Somos gestores de nossa própria trajetória
Impactante, carismático, irreverente, inspirador. Usando a filosofia como base para uma bem-humorada reflexão, o professor doutor da Universidade de São Paulo (USP) e Fundação Getúlio Vagas (FGV), Clóvis de Barros Filho, recorreu aos filósofos de diferentes contextos históricos e linhas de pensamento na tentativa de fazer a platéia entender melhor em que consiste, de fato, a tal vida feliz durante a palestra ”A vida que vale a pena ser vivida”.
Com uma linguagem simples e despretenciosa o filósofo levou o público a pensar sobre como se deve viver a vida e qual seria a vida que vale a pena ser vivida, segundo o pensamento grego clássico. Durante uma hora e meia, o professor de ética deu uma aula de filosofia e reflexão sobre valores e escolhas. Utilizou linguagem simples, com piadas, e ainda ironizou os livros de auto-ajuda. Não deu fórmula pronta para nada e tampouco garantiu sucesso do que ensinou, mas encantou a platéia do 28º Seminário da Cooplantio, no encerramento do evento, em Gramado.
Segundo ele, é preciso desconfiar de fórmulas prontas para o bem viver, como pregam os autores de livros de auto-ajuda. ”O homem a cada passo escolhe, decide, improvisa, inova, joga no lixo vidas que decidiu não viver. Transcende a natureza. A vida do homem não tem nada a ver como a vida do resto da natureza. Pombo morre de fome, mas não come filé. E gato é 100% gato. Com Rousseau você aprende que não é nem gato e nem pombo. Porque quando você nasce não tem todas as respostas para a vida. O homem e só o homem tem que ir além da sua natureza para pensar em soluções nunca pensadas para situações nunca vividas antes. Ninguém te amarra onde você não quer estar. Somos gestores de nossa própria trajetória. O esquisito é lamentar. Afinal, você está no comando”, disse.
Com um discurso inflamado, que utiliza suas próprias experiências vividas no dia a dia e citações filosóficas de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino e Rousseau o professor explicou que cada decisão, escolha, tomada envolve atribuições de valor, confiança, desconfiança, respeito, desejo, alegria e felicidade. ”Confiança, desconfiança, prazer e respeito são valores que determinam a capacidade de liderança de uma pessoa e também sua felicidade”, afirmou.
Outro ponto abordado pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) foi a capacidade que o ser humano tem de se reinventar e ser feliz. Segundo ele, o ser humano acredita que a vida que vale a pena ser vivida é como uma prova de escola em que basta escolher as respostas corretas. No entanto, é justamente esse o maior problema, pois a vida é complexa e tem várias respostas certas, cabendo ao homem ir além da sua natureza: inventar, criar, inovar, empreender. ”A grande dificuldade é que na vida não tem um gabarito universal. É da índole dos valores a pluralidade. A vida não está pronta. Antigamente dizíamos que o céu é o limite, mas já furamos o céu, não há limite mais. É preciso ir além da vida”, disse. E acrescentou: ”A grande tarefa do ser humano é conhecer-se a si mesmo, perceber o que gosta e o que não gosta. Não precisa ser filósofo ou guru para saber o que é felicidade”.
Além de plurais, ele ressaltou no seminário que os valores são contraditórios. ”No Exército, o maior valor é a disciplina. No asilo, o maior valor é o repouso. No banco, a confiança. Na Google americana, o prazer. Na hora da dúvida, a vida mais recomendada é a mais prazerosa”, explicou.
O filósofo foi além: ”Você é o resultados das escolhas que fez para você. Escolher é perceber que uma vida vale mais a pena de ser vivida do que a outra. Sem valor não há escolha. E sem escolha não vivemos”
Para Clóvis Barros, é um equívoco pensar que a Ética é uma tabela de certo e errado. Que o professor de ética tem no bolso do paletó o que você deve e o que não pode fazer. Ele não é um guru com a resposta exata para tudo, da verdade sobre a vida. ”A filosofia é infinitamente mais humilde. Ninguém entende mais de você do que você mesmo. O professor de ética veio para dizer que você é responsável pela tua escolha. Se existe alguma chance de você resolver seus problemas e viver melhor é acreditar na própria inteligência e entender que tem muito mais condições de equacionar tuas dificuldades do que qualquer pessoa que nunca te viu e fala genericamente para qualquer um”, disse.
Confiar ou desconfiar
Com a confiança não é diferente. O ato de confiar é um valor moral indispensável para a convivência social. Moral é o que a pessoa faria em determinada situação mesmo que fosse invisível. ”Como dizia Tomás de Aquino, quem confia tem certeza sobre coisas que não pode verificar nem demonstrar. Sem confiança recíproca ninguém contrata ninguém. Sem confiança, a sociedade (o banco, o plano de saúde) quebra”, afirmou o professor Clóvis.
Da mesma forma que a confiança é um valor, a desconfiança também é. ”A mesma mãe que me ensinou a confiar, me ensinou também a desconfiar. A confiança absoluta é suicida. A desconfiança pode evitar aborrecimentos”, disse. Ainda assim, há motivos para confiar em boa parte das situações, inclusive no mundo corporativo, na análise do professor. A capacidade de discernimento de cada um é que vai determinar quando confiar ou não. ”Sem ela não há convivência, amizade, empresa. A desconfiança também é valor, é um jeito de viver”, observou.
Mas quando optamos por algo em detrimento de outro, ficamos angustiados. De acordo com Barros, é essa liberdade que provoca angústia. ”Somos todos levados a acreditar que cada uma de nossas escolhas deve ser prazerosa, mas não há como saber ao certo qual é a melhor opção, pois prazer é algo momentâneo. A angústia vai sempre acompanhar a liberdade. Dependendo de quem você tem que abraçar, a angústia já começa antes do abraço”, brincou, citando uma situação vivida por ele durante um evento no Rio de Janeiro. A solução, explicou o professor, ”é diminuir a angústia escolhendo o que nos causa boas sensações, como o amor”.
Desejo e respeito
Citando Platão, Barros Filho definiu o prazer como aquilo que diminui nosso desconforto físico. ”É isso que faz você aumentar a temperatura do ar condicionado para depois diminuir. É o prazer que vai ajudando a viver até mesmo nas pequenas coisas do dia a dia”, afirmou. ”Você já imaginou um orgasmo que durasse o prazo de uma enxaqueca? Platão tem razão, prazer é diminuir o sofrimento, se der para fazer sexo e ainda ter prazer é melhor ainda”, brincou ele. Porém, o prazer não é o único valor importante. ”Existe, claro, o respeito”. E que respeita faz o que? O conceito é de Spinoza: quem respeita considera os afetos (alegria e tristeza) do outro como uma conseqüência da própria decisão de vida. O fundamental, comenta, é sustentar não só os próprios desejos e alegrias, mas é essencial que seu entorno também seja alegre.
”Quando Deus mandou para o profeta Moisés por e-mail os 10 mandamentos, mandou valores. Só que não disse o que valia mais. É por que não tem tabela, tem livre arbítrio. Se tivesse tabela seríamos todos escravos da mesma tabela. Viveríamos todos a mesma vida como o gato que não angustia. Não sou consultor nem guru. Mas se quiser te deixar enganar não faltará quem queira te enganar”, observou.
Para se chegar aonde se quer, conforme o professor, é preciso uma revolução de paradigmas, de métodos. Ter a coragem diante de problemas novos para buscar soluções ainda não pensadas. ”E a dignidade de Rousseau , é o que o Muricy Ramalho (técnico de futebol) chama de jogador que sabe o que fazer com a bola, o que o mundo das empresas chama de atitude”, exemplificou.
Clóvis Barros ainda refletiu: ”A dignidade de Rousseau é a coragem para descobrir uma solução inédita para um problema inédito. É o que as empresas esperam para os seus colaboradores. Até porque se você fizer sempre o que você fez é possível que seja uma solução excelente para um problema que não existe mais. Nunca o homem teve que encarar tanto problemas inéditos e, portanto, se dispor para encontrar soluções novas para esses problemas. Isso é da própria essência da ideia de ética. E a ética é a inteligência a serviço da vida com a tempestade e tudo mais que temos que encarar. É a luta pelo aperfeiçoamento da convivência a partir da inteligência compartilhada”.
E questionou: ”O que não muda em nós apesar do ineditismo dos nossos instantes de vida? Tem certas coisas que são difíceis de deixar em casa: os nossos valores. Eu tenho três valores para dar aula: energia, exemplos e palavrão. É o que eu prometo, o resto vai depender do lugar. Esse é o meu banner. O fato de eu agir conservando os valores da primeira aula é o que chamamos de fidelidade. E fidelidade aos próprios valores é condição de confiança em você”.
Para o filósofo, em um mundo de valores customizados e cobrança por resultados, é tentador ser infiel. ”Imagine que hoje você vale pelo que você vende. Tem cliente que espera ter uma vantagem que só ele tem, porque é especial. Tem cliente que espera fazer uma combinação com o vendedor e fraudar um parceiro. E você? o que você quer? A pessoa pode ganhar bônus, promoções e correr o risco de, quando voltar para casa, não se lembrar mais quem é. É a escolha entre se vender por qualquer valor ou ser fiel a si mesmo. É o que chamamos de crise de identidade nos negócios. E a ética é a forma mais consistente de buscarmos uma convivência um pouco mais feliz”, pontuou.
O gosto da felicidade
O filósofo falou sobre o conceito de eudaimonia, tido pelos gregos por algum tempo como a melhor aproximação da felicidade. Segundo eles, os momentos eudaimonicos são os que se encerram em si mesmos, são fonte de prazer imediata. ”Eu estou convencido de que um instante de vida feliz é o que os gregos chamavam de eudaimonia. Que é o bem supremo. É o Maximo que podemos conseguir. O gosto da felicidade você sente quando vive a vida. E que gosto é esse? O gosto da felicidade você sente quando você torce para aquele momento não acabar. Toda a vez que você lamenta o fim. A felicidade é quando você torce para a vida não passar”.
Instante de felicidade que ele garantiu ter tido pela primeira vez, aos 13 anos de idade, durante a apresentação de um trabalho escolar sobre o tema Petróleo. ”Quando fiquei no palco, diante da turma, percebi que ali era o meu lugar. Treze anos eu levei para viver uma situação da qual eu não queria sair mais. Em 15 minutos conclui a apresentação. O meu corpo gritava: eu não tenho mais nada para dizer. Aí eu decidi inventar: tive medo, mas lembrei de uma frase do meu pai: ‘Para traz nem para pegar impulso’”, contou arrancando aplausos calorosos da platéia. E disse mais: ”Quando tudo acabou eu sai correndo para encontrar o fusca branco do meu pai. Com três segundos de conversa, ele percebeu que tinha acontecido tudo o que ele queria. Pela primeira vez eu tinha vibrado. Eu tinha gostado do que eu fiz. Pela primeira vez eu tinha vivido um instante em que a torta de morango tinha gosto de morango e que não queria que tivesse acabado”.
O professor concluiu a palestra citando um grande pensador chamado Jesus Cristo: ”Ser causa de felicidade de alguém, seja esse alguém quem for, e mesmo que seja por um segundo, é a única meta que verdadeiramente vale a pena perseguir. Tomara eu tenha conseguido isso nessa manhã em Gramado”, finalizou. Clóvis Barros foi aplaudido de pé.