Controle de plantas daninhas: um olhar sobre o sistema de produção
No Painel sobre Inovações no Manejo de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas do 28º Seminário da Cooplantio, o pesquisador Dr. Mário Bianchi, da CCGL Tecnologia, de Cruz Alta, RS, abordou o manejo de plantas daninhas com foco no azevém e buva resistentes aos herbicidas.
De acordo com Mário Bianchi, para um controle eficiente das plantas daninhas é necessário considerar o sistema de produção que o agricultor adota. ”Não vejo como controlar plantas daninhas sem lançar um olhar para o todo da propriedade. No caso das plantas daninhas, não é adequado, por exemplo, controlar azevém no trigo e no milho e a buva na soja. Assim não se faz controle nenhum, vamos jogar dinheiro fora e perder em produtividade. É importante olhar para o manejo no sistema de produção”.
Bianchi apresentou aos participantes do Seminário um esquema com as oportunidades de controle de buva e azevém e ressaltou que essas opções são eficientes quando as plantas daninhas ainda são pequenas (Figura 1). Para ele, essa condição precisa ficar muito clara na mente dos agricultores e técnicos. ”Todo o herbicida é eficaz em planta daninha pequena, a eficácia no controle diminui à medida que aumenta o tamanho e a população dessas espécies na lavoura”.
Figura 1. Sequencia de culturas e oportunidades de controle de plantas daninhas.
Em função disso o pesquisador recomenda que o agricultor faça uma ”leitura” prévia para o planejamento das ações de controle das plantas daninhas. ”Conhecer a realidade que se trabalha é um passo muito importante para inovar no controle de plantas daninhas. Se o agricultor olhar para o fluxo de emergência da buva e do azevém na lavoura (Figura 1), fica mais fácil identificar as oportunidades de controle”.
O pesquisador acredita que para o agricultor que conhece seu sistema de produção e planeja as ações, a percepção das oportunidades de controle é automática. ”Para quem planta trigo, colhe a soja mais cedo e se preocupa em fazer cobertura com nabo forrageiro, tem aí uma boa oportunidade para controle químico do azevém com planta pequena. Depois, o próprio nabo se encarrega de suprimir o azevém restante antes da semeadura do trigo. Se analisarmos a Figura 1 pensando na cultura do milho, a buva (linha azul) tem o fluxo de emergência com pico no final do inverno e início da primavera. Um herbicida eficaz no controle da buva é a atrazina, que tem efeito residual e pode ser uma forma de reduzir a população dessa planta daninha na lavoura. Na soja, o momento oportuno para o controle de buva não é na dessecação, pois nessa fase o agricultor que intenciona dessecar e plantar se atrapalha e joga a culpa no operacional da propriedade, alegando número reduzido de máquinas disponíveis para o trabalho. Para fazer a dessecação e a semeadura em sequência, obrigatoriamente a planta de buva deve ser pequena, do contrário, o controle será ineficiente, reforça.
De acordo com Bianchi, poucos agricultores fazem controle de plantas daninhas na pastagem e quando o fazem o resultado não é satisfatório porque é realizado de forma inadequada, por exemplo, com uso de herbicidas em doses elevadas, causando problemas no controle de buva na cultura da soja. ”Por isso defendo o enfoque sistêmico. Não estamos olhando para o controle de plantas daninhas como se deve. Na verdade, o investimento em qualidade de controle, considerando a realidade da lavoura, é o mais importante. Se o agricultor deseja aplicar e plantar, a invasora deve ser pequena, porque com a presença de planta de buva com mais de 10 centímetros de altura não se viabiliza o aplique-plante. Nesses casos é imprescindível fazer o controle sequencial”.
Para reforçar esse conceito Mario Bianchi cita quatro pontos considerados importantes para o controle eficiente de buva e azevém: controlar com baixa população, controlar com planta pequena, ficar atento ao desenvolvimento de populações de plantas daninhas resistentes a herbicidas na propriedade e semear sempre no limpo. ”Semear no limpo é uma recomendação antiga, mas muito importante hoje devido à mudança nas características dos cultivares. Por exemplo, os cultivares utilizados atualmente, toleram muito menos a competição quando comparados aos cultivares mais antigos, em função da menor área foliar e do ciclo mais curto. Então, é obrigatório semear na ausência de plantas daninhas. É uma recomendação básica para quem faz agricultura e prioriza a qualidade”.
O pesquisador apresentou dados que reforçam a recomendação de semear no limpo. ”Quando aumenta a densidade, aumenta o potencial de perda e quando se relaciona o controle com o tamanho da planta, semear no limpo ou semear na presença de plantas daninhas tem grande diferença. Seguindo o gráfico (Figura 2) a linha amarela representa as plantas daninhas que emergiram antes da semeadura, ou seja, a cultura foi semeada na presença de plantas daninhas e na linha verde a semeadura feita no limpo. É perceptível a diferença entre as curvas, o potencial de perda é sempre maior onde já havia planta daninha estabelecida”. No caso do picão preto, por exemplo, a presença dessa planta daninha na semeadura da soja resultou em perda quatro vezes maior. No trigo, a semeadura na presença do azevém, reduz a eficiência do herbicida pós-emergente, porque ele não controla as sobras de dessecação.
Figura 2. Tamanho e densidade de plantas e as perdas de produção de soja.
”Para o azevém a condição ideal de dessecação ocorre 14 dias depois da aplicação de glifosato. É bom lembrar que o glifosato controla muito bem o azevém ”sensível”, não as populações resistentes. Na Figura 3, o lado esquerdo mostra o controle do azevém pelo glifosato e o lado direito mostra o controle dos graminicidas no azevém sensível ao glifosato, que são as alternativas para o manejo da resistência do azevém ao glifosato. Na imagem é possível perceber a velocidade de controle 14 dias depois. Fica a pergunta: é possível semear o trigo nessa área?”
Figura 3. Eficiência do controle de azevém sensível ao glifosato aos 14 dias após a aplicação dos herbicidas.
A diferença de semear o trigo no limpo é exemplificada na Figura 4. Em azul a melhor condição, ou seja, aplicação sequencial, e em amarelo, pensando no azevém, a pior condição que é o aplique-plante. A perda de produtividade foi de 6 a 10% quando o trigo foi semeado na presença de azevém. ”O resultado financeiro correspondente a esse percentual paga o custo adicional do manejo adequado com uma boa dessecação para eliminação das plantas daninhas”.
Figura 4. Diferença de produtividade de grãos de trigo semeando no limpo e com a presença de plantas daninhas na área.
Segundo Mário Bianchi, semear na presença do azevém é uma situação muito comum no campo. Muitas vezes o agricultor aplica o herbicida e faz a semeadura com as plantas de azevém apenas amareladas (Figura 5). Não se deve semear numa condição como essa, e sim, com uma condição onde as plantas de azevém estejam secas. Segundo o pesquisador, isso se consegue com aplicação seqüencial, com herbicidas sistêmicos, como o glifosato associado a um graminicida, seguido do herbicida de contato próximo à semeadura.
Figura 5. Condição de semeadura de trigo ou milho em área onde o azevém ainda não foi controlado pelo herbicida.
Se o trigo, ou mesmo o milho, for semeado em uma área com sobras de azevém (Figura 5) como será feito o controle? E se o agricultor não souber que nessa área existe azevém resistente? Para Bianchi, se o agricultor programar a primeira dessecação apenas com glifosato e fazer o seqüencial usando um produto de contato, o controle final será de apenas 50% porque ele não registrou a presença do azevém resistente na área e o produto de contato não controla plantas grandes de azevém (não controladas pelo glifosato na primeira aplicação).
O pesquisador considera que para dar conta dessa situação, na primeira aplicação o agricultor deve usar um graminicida associado ao glifosato e depois o seqüencial. Nesse caso o controle será superior a 90%. Percebe-se então que a aplicação sequencial deve ser combinada com uma leitura prévia da necessidade do uso de um produto graminicida em função da resistência do azevém ao glifosato.
Estágio de desenvolvimento e associação de herbicidas
Quanto mais ”velha” a planta, mais difícil será o controle. Mário Bianchi apresentou dados que comparam o controle do azevém no início do afilhamento e em pleno florescimento (Figura 6). O pesquisador considera a associação de herbicidas muito importante no controle de plantas resistentes (Figura 7). ”No gráfico observa-se a importância da primeira aplicação, pois é onde se define o controle, depois é feito um ”retoque” com aplicação sequencial”.
Figura 6. Estágio das plantas de azevém x controle.
Figura 7. Associação de herbicidas e o controle de azevém.
Diferenças entre os graminicidas
Quem controla azevém em trigo ou mesmo em milho sabe que todos os graminicidas demoram mais para agir e oferecer um bom controle quando comparado ao glifosato (Figura 8). No azevém resistente o produto que apresenta um controle efetivo é o graminicida. Diante disso, fica uma pergunta: como posso agilizar o processo considerando que o agricultor necessita semear o mais rápido possível? Mário Bianchi sugere a aplicação do herbicida de contato (paraquat ou glufosinato) para acelerar a dessecação e conseguir fazer a semeadura sem competição.
Figura 8. Tempo necessário para o controle do azevém pelo produto graminicida.
”E na condição de azevém + buva que ocorre normalmente na semeadura de soja do cedo, o que fazer? Associar ao glifosato a um herbicida que controla a buva, pode ser uma alternativa, mas há chance de ocorrer antagonismo. Todos sabem que a ação graminicida do glifosato é reduzida em maior ou menor proporção pela mistura de 2,4-D na calda de pulverização (Figura 9). O aumento na dose resolve, mas será que aumentar a dose é o mais importante hoje? Aumentar a dose é um problema porque acelera a seleção de plantas resistentes”, ressalta Bianchi.
Figura 9. Antagonismo do 2,4-D na ação graminicida do glifosato.
De acordo com Mário Bianchi, plantas resistentes ocorrem naturalmente em baixa frequência numa população. Segundo ele, quando maior a população maior será a probabilidade de encontrar uma planta resistente a um herbicida. O processo de seleção é acelerado com o herbicida por que ele é o agente dessa seleção. Assim, em alta população a probabilidade de encontrar um indivíduo resistente é maior. ”Por que deixamos só para o herbicida a responsabilidade de controle das plantas daninhas? O que fazer com as plantas que receberam herbicida e não morreram? (Figura 10) Como fazer um controle eficiente? Para responder a esses questionamentos Bianchi apresentou os dados da Figura 11.
Figura 10. Plantas de buva remanescentes do controle químico.
Figura 11. Eficiência de controle de buva em função da idade das plantas.
”A eficiência do controle da buva tem relação com a idade da planta (Figura 11). Plantas de buva com um mês são pequenas, mas pensando em estatura podem chegar a 10-12 cm. Plantas com três meses talvez passem dos 25-30 cm. As três alternativas de controle com melhor resultado concentram nas plantas com um mês: 2,4-D, glifosato + 2,4-D e aplicação seqüencial, todas com controle acima de 90%. Com plantas grandes o glifosato ou o glifosato + 2,4-D não funciona adequadamente. No RS o manejo comum é o ”desseque/plante”, sem levar em conta o tamanho da planta daninha, utilizando glifosato com Clorimuron ou glifosato com Diclosulan. Em minha opinião, planta com mais de 15 cm é grande e esses herbicidas não vão funcionar ou vão apresentar controle parcial, o que não é adequado para a agricultura que temos hoje e para o potencial dos cultivares de soja que o mercado oferece”.
Uma novidade
Considerando que fungicidas e inseticidas são lançados praticamente todo ano, ao contrário dos herbicidas, o lançamento do Saflofenacil (Heat) foi uma novidade. Trata-se de um ingrediente ativo desenvolvido para ser associado ao glifosato no controle de dicotiledôneas e folhas largas na dessecação antes de trigo, do milho e da soja. O produto é uma eficiente ferramenta com mecanismo de ação diferente. ”Importante dizer que o produto não é o ”salvador da pátria”. Controla muito bem plantas de buva pequenas (Figura 12). Em plantas de buva com até um mês ele apresenta excelente resultado, comparável à aplicação de glifosato com 2,4-D em aplicação sequencial. No entanto, quando o glifosato com saflufenacil é aplicado em plantas grandes não controla (Figura 12). Devemos ter cuidado no uso dessa nova ferramenta, pois ela é importante para o manejo de buva resistente ao glifosato, agrega muito no processo de controle, mas não elimina os demais herbicidas. É uma opção que precisa ser bem utilizada para apresentar resultado positivo”.
Figura 12. Eficiência no controle de buva em função da idade das plantas com uso de Suflofenacil.
Bianchi destacou a importância de uma boa dessecação e exemplificou que no caso da buva o escape da dessecação causa muitos problemas na lavoura de soja, porque são plantas já estabelecidas e com um sistema radicular desenvolvido. Se essas plantas não forem bem controladas resultam em perdas consideráveis. A Figura 13 mostra a perda de produção decorrente do escape de plantas de buva após a dessecação. São plantas que não foram controladas pelo herbicida e estavam presentes na colheita. ”Considerando uma perda média de 5% são 188 kg de soja, ou três sacos. É a perda causada pela presença de apenas 1,7 plantas de buva por m2. Pode parecer pouco, mas impacta no bolso”.
Figura 13. Perdas de produtividade de soja pela presença de plantas de buva resultantes do escape da dessecação.
Para Bianchi o agricultor está perdendo em potencial produtivo dos cultivares no momento que deixa as plantas daninhas sem controle. ”As perdas transformadas em números servem para reforçar que vale fazer uma boa dessecação, vale porque a cultura vai responder com a expressão do potencial produtivo. Em outubro/novembro os agricultores querem a área limpa, com soja semeada e não uma área cheia de problemas. Por isso, reforço que o momento para controlar buva não é na semeadura da soja, é durante o inverno e no início da primavera. Com isso controlamos dentro das pastagens plantas pequenas sem maiores problemas, entregamos a área para dessecação da soja para aplicação única. Entregamos uma área semelhante a da Figura 14, com muita palha e onde a cobertura do solo resolveu a maior parte do problema, pois com a cobertura de aveia foi possível reduzir a população e o tamanho das plantas daninhas. O herbicida precisa entrar em uma situação de facilidade de controle, para um aplique/plante eficaz. Dessa forma, o custo e o desembolso são baixos. Do contrário, torna-se uma dor de cabeça que gera desembolso alto pela dificuldade de controle”.
Figura 14. Área que irá receber soja em dois tipos de manejo: com cobertura de aveia e em pousio de abril a outubro.
Bianchi finalizou sua apresentação afirmando que controlar plantas daninhas pequenas deve ser a meta de todos os agricultores. Diante da resistência deve-se associar herbicidas ao glifosato, que é a ferramenta básica de manejo. O herbicida associado ao glifosato deve ser eficiente no controle do azevém ou buva resistente ao glifosato. Na presença de plantas médias ou grandes, fazer aplicação sequencial e, principalmente, semear no limpo. Para isso é importante olhar para o sistema de produção e identificar as oportunidades de controle.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição especial conjunta 135 e 136, maio-agosto de 2013.