Fatores do sucesso no controle de doenças
Ricardo BalardinPh.D. Fitopatologia - UFSM - Professor Associado 3Pesquisador CNPq PQ2
O controle de doenças nas culturas anuais tem se tornado uma tarefa complexa. Produtores e profissionais da agricultura tem questionado sobre os fatores que tem desencadeado o aumento na importância das doenças. Especula-se que poderiam estar ligados a: (a) variações nas populações de patógenos; (b) excessiva operacionalização das praticas agrícolas; (c) elevação do potencial produtivo de cultivares/híbridos associado a uma progressiva perda de rusticidade.
Provavelmente o somatório destes fatores explique com mais nitidez o que está sendo observado no campo. Estudos sobre estrutura populacional de patógenos são raros, impossibilitando uma visão sobre as alterações que sistemas agrícolas intensivos causam sobre sua estrutura genética. A operacionalização das praticas agrícolas, festejada pelos produtores, tem acarretado dificuldades biológicas com reflexos diretos na incidência de doenças. Neste sentido destacam-se os diversos problemas da sanidade de raízes, cuja solução não será fácil.
Normalmente espera-se que a aplicação de fungicidas apresente alta eficácia direta devido as suas características fungitóxicas intrínsecas. Entretanto, porção significativa da performance do controle químico depende de processos fisiológicos ou estruturas morfológicas da planta, que podem ser resultantes de manejo ou praticas agronômicas fundamentais. A rota descrita pelos fungicidas, desde sua deposição nas superfícies das plantas, até o sitio de ação, dependem de diversos componentes químicos dos produtos cuja otimização esta intimamente ligada a processos fisiológicos e genéticos das plantas.
Diferencias varietais e a eficácia de controle
Trabalhos de pesquisa têm demonstrado que diferenças varietais influenciam a atividade dos fungicidas. Segundo Debortoli et al. (2012), a definição do espectro de gotas na aplicação de fungicidas, deve considerar diferenças na arquitetura das cultivares devido à influencia sobre cobertura e penetração de gotas influenciando na magnitude da proteção da soja à ferrugem asiática (Tabela 1, Figura 1). Neste estudo, ficou evidente que a combinação entre a arquitetura da planta e o espectro de gotas influenciou na magnitude de incremento da produtividade (Tabela 2). Questões operacionais da aplicação podem tornar mais difícil a adoção de espectro de gotas fina, entretanto, os dados sugerem que a eficácia do fungicida depende da qualidade com que atinge os tecidos. Estes dados foram confirmados por Tormen et al (2012) que observaram melhoria da cobertura pelo fungicida quando utilizado a ponta TJ-60 11002 (espectro médio/fino de gotas), nos terços superior e mediano das plantas nas cultivares Agiara RR e Asgrow 8000 RG, mas no terço inferior, apenas na cultivar Agiara RR. O índice de área foliar das cultivares estudadas afetou a deposição de gotas no seu dossel, devendo ser considerado na escolha da ponta de pulverização.
Figura 1. Densidade de impactos (no/cm2) no terço inferior do dossel da soja em função da interação entre diferentes cultivares e taxas de aplicação.
Tabela 1. Estatura de planta, número de ramos por planta e índice de área foliar das quatro cultivares de soja avaliadas, no momento de cada aplicação de fungicida.
Tabela 2. Produtividade de quatro cultivares de soja devido a aplicação de fungicida com diferentes espectros de gota.
Após ter atingido os tecidos, para que a atividade fungicida se manifeste o produto necessita ser absorvido pelas plantas. Lenz et al. (2011) observaram que gotas de menor diâmetro mediano volumétrico (DMV) apresentaram maior velocidade de absorção de fungicidas, devido ao maior número de gotas por centímetro quadrado e, consequentemente, maior área específica de contato produto/planta. Trifólios mais novos absorvem os fungicidas mais rapidamente e, em consequência, estabelecem um maior atraso no desenvolvimento da doença, resultando em maior número de dias até o aparecimento da primeira pústula (Figura 2).
Figura 2. Variação no residual de um fungicida quando aplicado sob três espectros de gota e sobre trifólios de soja com idade fisiológica diversa.
Experimentos realizados com diferentes cultivares e diferentes ingredientes ativos, também mostraram que existe um interação especifica entre cultivar e momento de utilização de determinados fungicidas, conforme indicado na Figura 3. Mesmo em momentos em que a pressão de doenças ainda não se mostra sequer visível, foi observado diferença na performance de resposta entre as cultivares estudadas. Estes dados sugerem com clareza a necessidade da proteção iniciar nos estádios em que os produtos são mais eficazmente aproveitados pelas plantas, resultando em maior nível de controle.
Figura 3. Produtividade de quatro cultivares de soja submetidas a três programas de controle.
Manejo fitotécnico
Mesmo quando foram realizados trabalhos na cultura do arroz, os resultados foram coerentes ao observado na cultura da soja (Tabela 3). Experimento que avaliou quatro densidades de semeadura e três pontas de barra, foi observado variação no controle de brusone relacionada a variação na penetração e cobertura do fungicida nos locais de inoculo primário para que a eficácia seja maximizada.
Tabela 3. Produtividade obtida a partir de quatro densidades de semeadura de arroz devido a aplicação de fungicida com diferentes espectros de gota produzidos por três pontas de barra distintas.
Na cultura da soja foi observado relação similar em experimento em que foram comparados dois espaçamentos entre linhas (30 e 45 cm) e presença/ausência de adubação na semeadura, o desempenho da planta e o controle das doenças mostrou-se positivamente influenciado (Figura 4).
Figura 4. Produtividade de soja obtida a partir de dois espacamentos entre linha, com ou sem adubação na base e submetidas a dois programas de controle.
Nutrição
Foi conduzido experimento em que foi medido o efeito direto da nutrição com fosforo e potássio sobre o desenvolvimento de ferrugem asiática. Os dados obtidos mostraram redução, tanto da severidade final como da taxa de progresso da ferrugem, com o aumento nos níveis de P e K. A maior redução foi verificada no estádio V2 em comparação ao estádio R5 (Figuras 5 e 6). A expressão da resistência parcial nas cultivares utilizadas foi influenciada pela variação nos níveis de P e K, sendo que a associação de cultivares com resistência parcial elevada e nutrição mineral equilibrada, podem compor um programa de manejo integrado que possibilite maior eficácia no controle da ferrugem da soja. Diversos trabalhos são claros ao indicar a importância da nutrição das plantas sobre a taxa de progresso das doenças. Evidentemente, que a combinação das praticas tende a apresentar beneficio superior.
Figura 5. Influência dos diferentes níveis de adubação [P2O5 (8,4 mg dm-3) e K2O (65 mg dm-3) sobre a expressão de resistência parcial das cultivares de soja Embrapa 48 e Al 83 no estádio fenológico V2.
Figura 6. Influência dos diferentes níveis de adubação [P2O5 (8,4 mg dm-3) e K2O (65 mg dm-3) sobre a expressão de resistência parcial das cultivares de soja Embrapa 48 e Al 83 no estádio fenológico R5.
Escolha do fungicida adequado
A escolha de um fungicida deve ser norteada de acordo com vários fatores ligados ao momento da infecção, quantidade de infecção estabelecida, estádio fenológico da planta, nutrição da planta, alvos predominantes. Importante ter claro que os fungicidas possuem suas fortalezas e suas limitações. Ao utilizar um determinado produto importante ter claro se possui atividade curativa (diferente de erradicante), possui atividade protetora predominante, ou se em mistura, pode apresentar ambas atividades. Quando se fala em momento de utilização de um produto, deve-se ter em mente se ele refere-se ao estádio da planta ou ao momento da patogênese. Aplicar em R1 da soja, não indica absolutamente nada em termos da patogênese. Por outro lado, aplicações protetoras normalmente são realizadas em estádios iniciais, quando a probabilidade de infecção é baixa ou nula. Por outro lado, pode ocorrer de uma infecção iniciar apos o R1 e neste caso, poder-se-ia ter uma aplicação protetora ainda apos o R1. Na medida em que os fungicidas destinam-se a proteger a planta ou controlar doenças em estabelecimento, o correto é ter claro em que momento do desenvolvimento da doença estamos situados, independentemente do estádio fenológico da cultura. O residual de controle de um fungicida depende de suas características intrínsecas associadas aos pontos de manejo anteriormente citados e que afetam diretamente a fisiologia das plantas.
Figura 7. Relação entre as etapas da patogênese e o modo de ação mais efetivo dos fungicidas utilizados no controle de doenças em cultivos anuais.
Conclusões
Existe um papel ativo do germoplasma sobre a atividade tanto do patógeno como do fungicida. No tocante a interação patógeno e hospedeiro, classicamente a sensibilidade da planta aumenta com o envelhecimento da planta. Carências nutricionais associadas à praticas agronômicas inadequadas, podem acelerar o envelhecimento das plantas comprometendo a eficácia do fungicida.
Mesmo que seja definida uma combinação ideal entre número e tamanho de gota, e, que a tecnologia de aplicação de defensivos seja ótima, ainda a eficácia de controle dependerá da performance fisiológica da planta, podendo impor ao produto aplicado restrições que vão além da sua própria eficácia intrínseca. No caso do envelhecimento precoce a absorção ideal do fungicida sempre será reduzida.
A planta não é simplesmente passiva, quando da aplicação de um fungicida. Ao contrario, define o grau de sucesso (ou insucesso) que será atingido. Caso o sistema não seja considerado no seu todo, a utilização de insumos será cada vez maior, mas com rentabilidade relativamente menor, comprometendo a sustentabilidade do sistema.
Literatura citada
Balardin, R.S.; Dallagnol, J.J.; Didone, H.T.; Navarini, L. Influência do Fósforo e do Potássio na Severidade da Ferrugem da Soja Phakopsora pachyrhizi. Fitopatol. Bras. 31(5), set - out 2006.
Debortoli, M.P.; Tormen, N.R.; Balardin, R.S.; Dalla Favera, D.; Stefanello, M.T.; Pinto, F.F.; Uebel, J.D. Espectro de gotas de pulverização e controle da ferrugem-asiática-da-soja em cultivares com diferentes arquiteturas de planta. Pesq. Agropec. Bras., Brasília, v.47, n.7, p.920-927, jul. 2012.
Lenz, G.; Balardin, R.S.; Minuzzi, S.G.; Tormen, N.R.; Marques, L.M.. Espectro de gotas e idade de trifólios na taxa de absorção e efeito residual de fungicidas em soja. Ciência Rural, v.41, n.10, out, 2011
Tormen, N.R.;, Silva, F.D.L.; Debortoli, M.P.; Uebel, J.D, Dalla Favera, D.; Balardin, R.S.. Deposição de gotas no dossel e controle químico de Phakopsora pachyrhizi na soja. R. Bras. Eng. Agríc. Ambiental, v.16, n.7, p.802–808, 2012.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição especial conjunta 135 e 136, maio-agosto de 2013.