O Cenário Externo Atual Não Ajuda na Expansão do Brasil


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Publicado em: 01/10/2013

O cenário externo atual não ajuda na expansão do Brasil

As grandes economias mundiais enfrentam dificuldades. Em termos estritamente econômicos, o cenário que se vislumbra não é nada animador com recessão continuada e baixas taxas de crescimento. Muito do que o mundo viverá neste ano depende de como se comportarão a China, Estados Unidos e Europa. Cautelosos, os economistas não esperam grande alteração desse quadro até o final do segundo semestre de 2013, à exceção da China, que já apresenta indicadores de que crescerá na casa dos 8%, puxando a economia na Ásia e no resto do mundo. Essa, por hora, é a principal razão para se esperar um panorama mais positivo. Diante da ”tempestade”, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que a economia mundial crescerá apenas 3,3% este ano, praticamente no mesmo ritmo de 2012.

Já a economia brasileira entrará em 2013 em ritmo mais rápido do que 2012, mas o desempenho ficará abaixo do registrado no período pré-crise por causa do fraco crescimento industrial, alto grau de endividamento dos brasileiros e do fraco crescimento da economia mundial. A boa notícia vai ficar por conta do setor agropecuário, que deve ter alta produtividade e preços elevados quando comparado aos patamares históricos, ainda que menores do que os registrados no segundo semestre de 2012.

O cenário econômico mundial, que terá crescimento do PIB estimado em 3,3% este ano, foi um dos temas abordados pelo professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, Marcelo Portugal no 28º Seminário da Cooplantio, que ocorreu em junho, em Gramado, na Serra Gaúcha. Portugal, que é mestre e PhD em Economia pela University of Warwick (Inglaterra), falou sobre câmbio, preços, tendências e commodities. Já no cenário nacional, a previsão é de uma safra recorde, com aproximadamente 184 milhões de toneladas de grãos. A taxa de inflação estimada este ano no país é de 5,8%, e o patamar do dólar será acima de R$ 2,00, o que favorece as exportações.

Em 2013, a atividade no campo será lucrativa, resultado de uma combinação de safra recorde com preços das commodities em bom patamar. Mas o economista prevê que o cenário positivo para o agronegócio brasileiro não será a realidade para o segundo semestre e início de 2014. Segundo Portugal, o mundo não vive um momento positivo, influenciado por um crescimento moderado da China. Com isso, não há compras de commodities tão abundantes, e o preço já não é tão recompensador, prejudicando países vendedores como o Brasil.

Portugal explica que a grande novidade dos últimos quatro trimestres, em especial, na China, uma das três principais locomotivas que movem o mundo, ao lado da Europa e dos Estados Unidos, é que há um processo de desaceleração econômico com um crescimento bem mais modesto, na ordem de 7,6% e 7,2%. O que afeta o Brasil em aspectos como a inflação, já que a China é uma grande ”fábrica” que captura, compra do mundo produtos básicos e oferta produtos industrializados. ”A China é uma locomotiva que está puxando mais vagarosamente o crescimento do mundo. O efeito que a China tem sobre a economia mundial é de mudar os preços relativos. Como a China demanda muitos produtos básicos como soja, milho, trigo e minerais puxa o preço para cima, e por outro lado oferta no mundo produtos industrializados como computadores, sapatos e automóveis. O que a China faz na verdade é gerar um forte impacto sobre preços de alimentos, o que acaba tendo um impacto inflacionário no Brasil. Se por um lado é ruim porque a China vai crescer pouco; por outro lado ajuda a conter a inflação de preços de alimentos”, detalhou.

Ele observou ainda que o que se vê hoje na China é um quadro bem diferente do verificado em 2009, por exemplo, quando a crise nos Estados Unidos jogou a produção para baixo e ela voltou rapidamente. ”A crise de 2008 e 2009 na China gerou uma desaceleração muito acentuada no PIB (com queda de 6%), mas também uma volta de crescimento muito rápido, na ordem de 10% e 11%. O que se vê agora é um pouso suave ou soft landing, mas que não vai ter uma volta em ”V”, ou seja, dificilmente irá recuperar daqui a um ou dois trimestres como a gente viu em 2009”, comentou.

Na avaliação do economista, o crescimento moderado da China afeta o preço das commodities, ajudando no controle da inflação (preços de alimentos e minerais), o que prejudica o crescimento econômico (termos de troca) no Brasil. ”Também a União Européia oscila negativamente, abaixo do padrão norte-americano”, acrescentou.

Em outras palavras, segundo o especialista, o mercado econômico externo vive um período relativamente hostil. ”Nós temos ainda uma demanda significativa na China, o que nos ajuda no ponto de vista de preço de commodities, mas não tanto quanto no passado. Uma economia norte-americana crescendo, mas crescendo pouco e a economia dos países da zona do euro que puxa o crescimento econômico para baixo, sendo este, talvez, o principal elemento de instabilidade do cenário internacional hoje e não se sabe quantos trimestres a Europa vai continuar a ter um desempenho negativo”, observou.

Mas a crise atual não é nada surpreendente. Se formos ver, os países da União Européia, e até os Estados Unidos, têm vindo a crescer pouquíssimo desde 2001. O que está a acontecer agora não é nada de novo. Segundo ele, a péssima política seguida pela Comissão Européia é uma das causas da recessão na Europa e a zona euro, não sendo possível neste momento prever o que se passará em 2014. ”Existe uma forte assimetria de crescimento entre a Europa e os Estados Unidos, por conta dos problemas de governança que os países da zona do euro têm para resolver. Só para exemplificar, enquanto que nos Estados Unidos tem um só um governo, um só Tesouro e um só Banco Central, na Europa a única coisa unitária é o Banco Central”, comparou.

O ”efeito China” no país

Marcelo Portugal destacou ainda a importância da economia Chinesa em termos de moldar preços relativos de produtos como é o caso da soja. O ”efeito da China” ou o que os economistas costumam chamar de termos de troca. ”De 2005 para cá temos um patamar de preços bem diferente do que a gente tinha em 1992. Nós demos sorte. O mundo foi muito positivo para o Brasil até meados de 2010. Porque o preço daquilo que a gente vende no mercado internacional como a soja, o suco de laranja e o minério de ferro subiu. E o que a gente importa como matérias-primas e produtos industrializados, baixou de valor. Boa parte do crescimento da economia brasileira, principalmente entre 2004 e 2007, está associado a isso. Não só o Brasil ficou mais rico, mas também todos os países que têm uma pauta de exportação e importação similar a nossa como o Uruguai e a Argentina”, explicou.

Em outras palavras, a nova estratégia de expansão da China na América Latina é facilitada pelas economias mais dinâmicas do subcontinente. Estas necessitam do mercado chinês para suas exportações de matérias-primas. É o caso especialmente da Argentina e do Brasil que, contrariamente ao México e aos Estados Unidos, reconheceram a China como ”economia de mercado”. É claro que China tem, igualmente, necessidade de assegurar o livre acesso de suas exportações na região para garantir que esse interesse continue.

Diante da turbulência na economia internacional, o especialista considera pouco provável que o Brasil volte a ter um boom de preços de commodities até o final de 2013 ou no próximo ano. ”Aquele cenário onde o mundo era muito positivo para gente, puxava os preços para cima, isso não existe mais”, alertou.

E complementou: ”O cenário externo não ajuda a expansão da atividade econômica hoje no Brasil como ajudava antes. E a Argentina, ora nos ajuda; ora nos atrapalha. Nos ajuda quando adota medidas equivocadas de políticas econômicas, mas nos atrapalha quando acaba interferindo em negociações em conjunto que o Brasil precisa ter no mercado internacional”, explicou.

O que está fazendo a diferença é a agricultura

Quanto ao cenário nacional, Marcelo Portugal destacou o crescimento da agricultura e sua influência no crescimento econômico do país. ”Quem puxou o PIB foi a agropecuária. Se a indústria continuar a andar para trás, teremos um crescimento baixo do PIB. O que está fazendo a diferença é a agricultura. Uma safra ”normal” em 2013 vai garantir um forte desempenho positivo para a agricultura. Vamos observar o efeito inverso ao de 2012, quando a agricultura puxou o PIB-RS para baixo. É isso que está explicando essa retomada do crescimento brasileiro. Mas isso não é suficiente para manter a taxa de crescimento sustentada em padrões como tem na China. Para isso, precisaria a economia crescer sistematicamente em vários trimestres e atacadas questões públicas importantes como a falta de infraestrutura e logística”, observou.

Segundo ele, o crescimento em 2012 foi sustentado pelo setor de serviços e comércio, que tem o maior peso no cálculo do PIB. Já a indústria, especialmente a indústria de transformação, deverá continuar a ser o setor com pior desempenho.

Portugal prevê também que o crescimento econômico deverá se acelerar em relação a 2012 (0,9%), mas ainda deverá ficar um pouco abaixo dos 3%. ”É algo estatístico. Se o Brasil crescer 0,6 % por trimestre, não vamos conseguir crescer mais do que 3% ao ano. Eu não sou muito otimista quando a gente olha para o resto do ano. Por uma razão muito simples. O governo nos últimos dois anos tinha um diagnóstico equivocado do porque a economia brasileira estava crescendo pouco. O meu argumento é de que o que falta no Brasil para alavancar esse crescimento de forma mais acelerada é demanda e não oferta. Quando você joga muita demanda e a oferta não tem capacidade para correr atrás, o que acontece é o aumento de preços e da inflação. Foi o que se observou nos últimos dois anos quando a inflação circulou na casa dos 6% e 5,5% e já bateu em 6,5%, que é o teto de sistema de inflação”.

Ele aponta pelo menos três fatores que contribuem para inibir esse crescimento da economia nacional. ”O que limita, no caso da indústria e serviços, é a falta de mão de obra qualificada para aumentar a produtividade, e, no campo, a infraestrutura e logística. A gente não tem aeroporto, não tem estrada. Além do pouco investimento em tecnologia e inovação”, pontuou o economista.

Uma realidade que na verdade é inversa do que se vê na Europa e Estados Unidos. ”Nos Estados Unidos e Europa o que falta para puxar o crescimento é demanda. Por isso, eles jogam a taxa de juros para baixo. Aqui, nós tínhamos um diagnóstico de que a situação era semelhante. Por isso, ficamos para trás. Por sorte parece que está surgindo uma luz por parte do governo federal e estamos começando a mudar esse tipo de visão”, disse.

Inflação, juros e câmbio

Para o economista, a inflação deverá desacelerar no segundo semestre do ano na medida em que os preços dos alimentos não repitam o choque negativo observado em 2012. O acumulado da taxa da inflação nos últimos 12 meses chegou a 6,5% e a perspectiva para o segundo semestre é que feche o ano em 5,8%. Parte dessa queda se deve aos alimentos e a outra parte ao aumento dos juros.

”Com relação à inflação, a boa notícia é que nos quatro primeiros meses de 2013 a gente já vê uma deflação de preços que ainda está no atacado, mas que vai chegar ao varejo. Se no PIB brasileiro a agropecuária teve um efeito positivo, aqui no RS esse efeito será avassalador. Pela primeira vez, em muito tempo, o Rio Grande do Sul irá crescer provavelmente o dobro do PIB nacional. Se o Brasil vai crescer 3%, o RS vai crescer 6%. Simplesmente é a volta a normalidade. É a recuperação do padrão de produção que a gente tinha em 2011”, destacou.

Quanto aos juros, devem subir de forma moderada, mantendo a tendência de redução no longo prazo e a taxa de câmbio, com maior controle do Banco Central (BC), deve ficar dentro da banda de flutuação. ”O Brasil vinha realmente de um sistema de taxa de câmbio efetivamente flutuante até cerca de 2012. De 2012 em diante, o dólar que era volátil no Brasil - chegou a ir a R$4 no governo Lula - ficou extremamente bem comportado, entre R$2 e R$2,10 na banda. A novidade em 2013 é que o BC ajustou a banda para baixo, entre R$1,95 e R$ 2,05, olhando na inflação. Só que nos últimos dois ou três dias a gente furou o teto. E aí a pergunta: o que o governo vai fazer? É lógico que vai tentar manter a taxa de juros o mais estável possível”, disse.

De acordo com Portugal, parte dessa subida na taxa de câmbio está associada a um fenômeno externo. Como nos Estados Unidos o que falta é demanda, jogou a taxa para baixo e despeja dinheiro. Todo mês, o BC americano compra U$ 85 bilhões em títulos no mercado financeiro. É lógico que esse dinheiro não fica só lá, espalha e puxou o dólar para baixo no mundo inteiro. O boato que surgiu recentemente é que o BC vai começar a diminuir a compra de ativos até o fim do ano, caso a economia dos Estados Unidos continue a se recuperar. Se a ajuda diminuir, o volume de moeda norte-americana em circulação cai, aumentando o preço do dólar em todo o mundo. ”A expectativa de mudança na política monetária americana está começando a trazer a moeda norte-americana de novo para cima. O governo brasileiro poderá tentar segurar a banda, mas por mais que o governo venda reservas, intervenha no mercado de câmbio, parece que o patamar do dólar não é de R$ 2,00 para baixo e sim de R$ 2,00 para cima. Pelo lado da infração parece que não é muito positivo, mas para quem vende um produto que é cotado em dólar como o soja por exemplo essa é uma notícia relativamente positiva”, ressaltou.

Desde o fim de maio, o mercado financeiro global enfrenta turbulências por causa da perspectiva de que o Federal Reserve (Fed), Banco Central norte-americano, reduza os estímulos monetários para a maior economia do planeta. Ele poderá aumentar os juros e diminuir as injeções de dólares na economia global caso o emprego e a produção nos Estados Unidos mantenham o ritmo de crescimento e afastem os sinais da crise econômica iniciada há cinco anos.

Sumarizando o que foi dito, o crescimento econômico deverá se acelerar em relação a 2012 (0,9%), mas ainda deverá ficar um pouco abaixo dos 3%. A indústria, especialmente a indústria de transformação, deverá continuar a ser o ”patinho feio”, o setor que mais sofre por conta da concorrência chinesa, do dólar e por conta de que os países industriais estão demandando menos produtos manufaturados. A inflação tende a desacelerar no segundo semestre do ano e os juros vão subir, mas de forma moderada, mantendo a tendência de redução no longo prazo. É correto que o Banco Central suba os juros para conter a inflação. Já a taxa de câmbio é a grande incógnita. Mas com maior controle do BC, deve ficar dentro da banda de flutuação.

Publicado na edição especial conjunta 135-136 da Revista Plantio Direto. Aldeia Norte Editora, 2013.