Acidez e calagem em culturas de grãos em plantio direto
P.A.V. Escosteguy1; J. Hänel2 & R. Roehrig31Professor do Programa de Pós-graduação em Agronomia, Universidade de Passo Fundo (UPF), Passo Fundo, RS, Brasil.escosteguy@upf.br2Acadêmica do Curso de Agronomia, UPF. Bolsista de Iniciação Científica (PBIC Fapergs). 3Acadêmico do Curso de Agronomia, UPF. Monitor da disciplina de Adubos, Adubações e Corretivos.
Introdução
As culturas de soja, trigo e milho ocupam a maior área plantada com grãos no Brasil e são cultivadas, principalmente, em Latossolos e Argissolos. No Planalto do Rio Grande do Sul, a vegetação da maior parte desses solos eram campos, até a década de 60. Com o crescimento da área plantada de trigo e de soja, esses solos foram, gradativamente, cultivados com lavouras de grãos. No final da década de 60, a intensificação da mecanização agrícola possibilitou a expansão das lavouras e a correção da acidez do solo com calcário. Nessa época, o revolvimento contínuo do solo com arados e grades e a não adoção de práticas conservacionistas resultou em aumento da erosão (BONETTI, 1987; MIELNICZUK, 1999). Por outro lado, com esse tipo de preparo de solo era possível incorporar calcário na camada arável, corrigindo a acidez em profundidade. A partir de meados de 80 e do início da década de 90, o plantio direto expandiu no Sul do Brasil e o calcário passou a ser aplicado em superfície, sem incorporação ao solo (WIETHÖLTER, 2000). Embora o plantio direto possa amenizar os efeitos da acidez do solo em culturas de grãos (SALET et al., 2000; ALLEONI et al., 2010) e a calagem em superfície corrija a acidez da camada superficial (0-10 cm), essa prática pouco influencia a acidez da camada subsuperficial (10-20 cm), em solos ácidos e argilosos (MARTINAZZO, 2006). A acidez subsuperficial é típica nestes solos, que tendem a formar ainda camadas com maior densidade de solo, na subsuperfíce, após alguns anos de plantio direto. Esses aspectos dificultam o crescimento da raiz ao longo do perfil do solo, estressando a planta, principalmente, em condições de estiagem.
No estado de Mato Grosso, onde mais se cultiva soja no país; a produtividade estabilizou em cerca de 3,0 t ha-1. Isso também se observa na região Sul do Brasil, segunda maior produtora de soja, embora a produtividade média dos últimos anos dessa última região seja pouco maior que a observada em Mato Grosso. Entre outros fatores, a baixa produtividade de culturas de grãos no Brasil se deve ao efeito da estiagem em espécies cultivadas no verão, representadas pela soja e o milho (Conab, 2012). Em solos com baixo teor de água, as raízes ”sinalizam” que há uma condição de estresse a parte aérea, que decresce o crescimento (BINGHAM, 2001). A baixa disponibilidade de água, assim como o alto teor de Al do solo ou de camadas compactadas, pode ainda alterar a morfologia da raiz. Essa cresce no sentido das camadas mais profundas do perfil do solo, em solo com pouca água disponível; e reduz o crescimento das raízes finas e secundárias, em resposta ao alto teor de alumínio (Al) (DELHAIZE et al., 1993; BUSHAMUKA; ZOBEL, 1998; TANG et al., 2001). Assim, em solos argilosos e ácidos e com baixa disponibilidade de água disponível, a planta cresce em condições de estresses, sendo esses resultantes da baixa disponibilidade de água e da toxidez de Al, entre outros fatores. Nesse contexto, a correção adequada da acidez, ao longo do perfil de solo explorado pelas raízes, pode resultar em ganhos de produtividade das culturas de grãos, principalmente, em solos com baixa disponibilidade de água e cultivados com culturas de verão (JORIS et al., 2013). A solução deste problema é dificultada em solos com plantio direto e culturas de grão, pois a aplicação de calcário em superfície, em geral, não corrige a acidez da camada subsuperficial. Com este trabalho, objetiva-se esclarecer a importância da acidez, informando algumas sugestões para o diagnóstico e o manejo da calagem, em solos com plantio direto e cultivados com culturas de grãos, no Planalto do Rio Grande do Sul.
Metodologia
As amostras de solo analisadas no trabalho foram coletadas no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, em municípios próximos a Passo Fundo, em lavouras com mais de dez anos de plantio direto. A amostragem de solo foi efetuada após a colheita das culturas de trigo, aveia, soja ou milho, entre 2011 a 2013 (culturas de inverno), sendo efetuadas por alunos da disciplina de Adubos, Adubações e Corretivos (graduação em Agronomia) e da disciplina de Manejo da Adubação (Pós-Graduação em Agronomia da Universidade de Passo Fundo). Foram amostradas as camadas de 0-10 e de 10-20 cm, denominadas camada superficial e subsuperficial, respectivamente. A amostragem de solo foi em camadas para verificar se há diferença de acidez do solo superficial e o subsuperficial, conforme constatado por Martinazzo (2006) em outros municípios do estado.
A amostragem foi efetuada em glebas ”homogêneas”, com dimensões de até 20 ha, sendo composta de 10 a 20 subamostras. Para a coleta de solo foi utilizada a pá de corte e os procedimentos sugeridos em CQFS-RS/SC (2004). A acidez, o teor de argila e de matéria orgânica das amostras foi analisado com os métodos e procedimentos descritos em Tedesco et al. (1995). Além das análises químicas de solos, as áreas foram caracterizadas quanto ao tipo de solo, histórico de cultivo (tempo de plantio direto, culturas e rendimento de grão), adubação (dose, fonte e forma de aplicação de fertilizantes) e calagem (forma, dose e fonte de aplicação de corretivos de acidez). Essas informações foram utilizadas para relacionar possíveis diferenças de acidez entre a camada superficial e a subsuperficial com tais características.
Acidez do solo
Em parte, a acidificação do solo resulta, em parte, da infiltração da água da chuva, que é ácida; e da remoção (lixiviação) dos cátions de reação básica (potássio, K; cálcio, Ca; magnésio, Mg). A acidificação também é causada pela reação do gás carbônico do solo com a água. Esse gás resulta de diversas fontes, como a respiração microbiana e das raízes e a decomposição da matéria orgânica. Já em solos agrícolas, a adubação nitrogenada, a decomposição dos resíduos culturais e a exportação/lixiviação de cátions, como o K, o Ca, o Mg, o sódio, etc, entre outros fatores, também atuam como agentes de acidificação do solo. Assim, íons ácidos, como o hidrogênio (H+) e o Al+++ são constantemente liberados para a solução do solo, na medida em que esse é intemperizado ou cultivado. Enquanto o processo natural de acidificação causado pelo intemperismo é lento, o causado pelas práticas agrícolas é mais rápido, sendo que ambos variam com o tipo de solo e a condição ambiental (clima, paisagem, vegetação, práticas de cultivos, etc).
Em condição natural, os Latossolos e Argissolos, cultivados com culturas de grãos no Sul do Brasil, são ácidos, contendo médio a alto teor de argila, devido ao elevado grau de intemperismo (BRASIL, 1973). Embora a acidez possa ser corrigida com a calagem, em solos manejados com o plantio direto, a eficiência dessa correção varia com o histórico de cultivo e, principalmente, com o manejo dessa prática. Em áreas com incorporação de calcário, no início do plantio direto; e este corretivo foi aplicado em superfície nos anos seguintes, em quantidades recomendadas pela pesquisa (CQFS-RS/SC, 2004), onde a acidez de 0-20 cm é baixa e não restringe o crescimento das plantas (Tabela 1). Por outro lado, em áreas onde este corretivo não foi incorporado ao solo no início do plantio direto, mesmo com aplicação de calcário em superfície, nos anos seguintes, geralmente, a camada subsuperficial é ácida. Isso pode ser observado nos resultados da Tabela 2 e já foi comprovado em pesquisas efetuadas com outras unidades de mapeamento dos solos do Rio Grande do Sul (RHEINHEIMER et al., 2000; MARTINAZZO, 2006).
Tabela 1. Acidez superficial (0-10 cm) e subsuperficial (10-20 cm), teor de argila e de matéria orgânica (MO) de amostras de solo coletadas em lavouras de grãos, onde o calcário foi incorporado ao iniciar o plantio direto.
Tabela 2. Acidez superficial (0-10 cm) e subsuperficial (10-20 cm), teor de argila e de matéria orgânica (MO) de amostras de solo coletadas em lavouras de grãos, onde o calcário não foi incorporado ao iniciar o plantio direto.
Já em solos com menor teor de argila e de Al, como os de algumas regiões do Paraná, a aplicação de calcário em superfície pode corrigir a acidez até 40 cm de profundidade (CAIRES, 2012 e 2013), beneficiando o rendimento de culturas de grãos. Nestes solos, o deslocamento vertical de calcário ou de Ca no perfil do solo é atribuído a presença de canais e aos macroporos, a adubação nitrogenada e a compostos orgânicos presentes em solos com plantio direto consolidado (CAIRES, 2012).
Devido ao elevado grau de intemperismo, os Latossolos têm alta acidez potencial. Esta forma de acidez representa a soma da acidez trocável e da acidez não trocável do solo. Enquanto que a primeira indica a forma de Al que pode restringir o crescimento da raiz (Figuras 1 e 2), a acidez não trocável indica as formas de H e de Al (H + Al) que podem ser liberadas para a solução do solo, representando a resistência do solo que recebeu calcário em aumentar o pH. Dessa forma, a acidez potencial representa, principalmente, a fração de H + Al que pode ser solubilizada, de acordo com o equilíbrio químico resultante das alterações do pH do solo. Em análise de solo, a acidez potencial tem sido determinada, indiretamente, com a utilização do índice SMP (pH SMP). Esse índice é utilizado para estimar a dose de calcário a aplicar, em alguns estados do Brasil; e para calcular a CTC potencial (Capacidade de troca de cátions determinada a pH 7,0), em análise de solo de rotina, em geral (WIETHÖLTER, 2000). A CTC potencial é utilizada para estimar os valores de outros atributos do solo, como a saturação por cátions trocáveis de reação básica (ou ”saturação por bases” ou valor ”V”) e a saturação por potássio. A saturação por bases também é utilizada para determinar a quantidade de calcário a aplicar, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina (CQFS-RS/SC, 2004).
Figura 1. (a) Teores das massas secas do sistema radicial (MSSR), (b) da parte aérea (MSPA), (c) proporção entre a massa seca do sistema radicial e a massa seca da parte aérea (MSSR/MSPA) e (d) comprimento de raiz seminal (CRS) de milho crescido em solução nutritiva, com diferentes atividades de alumínio (Al). Média dos híbridos 30F53 e 32R48. H = híbrido, H x Al = interação (ns: não significativo, *: p ≤ 0,05, **: p ≤ 0,01 e ***: p ≤ 0,001). Barra vertical representa a diferença mínima significativa do teste de Tukey, a 5 % de probabilidade do erro.
Figura 2. Parte aérea e sistema radicial de plantas de milho cultivada em solução nutritiva sem (esquerda) e com (direita) toxidez alumínio (Al). Universidade de Passo Fundo, Programa de Pós-Graduação em Agronomia. Experimento de mestrado de Techio, J.W.
Monitoramento da acidez e manejo da calagem
A acidez decresce a disponibilidade da maioria dos nutrientes do solo além de influenciar negativamente o crescimento e alterar a morfologia da raiz (Figura 3), entre outros fatores biológicos relacionados com a disponibilidade dos nutrientes. A correção da acidez requer o monitoramento do valor do pH em água, ou em CaCl2, o que é necessário para avaliar a acidez da solução do solo; do valor do pH SMP, necessário para avaliar a acidez potencial; além dos teores de Al, de Ca e de Mg trocáveis e do valor da saturação por bases, importantes para avaliar a toxidez de Al e a disponibilidade destes dois últimos cátions às plantas (CQFS-RS/SC, 2004). Em solos de textura média a argilosa, o monitoramento da acidez pode ser necessário a cada três anos, dependendo da situação. Já em solos arenosos, a acidificação é menor e, em alguns casos, o teor de Al trocável pode ser nulo, mesmo decorrido mais de seis anos depois da última calagem. Contudo, em solos arenosos e com baixa CTC, a concentração de Ca e de Mg pode ser baixa e, nesta situação, o monitoramento do solo, em geral, pode ser necessário também em intervalo de três anos.
Figura 3. Sistema radicial de cultivares de trigo, em Latossolo ácido com e sem aplicação de calcário. Universidade de Passo Fundo, RS, 2013. Experimento de Juliana Hann.
Para monitorar a acidez, a camada de solo amostrada para análise físico-química deverá representar a profundidade mais explorada pelas raízes. A raiz principal cresce em profundidade, tendo como principal função fixar a planta e absover água, enquanto que a absorção de nutrientes é efetuada, principalmente, por raízes finas, que concentram na superfície do solo (Figura 4). Dessa forma, em solos com expressivo gradiente de acidez no perfil, o diagnóstico poderá ser mais bem executado, se a amostragem for estratificada em camadas. A profundidade e a espessura destas camadas devem possibilitar o diagnóstico das condições de crescimento das raízes que mais absorvem nutrientes (Camada superficial) e das raízes que absorvem água (Camada subsuperficial).
A profundidade de amostragem de solo poderá variar com a cultura, ou a cultivar, e o tipo de solo e como ele é manejado. Por exemplo, a cultura de trigo tem maior densidade de raízes finas na camada de 0-10 cm, enquanto que a raiz pivotante da cultura da soja pode crescer até 40 cm, em busca de água, quando essa não está disponível na camada superficial, como ocorre, principalmente, durante estiagens. Já cultivares atuais de soja, de ciclo mais precoce e com maior capacidade de produção de grão, tem menor densidade de raiz, em relação às cultivares antigas e absorvem nutrientes, principalmente, das camadas superficiais do solo (Figura 5).
Figura 4. Sistema radicial de aveia preta, em solo argiloso com muitos anos de plantio direto. São José do Ouro, RS (2013).
Figura 5. Densidade de raiz (DR) de plantas de soja de diferentes grupos de maturação (GM), cultivadas em Latossolo com plantio direto, sem toxidez de alumínio. Universidade de Passo Fundo, RS, (2012).
A camada monitorada, os critérios de interpretação de acidez, o valor de pH ou de saturação por bases (V) a atingir com a calagem, a dose de calcário e a forma de aplicação deste corretivo varia com a situação do solo e do histórico de calagem (Tabela 3). Em áreas em que o plantio direto iniciou com a incorporação da dose recomendada de calcário, a camada amostrada poderá ser a de 0-10 cm, pois, em geral, há pouca acidificação da camada subsuperficial (Tabela 3). Nessas situações ou em solos com baixa acidez natural, como Neossolos, Chernossolos e Vertissolos, a acidificação é maior na camada superficial, a qual pode ser monitorada e corrigida mais facilmente que a camada subsuperficial. A camada de 0-10 cm também poderá ser utilizada para amostragem de Latossolos e Argissolo com baixa acidez potencial (pH SMP > 5,3) no horizonte superficial. Já a amostragem de 0-20 cm poderá ser efetuada em áreas onde o calcário foi incorporado, no início do sistema de plantio direto, mas desde que este sistema esteja consolidado. Além disso, esta camada pode ser utilizada em solos com baixa acidez (Tabela 3). No sistema de plantio direto consolidado, a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas (BABUJIA et al., 2010; WYNGAARD et al., 2012) aumentam a disponibilidade dos nutrientes e diminuem a toxidez do Al (CAIRES, 2013) e o crescimento da raiz é favorecido. Dessa forma, os valores dos critérios de interpretação de acidez (pH em água = 5,5 e saturação por bases = 65 %) indicados para a recomendação de calagem no sistema de plantio direto consolidado (Tabela 3) são menores que os indicados para o plantio direto não consolidado, ou para solo com aração e calagem (pH em água = 6,0 e saturação por bases = 80%; CQFS-RS/SC, 2004). Isso se deve, principalmente, aos maiores teores de matéria orgânica e a maior disponibilidade de fósforo; as melhores condições físicas do solo, principalmente, a temperatura, a infiltração e a manutenção de água, e manutenção dos resíduos culturais na superfície do solo, proporcionando menor erosão, neste tipo de sistema, em comparação ao solo com preparo convencional, além de outras melhorias na disponibilidade de nutrientes e atividade biológica, incluindo o crescimento da raiz. No sistema de plantio direto consolidado, compostos orgânicos podem complexar o Al (ALLEONI et al., 2010), decrescendo a toxidez deste cátion. Estes fatores proporcionam menor resposta das culturas de grãos à calagem, em relação ao preparo de solo convencional, e, consequentemente, os valores dos critérios de interpretação de acidez são menores no sistema plantio direto consolidado.
Resultados de pesquisa indicam que os valores para a interpretação dos atributos de acidez no sistema de plantio direto consolidado ainda podem ser menores que o sugerido pela pesquisa do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, quando a camada amostrada é de 0 a 20 cm (NOLLA & ANGHINONI, 2006; VIEIRA et al., 2013). Nessa última camada, Vieira et al. (2013) constataram que o nível crítico para a recomendação de calagem corresponde a V = 55 %, em culturas com maior tolerância a acidez, na Região Centro-Sul do Paraná. Para a cultura da soja, o valor desse atributo foi de 60 % e o de pH em água foi de 5,3. Além do efeito da maior acidez subsuperficial representada na amostragem de 0-20 cm, em relaçãoa amostragem de 0-10 cm, estes menores valores de nível crítico podem estar relacionados com a fase consolidada deste sistema. Nessa fase, propriedades emergentes, resultantes da evolução deste sistema, potencializam ainda mais o crescimento das plantas (NICOLODI, 2007; NICOLODI et al., 2008). Como os solos do Planalto do Rio Grande do Sul, em geral, têm maior acidez que os do Paraná e o sistema plantio direto não é consolidado, em muitas áreas, pesquisas locais devem verificar se estes valores podem ser aplicados no Rio Grande do Sul. Além disso, os valores dos níveis críticos de calagem sugeridos para a camada de 0-10 cm neste estado (V = 65 % e pH em água < 5,5; CQFS-RS/SC, 2004; Tabela 3) são semelhantes aos valores obtidos por Vieira et al. (2013) para a cultura da soja (V = 60 % e pH em água = 5,3). Dessa forma, em lavouras onde a soja é a cultura de maior retorno econômico, a recomendação de calagem pouco difere entre estes dois critérios.
Em solos argilosos e ácidos, onde o calcário não foi incorporado, no início do sistema de plantio direto; e esse corretivo foi aplicado na superfície do solo, nos últimos anos, é comum a existência de uma camada superficial, com menor acidez; e outra subsuperficial; com maior acidez (Tabela 2). Para a identificação desse gradiente de acidez, a amostragem deve ser estratificada em camadas, por exemplo, coletando-se, separadamente, os estratos de 0-10 e de 10-20 cm (CQFS-RS/SC, 2004; OLIVEIRA JUNIOR et al., 2010; Tabela 3). No entanto, esse tipo de amostragem demanda mais tempo e implica em mais trabalho, em relação à amostragem de somente uma camada (por exemplo, 0 a 10 ou 0 a 20 cm). Em função destes inconvenientes, esta última alternativa tem sido mais utilizada, em lavouras com plantio direto. A amostragem da camada de 0-20 cm é adequada em solos sem gradiente expressivo de acidez, como é comum em áreas onde o calcário foi incorporado no início do plantio direto (Tabela 1). Além disso, a amostragem de somente uma camada pode ser utilizada em solos com baixa acidez natural, em áreas com campo natural, ou em áreas onde o calcário não foi incorporado no início do plantio direto e não foi aplicado em superfície nos últimos anos, como ocorreu nas três amostras de Coxilha da Tabela 2. Por outro lado, a análise do diagnóstico obtido com a amostragem da camada de 0-20 cm subestima a acidez subsuperficial, em áreas com aplicação recente de calcário em superfície, onde este corretivo não foi incorporado no início do plantio direto (Tabela 2). Como indicam a maior parte dos resultados desta tabela, o gradiente de acidez é expressivo em áreas com esta situação. Já em áreas onde o calcário não é aplicado há mais de vinte anos (três amostras do Município de Coxilha), o perfil do solo é mais homogêneo, embora extremamente ácido, e a amostragem de 0-20 cm resulta em diagnóstico adequado do perfil do solo (Tabela 2). Estas diversidades de situações, relacionadas com o manejo da calagem, indicam a importância de se conhecer o histórico da área, para a escolha da melhor camada de amostragem de solo e se esta deve ser estratificada ou não, conforme sugerido na tabela 3.
Tabela 3. Sugestão de camada para amostragem de solo, de nível crítico para interpretação da acidez, de quantidade e de local (forma) de aplicação de calcário em diferentes situações1.
Se as amostras da tabela 2, coletadas nas áreas com aplicação mais recente de calcário, fossem amostradas somente na camada de 0-20 cm, os resultados da análise de solo seriam semelhantes à média das camadas de 0-10 e de 10-20 cm. Para o conjunto das nove amostras desta tabela, em que esta situação foi identificada, a média destas duas camadas corresponde a: pH em água, 5,1; pH SMP, 5,5; Al, 1,3 cmolc dm-3; saturação por Al, 18,7 % e V, 43,1 %. Estes valores são menores que os obtidos na camada de 10-20 cm destas amostras (Tabela 2), embora indiquem a necessidade de aplicação de calcário. Contudo, neste caso, a amostragem de 0-20 cm não possibilita identificar se a acidez destas amostras concentra na camada subsuperficial ou se predomina em todo o perfil. Dessa forma, a amostragem de 0-20 cm pode induzir a recomendação de aplicação superficial de calcário, embora se saiba que essa prática tem pouco efeito sobre a acidez subsuperficial (Tabela 2; RHEINHEIMER et al., 2000; MARTINAZZO, 2006). A amostragem de 0-20 cm ainda pode resultar na recomendação de menor quantidade de calcário do que a necessária para corrigir a acidez da camada subsuperficial, já que essa é subestimada. Por exemplo, considerando a média das nove amostras da tabela 2, com aplicação recente de calcário, a quantidade desse corretivo baseada nos resultados da camada de 0-20 cm é de 3,7 t ha-1 , para elevar o pH em água a 5,5; ou de 6,1 t ha-1, para elevar o pH em água a 6,0 (CQFS-RS/SC, 2004; Tabela 3). Por outro lado, a quantidade de calcário baseada nos resultados das amostras estratificadas indica a necessidade de 3,8 t ha-1, para elevar o pH em água a 6,0, na camada de 10-20 cm; e de 2,7 t ha-1 de calcário para corrigir a acidez da camada de 0-10 cm (ou 1,6 t ha-1 de calcário, para elevar o pH em água a 5,5), totalizando 6,5 t ha-1 para o perfil de 0-20 cm. Essa quantidade é 0,4 t ha-1 maior que a obtida com a amostragem de 0-20 cm. Essa diferença é com base no PRNT (Poder de relativo de neutralização total de um corretivo de acidez), de 100%, sendo maior quando o calcário tem PRNT menor, como comumente ocorre no estado do Rio Grande do Sul.
Embora a amostragem da camada de 0-20 cm, em solos com gradiente de acidez no perfil, possa subestimar a acidez subsuperficial, essa prática tem sido utilizada em trabalhos de agricultura de precisão, baseados em amostragem detalhada de solo. Nesses trabalhos, é comum a recomendação da aplicação de calcário em superfície, em áreas com plantio direto, independente do histórico de cultivo ou do manejo da calagem e do tipo de solo. Como indicam os resultados da tabela 2, a calagem em superfície, teve pouco efeito na acidez subsuperficial. Isso também foi constado em levantamento mais abrangente, efetuado em lavouras de outros municípios do Rio Grande do Sul (MARTINAZZO, 2006) e em um Planossolo (RHEINHEIMER et al., 2000). De acordo com esses últimos autores, a aplicação de 17 t ha-1 calcário não proporcionou maior mobilidade vertical desse corretivo, sendo o efeito limitado à camada superficial, em solo com campo natural, em plantio direto. Assim, a prática de recomendar calcário para elevar o pH em água a 6,0, em solos com plantio direto, quando o sugerido pela pesquisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (CQFS-RS/SC, 2004; Tabela 2) é para pH 5,5, não garante a correção da acidez subsuperficial e o retorno econômico deste investimento. Além disso, esta prática pode, ainda, aumentar o pH em água da camada superficial a valores maiores que 6,0 ou 6,5, resultando em aumento da volatilização de amônia e, consequentemente, em menor eficiência da adubação nitrogenada; além de propiciar condições químicas que favorecem o decréscimo da disponibilidade de manganês, de zinco e de fósforo, entre outros problemas de fertilidade do solo. Nesse sentido, a amostragem de 0-20 cm não deve ser utilizada indiscriminadamente, devendo ser considerada de acordo com o histórico de manejo da calagem e o tipo de solo. Quando estas informações indicam gradiente de acidez, a camada subsuperficial deve ser monitorada independente da camada superficial, possibilitando avaliar a melhor estratégia de correção de acidez.
Em solos com acidez subsuperficial elevada, i.e. saturação por Al maior que 10 % e alta acidez potencial (pH SMP < 5,3), essa poderá ser corrigida com a incorporação de calcário na camada de 0-20 cm. Em solos que requerem quantidades elevadas de calcário, uma alternativa é aplicar a metade da dose recomendada para a camada de 0-20 cm mais calcário na linha (200 a 300 kg/ha) (CQFS-RS/SC, 2004). Embora a calagem na linha tenha pouco efeito na acidez, esta prática pode contribuir na melhoria dos teores de Ca e no decréscimo do estresse de Al em plantas, se a dose aplicada aumentar a saturação deste primeiro cátion e decrescer a saturação do segundo no volume de solo em contato com a raiz (linha de semeadura). Outras alternativas existem para melhorar a acidez ou o teor de Ca da subsuperfície, como a lama de cal (resíduo da indústria da celulose); estercos animais ou compostos e resíduos orgânicos ricos em cálcio e bases (carbonatos, óxidos e hidróxidos) e gesso. Embora, em geral, o efeito destes produtos na acidez subsuperficial seja demorado, tem se verificado que mobilidade vertical do Ca adicionado com a lama de cal, por exemplo, é mais rápida que a do calcário agrícola e que solos com aplicação superficial de estercos animais tem menor gradiente de fertilidade.. Não se deve esquecer que a resposta a calagem em sistema de plantio direto é mais provável em épocas de estiagem. Dessa forma, práticas de conservação do solo, que aumentam a retenção de água no perfil do solo e possibilitam o crescimento das raízes das plantas, devem ser adotadas em conjunto com a correção da acidez. Por outro lado, em áreas com menor acidez potencial (pH SMP > 5,3), o calcário poderá ser aplicado em superfície (CQFS-RS/SC, 2004; Tabela 3).
Além do local (forma) de aplicação de calcário, a quantidade desse corretivo também varia com a acidez potencial. Em solos com elevada acidez potencial (pH SMP < 5,3), a quantidade de calcário indicada é para elevar o valor do pH em água a 6,0, ou o valor V a 80 %, na camada de 0-20 cm. Em solos com menor acidez potencial (pH SMP > 5,3), a quantidade de calcário a aplicar é para elevar o valor de pH em água a 5,5 ou valor V a 65 % (Tabela 3). Como consta nessa tabela, essas indicações são também sugeridas para iniciar o plantio direto, embora, nesse caso, a amostragem do solo é de 0-20 cm, pois se considera que há pouco gradiente químico no perfil do solo, quando este tipo de manejo de solo é implantado em lavouras com preparo convencional ou em área de campo natural.
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Publicado na Revista Plantio Direto, edição especial conjunta 135 e 136, maio-agosto de 2013.