Qualidade, desempenho e responsabilidade: estratégias para o futuro
Ulisses Rocha AntuniassiProf. Dr. FCA/UNESP - Botucatu/SP - ulisses@fca.unesp.br
Em busca do sucesso na aplicação
O avanço da agricultura brasileira em direção aos modelos de produção sustentáveis tem incentivado a adoção de novas tecnologias, assim como a evolução de processos tradicionais, num caminho cujo referencial é a busca pela viabilidade econômica dentro de um contexto de redução de impactos para o ambiente e para os seres vivos. A cada dia novas pesquisas e descobertas tecnológicas trazem para o processo de produção agrícola um arsenal de métodos de trabalho, produtos e equipamentos de maior eficiência e menor impacto, colaborando para tornar mais sustentável o trabalho no meio rural.
O tratamento fitossanitário a partir da aplicação de defensivos depende de maneira direta de pelo menos três fatores: a escolha dos produtos corretos, a determinação do melhor momento para a aplicação e a acerto da tecnologia de aplicação. Neste sentido, o sucesso da operação de pulverização depende de diversos fatores, mas uma questão que se apresenta de maneira unânime entre os especialistas no assunto é a necessidade da adequação da tecnologia de aplicação às condições climáticas.
Outro fator importante é o estudo da logística da aplicação para que o dimensionamento dos pulverizadores (terrestres e aéreos) seja adequado frente à quantidade de área a ser tratada. Diversos estudos de caso têm mostrado que a inadequação deste fator frequentemente leva a pulverização a ser realizada em situações extremas (velocidade excessiva, volumes de calda extremamente baixos e aplicações em condições climáticas inadequadas), expondo o sistema a maiores probabilidades de erro. É necessário, portanto, que o dimensionamento do parque de máquinas seja adequado para que evite a aplicação nestas situações de risco excessivo. A gestão profissionalizada da contratação de serviços de terceiros é uma das maneiras de minimizar o problema, tornando possível explorar o melhor das duas filosofias de disponibilização de equipamentos: máquinas próprias e prestadores de serviços Um exemplo disto pode ser a correta convivência de pulverizadores terrestres próprios com a aplicação aérea contratada. Por fim, é importante reconhecer que em muitas empresas agrícolas falta conscientização para a importância do papel do aplicador no sucesso do sistema de produção.
Capacitação, habilitação e profissionalismo
Do ponto de vista prático, um fator importante que auxilia na busca da melhor qualidade nas aplicações é a capacitação tecnológica de operadores e técnicos. É crescente o número de equipamentos com elevado grau de tecnologia embarcada e, por isso, é cada vez mais importante que os operadores estejam plenamente capacitados para explorar as vantagens destas novas tecnologias. Ainda, é preciso que estes operadores entendam a tecnologia de aplicação, não sendo apenas ”tratoristas de pulverizador”. Muitas decisões importantes são tomadas a cada momento durante uma aplicação e, por esta razão, é crescente o número de empresas agrícolas (aquelas com maior grau de profissionalização) que estão adotando o requisito de nível médio para a função de aplicador de defensivos. A contratação de técnicos para operar pulverizadores pode parecer a princípio um excesso de zelo, com consequente aumento de custos em salários. Entretanto, é sempre importante relembrar que a aplicação é o desfecho de uma das maiores parcelas do custo de produção (o investimento nos defensivos!), e esta tem que ser uma das operações mais bem cuidadas para que se possa garantir o sucesso deste investimento.
Em boa parte dos mercados agrícolas mais desenvolvidos do mundo a aplicação de defensivos somente pode ser realizada por operadores habilitados, a exemplo do que já ocorre na aviação agrícola no Brasil. É peculiar a situação brasileira: enquanto as empresas de aplicação aérea têm que possuir em seus quadros diversos tipo de profissionais habilitados oficialmente para a realização das operações (com intensa fiscalização dos órgãos competentes), as aplicações terrestres são realizadas nas fazendas sem que haja qualquer tipo de fiscalização ou exigência de habilitação de operadores. Países como a Inglaterra, por exemplo, possuem um sistema completo de capacitação para o pessoal de campo que lida com defensivos, havendo uma licença para cada tipo de atividade, desde os operadores que simplesmente misturam calda até aqueles altamente qualificados que operam grandes máquinas propelidas. O sistema é similar ao que acontece na carteira de habilitação de motorista no Brasil, onde há diferentes classes em função dos diferentes graus de dificuldade ou responsabilidade no trabalho executado. É por isso que nós, condutores amadores, não podemos sair por aí dirigindo carretas de nove eixos cheias de combustível. Da mesma maneira, o Brasil precisa evoluir para que seja implementado o quanto antes um sistema oficial de habilitação para aplicadores de defensivos.
Por fim, é importante reconhecer que em muitas empresas agrícolas falta conscientização para a importância do papel do aplicador no sucesso do sistema de produção. O investimento nos defensivos tem crescido a cada ano, assim como o custo dos equipamentos de aplicação. É fundamental, portanto, que as políticas de salários e de disponibilização de oportunidades de qualificação sejam encaradas de maneira profissional, para que possamos de maneira justa exigir de operadores e técnicos o desempenho correto no que se refere à boa execução das operações de pulverização. Ainda, o empresário agrícola precisa acreditar no retorno dos investimentos em tecnologia de aplicação, deixando de entender que a tecnologia de aplicação é apenas um custo, e passando a encará-la como um importante investimento para a garantia de bons resultados no processo produtivo.
A capacitação de operadores e técnicos nos aspectos básicos e avançados da tecnologia de aplicação é um dos fatores mais importantes na gestão correta das operações de pulverização. O operador do pulverizador não pode ser encarado como mais um ”tratorista”, assim como nem todos os pilotos de aeronaves podem operar aviões agrícolas. A aplicação de defensivos é uma atividade muito dinâmica, onde as decisões são tomadas a cada instante, e a motivação e capacitação de operadores e técnicos é uma ferramenta fundamental para o sucesso do sistema. Por fim, é importante que o empresário rural acredite no retorno do investimento em tecnologia de aplicação, visto que nos modelos de trabalho onde isto ocorre os recursos empregados nesta atividade deixam de ser simplesmente ”custos” e passa a ser ”investimentos”, colaborando decisivamente para o sucesso do tratamento fitossanitário.
Desempenho operacional e tecnologia de aplicação
Dimensionamento de pulverizadores
O adequado dimensionamento do parque de pulverizadores frente ao tamanho da área que será objeto da pulverização é um dos pontos de maior importância para a garantia de melhores resultados no que se refere à tecnologia de aplicação é. As questões de dimensionamento têm sido relegadas ao segundo plano e, por muitas vezes, este fator é determinante para o insucesso. Uma frota subdimensionada, tanto de pulverizadores terrestres como de aeronaves agrícolas pode ser a causa (ou desculpa) para a realização de operações em condições climáticas inadequadas, assim como pela decisão de se realizar operações com excesso de velocidade, volumes de calda extremamente baixos e/ou faixas de aplicação acima dos valores usuais nas aplicações aéreas. Estas atitudes podem expor desnecessariamente o processo de controle fitossanitário a uma maior probabilidade de erro. É, portanto, imperativo que o adequado dimensionamento da frota seja um dos primeiro objetivos dos responsáveis pela definição do manejo da tecnologia de aplicação.
O mercado de pulverizadores autopropelidos de alto desempenho operacional foi o segmento que mais cresceu no que se refere a equipamentos de pulverização. Apesar da venda de aeronaves agrícolas para empresas prestadoras de serviços e particulares continuar a crescer e se consolidar, nos últimos anos os agricultores e as grandes empresas de produção agrícola fizeram investimentos pesados na aquisição de pulverizadores autopropelidos de grande porte, visando ganhar em escala na questão de disponibilidade de pulverizadores no campo e no próprio desempenho operacional dos equipamentos. Esse processo vem sendo seguido de uma crescente demanda de pacotes tecnológicos que contemplem a aplicação com volumes de calda reduzidos e elevada velocidade operacional.
A escolha do pacote tecnológico pressupõe o correto manejo das técnicas frente aos desafios inerentes às fronteiras tecnológicas. Aplicações em situações extremas tendem a ser mais difíceis de administrar, exigindo o mais alto grau de comprometimento e capacitação. Neste conceito se encaixam as aplicações em baixo volume (tanto as aéreas como as terrestres) e as aplicações com pulverizadores autopropelidos em alta velocidade. Portanto, a adoção de aplicações em situações extremas de alto desempenho operacional deve ser precedida de um extenso programa de capacitação e treinamento de operadores e técnicos, de forma que se possa usufruir deste tipo de tecnologia com segurança para a lavoura e o ambiente.
Velocidade de aplicação
No que se refere à velocidade de aplicação nos pulverizadores terrestres, o grande desafio é o manejo das irregularidades causadas pela oscilação das barras durante a aplicação. Apesar dos equipamentos mais modernos possuírem sistemas ativos de controle da movimentação vertical das barras, oscilações verticais e horizontais nas barras acontecem mesmo nesses equipamentos mais modernos, causando irregularidades importantes na deposição dos produtos.
O movimento das barras não acontece apenas no plano vertical, alvo da maioria dos sistemas ativos de controle da oscilação de barras. Durante as aplicações acontecem variações de posição da barra tanto no plano vertical (para cima e para baixo) como no plano horizontal (para frente e para trás). Enquanto as variações de posição no plano vertical são parcialmente resolvidas pelos sistemas de controle, as variações horizontais são muito mais difíceis de compensar ou controlar, causando irregularidades importantes na deposição dos produtos na faixa aplicada. Durante o movimento de uma barra para frente ocorre nas pontas uma velocidade de deslocamento maior do que a prevista pelo controlador da pulverização, ocasionando uma dose aplicada menor do que a prevista. No caso oposto, uma barra oscilando para trás infere às pontas uma velocidade menor do que a prevista, resultados em áreas com dose maior do que o necessário. Somando-se as variações instantâneas da altura da barra, o resultante desse processo é uma grande variabilidade das doses pontuais no campo, induzindo problemas de fitotoxicidade ou deficiência de controle.
Um cuidado importante nesse processo de pulverização em velocidades elevadas é com a altura da pulverização. Operadores tendem a elevar a posição das barras para as aplicações com maior velocidade, visando evitar o choque com o solo ou com a cultura, devido às oscilações. E este processo acaba por induzir um maior risco de deriva nas aplicações.
A questão da calibração da pressão de trabalho em função da velocidade prevista para a aplicação também deve ser encarada como fundamental para viabilizar o trabalho em velocidades elevadas. É frequente a calibração do pulverizador para situações de velocidade intermediária, sendo que o operador aumenta a velocidade apenas em alguns pontos de melhor situação operacional no campo. É importante relembrar, neste caso, de que o aumento da velocidade ocasiona aumento na pressão de trabalho numa proporção quadrática (dobrar a vazão das pontas vai requerer um aumento da pressão em quatro vezes, por exemplo). O controlador precisa fazer isso para manter o volume de calda constante frente ao aumento da velocidade. E nesse processo aumento da pressão ocasiona redução do tamanho das gotas, elevando ainda mais o risco de deriva.
Volume de aplicação
Outro elemento que faz parte da equação para aumento da capacidade operacional dos pulverizadores terrestres e aéreos é a redução do volume de aplicação. Nos últimos anos houve uma grande demanda pelo desenvolvimento de tecnologias capazes de oferecer qualidade de aplicação com o uso de reduzida taxa de aplicação (menores volumes de calda). Apesar de este processo ser mais antigo na aplicação aérea, onde os sistemas de produção no Brasil já se beneficiam de aplicações com volumes inferiores a 20 L/ha a muitos anos, a evolução tecnológica da aplicação terrestre também ajudou a difundir a cultura de aplicações em baixo volume para os pulverizadores de barras, notadamente para os autopropelidos, onde é frequente o uso de aplicações com volumes iguais ou menores do que 50 L/ha.
As aplicações em baixo volume são viáveis tecnologicamente, mas são muito mais exigentes em termos de capacitação profissional para ser realizada. Costuma-se dizer que a aplicação em baixo volume é uma filosofia de trabalho que precisa ser aprendida, sendo muito arriscada se empregada apenas como receita momentânea. Os aspectos da relação da tecnologia de aplicação com as condições climáticas, com os parâmetros operacionais, com a tecnologia de formulações, com os adjuvantes e com os próprios produtos fitossanitários tornam-se extremamente críticos à medida que o volume vai sendo reduzido, exigindo extremo cuidado por parte do técnico responsável. Quanto menor o volume de calda, maior a velocidade e mais críticas forem as condições climáticas, maiores as chances de erro, elevando a probabilidade de insucesso do tratamento fitossanitário. Somam-se a esse processo, ainda, os maiores riscos de perdas e deriva, que trazem à equação de solução do sistema toda a problemática ambiental inerente ao processo.
Por todas estas razões, é extremamente importante que a necessidade de maiores capacidades operacionais não seja desculpa para o descuido com a qualidade e a segurança das aplicações. Esta é uma necessidade que está relacionada fundamentalmente com a sustentabilidade do processo de produção agrícola.
Terceirização de serviços de aplicação
A terceirização de serviços deveria ser encarada como uma tendência para o mercado de aplicação de defensivos nas grandes áreas de produção. Países com agricultura similar à do Brasil (produção de grãos em larga escala, como os EUA e a Argentina, por exemplo), possuem um mercado tradicional para as empresas prestadoras de serviços de aplicação. Nestes países, os sistemas de ”venda aplicada” ou ”venda de área controlada” no mercado de defensivos têm um público cativo, configurando-se como opção segura de gestão de pragas, doenças e plantas daninhas. Apesar desses exemplos tão próximos, a terceirização de serviços de aplicação no Brasil ainda sofre dificuldades em se posicionar como atividade cotidiana. São vários os aspectos que devem ser observados para entender esse processo, mas alguns fatores merecem especial destaque: a dinâmica de ocorrência de pragas e doenças e a estruturação de trabalho dos prestadores de serviço.
Países com agricultura mais distante das regiões tropicais e equatoriais possuem clima mais ameno e inverno mais rigoroso, o que favorece o manejo fitossanitário. Nestes locais a necessidade de aplicações se torna menor, facilitando o planejamento das aplicações. E este fator se torna primordial na viabilidade da aplicação terceirizada. No que se referem à estruturação dos serviços, países como os EUA e a Argentina possuem empresas que trabalham exclusivamente na prestação de serviços de mecanização agrícola (notadamente pulverização e colheita), enquanto no Brasil esse mercado é incipiente. Ainda, na maioria dos casos a terceirização no Brasil é feita por agricultores que disponibilizam as horas excedentes de suas máquinas após o término das atividades em suas áreas próprias. Se este sistema se adequa bem ao caso da colheita, dependendo apenas de um bom planejamento das épocas de plantio e do ciclo da cultura, no caso da pulverização isso se torna muito mais difícil, dada a imprevisibilidade dos picos de necessidade dos equipamentos de aplicação. Por esta razão, os agricultores acabam por desejar ter suas máquinas próprias, e este processo tem levado ao crescimento vertiginoso nas vendas de pulverizadores autopropelidos e aeronaves agrícolas, minando a viabilidade de empresas exclusivas de prestação de serviços.
Independente desse processo, a disponibilização de equipamentos de alto desempenho operacional, com alto custo de aquisição, é uma das razões para o aumento recente no número de empresas prestadoras de serviços. No caso da pulverização, o mercado de aviação agrícola já é tradicionalmente dominado pelas empresas que terceirizam as aplicações. Em alguns segmentos do agronegócio vem crescendo também o número de empresas que prestam serviços de aplicação com máquinas terrestres, e esta tendência deve ser cuidadosamente acompanhada pelos gestores agrícolas.
Em todos os mercados onde a terceirização é encarada de maneira profissionalizada o resultado tende a ser positivo. Portanto, cabe ao gestor das atividades de controle fitossanitário uma atenção especial ao potencial de se explorar adequadamente os equipamentos de aplicação próprios e terceirizados. São muitos os exemplos, notadamente em empresas agrícolas de grande porte, do uso conjunto de máquinas próprias e de terceiros com sucesso na exploração do melhor potencial de ambas as opções. Para que isso ocorra, é necessário maior investimento no acompanhamento das operações a campo, com efetiva interação entre os técnicos responsáveis pela definição de estratégias de controle fitossanitário com aqueles responsáveis pelo serviço de aplicação. Não basta, neste caso, apenas contratar o serviço e ”entregar” de maneira simples os defensivos aos aplicadores terceirizados, esperando que estes se responsabilizem por todo o processo de aplicação. É preciso, sobretudo, que um técnico responsável representando o contratante esteja presente nas aplicações, tomando de maneira conjunta as decisões operacionais e garantindo que as aplicações sejam realizadas com as especificações e nas condições em que o serviço foi combinado.
Sustentabilidade da tecnologia de aplicação de defensivos
Apesar de fundamentais na produção agrícola de larga escala, os produtos fitossanitários oferecem riscos para o ambiente, sendo necessário evitar o potencial de danos à saúde humana, animal e aos recursos naturais. Parte dos produtos aplicados é perdida para o ambiente pela deriva, que é a fração dos ingredientes ativos que não atingem o alvo devido ao carregamento das gotas, evaporação e outros processos. Além do dano direto, a grande preocupação mundial é com os efeitos que a deriva pode provocar pela dinâmica destes compostos no ambiente. É por conta desse processo que diversos países estudam atualmente a instalação de áreas de proteção para cursos d’água, zonas habitadas, áreas de proteção ambiental, entre outras ações. Ainda, países estão desenvolvendo sistemas de classificação e certificação dos métodos de aplicação com relação ao seu potencial de deriva, assim como modelos para o estudo da dinâmica dos produtos fitossanitários no ambiente. Este é o maior desafio futura da agricultura moderna, produtiva e segura.
O cenário atual do agronegócio brasileiro tem se mostrado favorável à consolidação de restrições ao uso de certos produtos fitossanitários e de técnicas de aplicação específicas. Infelizmente, parte desse processo deve-se à falta de sintonia entre os órgãos normativos e a academia (universidades e centros de pesquisa), pois em muitos casos observa-se desconhecimento das autoridades sobre as características específicas das diferentes técnicas de aplicação. Soma-se a este cenário uma avalanche de ”especialistas” em aplicação de defensivos que vem opinando de maneira errônea sobre temas de relevância em jornais e revistas, sem o devido embasamento técnico, gerando insegurança na sociedade e ocasionando reação negativa da opinião pública quanto ao uso produtos fitossanitários. Este processo causa prejuízos relevantes ao agronegócio, e deve ser veementemente combatido. Por outro lado, os muitos erros cometidos no passado, com os inúmeros casos de deriva, contaminação ambiental e descuido com o ambiente se tornaram com o tempo a principal arma de acusação contra a tecnologia de aplicação dos produtos fitossanitários.
Algumas ações estratégicas deverão ser levadas a cabo nos próximos anos para sedimentar os processos de levarão à sustentabilidade do uso de produtos fitossanitário e a própria tecnologia de aplicação.
Em primeiro lugar, os órgãos fiscalizadores governamentais deverão desenvolver e implantar um sistema de habilitação oficial de aplicadores de defensivos na pulverização terrestre, a exemplo do que já existe no caso da aplicação aérea. Diversos países, incluindo a maioria dos membros da Comunidade Europeia e os Estados Unidos possuem sistemas de habilitação para trabalhadores que aplicam defensivos com diferentes níveis de habilitação e permissão de manejo. Assim, a capacitação, a certificação e a habilitação desses operadores passariam por um crivo oficial, evitando que leigos ou práticos mal treinados possam cometer erros ao aplicar os produtos, com grande potencial de danos ao ambiente e a sociedade como um todo.
Um segundo passo importante será a regulamentação das áreas de descarte de restos de calda e descontaminação de pulverizadores terrestres, a exemplo do que já é exigido das empresas que se utilizam de pulverizadores aéreos em suas aplicações. Estes pátios representam um avanço no tratamento dos resíduos de produtos após as aplicações, colaborando sobremaneira para a minimização do impacto ambiental do tratamento fitossanitário, assim como aconteceu no passado recente com o manejo das embalagens dos defensivos após o uso.
A inspeção periódica de pulverizadores é o terceiro passo no sentido da garantia de sustentabilidade no tratamento fitossanitário, sendo que estes três elementos (habilitação de aplicadores, pátios de descontaminação e inspeção de pulverizadores) representam ações importantes dentro do conceito de responsabilidade nas aplicações.
Diversos setores da sociedade estão empenhados no fortalecimento do conceito de responsabilidade na produção agroindustrial e nas ações socioeconômicas. Um exemplo deste processo é o constante fortalecimento dos fóruns internacionais sobre a responsabilidade nos processos de produção agrícola. No caso da soja, a ”Round Table on Responsible Soy Association” é um dos exemplos de organizações não governamentais que têm se dedicado ao incentivo às práticas responsáveis no processo de produção de soja no mundo.
O conceito da responsabilidade na aplicação é definido pelo uso de um conjunto de boas práticas no manejo e aplicação dos produtos fitossanitários, visando otimizar recursos e reduzir o impacto do uso destas práticas nos sistemas de produção agrícola. Assim como a maioria dos laboratórios precisam adotar os preceitos internacionalmente conhecidos das ”boas práticas laboratoriais” (”GLP - Good Laboratory Practices”) para que possam ser auditados e certificados, os sistemas de aplicação de defensivos deveriam estar sujeitos à aplicação de um conjunto de regras básicas de conduta que configurariam as ”boas práticas de aplicação”.
Espera-se com a popularização dos conceitos de responsabilidade e das boas práticas na aplicação que o nível geral de resultados nos tratamentos fitossanitários seja substancialmente melhorado, assim como seja reduzido o impacto deste processo no meio ambiente, trazendo benefícios para toda a sociedade. Acima de tudo, o conceito da responsabilidade na aplicação tem como premissa básica a sedimentação de ações que visem a sustentabilidade no uso dos produtos fitossanitários.
Considerações finais
O incentivo à responsabilidade no tratamento fitossanitário trouxe para o campo um grande número de sistemas, métodos e equipamentos que modernizaram sobremaneira a tecnologia de aplicação de defensivos. A partir destas novas tecnologias de manejo e gestão das aplicações o tratamento fitossanitário pode hoje ser realizado com maior eficiência e menor impacto, colaborando para tornar mais sustentável a produção rural. Entretanto, é fundamental que este conceito de responsabilidade no uso dos produtos fitossanitário seja sedimentado na prática cotidiana de todas as atividades que envolvam o manejo destes produtos, por mais simples que seja a operação, independentemente do tamanho da propriedade ou do nível tecnológico do processo produtivo. Somente assim a agricultura poderá cumprir seu papel de alimentar o mundo com segurança.
Artigo publicado na edição conjunta 137-138, da Revista Plantio Direto, setembro a dezembro de 2013.