Voz Feminina Cada Vez Mais Forte no Agronegócio


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Publicado em: 01/10/2013

Voz feminina cada vez mais forte no agronegócio

Determinadas, detalhistas, apaixonadas e com um diferencial importante em comparação aos homens: a sensibilidade, o que garante às mulheres sucesso em áreas como o agronegócio. Devido à presença cada vez maior da ala feminina na gestão das propriedades rurais, pela primeira vez, as mulheres tiveram atenção especial na programação do 28º Seminário da Cooplantio. A mesa redonda ”A Mulher na Agricultura Atual e o Futuro”, intermediada pela jornalista Tânia Carvalho, trouxe a engenheira agrônoma e produtora rural da Fazenda Ereporã, de Erechim (RS), Renata Arioli; a engenheira agrônoma e produtora rural da Sementes Falcão, de Passo Fundo(RS), Fernanda Falcão, e a produtora rural da Agropecuária Pontal, de Santa Vitória do Palmar (RS), Helena Schmidt, que falaram de suas experiências profissionais na atividade do agronegócio.

Os resultados aparecem quando se tem amor pelo que se faz

Renata Arioli deu início a sua apresentação fazendo um breve relato histórico da Fazenda e Haras Ereporã, no Norte do RS, quase na divisa com Santa Catarina. Segundo ela, 100% das sementes produzidas na propriedade, empresa familiar que começou em 1957, são destinadas à Cooplantio. No verão, é feito o plantio de soja e milho, e no inverno, de trigo e aveia. A fazenda se dedica ainda, há mais de 65 anos, a criação de cavalos puro sangue inglês. Já o sistema de Plantio Direto foi introduzido na propriedade há 28 anos, por iniciativa do primo Carlos B. Dias, que está na fazenda até hoje, após ter participado de um seminário sobre o tema em Ponta Grossa (PR).

Renata Arioli, engenheira agrônoma e produtora rural da Fazenda Ereporã, Erechim (RS).

Ela falou também de seus receios de quando iniciou em 2005 o seu envolvimento com a fazenda oriunda de seu avô. ”Meu principal medo é se haveria preconceito, pois, além de mulher, me formei jovem. Se eu conseguiria dar continuidade com sucesso a um trabalho que vinha sendo desenvolvido há anos por um escritório de planejamento e como seria o meu relacionamento com os colaboradores, alguns deles, atuando na fazenda deste a época do meu avô”, lembrou. Além do papel técnico, foi designada pelo seu pai a assumir o papel humano.

Renata também abordou a questão dos Recursos Humanos na lavoura e a aplicação da empregabilidade familiar como estratégia de manutenção da mão de obra masculina. ”O nosso maior desafio hoje é manter a mão de obra qualificada no campo. Para isso, estamos tentando fazer a empregabilidade familiar, que nada mais é do que inserir os demais familiares dos empregados no trabalho da lavoura”, contou. Segundo ela, a fazenda oferece incentivo escolar, moradias novas, internet e ajuda nas tomadas de decisões das famílias para assegurar essa permanência dos trabalhadores.

A engenheira agrônoma falou ainda da sua percepção sobre a participação feminina no campo. ”Por que não tentar inserir a mulher também na atividade agrícola da propriedade? A mulher hoje está se destacando pelo perfil multitarefas. Pelo próprio instinto materno que possui, ela consegue pensar na casa, na família, na saúde e no trabalho ao mesmo tempo. Ela usa o seu carisma, afeto, sensibilidade, empatia e outras habilidades do universo feminino. Além disso, tem visão sistêmica de todos os processos, o que garante a sua capacidade e habilidade de gerenciar”, disse.

E observou: ”Quando se tem amor ao que se faz, sensibilidade, determinação, respeito, dedicação, interesse, perseverança e desejo intensivo de construir, os resultados vêm naturalmente. E com isso a gente consegue uma baixa rotatividade de pessoas, um ambiente melhor para se trabalhar e um comprometimento total dos colaboradores”.

Dados da produção

Quanto aos resultados da produção obtidos na propriedade, ela deu ênfase para o milho que teve um acréscimo de 142% nos últimos 10 anos – cerca de 8,5 mil kg/hectare, enquanto que a média da safra gaúcha no mesmo período foi de 3,5 mil kg/ha. ”Em alguns anos onde o clima favorece e o trabalho ajuda, chegamos a colher até 11 mil kg/ha”, adiantou. No que se refere à cultura da soja, enquanto a média da produção gaúcha gira em torno de 2 mil kg/ha, a fazenda colhe 3 mil kg/ha, representando um acréscimo de 52%.

Para Renata, quando se tem um ideal, a força surge e as realizações acontecem. ”Avalio o somatório de todos esses anos como positivo. Nem sempre acertei, mas foi com os erros que eu aprendi. O fator determinante para os resultados positivos hoje são as pessoas”, concluiu ela no auge dos seus 31 anos de idade.

O principal diferencial feminino é a humildade

Fernanda Falcão foi a próxima a subir ao palco. A engenheira agrônoma e produtora rural também fez um rápido relato de como iniciaram os negócios da sua família e como assumiu a frente da gestão. Suas responsabilidades hoje incluem planejamento, acompanhamento e execução de toda área técnica (desde a semeadura até a colheita), orçamento, compra de insumos e custos de produção, supervisão da produção de sementes, conservação e fertilidade do solo, agricultura de precisão e gestão de pessoas.

Fernanda Falcão, engenheira agrônoma e produtora rural da Sementes Falcão, Passo Fundo (RS).

”Eu lembro que ainda usava fralda e mamadeira e meu pai já me levava para a lavoura. Não tinha com quem ficar. Então, desde pequena eu acompanhei todas as atividades. Foi esse incentivo que eu tive que me fez ter o amor que eu tenho hoje pela terra e pela agricultura”, disse.

A família possui propriedade de 3,8 mil hectares em Primavera do Leste, no estado do Mato Grosso, que é destinada a produção de grãos. Em 1986, deu início a produção de sementes de soja, trigo e aveia branca no Rio grande do Sul. A família dispõe ainda de uma área 700 ha na Esquina Natalino, no município de Sarandi, onde busca a excelência em qualidade na produção de sementes.

”A nossa empresa, que começou com o meu avô e passou para o meu pai, é estritamente familiar. A minha mãe também trabalha na empresa e hoje conta com o meu trabalho é do meu irmão, que se formou em administração e ocupa o cargo de gerente comercial”, disse. Ela destacou ainda alguns avanços da família na agricultura como a descoberta do DNA, em 1953, a mecanização agrícola, o sistema plantio direto, a biotecnologia, a rapidez da informação, através da informática e a chegada das mulheres para tocar os negócios. ”Um exemplo disso, é o da minha mãe que era formada em Belas Artes e, após o convite do meu pai, fez curso de especialização e se tornou gerente administrativa e financeira da empresa, implantando a qualidade total e uma série de outros benefícios”, contou.

Para ela, o principal diferencial feminino é a humildade. ”Quanto mais você sabe, mais você quer saber. A mulher está sempre em busca do conhecimento. E quando você faz algo que envolve paixão, faz muito bem feito”, afirmou. Um dos grandes desafios da agricultura, segundo ela, será o de transformar o conhecimento em rentabilidade para alimentar o mundo. ”Nos próximos 40 anos vamos precisar produzir a mesma quantidade de alimentos que produzimos nos últimos 12 mil anos. O que deverá ser feito com qualidade e otimizando os recursos naturais. Para isso, precisamos estar preparados para os imprevistos e ter a coragem de assumir novos riscos”, pontuou.

Quanto aos obstáculos a serem enfrentados, ela afirmou: ”Conciliar a vida profissional com a vida pessoal é o nosso principal desafio, porque continuamos sendo mulheres”. Fernanda concluiu a sua apresentação fazendo um pedido aos produtores da platéia: ”Incentivem as suas esposas, as suas filhas, as mulheres dos seus colaboradores a se envolverem na atividade agrícola. Eu tenho certeza que vocês irão se surpreender positivamente com o resultado”.

O poder de encontrar o ”santo equilíbrio”

Para Helena Mussnich Schmidt, a agricultura deve ser vista como uma empresa e, por isso, gerida como tal. A produtora rural apresentou a Agropecuária Pontal, de Santa Vitória do Palmar, e contou o início da sua trajetória, as crises enfrentadas, a entrada dos filhos nos negócios a necessidade de ter um controle rígido de custos e planejamento, além do potencial da mulher para o trabalho em propriedades rurais.

Helena Schmidt, produtora rural da Agropecuária Pontal, Santa Vitória do Palmar (RS).

Segundo ela, organização, geração de dados e controle são fundamentais para a evolução de uma empresa. ”Eu entrei na propriedade como voluntária, a convite do meu marido, para implantar um sistema gerencial de custos e de planejamento pela dificuldade na época de encontrar alguém que fizesse isso. Após um ano de muito trabalho, fui efetivada. Hoje eu sou responsável também pela área de pessoal. Para crescer, é preciso ter bons profissionais na área técnica e bons administradores, mas, acima de tudo, planejamento e controle financeiro”, constatou.

Helena considera fundamental estar aberto a mudanças e compartilhar experiências com os filhos quando eles decidem entrar no negócio. ”É importante os pais levarem os seus filhos para a propriedade rural desde pequenos. Só assim eles vão aprender a amar a terra. E quem sabe, se for vocação deles, seguir o teu negócio. E se isso acontecer, dar espaço para que possam alçar voos”, disse.

Produção de grãos, gado de corte e produção de leite, são algumas das atividades com gerenciamento de custos que Helena coordena na Agropecuária Pontal.

De acordo com ela, a Agropecuária Pontal conta com uma área própria de 2,2 mil hectares, além de área de domínio 4,5 mil ha, onde são produzidos arroz (1,4 mil ha), soja (80 ha), milho, pastagens, pecuária de corte (700 ha, sendo que produção é de 300 mil kg/ano), tambo de leite (com produção de um milhão de litros de leite/ano) e uma estrutura de beneficiamento de arroz.

Sobre a atuação da mulher no agronegócio ela disse: ”O trabalho na propriedade agrícola é uma atividade prazerosa para a mulher. A gente acompanha o crescimento do negócio e o desenvolvimento dos nossos filhos ao mesmo tempo. Acredito no sucesso da empresa familiar, sem destruir as relações, tendo a mulher o papel de encontrar o meio termo para o ‘santo equilíbrio’”, concluiu.

Sobre a participação das mulheres

Segundo o gestor de marketing e serviços da Cooplantio, Dirceu Gassen, a estreia da programação feminina, junto às demais atividades, era uma demanda antiga das próprias mulheres que estão inseridas na atividade do agronegócio. ”Para quem quer organização e eficiência, o papel da mulher é fundamental”, justificou.

E o resultado da iniciativa de Dirceu Gassen não poderia ter sido diferente. Aplausos calorosos ao final de cada apresentação, elogios pelos corredores do evento, além do reconhecimento através das redes sociais pelo excelente trabalho que vem sendo desenvolvido pelo público feminino no campo. Não faltaram ainda palavras de incentivo por parte de nomes de destaques do agronegócio, gestão e economia como o engenheiro agrônomo Cilotér Iribarrem, consultor da empresa Safras & Cifras, um dos palestrantes do evento.

”Elas foram brilhantes em suas apresentações, o que para mim não é nenhuma surpresa. Eu sempre fui um grande incentivador da atuação das mulheres nas propriedades. As melhores empresas rurais que a Safras & Cifras atende, ao longo desses 23 anos, na sua grande maioria, têm a efetiva participação das mulheres na gestão do agronegócio”, comentou.