Novas tecnologias OGM para manejo de resistência
O professor e pesquisador da Universidade de Passo Fundo, Dr. Mauro Rizzardi, trouxe para os participantes do Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas, o que há de novo em tecnologias OGM. O painel teve a moderação do pesquisador da CCGL Tecnologia, Dr. Mário Bianchi.
Mário Bianchi (esquerda) foi o moderador da palestra de Mauro Rizzardi (direita), no Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas.
Mauro Rizzardi iniciou a apresentação destacando que as plantas daninhas foram e são importantes fatores limitantes da produção e do rendimento das culturas. Segundo ele, no passado, quando se começou a perceber a presença dessas espécies nas lavouras a eliminação acontecia de forma mecânica, com capina manual. O processo limpeza das áreas acabava dimensionando a propriedade, ou seja, o tamanho da lavoura era avaliado de acordo com o tempo que a família levava para concluir a capina. ”Na evolução do controle de plantas daninhas, o controle manual (mecânico) era a principal estratégia e no início não se pensava no quanto a presença dessas espécies era prejudicial”, explica.
De acordo com Rizzardi, posteriormente, com a evolução dos processos de produção, surgiram os primeiros herbicidas, isso na metade da década de 1940. A partir daí, os produtos químicos se integraram as técnicas mecânicas de eliminação das invasoras. Com a mudança do sistema convencional para o direto, a partir dos anos de 1990, o controle de plantas daninhas foi simplificado, utilizando praticamente o controle químico. Essa evolução foi natural e teve pontos positivos e negativos para o sistema produtivo.
No caso da soja, no início eram utilizados os herbicidas já disponíveis no mercado, basicamente os mesmos que eram utilizados no sistema convencional de plantio. Essa era a realidade da época, supria as necessidades e, de forma geral, resolvia os problemas.
”Quando uma tecnologia é lançada, seja ela qual for, passa a ser considerada uma solução imediata e eficaz dos problemas. No entanto, toda a tecnologia trás consigo pontos positivos e negativos. O agricultor de forma consciente ou não, trabalha somente aquilo que ele interpreta como a solução do seu problema. Se voltarmos aos anos de 1970, percebemos que isso também aconteceu, existiam poucos herbicidas, mas que solucionavam o problema dos agricultores. Começaram a surgir plantas daninhas de difícil controle como o leiteiro e a braquiária. O leiteiro (Euphorbia heterophylla) foi a principal invasora nas lavouras na década de 1980. Neste intervalo ocorreu a mudança de sistema, evoluímos para semeadura direta, foi lançado um novo herbicida e se pensou que as dificuldades no controle das plantas daninhas em soja tinham sido superadas. Na verdade, tratava-se do mesmo tipo de discussão que temos hoje em relação às tecnologias recém-lançadas”, considera.
Rizzardi lembra que os agricultores passaram a usar o Imazaquim em grande escala na soja e a maioria das lavouras tinham o controle de plantas daninhas centrado no uso desse herbicida. ”Nos anos de 1990, já no sistema de semeadura direta, aconteceram os primeiros registros de resistência a ALS e ACCase. Na sequência se intensificou o uso do glifosato devido ao cultivo da soja RR. E o que os agricultores fizeram? A mesma coisa que nos anos 80, concentraram em um herbicida e a responsabilidade do controle foi jogada integralmente para esse produto, que era usado de forma inadequada, como o plantio sem dessecação, aplicação em estádio adiantado de desenvolvimento da planta daninhas, aplicação com doses mais baixas do que a recomendação. A partir disso surgiram, gradativamente, os problemas que se discute nesse evento: a resistência de plantas daninhas, principalmente ao glifosato, que foi usado nas lavouras de forma indiscriminada. Percebe-se, então, que a história se repete”.
Perspectivas
Para Rizzardi, é importante ter em mente que as tecnologias geneticamente modificadas já disponíveis e também aquelas que estão chegando no mercado, não serão a solução.
E por que se adotou tão rapidamente os OGMs e o que aconteceu após a introdução dessa tecnologia nas lavouras? Para responder esse questionamento, Rizzardi retoma um pouco da história. ”Penso que a evolução da agricultura não registra nenhuma outra tecnologia que tenha tido adoção tão rápida quanto a soja RR. Isso ocorreu pelos benefícios que ela trouxe, em especial para o Sul do Brasil. Estávamos com a semeadura das lavouras de soja praticamente inviabilizada pela quantidade de espécies e pela alta infestação de plantas daninhas. A tecnologia OGM trouxe mudanças no manejo de invasoras, porque simplificamos o sistema e este foi o grande erro. O agricultor achou que a introdução da soja RR solucionaria totalmente o problema das plantas daninhas. Foi esquecido o estádio da invasora no momento da aplicação, pois o agricultor achava que o herbicida poderia controlar qualquer tipo planta, o controle passou a ser feito tardiamente, com plantas grandes, resultando em perdas por mato competição. Muito se perdeu em produtividade nesse período. Os princípios básicos de manejo das lavouras foram esquecidos e o uso de diferentes mecanismos de ação foi deixado de lado. Mas com o passar dos anos as mudanças levaram a retomada dos conceitos esquecidos no passado”.
De acordo com Rizzardi, a biotecnologia resultou na reestruturação da indústria de sementes e de herbicidas. Ocorreram fusões, aquisições, várias empresas que trabalhavam com defensivos adquiriram empresas de sementes também. Dados de 2010 do USDA, apresentam a relação entre a área de cultivo de soja geneticamente modificada e o número de ingredientes ativos utilizados de 1994 até 2002 (Figura 1). ”A adoção da soja RR a partir da introdução da tecnologia foi extremamente rápida, mas o número de ingredientes ativos utilizados nessas áreas foi diminuindo ao longo do tempo. Um cresceu e o outro diminuiu, ou seja, passamos ao controle centrado em um único herbicida, tomando como exemplo a soja. No Brasil, se pensarmos em soja RR, milho RR ou mesmo algodão RR, teremos situação similar”.
Figura 1. Área com soja geneticamente modificada versus número de ingredientes ativos em uso no Estados Unidos entre 1994 e 2002.
Com a simplificação no controle através do uso de um mecanismo de ação, ocorreram mudanças nas espécies de plantas daninhas consideradas problema. Algumas que no inicio eram controladas começaram a aumentar a infestação, e outras que desde o início não eram bem controladas, mas tinham baixa infestação, foram aumentando a presença nas lavouras. ”O tema do Encontro é a resistência e o foco das apresentações foi a buva e o azevém, mas não são somente estas espécies que estão presentes nas lavouras. Temos outras invasoras que estão aumentando gradativamente a presença em determinadas regiões. Precisamos ficar atentos as diferentes situações que estão começando a aparecer na Região Norte do Rio Grande do Sul. Não se trata ainda de plantas resistentes, mas são plantas que toleram o herbicida, como capim-pé-de-galinha, que está aumentando a infestação porque existe dificuldade de controle em estádios avançados de desenvolvimento. Plantas jovens têm controle, mas as sobras vão reproduzir, aumentar a população e ao longo do tempo a presença será mais evidente nessas áreas. Outro exemplo é o Capim de Rhodes, que aparece em lavouras de Passo Fundo e Carazinho. O Elephantopus encontrado na região de Tupanciretã. Reforço que não são plantas resistentes, mas existe a dificuldade de controle com herbicida. E, novamente, essa situação não é culpa dos produtos, porque nunca se controlou bem essas plantas com uso de herbicidas, a culpa é de um sistema de manejo extremamente simplificado”.
Rizzardi complementa dizendo que, apesar disso, alguns produtores da região não enfrentam problemas de resistência em suas lavouras. As áreas têm a presença das plantas daninhas que são facilmente manejadas e controladas.
Figura 2. Mecanismos de ação versus a seletividade das culturas.
Ao longo dos anos, o número de empresas que trabalham com a descoberta de novos herbicidas diminuiu sensivelmente. Vários fatores influenciaram nessa mudança, mas o principal foi o surgimento das culturas resistentes ao glifosato. Além da estagnação das pesquisas e do desenvolvimento de novos produtos, a chegada de cultivares RR redirecionou algumas empresas para setores da agricultura que não necessariamente estivessem ligados ao uso de herbicidas. O foco mudou. Ao invés de se trabalhar com a descoberta de novas moléculas as empresas investiram em biotecnologia. Outro aspecto influenciador foi a presença dos produtos genéricos no mercado, desestimulando a pesquisa de novas moléculas e o desenvolvimento de produtos.
”A liberação de um produto para o mercado exige tempo e tem custo elevado. Uma molécula recém-descoberta pode ser descartada antes mesmo das pesquisas avançarem, devido aos aspectos toxicológicos que ela pode apresentar. No processo de descoberta de um novo produto são avaliados em torno de 200 mil compostos com o objetivo de identificar um que tenha potencial de ação herbicida. Por isso o tempo necessário para se desenvolver um novo herbicida é de 8 a 9 anos. Por isso, considerando que houve a diminuição na quantidade e intensidade de trabalhos visando a descoberta de novas moléculas, estamos com atraso de aproximadamente uma década nessa área. O custo do processo é alto, em torno de 250 milhões de dólares. Não teremos, portanto, muitas novidades em produtos nos próximos anos, por isso precisamos conservar as ferramentas disponíveis”.
Tabela 1. OGMs no mundo.
Tabela 2. Eventos liberados comercialmente.
Tabela 3. Eventos em estudo.
Tabela 4. Outros eventos.
Em termos de novos mecanismos, existem alguns herbicidas que estão sendo trabalhados e outros que já estão no mercado, o Saflufenacil é um exemplo. De acordo com Rizzardi, é um produto importante para o sistema, mas os agricultores precisam mudar a forma de pensar no momento de utilizar. ”Não imaginem que esse produto ou qualquer outro seja a solução. São ferramentas e para que funcionem adequadamente e por longo tempo temos que pensar onde encaixa-las no sistema de produção, juntamente com os produtos tradicionalmente utilizados. Do contrário, não iremos muito longe. O Saflufenacil não vai solucionar o problema de buva resistente. Esse produto é uma excelente ferramenta, mas assim como outros, tem recomendações de uso para se obter o resultado esperado, como estádios de desenvolvimento das plantas daninhas, momentos de aplicação, associação com outros herbicidas ou aplicação sequencial em determinadas situações. Reforço que toda a tecnologia que chega no mercado tem pontos positivos e negativos, por isso é necessário ter consciência das limitações”.
OGMs
O desenvolvimento de um organismo geneticamente modificado (OGM) demanda um tempo maior que o necessário para desenvolver uma molécula de herbicida. O período entre a descoberta, construção, confirmação, desenvolvimento comercial, introgressão (melhoramento), condução dos aspectos regulatórios e registro, fica em torno de 15 anos. Por isso, muitos dos materiais OGM que já foram desenvolvidos podem ainda levar de 5 a 7 anos para chegar até o agricultor. ”Pessoalmente, penso que esse tempo possa ser utilizado para se discutir as novas tecnologias e sua integração ao nosso sistema de produção. Assim, quando disponíveis, poderemos utilizá-las por maior de tempo e com eficiência”.
De acordo com Rizzardi, em um futuro próximo os OGMs trarão variadas combinações de eventos que, para serem utilizados de forma plena, necessitam segurança e clareza do agricultor e do assistente técnico, sobre as características de cada material. O agricultor terá várias alternativas e ele poderá optar por uma, duas ou mais, para uso em sua propriedade. ”Existem várias combinações que estão sendo desenvolvidas, nem todas serão usadas no Brasil, mas muitas delas sim e será necessário conhecermos para poder utilizá-las com eficiência”, reforça Rizzardi.
O pesquisador citou um experimento que avaliou o milho resistente a glifosato em duas situações, uma em área de pousio e outra com cobertura de aveia preta. Segundo ele, a área de pousio foi dessecada usando apenas glifosato sobre a vegetação espontânea, principalmente azevém resistente a glifosato e a inibidores de ACCase. Na área onde havia uma cultura de cobertura, no caso aveia-preta, semeada e com grande quantidade de palha, foi possível reduzir sensivelmente a presença do azevém, somente com a cobertura e as sobras foram dessecadas com aplicação sequencial. ”Quando a área tem boa cobertura o efeito do herbicida não aparenta ser tão grande. Mas em áreas de pousio a diferença é fantástica, fica evidente o controle”.
O Enlist é um dos OGMs que estão sendo testados e virão para o mercado com resistência as auxinas, 2,4-D, glifosato, glufosinato e aos inibidores de ACCase. As fotos da Figura 3, ilustram um exemplo desse conceito envolvendo a cultura do milho e o controle da buva. Nesse caso a testemunha demonstra o grau de infestação foi usado glifosato + 2,4-D e atrazina e se obteve 100% de controle. Esse sistema para algumas situações oferece número maior de possibilidades.
Figura 3. Resultados do uso do Sistema Enlist em experimento apresentado pelo palestrante.
”O Sistema Enlist, pode favorecer o controle de infestações tardias de plantas daninhas. Com ele o agricultor tem a possibilidade de controle para evitar produção de sementes. No entanto, se ocorrer a simplificação do sistema, com o plantio de milho RR, da soja RR usando glifosato, glifosato e glifosato, obviamente que os resultados não serão positivos. Ótimo que essas ferramentas existam, mas somente aqueles que conhecem e dominam o uso vão poder usufruir dos benefícios de forma plena”.
Figura 4. Resultado do manejo de azevém em situação de pousio e com aveia preta como cobertura.
Figura 5. Evolução no manejo de plantas daninhas.
De acordo com Rizzardi, outras situações envolvendo o manejo de plantas daninhas não estão ligadas aos OGMs e sim as tolerâncias. ”A soja tolerante a sulfonilureias, por exemplo, não possibilita o plantio em qualquer ambiente. A Cultivance é para todos os ambientes? Também não, pois em áreas com a presença de leiteiro ou picão resistentes a ALS, essa tecnologia não pode ser usada. Eventualmente é possível usar um STS sobre um material que tenha resistência ao glifosato. Por isso é necessário conhecer o máximo possível para extrair os benefícios da tecnologia. Em breve teremos que pensar no controle químico associado aos novos OGMs e, a partir disso, será necessário o amplo conhecimento sobre cada um deles”(Figura 6).
Figura 6. Mecanismos de ação versus seletividade versus novos OGMs.
De acordo com Rizzardi para usar herbicidas associados aos OGMs é necessário pensar em um sistema que contemple a rotação, pois milho é muito eficiente para o controle do azevém e reduz sensivelmente a presença dessa planta daninha nas lavouras. ”Importante não esquecer que é mais fácil controlar o azevém quando planta jovem, em áreas com cobertura após a soja é só dessecar antes de plantar milho, sem deixar o azevém produzir semente, com isso o banco de sementes será reduzido”.
Figura 7. Sistemas de Culturas na Região Sul.
Para o pesquisador, a buva não é muito difícil de ser controlada, mas ele lembra que é necessário conhecer primeiro o sistema utilizado na propriedade, conhecer o fluxo de germinação da invasora e começar a pensar em buva no outono e não na pré-semeadura da soja. ”Precisamos trazer de volta alguns princípios e não querer imaginar que simplesmente um OGM com os herbicidas disponíveis no mercado vai solucionar o problema. Esse é o nosso erro atualmente e continuará sendo se seguirmos pensando assim. É necessário integrar as boas práticas a cada ambiente e realidade de lavoura. Os herbicidas são ferramentas importantes no controle de plantas daninhas, mas eles sozinhos não são a solução e os novos materiais transgênicos também não serão. Por isso existe a necessidade de uma visão holística sobre a questão da resistência” conclui Rizzardi.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 134.