo do LabMIP-UFSM é referente a dificuldade de visualizar as injúrias causadas na folhas de soja pela H. armigera. Devido à alimentação ser diretamente nos botões florais e nos legumes, as folhas da soja apresentam-se intactas ou com poucos danos, pressupondo-se que a lavoura está sem a ocorrência de lagartas (Figura 2A). Sendo assim, o monitoramento com batida-de-pano e principalmente a observação dos botões florais e legumes das plantas de soja tornam-se fundamentais para a detecção da H. armigera. Nas lavouras observadas pelo LabMIP, a desfolha na soja é ocasionada por lagartas falsa-medideiras.
Figura 2. Vista da soja com pouca desfolha (A), ataque de flores (B) e legumes danificados por H. armigera (C). Fotos: (2A) Clérison Régis Perini; (2B) Jonas André Arnemann; (2C) Cristiano De Carli
Monitoramento de Helicoverpa armigera
O monitoramento das populações de H. armigera é um procedimento chave para o sucesso do manejo dessa praga. O acompanhamento da evolução populacional da praga, ao longo do ciclo das culturas e entre os cultivos agrícolas deve considerar os estágios de ovo, larva, pupa e adultos. O monitoramento das mariposas (adultos) é o recurso primário, mais precoce e possivelmente um dos mais eficientes, entretanto, a necessidade de uma ampla e eficiente distribuição das armadilhas, a verificação sistemática das armadilhas e os fatores ambientais estão correlacionados com a captura da espécie e podem influenciar na eficiência do método.
Os adultos podem ser monitorados por armadilhas luminosas que capturam machos e fêmeas, ou com armadilhas com o feromônio sexual (Projeto LabMIP-UFSM e NUFARM Monitora safra 2013/14) que capturam somente machos exclusivamente desta espécie. Com a captura das mariposas em armadilhas de feromônio e identificação positiva para H. armigera, significa que nestas áreas podem ocorrer acasalamentos e em seguida posturas pela população indicada nas armadilhas.
No Projeto do LabMIP-UFSM e da NUFARM Monitora - safra 2013/14, as armadilhas do tipo delta iscadas com feromônio sexual Iscalure armigera® ((Z)-9-hexadecenal (Z90C16Ald; (Z)-9-tetradecenal (Z9-C14Ald); (Z)-11-C16Ald), foram colocadas em áreas de soja de 47 municípios do Rio Grande do Sul. Em cada município foi escolhido aleatoriamente uma lavoura de soja e foi montada estrutura de madeira visando suportar a armadilha de feromônio sexual (Figura 3).
Figura 3. Armadilha de feromônio sexual em lavoura soja no Rio Grande do Sul, safra 2013/14. Projeto NUFARM Monitora/LabMIP-UFSM. Foto: Jerson Vanderlei Carús Guedes
As armadilhas permaneceram no campo a partir de novembro de 2013 a fevereiro de 2014 e foram amostrados adultos de H. armigera em 32 dos 47 locais monitorados (Figura 4). Dos insetos coletados nestes locais, os machos adultos foram dissecados no LabMIP-UFSM e pela genitália foi possível confirmar a ocorrência de H. armigera. As amostras positivas para H. armigera foram de todas as regiões produtoras de soja do Rio Grande do Sul, indicando sua distribuição em todo o estado. Esta ampla distribuição localizada trouxe muitas implicações, especialmente para o controle da praga, seu custo e impacto ambiental, além dos riscos à sojicultora gaúcha.
Figura 4. Mapa de distribuição de adultos nos 32 locais amostrados com Helicoverpa armigera. Santa Maria, 2014. Projeto NUFARM Monitora/LabMIP-UFSM.
Além do monitoramento de adultos com armadilhas, é necessária a verificação minuciosa das folhas e de toda a planta de soja desde o início do desenvolvimento da soja até o final do ciclo, pelo menos duas vezes na semana, para a contagem e identificação de ovos e lagartas presentes para posterior definição da estratégia de manejo.
O LabMIP-UFSM recomenda o monitoramento da praga de formas distintas ao longo do ciclo da soja:
V1 – V3 vistoriar 2,0 m de fileira de soja (Figura 5) (1,0 m2), examinar minuciosamente as folhas e brotos, contando ovos e lagartas;
V4 – Vn fazer batida de pano tradicional (Figura 6) em 2,0 m de fileira de soja (1,0 m2) e vistoriar minuciosamente as folhas e brotos, contando ovos e lagartas, especialmente nos terços médio e superior da planta;
R1 – R4 fazer batida de pano vertical (Figura 7) em 2,0 m de fileira de soja (1,0 m2) e vistoriar minuciosamente as folhas, brotos, flores e legumes, contando lagartas, especialmente nos terços médio e superior da planta;
R5 – R7 fazer batida de pano vertical (Figura 7) 2,0 m de fileira de soja (1,0 m2) e vistoriar minuciosamente os legumes, contando lagartas, especialmente nos terços médio e superior da planta.
Figura 5. Monitoramento de V1 a V3 em soja. Foto: Jonas André Arnemann
Figura 6. Monitoramento entre V4 a Vn com batida de pano tradicional e vistoria minuciosa das folhas e brotos das plantas de soja. Fotos: Jonas André Arnemann
Figura 7. Batida de pano vertical em fileira de soja entre o estádio R1 e R7 das plantas de soja. Foto: Jonas André Arnemann
Estas distintas modalidades de monitoramento são propostas em função da fenologia da cultura, da área foliar da soja, da fase reprodutiva e da formação de legumes. Cada amostragem deve repetir-se em diversos pontos da lavoura de soja, de modo a representar os diferentes talhões e também as diferenças do manejo ali aplicado, permitindo uma visão geral da resposta de H. armigera ao ambiente e ao manejo praticado na safra. Também esta separação em modalidades/formas de monitoramento deve anteceder especialmente os momentos tradicionais de pulverização da soja, seja para plantas daninhas e/ou para doenças. Por muito tempo estes problemas fitossanitários foram prioritários, entretanto, agora é necessário dar prioridade à praga que traz mais risco à lavoura de soja, ajustando o momento das pulverizações.
Para as lagartas, considerando as dificuldades de identificação em campo, essas devem ser coletadas, separadas por grupos (Anticarsia gemmatalis, Plusiinae, Spodoptera spp. e Heliothinae) e quantificadas visando decidir o manejo a ser adotado.
Níveis de controle de Helicoverpa armigera em soja
Os estudos para definir o Nível de Dano Econômico (NDE) e em consequência os Níveis de Controle (NCs) para H. armigera em soja encontram-se ainda em curso, e para serem estabelecidos no Brasil, será necessário muito trabalho e discussão. Com base na experiência de outros países como a Austrália, para H. armigera, e a Argentina, para H. gelotopoeon, e como ambas as espécies atacam frutos e grãos, é possível estimar que o NDE e os NCs serão muito baixos (poucas lagartas/m2), devido à agressividade da praga (Igarzábal, 2008; Rogers e Brier, 2010a). Além disso, os Níveis de Controle devem ser flexíveis, seja ao longo do ciclo da soja, ou para os diversos locais e/ou regiões de cultivo, por considerar o custo dos tratamentos e o valor da produção de soja, que é muito variável (Guedes et al., 2012).
H. armigera apresenta comportamento complexo, pois além de atacar mais de um órgão da planta, sua necessidade energética, movimentação e principalmente ciclo e número de descendentes, varia de acordo com a qualidade do alimento e com amplitude térmica que é submetida (Jiang e Zhang, 1998; Naseri et al., 2009). Com isso há uma grande oscilação nos dados e em consequência no NDE, obtido a partir das estimativas dos experimentos de campo.
Variação nos Níveis de Controle (NCs) ocorrem para outras pragas da soja, e para H. armigera em especial, a planta de soja apresenta uma reação pequena à injúria causada por 1 a 2 lagartas pequenas por m2, porém quando aumenta a densidade de lagartas ou o seu tamanho e consumo de estruturas da planta, ocorre elevação da injúria com reduções muito acentuadas no rendimento de grãos (Igarzábal, 2008; Rogers e Brier, 2010a; Rogers e Brier, 2010b). Devido à complexidade dos danos da praga, nenhuma curva matemática descreve bem esse comportamento em soja na pré-floração e floração em estudos de Rogers e Brier (2010a).
As severas perdas causadas pelo ataque de H. armigera ao rendimento da soja se devem ao consumo de flores, gemas terminais e axilares, além de legumes. No estádio vegetativo, os danos de H. armigera não impactam no tamanho das sementes de soja, porém quando o ataque ocorre durante a formação e enchimento de legumes, esse parâmetro é muito afetado. O número de sementes/legume cai significativamente com os danos desta praga (Rogers e Brier, 2010a).
Determinada a densidade e a distribuição populacional de H. armigera na lavoura, o passo seguinte é a tomada de decisão, com base nos níveis de dano econômico (NDE) e níveis de controle (NC), no entanto, os trabalhos que embasam o seu cálculo e estimam o NC de H. armigera em soja ainda são raros. O NDE refere-se à densidade populacional de um inseto que causa perda econômica igual ao custo de controle. Já o NC é a densidade populacional em que as medidas de controle devem ser tomadas, para evitar um aumento da população da praga que poderá alcançar o nível de dano econômico (Pedigo et al., 1986).
A densidade de uma lagarta de H. armigera por m2 (alimentando-se desde estádio Larva 1 até Larva 6) consome 3,2 gramas de soja (Rogers e Brier, 2010a). Com base nesse valor, a Tabela 1 apresenta a variação dos Níveis de Dano Econômico para a cultura da soja entre os estádios de formação de legumes e enchimento de grãos (R3 – R7) utilizando diferentes custos de controle (inseticidas + aplicação) e valores recebidos pela saca de soja. A adoção de Níveis de Controle para iniciar a ação de controle, deve estar baseada na situação local/regional, no produtor de soja, na expectativa de produção de sua lavoura, no custo do controle e preço a ser recebido pela saca de soja (Guedes et al., 2012).
Tabela 1. Estimativas dos Níveis de Dano Econômico de Helicoverpa armigera na cultura da soja nos estádios de formação de legumes e enchimento de grãos, com a variação no custo de controle e no valor da saca de soja, utilizando um inseticida com eficiência de controle de 90%. Santa Maria, 2014.
Por exemplo, para um produtor com custo de controle (inseticida + serviço) de R$ 40,00/ha e que recebe R$ 60,00 pela saca de soja, utilizando um inseticida com 90% de eficiência de controle, o Nível de Dano Econômico é de 1,13 lagartas de H. armigera/m2. Desse modo, o Nível de Controle ou de Ação a ser adotado nesse caso, deve ser menor que 1,13 lagartas de H. armigera/m2. É essencial ressaltar que para obter os valores da Tabela 1, se utilizou como pressuposto a aplicação de inseticidas com ação rápida, pois em caso de se utilizar biocontroladores (vírus e Bacillus thuringiensis), o cenário se altera e os níveis de ação a serem utilizados devem ser reavaliados, devendo a Ação iniciar mais precocemente (menor população da praga).
Na Tabela 2 encontra-se um resumo dos valores de Nível de Controle divulgados por diferentes fontes de pesquisa. A forma pela qual cada pesquisador chegou aos valores abaixo listados não está clara nos trabalhos citados. Entretanto é possível verificar que, embora produzidos com total independência, tanto a forma de dividir as fases mais vulneráveis da cultura da soja, quanto os valores dos níveis de controle, são muito similares entre as publicações de Czepak et al (2013) e Guedes et al (2013), além de serem mais seguros na proteção da lavoura do produtor de soja. No caso dos valores adotados por Guedes et al (2013), tratou-se de uma medida de precaução até o desenvolvimento dos estudos para a soja brasileira, dos quais muitos já se encontram em andamento, sob coordenação do LabMIP-UFSM.
Tabela 2. Níveis de Controle para Helicoverpa armigera para as fases da cultura da soja conforme diferentes fontes de pesquisa.
Manejo de Helicoverpa armigera
O manejo das populações de H. armigera trouxe diversos desafios ao sojicultor brasileiro, especialmente em relação ao controle químico, plantas Bt e controle biológico dessa praga. Essa nova realidade fez com que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tomasse medidas emergenciais, como a autorização de uso de novos inseticidas visando o controle de H. armigera.
Dentre os produtos liberados, encontram-se inseticidas biológicos à base de Bacillus thuringiensis e à base de baculovirus sp., indicando que estas modalidades de controle necessitam de um amplo estudo avaliando o efeito destes inseticidas sobre as populações de H. armigera no Brasil. Além disso, no primeiro momento, as cultivares de soja Bt, mostraram controle efetivo de H. armigera, em que pese não ter havido uma grande pressão de seleção para o desenvolvimento de resistência. Também se verificou a ocorrência do controle biológico natural, que necessita ter seu potencial de controle avaliado para esta praga. Jadhav e Armes (2013) citam que moscas da família Tachinidae podem ser utilizadas no controle dessa praga.
No que tange os produtos químicos, a falta de informações sobre o comportamento dos inseticidas registrados e dos novos inseticidas, para o controle dessa praga é um dos principais desafios, pois os estudos no Brasil ainda se encontram em fase de desenvolvimento. Como parâmetro, pode-se usar os resultados de outros países, entre eles, estão os trabalhos realizados por Tariq et al (2005) no Paquistão; Brévault et al (2009) na França; Kay (2007) e Leven et al (2011), na Austrália, entre outros.
Esses estudos mostram que os ingredientes ativos espinosade, indoxacarb, emamectina, clorantraniliprole, flubendiamida, acefato, metomil, metoxifenozida e clorfenapir, nas doses relatadas na Tabela 3, tem apresentado eficiência no controle de H. armigera, em bioensaios, principalmente na cultura do algodão, mas esses dados ainda servem apenas de parâmetro, pois as doses em soja podem ser, em alguns casos, mais baixas ou mais elevadas, de acordo com o produto. Na presente safra ensaios de eficiência de controle de inseticidas em soja estão sendo realizados em campo e laboratório pelo LabMIP-UFSM, com os principais inseticidas comercializados e com registro especial temporário para essa praga.
Tabela 3. Inseticidas e doses usadas para o controle de Helicoverpa armigera em bioensaios e outras culturas, em diversos países do mundo. Santa Maria, 2014.
A resistência de H. armigera a alguns grupos de inseticidas, como por exemplo, os piretróides, foi relatada por Yang et al (2013), que demonstraram que na China, essa praga possui um elevado grau de frequência de resistência a esse grupo químico. Já na Austrália foram relatados casos com média frequência de resistência aos inseticidas do grupo dos carbamatos (Leven et al., 2011).
Um dos pontos mais importantes com relação ao controle químico de H. armigera é a tecnologia de aplicação. Como essa espécie-praga ocorre desde muito cedo nas lavouras de soja (V1) até estágios finais de enchimento de grão (R6), os parâmetros da pulverização não podem ser os mesmos, devido às diferenças de área foliar das plantas. Em um primeiro momento (V1 - V3), o principal fator limitante é a pequena área foliar da cultura e o rápido crescimento da planta, o que pode afetar a eficiência de algumas pulverizações, por exemplo, aquelas utilizando inseticidas reguladores de crescimento e outros produtos que necessitam ser depositados e ingeridos para ter efeito sobre a praga. O segundo momento (V4 - Vn) que pode ser considerado como um dos mais importantes momentos de controle dessa praga, visando impedir um estabelecimento e crescimento da população, antes do fechamento da entre linha da cultura. Deve-se nesse momento fazer aplicações com condições ambientais favoráveis.
Por fim, as aplicações de inseticidas realizadas depois do florescimento até o período final do enchimento de grãos (R1 - R7) necessitam uma eficiente cobertura de gotas, principalmente porque após o aparecimento de legumes a praga passa a atacar preferencialmente essas estruturas, nesse caso, a utilização de adjuvantes melhora a eficiência dos inseticidas (Arrué Melo, 2012). Para que o controle seja eficaz durante o ciclo da cultura, é necessário ajustar o volume de calda, especialmente nas associações com herbicidas ou fungicidas, buscar uma melhor cobertura do dossel foliar e aplicações em horários adequados.
Considerações finais
As implicações da recente invasão de H. armigera para a agricultura brasileira são potencialmente graves, principalmente devido a sua história de rápida evolução da resistência a inseticidas, e a presença de potenciais cultivos hospedeiros durante todo o ano. Além disso, o monitoramento da resistência de pragas a inseticidas e variedades Bt por pesquisadores independentes dos fornecedores de tecnologia estão apenas iniciando no Brasil e não existe uma estratégia coordenada formal para o manejo da resistência aos inseticidas. Uma vez que muitas populações de H. armigera ao redor do mundo desenvolveram resistência a pesticidas convencionais, é possível que as populações invasoras aqui do Brasil se originem de indivíduos com composição genética que os predispõe ao desenvolvimento de resistência aos inseticidas.
O impacto da invasão e da ampla distribuição da H. armigera pode trazer muitos prejuízos econômicos, ambientais e sociais, como a própria sustentabilidade da cultura da soja no Brasil. Este sério problema, porém pode permitir o desenvolvimento de novas práticas e novas tecnologias, com o aperfeiçoamento do manejo de pragas da soja e de outras culturas. Dentre os registros importantes e indispensáveis na primeira safra com a ocorrência de H. armigera, está a convicção que não haverá soluções milagrosas e aplicáveis a toda a sojicultora brasileira, oriundas da soberba científica, da pressa ou da imprudência. As soluções eficazes e duradouras para o problema de H. armigera virão do trabalho coletivo das Instituições de pesquisa, da indústria e da colaboração do produtor brasileiro.
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Artigo publicado na edição conjunta 137-138, da Revista Plantio Direto, setembro a dezembro de 2013.