A ordem é planejamento e gerenciamento de custos
Tarcisio Minetto falou sobre a evolução dos custos e apontou gargalos da produção primária no Sul do Brasil.
Com a soja e insumos em alta, o produtor rural precisa se planejar para obter ganhos. As primeiras projeções apontam potencialidade de uma produtividade média próxima das 60 sacas por hectares na próxima safra que começará a ser plantada em setembro. Ao mesmo tempo, em que, o aumento do dólar mantém em alta o valor da oleaginosa o sojicultor paga a mais pelos insumos, que utiliza na formação das lavouras. A ordem é trabalhar com planejamento, para poder aproveitar os momentos em que os preços dos insumos estiverem com valores estabilizados.
O painel ”Evolução nos custos de produção: soja, milho, trigo e arroz” abriu a programação do segundo dia do 28º Seminário da Cooplantio, em Gramado, na Serra gaúcha. Durante o debate o público teve a oportunidade de ampliar conhecimentos com o economista e superintendente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), Tarcísio Minetto, e o engenheiro agrônomo Paulo Rigatto, mestre em Economia Rural e doutor em Administração.
Minetto discutiu a evolução dos custos de insumos em Reais, em grãos, e em Dólar, e apontou os gargalos das lavouras do Sul do Brasil como falta de infraestrutura logística, condições da malha rodoviária, ferroviária e hidroviária, custo do frete, custo e qualidade de energia, carência de mão de obra qualificada no campo, perdas em todo o processo produtivo, insegurança no campo, alto custo do prêmio do seguro agrícola, valores de taxas e tributos (burocracia), marco legal para o setor (classificação, novo código florestal, defesa sanitária e vegetal), dimensionamento racional de máquinas e equipamentos e otimização do uso (aquisição x pagamento de serviços), precariedade na gestão, inovação e tecnologia, riscos (quebra de contratos), entre outros.
De acordo com o economista, a antecipação e a organização de custos pode gerar ao agricultor uma economia de até 10%. ”Quando a gente trabalha custos, tem sempre que pensar na gestão como um todo. Ter uma visão sistêmica. Qual é o objetivo do produtor? É maximizar o lucro e minimizar o custo de produção da lavoura, reduzindo riscos na propriedade. E isso exige planejamento, estabelecer objetivos e estratégias e principalmente ter atitude, principalmente, na hora de escolher a cultura e a combinação de insumos para obter uma melhor resposta. Se a relação Custo-Preço-Renda é uma ferramenta de gestão importante, então eu tenho que registrar, controlar, acompanhar, medir desempenho e estabelecer comparações. Saber como foi na safra anterior? Como está sendo hoje? E qual é a expectativa para a próxima? Qual é a pressão de custos-insumos? Se vou ter ou não vou ter?”, orientou.
Lavoura na ponta do lápis
Para que o produtor tenha êxito da lavoura, ter planejamento estratégico é ponto crucial, segundo Minetto. ”O produtor deve sempre fazer um bom planejamento pré-plantio da safra e um balanço final do ciclo da colheita. É fundamental acompanhar todo o processo de gestão. Eu devo adquirir os insumos antecipadamente? Eu tenho um fluxo de caixa que me permite isso? Essa é a atitude que o produtor precisa ter para reduzir o custo da sua lavoura”, ressaltou.
O economista destacou estudo da FecoAgro-RS que é utilizado, há cinco décadas, para a elaboração de estimativa de custos de produção, que além de Indicador importante para avaliar o desempenho econômico e tecnológico, serve de barganha e balizador na negociação de preços (compra e venda de insumos e máquinas) e como referência na negociação de preços mínimos com o governo. Ele citou o exemplo da cidade de Cruz Alta, onde a soja virou moeda de troca para a compra de imóveis. ”É uma ferramenta que serve como estimativa. Quem tem o custo real é cada propriedade. Além de ser um instrumento importante, para a definição de área e para analisar a paridade de preços no mercado interno e internacional de países como Argentina e os Estados Unidos. Hoje tem muito produtor da metade Sul, região tradicional na produção do arroz, que está migrando para a cultura da soja. Isso implica em aumento de custo, em readequação de equipamentos. Se eu sei o meu custo eu vou avaliar a rentabilidade”, explica.
Ele enumerou também algumas variáveis que podem influenciar diretamente no custo de produção, seja para mais ou para menos, e que acabam impactando no resultado e rentabilidade da lavoura. Dentre elas, ele cita as taxas de juros elevadas do crédito rural (hoje na casa de 5% e 5,5%); o alto valor do premio do Seguro Agrícola para uma atividade de risco e que depende das questões climáticas; a infraestrutura deficiente; a armazenagem e logística (custo e adequação técnica); o investimento em agricultura de precisão (análise de solos e equipamentos); o preço de insumos, máquinas, mão-de-obra; o preço do frete superior a 10 % sobre o preço do produto, o que segundo ele, é um absurdo; a alta tributação (preços de máquinas e equipamentos ainda são considerados elevados em comparação a outros países). Além de variáveis econômicas como política cambial; taxa de juros; tributação (PIS, COFINS, IPI, ICMS) e elevado valor das taxas (adequação ao novo código e registro de produtos).
O preço da soja nunca foi balizador
Levando em conta a evolução do custo versus o preço de mercado, o preço mínimo da soja nunca foi balizador e sempre seguiu o preço de mercado. Com base no gráfico, é possível fazer um comparativo da evolução dos patamares de custo de produção da soja no período compreendido entre o ano safra de 1995 - logo depois do início do Plano Real - até o ano de 2012. O gráfico mostra ainda que em 2005, o custo ficou acima do preço de mercado e o nível de rentabilidade e a margem de preço de mercado para o produtor. O economista voltou a frisar que cada produtor tem sua margem pelo patamar de custo existente na unidade de produção.
Em comparação com outros estados, a figura mostra que o Rio Grande do Sul ainda precisa avançar na produtividade média da soja. Com base em dados da Conab, safra 2012/2013, o Estado ocupa o último lugar tendo obtido uma produção de 2,6 milhões de t/ha. Em primeiro lugar, estão Paraná e Distrito Federal com 3,3 milhões de t/ha cada um.
Minetto fez ainda um comparativo com relação aos ganhos e perdas verificadas com a mudança do sistema antigo de plantio da soja (com a utilização de arado, grade e semeadura convencional) para o plantio direto, sistema largamente difundido hoje pela Cooplantio- Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto. ”Do ponto de vista do emprego de maquinário e de tecnologia, nós avançamos muito. Tivemos uma redução de 28% no uso de combustíveis nas operações. Isso é um ganho muito importante. Mas o emprego de tecnologia exige mão de obra qualificada. O aumento do custo desse serviço de 1982 até o ano passado foi de 55,75%. Já dos insumos foi de 35%”, adiantou.
Quanto à evolução do preço de mercado do milho, conforme dados levantados pela FecoAgro-RS e Conab, de 1998 até a safra de 2003, o preço ficou acima do custo de produção, teve queda em 2008 e a partir de 2010 apresentou uma reação com aumento do preço de mercado.
Assim como na cultura da soja, a produção de milho no Rio Grande do Sul ainda é menor em comparação a outros estados como o Paraná, por exemplo. A produção média verificada na safra de 2012/2013 no Paraná foi de 6,1 milhões de t/ha enquanto que no RS foi de 5,1 milhões de t/ha, sendo que a demanda é de 6,8 milhões de t/ha havendo, portanto, a necessidade de abastecer o mercado gaúcho com o produto de outros estados ou fora do país.
Já em termos de rentabilidade de preços de mercado versus custos do milho e soja, a curva do gráfico mostra que a soja teve desempenho melhor do que o milho em especial no período compreendido entre as safras de 1995 e 2012.
Quanto à produtividade média do trigo, os números da Conab indicam que a rotação da cultura de inverno é de apenas 20% e o ideal seria de 30%, o que segundo Minetto, acarreta uma diluição dos custos e utilização das máquinas com as culturas de verão de milho e trigo. O gráfico mostra que a performance econômica do trigo é sempre negativa e com o governo interferindo com mecanismos de intervenção e regulação do ponto de vista de mercado.
No que se refere à evolução do custo de produção em dólar da saca de 60 kg, a soja e o trigo mantiveram um patamar de U$ 18 a saca no período de 2009 até 2013. Já o milho manteve o preço da saca na faixa de U$10 a U$12.
Relação de troca
O economista chamou a atenção dos produtores para a importância da relação de troca na soja, milho e trigo (número de sacos para se adquirir uma tonelada de adubo) para se pensar e planejar o custo de produção. ”A soja teve sempre uma relação mais favorável do que o trigo e o milho, embora no trigo tenha se observado desde 1994 uma melhora na performance para a compra de máquinas. Na soja, em função da queda de preços em relação à safra de 2012, a tendência é que haja um aumento do número de sacos para se adquirir algumas máquinas”, pontuou.
Buscar parcerias prévias para garantir fluxo no negócio, fazer compras associadas e filtrar informações confiáveis de tendências de mercado foram outras considerações importantes feitas pelo economista. ”A exportação no Brasil é o agronegócio que sustenta a balança comercial brasileira. É o fator chave na segurança alimentar para o desenvolvimento econômico do país. Dentro da porteira o produtor está modernizado, está ajustado. Falta o governo fazer a sua parte, reconhecendo a importância da atividade e investir para superar gargalos como a falta de logística e de infraestrutura”, ressaltou.
Defensivos agrícolas – De acordo com Tarcísio Minetto, o mercado de defensivos agrícolas no Brasil, que em 2010 movimentou US$ 7,3 bilhões em vendas, deverá seguir em crescimento, influenciado principalmente pelos preços recordes de culturas que usam muito esses produtos, como a soja e o milho. ”A tendência é que siga crescendo. Com a safra boa, o agricultor está investindo mais em maquinário e na produção”, observou.
Ao final da apresentação, o economista deixou uma mensagem aos produtores, que segundo ele, são guerreiros por atuarem em uma atividade de alto risco e ainda conseguir sobreviver, citando uma frase de José de Alencar: ”O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis”.
Publicado na edição especial conjunta 135-136 da Revista Plantio Direto. Aldeia Norte Editora, 2013.