Momento de avaliar erros e acertos
Franciele Mariani1, Leandro Vargas2, Dionisio Gazziero2,Décio Karam2, Dirceu Agostineto3¹Eng. Agr., D. Sc. marianifranciele@gmail.com 2Eng.-Agro., D. Sc., Pesquisador da Embrapa. 3Eng.-Agro., D. Sc., Professor de Plantas Daninhas, Universidade Federal de Pelotas.
Estamos nos aproximando do final da safra de verão, a maioria das lavouras de milho já foram colhidas e as lavouras de soja estão em fase de finalização do ciclo. Este momento é importante para avaliar os erros e acertos no manejo de plantas daninhas. A presença de buva, entre outras espécies daninhas, nas lavouras significa que houve erro no manejo e que ocorreram perdas de rendimento por competição. Assim, este é o momento de avaliação do que foi feito e o que pode ser melhorado para que na próxima safra isso não volte a acontecer.
A buva completa seu ciclo nos meses de março e abril, juntamente com a soja, e a nova infestação inicia no inverno (junho-agosto). Dessa forma, as estratégias de manejo da buva devem ser adotadas nas culturas de inverno (trigo, cevada, aveia) obtendo-se assim situação de baixa infestação na pré-semeadura de soja ou milho, facilitando o controle nesse momento. Assim, o manejo de inverno da buva pode ser considerado o mais importante.
Controle antes da semeadura do trigo
O número de moléculas herbicidas registradas para controle (dessecação) de plantas daninhas antecedendo a semeadura de trigo é considerado pequeno. Os herbicidas disponíveis para uso são 2,4-D, metsulfuron-metil, glifosato e amônio-glufosinato (Tabelas 1, 2 e 3). Enquanto os dois primeiros controlam essencialmente plantas dicotiledôneas, glifosato e glufosinato são herbicidas totais, controlando tanto dicotiledôneas quanto gramíneas.
A ocorrência de buva e azevém resistentes ao glifosato e de azevém resistente aos graminicidas e inibidores da ALS, é um problema para o sistema de produção. As sementes de buva e azevém germinam após a colheita da cultura de verão, formando vegetação que necessita ser manejada antes de semear a cultura de inverno. Além disso, as sementes de soja resistente ao herbicida glifosato e/ou tolerantes ao inibidores da ALS (como a soja STS), resultante das perdas de colheita mecanizada, também podem originar plantas que se constituem em planta daninha importante e de difícil controle antes da semeadura do trigo. Nessa condição, as plantas de buva e de soja são de pequeno porte, o que facilita muito seu controle. Geralmente o controle eficiente dessas espécies pode ser obtido com o uso de glifosato associado com o metsulfuron-metil ou com o 2,4-D. O azevém resistente ao glifosato pode ser controlado com herbicidas graminicidas ”fops e dims” como exemplos o haloxyfop, o clethodim, o fenoxaprop, o fluazifop e o sethoxydim (Tabela 2). Alguns desses graminicidas, como o haloxyfop, podem apresentar efeito residual e afetar a cultura do trigo, recomenda-se que a aplicação desses produtos ocorra com antecedência de 15 a 20 dias da semeadura do trigo. Já o azevém resistente ao glifosato e inibidores da ACCase somente será controlado por inibidores da ALS (Hussar) ou por herbicida total. O nabo (Raphanus sativusa) resistente à ação de inibidores da ALS (Hussar e metsulfuron) pode ser controlado com herbicidas como o bentazon e o 2,4-D.
Controle após a emergência do trigo
Após a emergência do trigo o controle de folhas largas pode ser realizado com os herbicidas bentazon, 2,4-D, metsulfuron-metil e iodosulfuron (Tabela 1). Esses herbicidas de forma geral controlam eficientemente as plantas daninhas folhas largas que ocorrem na cultura do trigo. Os herbicidas registrados para controle de plantas daninhas gramíneas na cultura de trigo são o pendimetalin, diclofop, clodinafop e o iodosulfuron (Tabela 1). Esses herbicidas são eficientes no controle de aveia preta e de azevém. Pendimetalin é usado em pré-emergência da cultura. A sua seletividade é dada por sua posição na camada superficial do solo (cerca de 2 a 3 cm), devendo trigo ser semeado na profundidade de cerca de 5 cm. Chuva intensa logo após sua aplicação, principalmente em solos de textura arenosa e com níveis de matéria orgânica abaixo de 2% podem causar fitotoxicidade à cultura. A sua maior ação é no controle de azevém e de aveia preta. Já os herbicidas diclofop-metil (Iloxan CE), clodinafop-propargil (Topik) e iodosulfuron-metil (Hussar) são usados em pós-emergência e, com exceção do Topik, têm maior eficiência em azevém do que nas aveias. A eficácia desses herbicidas é dependente do estádio de desenvolvimento do azevém e das aveias, sendo os melhores resultados obtidos quando aplicado em plantas jovens, com 2 a 4 folhas.
Vale destacar a necessidade de que as plantas daninhas tenham área foliar suficiente para absorver o herbicida, aplicado em pós-emergência, e que as condições ambientais sejam, adequadas para absorção e translocação dos produtos. Uma situação que comumente ocorrem falhas no controle é após a colheita da cultura de verão, quando há corte da parte aérea das plantas daninhas e estas não apresentam parte aérea suficiente para absorver os herbicidas. Nesses casos, é necessário aguardar o desenvolvimento de novas folhas antes da aplicação dos herbicidas.
De forma geral, após a emergência do trigo os herbicidas iodosulfuron-metil (Hussar) e metsulfuron são eficientes no controle da buva e plantas voluntárias de soja resistentes ao glifosato, já, se a soja for resistente aos inibidores da ALS, do tipo STS, somente o 2,4-D irá controlar (Tabelas 1, 2 e 3).
Tabela 1. Herbicidas seletivos, doses e época de aplicação recomendadas para controle de plantas daninhas na cultura de trigo.
Manejo e controle de azevém com resistência múltipla
Com a resistência múltipla os produtores devem alternar os herbicidas de acordo com o tipo de resistência presente na área. Para obter controle é necessário alternar/trocar o mecanismo herbicida usado na área (Tabela 4). Já foram identificados biótipos de azevém com resistência simples (somente ao glifosato) e resistência múltipla (glifosato+ALS e glifosato+ACCase). Medidas de prevenção e manejo da resistência devem ser adotadas pelos produtores, para reduzir a dispersão e prolongar o tempo de uso dos herbicidas. Dentre as medidas de prevenção e manejo destaca-se: uso de sementes certificadas; não usar repetidamente o mesmo mecanismo herbicida; e considerando que a resistência se dispersa via pólen a eliminação de plantas ”voluntárias” ou ”escapes” é indispensável para evitar a dispersão.
O controle de azevém, com resistência múltipla, deve ser planejamento com antecedência de 15 a 20 dias antes da semeadura das culturas, de forma a permitir o o uso de medidas corretivas antes da semeadura e, ainda, o controle em tempo suficiente para evitar os efeitos negativos da competição e da alelopatia sobre as culturas.
Tabela 2. Herbicidas graminicidas e não-seletivos que controlam azevém resistente e sensível ao glifosato.
Com relação aos herbicidas, no caso de azevém resistente ao glifosato pode-se utilizar na área os herbicidas inibidores da ALS ou da ACCase (Tabela 2). Já nos casos de resistência múltipla, ou seja, ao glifosato e aos inibidores da ALS, somente os inibidores da ACCase serão eficientes. Por outro lado, nos casos de resistência múltipla, que envolva o glifosato e os inibidores da ACCase, somente os inibidores da ALS serão eficientes. Na dessecação de azevém podem ser utilizados herbicidas de contato como, por exemplo, o glufosinato, atentando-se para o estádio vegetativo, pois esse herbicida controla eficientemente plantas jovens de azevém, preferencialmente ainda não perfilhadas. Vale salientar que mesmo utilizando-se um graminicida para controle do azevém na pré-semeadura (dessecação), a necessidade de utilização de glifosato para controlar as espécies dicotiledôneas (folhas largas) permanece.
Assim, a resistência do azevém aos herbicidas glifosato, glifosato+ ALS e glifosato+ACCase faz com que os produtores necessitem acrescentar mais um herbicida na lista de aplicações ou a alterar o manejo da vegetação nestas áreas, utilizando métodos de manejo e controle, muitas vezes menos eficientes e com maior custo de implantação. Esses fatos ilustram aumento do custo de produção devido à resistência.
Visão de futuro: novas moléculas e tecnologias para controle de plantas daninhas
Os casos de resistência no Brasil foram resolvidos historicamente com a introdução de novas moléculas ou de uma nova tecnologia que permitiu o uso de uma nova molécula. Para os novos casos de resistência múltipla (buva resistente ao glyphosate e inibidores da ALS e azevém resistente ao gyphosate e inibidores da ALS e ACCase) as perspectivas de lançamento de novas moléculas ou tecnologia com potencial de controle eficiente dessas plantas daninhas resistentes são restritas. As novas tecnologias, em termos de plantas cultivadas resistentes a herbicidas, relacionam-se com os herbicidas amônio-glufosinato, 2,4-D e dicamba (Tabela 5). Em uma análise geral dessas tecnologias fica evidente que estas são eficientes e oferecem alternativas novas para controle seletivo de buva (2,4-D, dicamba e amônio-glufosinato), entretanto, isso não é observado para as espécies gramíneas, como o azevém. Portanto, considerando-se que não existem novos mecanismos de ação herbicida sendo introduzidos no mercado e que as novas tecnologias, envolvendo culturas modificadas para resistência a herbicidas, não oferecem solução para controle de azevém pode-se especular que essas espécies serão os principais problemas a serem manejados no futuro. Assim, o azevém torna-se atualmente a principal planta daninha para o RS.
Tabela 3. Herbicidas que controlam buva resistente e sensível ao glifosato.
MANEJO: o que fazer?
A maior motivação para adoção de práticas de prevenção e manejo da resistência por parte do produtor resulta da resposta da seguinte pergunta: Na impossibilidade de uso do glyphosate ou de outros herbicidas como será realizado o controle de plantas daninhas? Seja qual for a resposta, certamente será com uso de métodos e produtos menos eficientes do que os que vinham sendo utilizados, com maior custo e, provavelmente, com maior impacto ambiental.
A decisão está ”nas mãos” do produtor. Porém, cabe a assistência técnica apresentar alternativas de manejo para que o produtor decida levando em consideração as suas preferências. Contudo, é importante salientar que para evitar o agravamento da seleção de espécies tolerantes e/ou resistentes, e prolongar o tempo de utilização eficiente da tecnologia das culturas resistentes ao glyphosate e outros herbicidas, o produtor deve adotar medidas de manejo para prevenir a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes. Dentre várias práticas de manejo as principais indicadas são:
a) Não usar consecutivamente herbicidas com o mesmo mecanismo de ação na mesma safra ou área;
Não repetir o uso de herbicidas com mesmo mecanismo em uma cultura. Além disso, se usar na dessecação um mecanismo herbicida não utilizar este mecanismo novamente na pré ou pós-emergência da cultura. Em casos onde a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes ocorrer, deve ser implantado um sistema de rotação de mecanismos de ação herbicida, eficazes sobre as espécies problema.
b) Monitorar e destruir plantas suspeitas de resistência;
Após a aplicação do herbicida as plantas que sobreviverem devem ser arrancadas, capinadas, roçadas, ou seja, controladas de alguma forma evitando que essas plantas produzam flores ou sementes e se disseminem na área.
c) Fazer rotação de culturas;
A rotação de culturas oportuniza a utilização de um número maior de mecanismos de ação herbicidas.
O cultivo permanente da área, com culturas de valor comercial ou para cobertura do solo como trigo, centeio, canola, aveia, soja, milho, diminui o número de plantas daninhas quando comparado com áreas não cultivadas (mantidas em pousio). O uso de estratégias como sobre-semeadura de aveia ou azevém em lavouras de soja e cultivo de culturas concomitantes, como exemplo de Brachiaria ruziziensis cultivada juntamente com o milho apresenta-se como uma boa opção para regiões mais quentes como Paraná. Contudo, é importante que ao decidir o cultivo de uma espécie leve-se em consideração as opções e momento do controle dessa espécie antes do cultivo de cultura sucessiva.
Tabela 4. Mecanismos herbicidas com azevém resistente e mecanismos alternativos de acordo com o tipo de resistência.
Tabela 5. Culturas modificadas para resistência a herbicidas em avaliação na CTNBio.
Considerações finais
Em uma análise geral, o custo de controle em situações de resistência simples varia entre R$4,00 e R$153,00 e, em situações de resistência múltipla, entre R$20,00 e R$196,00. Considerando-se a área de cultivo de soja do Rio Grande do Sul como sendo de 4 milhões de hectares e a suposição de que 50% da área apresenta problemas de buva e azevém, os prejuízos advindos da resistência, com a necessidade de uso de herbicidas adicionais pode chegar a R$400 milhões por ano, além do impacto ambiental causado pelo maior uso de herbicidas. Adicionando-se a esses valores as perdas de rendimento, devido à competição das plantas daninhas com as culturas, os custos da resistência ultrapassam a R$1,0 por safra no RS. Se considerarmos o Brasil esse número aumenta mais de 10 vezes. As novas moléculas e tecnologias (culturas modificadas para resistência) aparecem como alternativa para controle de buva, contudo, para azevém e capim-amargoso (Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso) não apresentam-se como alternativas eficientes. Assim, o azevém e o capim-amargoso provavelmente serão as espécies de maior dificuldade de manejo no futuro.
Artigo publicado na edição conjunta 137-138, da Revista Plantio Direto, setembro a dezembro de 2013.