Perspectivas de Cultivares Tolerantes aos Herbicidas no Brasil


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Publicado em: 01/06/2013

Perspectivas de cultivares tolerantes aos herbicidas no Brasil

Com enfoque nas cultivares transgênicas disponíveis no mercado e novos materiais que serão inseridos nos sistemas de produção em um futuro próximo, o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Décio Karam, palestrou para os 550 participantes do Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas, que aconteceu no mês de maio, em Passo Fundo, RS. A apresentação teve a moderação do Pesquisador da Embrapa Soja Dionísio Gazziero.

Dionísio Gazzeiro (esquerda) e Décio Karam respondendo aos questionamentos do público.

Cenário de consumo de agroquímicos

No início de sua apresentação, Décio Karam fez uma rápida retomada dos fatores que impulsionaram o desenvolvimento e uso da biotecnologia no Brasil e no mundo. ”Em 2008 o Brasil passou a ser o primeiro consumidor de agroquímicos no mundo. Isso ocorreu porque estamos em uma região tropical e, diferente da América do Norte e Europa, temos até três safras em um ano agrícola. Isso, obviamente, aumenta a incidência de pragas, doenças e plantas invasoras e, por consequência, o uso de produtos destinados a proteção do potencial produtivo dessas culturas”.

Os herbicidas fazem parte do grupo de produtos químicos direcionados à produção agrícola mais consumidos no mundo e também no Brasil. Esse foi um dos motivos da chegada dos materiais transgênicos no mercado, pois as plantas daninhas são hoje um dos maiores problemas da agricultura. ”Essa tecnologia chegou para solucionar um problema existente. No Brasil, por exemplo, em determinadas regiões temos até três ciclos de plantas daninhas na cultura”, reforça Karam.

No mercado de agroquímicos os inseticidas ocupam o segundo lugar e os fungicidas o terceiro, em volume de consumo no país (Tabela 1).

Tabela 1. Principais agroquímicos consumidos no Brasil por Estado.

”O glifosato é o produto mais utilizado. E no caso do Brasil foi o plantio direto que influenciou no aumento do consumo, pois as plantas daninhas e mesmo as plantas de cobertura, essenciais para o sistema, precisam de dessecação. Um avanço no manejo das lavouras sob PD foi a soja transgênica, que possui o gene de tolerância ao glifosato. Com isso, o produto pode ser usado no controle de plantas daninhas com a cultura da soja já estabelecida. No entanto, isso resultou na ampliação do uso do produto no país, o que trouxe alguns problemas, não pela tecnologia, mas pela forma como a mesma foi e é utilizada”.

Visão de futuro

O pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo destaca que o glifosato é uma excelente tecnologia que não pode ser perdida. Isso porque o desenvolvimento de uma nova molécula, considerando o tempo entre a descoberta, desenvolvimento e produção para distribuição comercial é de aproximadamente 10 anos. De acordo com Karam, antes de iniciar o desenvolvimento do novo produto é necessário encontrar um que seja viável entre os 400 mil avaliados. O custo dessa descoberta é alto, ficando em torno de 250 milhões de dólares.

”Hoje não existe nenhuma nova família de herbicida sendo estudada. Isso significa que nos próximos dez anos não teremos nada além do que já existe no mercado. As alternativas de controle disponíveis já estão sendo usadas e teremos que trabalhar com o máximo de eficiência para não perder nenhuma delas”, reforça.

De acordo com Karam, os primeiros produtos que surgiram foram os de pré-plantio incorporado, nessa época se usava até 12 litros por hectare. Depois vieram os de pré-plantio e a tecnologia foi evoluindo. Houve o desenvolvimento do plantio direto com a chegada dos herbicidas de pós-emergência de ação total, um pouco mais tarde os de pós-emergência seletiva e a transgenia. Com isso o processo natural de desenvolvimento de novos produtos foi praticamente paralisado. Os investimentos passaram a ser utilizados na indústria biotecnológica e com o resultado houve a estagnação dos estudos e no desenvolvimento de novos herbicidas.

”Com a transgenia surgiram alguns problemas, mas sabemos que não foi a tecnologia que ocasionou a resistência de plantas daninhas que já era conhecida há muitos anos. Independente das glicinas, já se conhecia resistência ao grupo das sulfoniluréias e das triazinas. A transgenia veio para resolver o problema de resistência de outro grupo, mas foi utilizada de forma incorreta, indiscriminadamente, sem cuidados com o manejo da lavouras para evitar a situação que temos hoje. É claro que vão surgir materiais novos, pois a tecnologia está presente e em processo de evolução contínua, mas o agricultor e seu assistente técnico terão que saber trabalhar com isso”, explica Décio Karam.

A tecnologia OGM está em uso no mundo todo, mas em alguns países de forma mais intensa. Em 2011, os Estados Unidos era o primeiro país no plantio de transgênicos com 69 milhões de hectares de lavouras, seguido do Brasil, com 30 milhões e da Argentina, que aparece em terceiro lugar com 24 milhões de hectares (Figura 1). Toda essa área não tem como única característica a tolerância a herbicida, pois eventos isolados praticamente não existem mais. No futuro uma planta trará na genética dois, três ou quatro eventos ao mesmo tempo.

Figura 1. Área global de culturas transgênicas, por país (milhões de hectares) em 2011.

”Há, portanto, uma evolução natural, pois já se registra a área de plantio superior a 150 milhões de hectares no mundo e a cultura da soja tem 77% da área com cultivares transgênicas. Nos Estados Unidos acima de 90% da área são transgênicos, a Argentina praticamente 100% da soja é RR. No caso do Brasil, atualizando os números, já chegamos a 90% da área. Esse volume de adoção foi conseguido com apenas uma característica que é a tolerância ao glifosato. Então, quando outros eventos estiverem presentes a utilização será maior ainda”.

No caso do milho, na safra 2011/2012 o Brasil teve uma área total de 15 milhões de hectares, sendo que variedades OGM ocuparam 9,9 milhões e convencional 4,8 milhões, ou seja, o milho transgênico está ocupando praticamente o dobro da área de milho convencional. Na safra de inverno o maior percentual de plantio de milho (safrinha) é OGM, mas com tolerância apenas a herbicida é um volume reduzido, porque 50% da área já é RR/Bt. Isso mostra uma tendência de disseminação da tecnologia contendo mais de uma característica como o custo para manter materiais com apenas um evento de transgenia é muito alto, as empresas desenvolvem cultivares associando dois ou mais eventos.

Figura 2. Taxa de adoção de cultivares de soja transgênica no mundo e no Brasil.

”Estão à disposição dos agricultores materiais Bt, tolerantes a herbicidas e outras características já estão chegando. O importante é pensar no significado disso para a realidade da lavoura. Muitas vezes o cultivar tem tolerância ao glifosato, mas essa característica pode ter origem em diferentes eventos. Cada empresa trabalha com uma rota de tolerância, resultando em materiais comerciais distintos que contém a mesma característica. No caso do milho isso é importante, por exemplo, a variedade tem tolerância ao herbicida, mas contém um Bt diferente. Já existem no Brasil liberações com mais de dois eventos. Temos materiais com tolerância a glufosinato junto com a tolerância a glifosato. E o que isso implica? É só mais um material que está no mercado? Tem consequências? Como os técnicos vão recomendar o uso? São tecnologias já liberadas para a comercialização e vamos chegar a um ponto em que o volume de opções disponíveis em todo o mundo será um agente complicador no manejo das lavouras, pois os técnicos terão que estar bem preparados para orientar o agricultor. Será necessário diferenciar qual o evento que está em cada material e saber recomendar com segurança”.

Figura 3. Plantio de milho OGM no Brasil.

No mundo, já são 38 eventos de transgenia liberados para milho. Décio Karam destaca que quando se fala em transgênicos não significa apenas um cultivar RR, pois o manejo de transgênicos é diferente do manejo de materiais que são apenas RR. ”É necessário o conhecimento e o discernimento de como utilizar todos esses materiais e isso passa pelo planejamento. O agricultor e o técnico terão que planejar. A quantidade de eventos para soja é muito menor que para o milho. Existe soja com tolerância a glifosato, a imidazolinonas, a glufosinato de amônia e com tolerância a glifosato oriundo de cruzamento genético clássico de dois transgênicos. No mundo existem outros eventos, mas em menor número que no milho. É importante ter a consciência de que a evolução dos transgênicos não vai parar nos fatores bióticos. Teremos muita coisa nova que não vai permanecer na linha dos defensivos, avançaremos na qualidade nutricional dos alimentos, no aumento da produção e outras características agronômicas importantes”.

Milho transgênico em lavoura de soja transgênica prejudica agricultores no Mato Grosso.

E quando questionado quanto ao que pode ocorrer com a chegada de todos esses eventos de transgenia, Karam considera: ”Será necessário ainda mais atenção com o problema da resistência. Penso que no futuro faremos rotação de herbicidas com base na rotação de cultivares também. Teremos que desenvolver a habilidade do planejamento ou então esquecer todos esses avanços e voltar ao básico. É importante retardar ou minimizar a seleção de resistência, que com certeza vai ocorrer com o passar do tempo”.

Figura 4. Taxa de adoção de cultivares de milho transgênicas no mundo e no Brasil

Karam lembrou que em 2007, Dionísio Gazziero, da Embrapa Soja, já falava que o manejo inadequado da soja RR estava favorecendo a manifestação da resistência de plantas daninhas ao herbicida glifosato em lavouras do Rio Grande do Sul e do Paraná. Desde então, o processo de seleção foi avançando como resultado do uso inadequado da tecnologia, que é uma excelente ferramenta para o manejo de plantas daninhas. No entanto, o agricultor deve ficar atento a algumas características e cuidados, pois não adianta ter a ferramenta e continuar com um sistema de plantio errado. ”É recorrente o pensamento de que a tolerância da cultura da soja para o herbicida de ação total, permite se fazer o controle das plantas daninhas em qualquer momento. Isso coloca a tecnologia em risco”, ressalta Karam.

”O manejo inadequado da soja RR está favorecendo a manifestação da resistência de plantas daninhas ao herbicida glyphosate, em lavouras do Rio Grande do Sul e do Paraná”. Dionísio Gazziero, Embrapa Soja, 03/01/2007

”Atualmente existem como opções de plantio o milho convencional, o RR2, o Clearfild, o Libertylink e o RR/Libertylink. Se pensarmos em sistema de produção, a soja está incluída, e ela pode ser STS, Cultivance, RR, RR/STS, Intacta RR2 Pro e convencional. Com isso, o cuidado terá que ser redobrado quando se estiver trabalhando, por exemplo, com milho RR seguido de soja RR e voltando para o milho RR, a pressão de seleção de plantas resistentes ao glifosato nesse caso, será muito grande. Diante disso, será necessário pensar na melhor forma para minimizar o efeito da pressão de seleção e resistência caso a caso. Lembrando que na tecnologia RR são eventos diferentes de empresas diferentes”.

Próximos passos

De acordo com Karam, os próximos eventos serão EPSPs + Auxinas+ Glutamina; EPSPs + Auxinas; EPSPs + ALS; EPSPs + Glutamina + Carotenóides; EPSPs + Auxinas + Glutamina + ALS e Carotenóides. ”Quando isso estiver disponível no mercado, vai aumentar muito o número de possibilidades de sistemas de produção. O planejamento sempre foi importante, mas com isso será ainda mais. Voltaremos a falar nos métodos culturais de controle de plantas daninhas com foco em sistemas de produção, incluindo opções como rotação de culturas, sucessão, aumento da cobertura para supressão. Outro ponto serão as épocas de aplicação de produtos que necessitam de atenção redobrada, pois muitas vezes o erro ocorre na tecnologia de aplicação”, considera o pesquisador.

Figura 5. Novos Sistemas de Produção envolvendo OGMs milho e soja.

Para Karam, novas moléculas não vão surgir nessa década, mas eventos transgênicos serão vários. Por isso, a exigência do planejamento e manejo das lavouras serão maiores. ”O que temos visto é a tecnologia usada de forma inadequada, às vezes até bem utilizada, mas com um sistema de colheita mal feito, por exemplo, deixando sobras de milho com as mesmas características dos materiais que estão sendo implantados na lavoura. A partir disso, o investimento que agricultor fez em uma tecnologia, não pôde mais ser usufruído adequadamente, porque a infestante tem a mesma característica da tecnologia. Estamos investindo alto e voltando a forma de manejo de 10 ou 20 anos atrás. O que devemos fazer é proteger as inovações tecnológicas disponíveis para que elas estejam presentes pelo maior tempo possível. Sabemos o que pode acontecer, por isso devemos ser pró-ativos e antecipar a solução. Ou melhor, não deixar o pior acontecer, prevenindo e planejando. No futuro, para trabalhar com eficiência, será necessário conhecer não somente uma característica, mas todos os eventos de transgenia presentes na planta”, conclui Décio Karam.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 134.