Sucessão e harmonia no campo
Assim como ocorre nas empresas ou em qualquer outra atividade produtiva, a sucessão é algo que precisa ser trabalhado. E isto deve ser feito gradualmente para não causar choques ou constrangimentos que podem prejudicar o diálogo e resultar em frustrações e divergências familiares. Só assim filhos e netos terão amor e gosto pelo campo, pelo trabalho dos pais e avós, reduzindo o esvaziamento na área rural.
A sucessão da família rural foi outro tema que ganhou destaque durante o 28º Seminário Cooplantio, em Gramado. O Painel Inovação na Gestão das Empresas Rurais Familiares: Família, Patrimônio e Negócio, um dos mais concorridos do seminário, contou com a participação do engenheiro agrônomo Cilotér Iribarrem, consultor da empresa Safras & Cifras, que de maneira descontraída deu dicas para se obter êxito em uma empresa rural familiar.
Para Iribarrem, a cultura da soja é apenas um dos fatores que vêm suscitando a necessidade de melhorias nos processos do campo gaúcho. Mudanças na estrutura da gestão das propriedades também estão requerendo atenção e práticas inovadoras. Em sua apresentação, Cilotér citou o crescimento da população humana, a maior longevidade dos pais, que traz como consequência uma participação mais efetiva dos filhos e, muitas vezes, a entrada dos netos na empresa familiar.
Estudos apontam que nos últimos 50 anos, a população urbana triplicou. Nesse período, o consumo de grãos aumentou 185% e o de carnes 433%, enquanto a área agrícola expandiu apenas 11%. Já a expectativa de vida passou de 48 anos para 73 anos. No Brasil, em 2030 serão 29 milhões de jovens e em 2050, 24 milhões de jovens. No final desta década os jovens brasileiros representarão somente 16% da População Brasileira. Uma das principais causas do êxodo rural, segundo Iribarrem, é a questão sucessória. ”Novas gerações vão entrando no negócio. Há lugar para elas?”, alertou. Ele destacou as mudanças que as relações familiares têm sofrido conforme as novas gerações crescem e os conflitos que têm surgido com as diferenças de postura e ideias entre pais e filhos.
”O amanhã se constrói hoje: a sucessão do negócio depende de uma relação harmoniosa na sucessão familiar”, disse. E ele vai além: ”Para que não ocorram atritos, é necessária a implantação de um novo modelo de gestão. Quando toda a família trabalha no mesmo empreendimento, é difícil manter saudáveis as relações pessoais e profissionais. O que divide as propriedades, muitas vezes, não é o insucesso dos negócios, e sim os conflitos familiares. Temos que procurar diminuir os atritos familiares, criar perspectivas para os filhos, manter e aumentar a escala de produção. Assim teremos sucesso”, pontuou.
Família feliz, negócio saudável
Para Iribarrem, é preciso preparar a sucessão não só das pessoas, mas também da empresa familiar. O engenheiro agrônomo chamou a atenção para um ponto chave nesse processo: a harmonia:”Será que todas as famílias são felizes, embora tenham um excelente negócio? Qual é o momento que nos encontramos para tratar de negócio? Geralmente no almoço de domingo, em um momento de lazer, e dessa forma acabamos com a relação familiar. A arte de combinar empresa e família faz enfrentar no dia a dia dois conceitos antagônicos: amor versus dinheiro. Se não houve regras e tratarmos o negócio de forma amadora, acontecem conflitos”, comentou.
Como as gerações diferentes acabam tendo influência direta no processo de sucessão, ele considera fundamental criar regras, uma espécie de contrato, para o familiar ou cônjuge entrar ou sair do negócio na propriedade. ”É certo que em três gerações já irá se criar um conflito. O maior ou menor resultado econômico entre as empresas está na gestão. Para nós sabermos o que podemos distribuir para os filhos que trabalham no negócio ou não e investir, precisamos ter controle e regras para entrar ou sair da sociedade. E a organização do processo de sucessão melhora a organização dos controles. Mas aí surge uma dúvida: os filhos que não trabalham no negócio também devem receber? Sim, mas apenas uma participação nos lucros. Caso isso não ocorra, no momento da morte dos pais, a primeira coisa que esses filhos vão fazer é vender o seu pedaço de terra na propriedade e, de preferência para terceiros ou ficar brigando por mais de 15 ou 20 anos. Hoje se briga até por uma bicicleta que um ganhou quando tinha 10 anos no final do ano”,afirmou.
Essa nova forma de agir, segundo o consultor, permite não só a relação harmoniosa entre a família, mas também o crescimento econômico e financeiro e a redução na carga tributária. ”O contrato permite ainda estabelecer formas de participação ou não dos cônjuges no negócio familiar, além de estabelecer uma relação comercial entre pais, filhos e netos, o que melhora a relação entre a família e elimina boa parte dos conflitos. Permite também que as novas gerações conheçam o negócio da família mais cedo e com isto possam tomar decisões com relação as suas carreiras profissionais”, disse.
Mas como administrar a relação família, patrimônio e negócio? Iribarrem sugere uma mudança na relação entre família e terra. A situação atual nas empresas rurais é ter uma terra, um negócio, controlado por uma pessoa física. De acordo com ele, 95% das propriedades hoje estão em nome da pessoa física. ”É preciso passar o patrimônio, as terras da família, para um regime de pessoa jurídica, para que seja regrada por um contrato social (pessoa física). Se você não tiver um contrato social, você não rege a sociedade”, orientou.
Já o negócio (exploração da propriedade, produção e insumos) pode ser organizado através de contratos de parceria entre os parentes envolvidos. ”O contador vai dizer que estamos loucos, que os impostos vão aumentar. Mas a verdade é que essa é a fórmula mais efetiva para se regrar e controlar uma sucessão”, explicou. Conforme Iribarrem, no Rio Grande do Sul, a região que mais adota esse processo de sucessão é o Norte do Estado e, no Brasil, o Centro Oeste. Além das empresas multinacionais, o sistema também é buscado pelas cooperativas já que 70% da produção hoje é entregue por 30% dos associados.
Melhor momento
O consultor apontou as idades ideais para a realização da sucessão: quando os pais estão entre os 60 a 70 anos, e os filhos entre 30 a 40. ”Deve ser feita em vida, e não pode haver o medo de perda de poder”, disse.
Mas segundo ele, é preciso tomar cuidado com os pontos críticos como acertos passados, remuneração, divisão, nome para a escrituração, reinvestimentos, entrada de novos membros e tributação. ”Não existe família ideal, e sim família real. Para isso, é preciso organizar o processo levantando dados. Para saber como distribuir, é necessário controle”, advertiu.
Ele foi enfático ao dizer ainda que na gestão da sucessão ”a mulher é o algodão do substrato”, ”faz o meio de campo” na hora de administrar conflitos habituais e diferenças de pensamentos entre pais e filhos. Segundo o engenheiro agrônomo, o ditado popular ”pai rico, filho nobre e neto pobre” ilustra a situação que pode ser evitada se o processo sucessório for estrategicamente planejado e organizado. E complementou, citando uma frase de Luis Fernando Veríssimo. ”A verdade é que a gente não faz os filhos só faz o layout, eles mesmos fazem a arte final”.
Iribarrem enumerou ainda algumas causas que levam a sucessão nas empresas familiares atuais serem diferentes das anteriores como longevidade dos pais, nível de formação dos filhos, menor número de filhos, novas oportunidades de trabalho para os jovens, regimes de casamento, necessidade de manter e aumentar a escala de produção do negócio, menos autoritária a relação pais e filhos e necessidade de maior conhecimento da Gestão Financeira, Administrativa e Tributária.
E alertou: ”No futuro, não esperem os herdeiros dizerem que não querem saber do negócio, nem que surjam sinais de desconforto ou conflito de interesse entre ”sócios”... é preciso agir já. Ser pró-ativo”.
Ao final da apresentação, ele voltou a frisar: ”O sucesso dos pais não garante a felicidade dos filhos. Família, negócio e patrimônio são coisas bem diferentes. Em 2025, os profissionais da geração Y vão representar 75% da força de trabalho no mundo. É uma geração mais imediatista, contestadora, disposta a correr riscos e ser parceira no negócio. Um pouco diferente da geração X, que seguia um modelo linear e hierárquico. Portanto, o pai ‘dono do negócio’ precisa estar aberto para isso. O assunto sucessão tem que partir dos pais e não dos filhos. Os pais precisam perder o medo e resolver isso em vida. Se esse negócio não for organizado não é só com tecnologia que nós vamos conseguir vencer”, concluiu.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição especial conjunta 135 e 136, maio-agosto de 2013.