Momento é de incerteza no mercado internacional
O comportamento do mercado de grãos nos próximos meses no Brasil e no mundo foi o tema abordado pelo engenheiro agrônomo e Doutor em Economia Aplicada, Alexandre Mendonça Barros, durante o 28° Seminário da Cooplantio. O especialista participou da mesa-redonda ”Economia, tendências e a agricultura do Sul do Brasil”, ao lado de outros nomes de influência do agronegócio, gestão e economia, o economista Marcelo Portugal e o superintendente do porto do Rio Grande, Dirceu Lopes.
De acordo com Barros, é muito difícil fazer previsões sobre o preço das commodities e dos insumos nos próximos meses. Ele alerta que o momento é muito nervoso no mercado internacional em função da incerteza quanto ao tamanho da quebra de safra norte-americana.
”Onda” de quebra e rápida retomada
O economista lembra que, nesta mesma época, no ano passado, havia uma visão extremamente otimista de safra no mundo todo. ”A safra brasileira de soja já tinha fracassado. Tínhamos desenhado no Brasil uma safrinha de milho excepcional em termos de plantio, que se mostrou muito boa. Corrigiu a quebra não no Rio Grande do Sul, mas no resto do Brasil. Mas até então a entrada do plantio norte-americano foi a melhor da história. Os americanos nunca plantaram tão rápido. O ambiente era de uma previsão de safra recorde nos Estados Unidos. Chegaram a levantar a possibilidade de colher 380 milhões de toneladas de milho e uma safra na casa dos 90 milhões de toneladas de soja. Era essa a conversa que nós ouvíamos entre maio e início de junho nos EUA. Aí veio a seca, que se intensificou até final de setembro. Final da história. A safra americana foi de 274 milhões de toneladas de milho, quase 110 milhões de toneladas abaixo do que se previa. A soja conseguiu recuperar um pouco, mas mesmo assim a quebra foi considerável”, disse.
A partir daí, o que se viu de agosto a setembro de 2012 foi uma ”onda” de quebra de safra e de clima ruim que contaminou o Hemisfério Sul e pesou no Hemisfério Norte. Em termos de produção, foi verificada uma excelente safra de soja na China e safras não muito boas de soja e de milho na Europa, especialmente no leste europeu (que se tornou um exportador relevante de milho), além de uma safra de trigo muito ruim na Rússia. Em decorrência disso, entre agosto e outubro, houve um movimento violento de aumento no preço dos grãos. Com a quebra de safra, parecia que o produtor americano iria sofrer, mas o Programa de Seguro Rural assegurou renda aos produtores norte-americanos e eles vieram com força total.
No Brasil, safra menor, custos baixos e preços altos
Com base em estudo estatístico mais detalhado, levando-se em conta os principais grãos (milho, trigo, arroz e soja), o que se verificou no ano passado foi um fenômeno raríssimo historicamente: uma correlação bastante forte entre o preço dos insumos, especialmente os fertilizantes hidrogenados (fósforo e potássio) e o preço dos grãos. Criou-se na verdade um paradoxo. Diferentemente do esperado no segundo semestre de 2012, o adubo não teve um boom nos preços dos insumos.
Na opinião do economista, o fato do adubo não ter subido tanto quanto os grãos no mercado internacional estaria ligado à frustração da safra americana. ”O adubo estava no solo e permaneceu no solo, ou seja, não houve uma extração nutricional por conta de uma safra pequena e, evidentemente, motivou uma demanda fraca. Um fato raríssimo e uma oportunidade muito boa na safra passada. O Brasil conseguiu fazer uma safra com custos historicamente baixos. Foi um momento excepcional para a economia brasileira em termos de ganho de renda. A quebra de soja, em função da seca, que afetou especialmente a economia gaúcha, foi compensada, em boa parte, por preços muito altos. Atravessamos o ano com o menor estoque da história. Mas tivemos níveis recordes de preço de farelo no Brasil e um momento de forte stress na cadeia de produção animal. Pela primeira vez em uma década diminuímos a produção de frango”, destacou.
Em compensação, os prêmios pagos a soja brasileira no ano passado foram enormes com R$ 2 dólares acima na Bolsa de Chicago pela inexistência de oferta. A reação dos produtores brasileiros a esse ganho específico de renda - preços da soja, milho e arroz subindo fortemente e custos contidos – foi a colheita de uma safra muito boa, sem o aumento da área. A primeira safra de milho, apesar de uma área menor, também foi positiva. A imagem que o Hemisfério Sul passou para o mundo foi de que a onda de recuperação da oferta internacional havia começado. E a expectativa para o segundo semestre é de uma safrinha de milho espetacular, a maior da história do Brasil, com produção mais concentrada nos estados do Mato Grosso e Paraná. Novamente o Brasil passa ao mundo a imagem de ser um potencial exportador de milho muito grande, o que pesa nas cotações do mercado.
EUA aposta na melhora do clima
Em termos de projeção de safra no Hemisfério Norte, o economista Alexandre Barros, afirmou que a expectativa é de uma safra muito boa, visto que o clima está favorável na China, Ásia, Índia e na própria Austrália, onde estava muito seco. ”A safra chinesa hoje é do tamanho da safra americana de grãos. A China é muito mais importante em arroz e trigo e menos em milho e soja e os americanos mais importantes em milho e soja, mas a composição dos dois países dá 50 milhões de toneladas de grãos. O mesmo pode ser dito da Europa. A umidade acima do normal deve garantir ao leste europeu uma safra boa de trigo e de milho”, apontou.
Segundo Barros, o mercado está acreditando que, com a colheita das safras da China, Leste Europeu e Estados Unidos, vai haver uma queda nos preços dos grãos. Ele alerta, no entanto, que o atraso no plantio de milho e de soja norte-americano, causado pela chuva, pode mudar esse cenário. ”O mercado acredita que, quando essas safras forem colhidas, teremos uma sucessão de três safras muito grandes, e em novembro, com essa combinação haveria uma baixa de preços muito grandes. Mas, no milho, por exemplo, mesmo que a quebra seja pequena, já há a retirada de grande quantidade de grãos do mercado internacional, e essa quebra pode manter os níveis dos preços”, observou.
Os números sustentados pelo governo americano para a próxima safra são de 360 milhões de toneladas de milho e de 92 milhões de toneladas de soja. Caso isso venha a se confirmar, provavelmente haverá uma maior acomodação no preço dos grãos. O especialista projeta uma perda em torno de 30 milhões de toneladas nos Estados Unidos. ”Esse resultado, a meu ver, vai manter os preços das commodities nos patamares atuais. Como conseqüência disso, não vejo razão para um aumento nos preços dos insumos nestes próximos meses”, analisou.
Na avaliação do economista, o mercado está ficando muito nervoso e vai debater fortemente os efeitos do clima na produtividade da safra dos EUA nas próximas semanas. ”Não se pode duvidar do potencial dos americanos, pois eles plantaram 43% do milho atrasado em apenas uma semana. O que é um recorde absoluto na história. Mas isso não passa de uma grande aposta na melhora do clima. Essa concentração de plantio me parece bastante arriscada. Se vier mais uma seca, não se sabe o que pode acontecer com os preços. O mercado é nervoso e o famoso Weather marketing - mercado climático – vai ser muito forte esse ano”, alertou.
Milho: salto fenomenal, mas ainda menor
Se for observado um gráfico com a evolução do plantio do milho semana a semana, nos Estados Unidos, fica evidente que ainda que os americanos tenham dado um salto fenomenal no ritmo de plantio emergencial foi inferior ao percentual da área plantada em 1993, o pior da história dos últimos 25 anos.
Na semana de 11 a 20 de maio, houve historicamente uma perda de 10% na produtividade de milho nos EUA. Em 1984, também houve um atraso, mas as chuvas foram tão boas que no final a quebra de produtividade não foi significativa. ”Eu sustento uma produtividade de milho nos Estados Unidos de 360 milhões de toneladas com uma média de 160 bu/ac ou o equivalente a 176 sacas/ha e uma quebra de 5% na produtividade, o que representa 20 milhões de toneladas a menos no mercado internacional. Um cenário que deverá manter os preços futuros de R$ 5,5 por bu de milho. Esse é um milho de R$ 25 a R$ 26 nos portos brasileiros no segundo semestre. Se o cenário for de perdas da magnitude que eu imagino, eu vejo em novembro uma soja de U$12,5 de bu e não de U$10 como muita gente tem falado”, projetou.
Preço dos insumos devem se manter
O preço dos bens agrícolas e insumos básicos subiram muito em relação ao dos bens industriais nos últimos anos. Para o futuro, a tendência é que esse crescimento não retroceda. Porém, não deverá alcançar a mesma proporção ocorrida até 2011.
Sobre o preço dos insumos, Barros prevê que eles devem se manter estáveis nos próximos meses. ”Não vejo grandes mudanças de preços até o final do ano. Existe uma combinação de safra grande nos EUA com o plantio no hemisfério sul, que sinalizará outra safra recorde. Se esse cenário se confirmar, eu não vejo motivo algum para os insumos agrícolas subirem de preço no segundo semestre. O mercado brasileiro de adubo está muito aquecido com crescimento de quase 5% nas vendas”, pontuou.
O economista adiantou ainda que os gaúchos foram os que mais compraram adubo de forma antecipada. A relação de troca de soja e de milho está muito favorável. Do ponto de vista de risco, do que valia a soja e o adubo, quem executou trocas neste começo de ano fez excelentes trocas. ”As entregas no Rio Grande no Sul têm batido recorde em 2013. Foi o mercado mais forte em termos de vendas nos quatro primeiros meses do ano, sinalizando que a economia gaúcha está começando a fazer mais pontos de relação de troca. Esse é um salto muito importante em termos de ganho e garantia de renda. Historicamente, nós não tínhamos a tradição de ver uma movimentação desse tipo”, observou.
Ao final da palestra, Barros reafirmou que os preços dos grãos, em especial da soja, tendem a acomodar neste segundo semestre já que o momento no mercado internacional está bastante nervoso, sendo ariscado apostar em uma baixa. Ele alerta para o começo de safra americana, o que exige uma atenção diária, para que se possa ter um posicionamento mais estratégico.
”Eu gosto desses preços que estão hoje nos mercados futuros. Parecem-me adequados. Do ponto de vista de insumos e, estando correta esta visão de acomodação dos preços, eu não vejo porque os insumos em dólar tenham grande variação daqui para o final do ano”, concluiu.
Publicado na edição especial conjunta 135-136 da Revista Plantio Direto. Aldeia Norte Editora, 2013.