Uso de culturas de cobertura no manejo da resistência de plantas daninhas
Carlos Henrique Dalmazzo, da Monsanto do Brasil, participou do painel sobre o uso de coberturas no manejo da resistência de plantas daninhas, no dia 9 de maio, em Passo Fundo, RS. O moderador das discussões foi o pesquisador da Embrapa Soja, Dionisio Gazziero.
Marcos Fridrich (esquerda), Dionísio Gazziero (centro) e Carlos Henrique Dalmazzo (direita) durante o painel que abordou plantas de cobertura no manejo da resistência.
”Em 2012 comemoramos os 40 anos do plantio direto no Brasil e os agricultores que utilizam essa técnica, adotada de forma pioneira por Herbert Bartz, são merecedores do nosso reconhecimento e respeito. Nesse período, protegemos o solo com palha, aumentamos a matéria orgânica, construímos a estrutura física do solo e isso não foi fácil. Quem vivencia a atividade hoje, sabe que o resultado do impacto de uma gota de chuva no solo não é o mesmo de 30 anos atrás. Hoje a chuva é sempre uma benção, pois sabemos que grande parte da água vai infiltrar no solo ficando disponível para a cultura estabelecida e isso nos dá certa garantia de produção. Mas para quem trabalhou na agricultura até meados da década de 1980 a realidade era outra. A cada previsão de 80-90 milímetros de chuva, sabíamos que o resultado seria catastrófico nas lavouras. Perdiam-se entre 15 e 30 toneladas de solo por hectare a cada ano, comprometendo a produtividade, exigindo replantios, tornando impossível fazer duas safras”. Foi com essa breve retrospectiva que Carlos Henrique Dalmazzo iniciou sua apresentação no Encontro Nacional sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas.
Segundo o palestrante, o resgate foi necessário porque na plateia havia muitos jovens, assistentes técnicos e filhos de agricultores, que não viveram a época do plantio convencional. ”Os mais antigos sabem das dificuldades e conheceram o impacto que a situação causava na agricultura brasileira e, principalmente, do Rio Grande do Sul”. De acordo com o engenheiro-agrônomo, foi naquela época, fruto de um sistema desequilibrado pelo uso repetido de um mesmo mecanismo de ação, que surgiram os primeiros casos de resistência de plantas daninhas, inicialmente o leiteiro e depois o picão preto.
Dalmazzo lembra que muitos agricultores buscaram alternativas, pois diante da necessidade de um sistema mais equilibrado como o plantio direto, técnica sustentada por três importantes pilares. Os dois primeiros foram aqueles que alavancaram a adoção, o não revolvimento do solo e a cobertura vegetal permanente. O terceiro pilar foi estabelecido mais tarde, pois devido o binômio trigo-soja pouco se pensava em sistema de produção com foco na rotação de culturas, fundamental para o plantio direto.
”Recuperando a estrutura física do solo, presente no campo nativo, o plantio direto teve uma contribuição enorme na restauração das propriedades físicas, químicas e biológicas, além do aumento da matéria orgânica. Mas o binômio trigo-soja, sobre o qual foi inicialmente desenvolvido, trouxe alguns problemas, o de maior destaque foi a presença do tamanduá-da-soja. Essa praga teve um impacto violento nas lavouras e resultou no decréscimo de produtividade em algumas áreas sem rotação de culturas. Com isso o milho passou a ser percebido como um grande aliado para reduzir a infestação dessa praga, diante da ausência de inseticidas eficientes para o controle. José Rüedell e demais pesquisadores da Fundacep-Fecotrigo (hoje CCGL Tecnologia), desenvolviam trabalhos de pesquisa e já reforçavam naquela época a importância rotação de culturas no plantio direto”, lembra Dalmazzo.
Olhar para o futuro sem esquecer os velhos conceitos
O milho é viável e necessário no sistema. Trabalhos de pesquisa de longa duração apontam o milho como a cultura que demonstrou maior rentabilidade em duas décadas. Mas já no início do plantio direto alguns agricultores eram relutantes em fazer rotação de culturas, devido a dificuldade de se produzir 100 sacos por hectare. No entanto, era única forma de viabilizar a soja, pois a tolerância de algumas plantas daninhas era bastante acentuada. A infestação de leiteiro, picão preto, olho-de-pomba e saco-de-padre, inviabilizou muitas áreas de produção de sementes e obrigou, naquele momento, a implementação de um sistema de rotação de culturas bem planejado. Na época, o uso de atrazina e a cimazina era a forma de eliminação dessas plantas daninhas, além da adoção de outras práticas como não deixar a planta produzir sementes e manter as áreas com densa cobertura.
Mudanças foram ocorrendo gradativamente e no ano 2000 o plantio direto estava consolidado e avançando em todas as regiões do Brasil. Foi então que o milho safrinha tornou-se uma cultura interessante economicamente. Mas a grande revolução foi a descoberta de um gene que possibilitou o desenvolvimento de uma variedade de soja tolerante ao glifosato, herbicida que controlava mais de 500 espécies de plantas daninhas. Essa tecnologia teve um impacto extremamente positivo no sistema de produção brasileiro, mas pelo uso inadequado fez surgir alguns problemas.
”O glifosato é muito importante e diante disso pergunto: podemos perder essa molécula? Sim podemos e isso é uma grande preocupação. Vocês sabem o que é fazer plantio direto sem usar glifosato? Muitos começaram a trabalhar de uma forma que supostamente reduzia custos, mas na verdade fazia perder produtividade. Esquecemos os conceitos básicos do manejo de plantas daninhas e a resistência surgiu como resposta para o sistema desequilibrado que se estabelecia como um padrão nas lavouras. Se fossem respeitados todos os conceitos das boas práticas agrícolas, como exemplo, não fazer pousio, usar culturas de cobertura, herbicidas com diferentes mecanismos de ação, adubar as coberturas para produzir volume de massa, dessecar antecipadamente e fazer o plantio no limpo, talvez o problema de resistência pudesse ter sido protelado”, destacou o palestrante.
De acordo com Dalmazzo na década de 1980 até meados da década de 1990 já se falava em associação de mecanismos de ação com o uso de produtos de amplo espectro e residuais para o manejo pós-colheita, mas ele destaca que existem outras ações necessárias para o manejo eficiente. ”Para o bom manejo é importante conhecer mais sobre a biologia das plantas daninhas, e essa é uma linha de pesquisa que está iniciando aqui no Brasil. Importante também aplicar os conceitos básicos do plantio direto, como a rotação de culturas e a alta produção de fitomassa. Não dá para esquecer que o plantio direto deve ser conduzido como um sistema de produção e não como monocultura e que as invasoras devem ser controladas enquanto plantas pequenas para evitar a produção e aumento do banco de sementes no solo”.
O engenheiro-agrônomo reforça que o manejo químico não é a única opção, pode-se manejar as plantas daninhas com práticas culturais tendo como aliados os produtos disponíveis no mercado. ”Em breve teremos híbridos com capacidade de produção de 18 a 19 mil kg e estamos trabalhando cultivares de soja com potencial médio de 100 sacos/hectare. E como vamos fazer a proteção desse potencial produtivo? Eu afirmo que a palha é fundamental, é ela que dará o equilíbrio necessário. Por isso a importância de se trabalhar pensando em sistema, contemplando a rotação de culturas e conhecendo os benefícios das coberturas que reciclam nutrientes, incorporam nitrogênio, ajudam a descompactar o solo, produzem alta quantidade de matéria seca e potencializam o uso dos insumos”.
As plantas daninhas têm capacidade de adaptação e disseminação muito grande, algumas, como a buva, produzem até 200 mil sementes que dispersam através do vento, chegando a alcançar distâncias de até 65 quilômetros. Já outras, como o leiteiro, produzem poucas sementes, em torno de 300 por planta, nesse caso é o período de dormência a preocupação, pois as sementes se mantêm viáveis por muitos anos. Segundo Dalmazzo, as plantas daninhas influenciam na produtividade das culturas e no caso da soja, 12 plantas de leiteiro podem significar a perda de três sacos, o picão preto reduz quatro sacos e a buva, com apenas 12 plantas pode reduzir em até 27% a produtividade, ou seja, 14 sacos por hectare.
”Uma das formas mais eficientes de controlar plantas daninhas é não deixar as áreas em pousio. Manter as lavouras sem cobertura dificulta muito o controle de invasoras no pré-plantio da soja, muitas vezes levando a perenização das plantas daninhas, estimulando o desenvolvimento da resistência e favorecendo o reabastecimento do banco de sementes”, destaca.
Algumas opções de cobertura
De acordo com Dalmazzo, a aveia é uma cobertura importante, talvez a mais importante do sul do país. Atualmente a aveia teve seu uso resgatado porque aproximadamente 70% das áreas ficavam em pousio por muito tempo, o agricultor equivocadamente acreditava que a ressemeadura do azevém era cobertura suficiente para a supressão de plantas daninhas.
A buva geralmente tem a germinação no outono, no entanto, em algumas regiões do Rio Grande do Sul, com temperaturas entre 15 e 20 oC, ela chega a germinar em outubro. Para Dalmazzo há grande oportunidade de manejo da buva com uso de coberturas. ”Boa parte da buva que germina a 20 oC com uma estratégia de cobertura do solo tem a germinação reduzida em 80%, tornando muito mais fácil o controle químico”.
Ele reforça a importância da cobertura para o manejo das plantas daninhas exemplificando com resultados obtidos pela pesquisa. ”Trabalhos apontam que sistemas que usam trigo ou aveia associados ao manejo com herbicidas alternativos, complementados com glifosato + 2,4-D e herbicidas pré-emergentes, apresentam quantidade mínima de plantas daninhas na pós-emergência da soja, devido ao efeito da cobertura. Com uso das coberturas as invasoras são poucas e pequenas, de fácil controle”. Para o palestrante, várias pesquisas comprovam que o efeito de supressão da aveia é muito grande, e isso reforça que o pousio é extremamente prejudicial ao controle eficiente das plantas daninhas. ”Vale a pena plantar a aveia? É caro 150 kg de aveia/hectare adubada? Na comparação com o pousio a cobertura de aveia proporcionou uma diferença de 600 kg/ha de soja, isso paga o investimento na cobertura de aveia e adubação do sistema”, exemplifica Dalmazzo.
O nabo é outra cultura de cobertura muito eficiente e atua de diversas formas, pois é um descompactador natural que auxilia no aprofundamento das raízes favorecendo a absorção dos nutrientes e disponibiliza de nitrogênio para a cultura principal. ”O nabo forrageiro, entre as plantas de cobertura, é a que mais viabiliza o sistema trigo, dependendo sempre do nível de produtividade que o agricultor deseja atingir”, explica Dalmazzo.
Ervilhaca também é uma boa opção devido ao aporte de nitrogênio e a redução de plantas daninhas nas áreas de cultivo. É uma planta que oportuniza o uso de graminicidas no controle do azevém resistente e possibilita a redução da adubação nitrogenada, quando comparadas as gramíneas. ”Essa cobertura pode ser cultivada nas pequenas propriedades com o objetivo de produção de sementes”.
Segundo Dalmazzo, a braquiária, muito utilizada no cerrado brasileiro, quando introduzida no sistema de produção que contempla o milho safrinha produz até 19 toneladas de matéria seca, sendo que a média de outras culturas é de 8 toneladas. Ela reduz a presença de invasoras, principalmente a buva. ”Acredito que essa planta será a grande ferramenta para barrar a presença do capim amargoso no Cerrado e no oeste paranaense”.
O azevém é considerado uma cobertura, mas também pode ser uma planta daninha. Quem trabalha com integração agricultura-pecuária na Metade Sul do Estado e na Região das Missões, vê no azevém uma oportunidade de pastagem. Por isso é importante pensar em azevém com genética avançada e de alto potencial produtivo, visando atingir até 9 toneladas de matéria seca. As sementes que vêm da Metade Sul do Rio Grande do Sul e do Uruguai, onde a pressão de seleção pelo glifosato não é tão grande, são mais confiáveis. É necessário, portanto, repensar o azevém, tendo como foco qualidade de semente, ciclo longo e alta produção de fitomassa. ”Alguns estudos mostram que a rotação completa, englobando as plantas de cobertura, o milho e trigo, reduz consideravelmente a presença do azevém na lavoura e influencia no aumento da produtividade”, conclui Carlos Dalmazzo.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 134.