Cenário atual e novidades na pesquisa e manejo
Os prejuízos causados pela buva (Conyza spp.) são um problema constantemente enfrentado nas lavouras, principalmente de soja. A presença dessa planta daninha resulta em perdas, uma vez que mesmo com baixa infestação ela causa redução de produtividade e, na medida em que a infestação aumenta, as perdas se tornam maiores.
Conforme o Dr. Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa Soja, de Londrina, PR, que palestrou na manhã do dia 9 de maio, em Passo Fundo, RS, durante o Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas, tendo como moderador o pesquisador Dirceu Agostinetto, a buva é uma planta que deve ser controlada antes do plantio e isso tem aumentado o custo de produção, para quem vivencia o problema nas lavouras.
Dirceu Agostinetto e Fernando Adegas durante o Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas
Ele afirma que o produtor gasta com a prevenção, antes de semear a cultura, entre dois e oito sacos de soja por hectare, só para conseguir efetuar o controle de disseminação das sementes dessa planta. Com isso, medidas de prevenção imediatas devem ser adotadas pelos agricultores na tentativa de impedir o avanço das plantas daninhas. A rotação de herbicidas com diferentes mecanismos de ação associados à rotação de culturas é uma importante ferramenta que pode ser utilizada num primeiro momento visando o controle.
Para Adegas, quando se fala em plantas daninhas e levando em conta as discussões geradas principalmente após a primeira metade da década passada, o glifosato entra em pauta como o melhor herbicida. No entanto, mesmo apresentado como de grande eficácia, outros mecanismos de ação devem ser trabalhados associados a ele, para evitar o desenvolvimento de resistência.
A ocorrência de plantas daninhas resistentes se acentuou nos últimos cinco anos, principalmente pelo seu alto poder de proliferação através das sementes que podem ser deslocadas com o vento. ”A buva é uma planta que produz muita semente, até 200 mil por planta, elas são extremamente leves e pequenas, facilmente transportadas pelo vento a longas distâncias. Essa característica contribuiu muito para o aumento das áreas infestadas. Por isso, além do controle químico, medidas como a rotação de culturas também devem ser utilizadas, pois ajudam a minimizar o problema, assim como a utilização de herbicidas de diferentes mecanismos de ação”, comenta o pesquisador.
Status da resistência
Hoje estão registrados 49 casos de resistência de buva no mundo, sendo 33 de Conyza canadensis, 12 de Conyza bonariensis e 4 de Conyza sumatrensis. ”Apesar de ser a planta daninha com o maior número de casos e maior área, ela não é a que mais preocupa. Isso porque as informações para manejo e controle estão disponíveis, todos os agricultores sabem como fazer. O que talvez esteja ocorrendo é à displicência com as diretrizes básicas de manejo de lavoura”. O pesquisador complementa que para fins de controle, estudos mostram que a Sumatrensis é mais sensível que a Bonariensis que é mais sensível que a Canadensis. Adegas acrescenta que já foram descritos três mecanismos de resistência, sendo por menor translocação, sequestração por vacúolo e metabolismo.
Figura 1. O controle da Conyza sumatrensis (esquerda) é mais fácil que da Conyza bonariensis (centro) e a Conyza canadensis (direita) é a espécie mais difícil de ser controlada.
Para controlar a buva resistente nas lavouras os agricultores passaram a usar mecanismos de ação diferentes, mas por se tratar de uma planta adaptável, ela se tornou resistente também a outros herbicidas além do glifosato. Conforme Adegas, o número de produtos existentes para controlar a buva dentro da soja é muito pequeno e nenhum atinge 100% de controle.
Alta dose e subdose de herbicidas
É possível resistência com subdose de herbicida? Segundo Adegas, essa é uma grande discussão da pesquisa atualmente. ”Aprendemos que em uma população natural de qualquer planta daninha, já existe pelo menos uma planta resistente, nesse caso é a frequência e quantidade que vai caracterizar a resistência. Com a aplicação de altas doses vai sobrar uma ou outra planta e mais a planta que tem resistência natural. No ano seguinte aparecerá uma reboleira na lavoura. Ocorre então nova aplicação em alta dose, a seleção aumenta e a reboleira fica maior, e assim sucessivamente. Esse é o caso de seleção clássico que se conhece. Trabalhos apontam que essa resistência ocorre em plantas com mutação com sítio específico de resistência”.
E para os casos de resistência sem ponto específico, o pesquisador explica que com o uso da subdose de herbicida a planta resistente vai permanecer na lavoura e várias outras com diferentes graus de resistência também permanecerão. Nesse caso, em uma área com várias plantas daninhas remanescentes, cada uma delas pode necessitar de determinada dose de herbicida, pois as populações são heterogêneas. ”Existem duas características que devem ser consideradas nesse caso. A primeira é a polinização cruzada, que ocorre com a maioria das plantas daninhas, esse nível de polinização pode variar de uma planta para outra. Se a planta tiver um mecanismo que não seja específico de mutação pode ocorrer uma recombinação genética dessa planta com outra próxima. Então, quando se aplica novamente a subdose o resultado será o maior número de plantas resistentes naquela área. Em resumo, para plantas que não tem ponto específico de mutação a subdose ajuda na acumulação da resistência na lavoura”.
Época de emergência da buva
Segundo Fernando Adegas, em trabalhos de monitoramento de emergência de buva com duração de três anos realizados no Paraná, os resultados apontaram que a emergência em 2008, por exemplo, ocorreu de forma mais acentuada nos meses de julho e agosto, mas também em setembro com menor frequência. Em 2009 praticamente foram registradas emergência dessa planta somente em julho e agosto. Constatou-se, portanto, que o período de emergência da planta daninha tem variado, podendo ser encontrada em vários tamanhos em diferentes épocas do ano dependendo da região. Por isso, é importante ficar atento e monitorar o período de emergência para o controle adequado, pois parece que estão ocorrendo modificações no comportamento da planta.
Figura 2. Emergência de buva no Paraná em 2008.
Figura 3. Emergência de buva no Paraná em 2009.
Para Adegas, outra questão que preocupa é a quantidade de plantas de buva presentes nas lavouras, pois a densidade de infestação é cada vez maior. ”Nos primeiros experimentos que fizemos, nas parcelas testemunha tínhamos de 9 a 12 plantas por m2. Nos últimos anos está chegando próximo a 40 plantas/m2. Registramos, inclusive, um experimento em Ubiratã, com 838 plantas/m2. Ou seja, houve aumento da infestação e aumento da população nas áreas”, reforça.
Nesse aspecto, o mais importante é que o agricultor defina qual a buva que deseja controlar, planta pequena, planta média ou planta grande? É consenso que o melhor é controlar planta pequena, pois outros fatores, além do que se vê acima do solo podem influenciar no controle. Vai depender muito de como foi o crescimento dessa planta, de quais foram as condições ambientais para ela crescer. ”Considero essa questão importante porque em avaliações a campo, chegamos a encontrar plantas de buva com 7 cm altura e 72 cm de raiz. Por isso é necessário muito cuidado e análise da lavoura no momento programar a aplicação” (Figura 4).
Figura 4. Avaliação a campo encontrou planta de buva com 7 cm altura e 72 cm de raiz.
O pesquisador reforça que para o controle de planta pequena existem várias opções de produtos, para planta média a gama de opções diminui e para plantas grandes fica difícil o controle químico. ”De forma geral para plantas pouco estressadas, sugere-se glifosato + 2,4-D, glifosato + chlorimuron, glifosato + metsulfuron e até glifosato + imazetapir (Figura 5). Quando estressada a planta pequena continua sendo bem controlada e até produtos de contato são eficientes. Mas quando as plantas são grandes e estressadas o controle fica restrito ao glifosato + 2,4-D com aplicação sequencial”.
Figura 5. Controle de plantas daninhas ”pouco estressadas”.
Figura 6. Controle de plantas daninhas ”estressadas”.
Interferência do clima
Existe interferência das condições climáticas, em especial da temperatura, no controle das plantas resistentes? Por que em um ano, mesmo em áreas com alta densidade de buva resistente, se aplica apenas glifosato e praticamente se controla a população? Para responder esses questionamentos Adegas retoma a questão dos mecanismos de ação, principalmente a sequestração por vacúolo. ”A buva resistente e sensível tem diferentes permeabilidades de membrana, que ajudam tanto na absorção quanto na translocação. Tomando como exemplo três biótipos, um suscetível e dois resistentes (Figura 7), o suscetível, que recebeu a aplicação entre 8 e 19 oC, foi controlado com baixas doses de glifosato. Já as plantas resistentes, com temperatura próxima a 20 oC foi necessário altas doses de glifosato. Com temperaturas mais baixas o controle ficou praticamente igual ao de planta suscetível. Portanto parece existir influencia das condições climáticas no controle de plantas resistentes, no caso da Conyza os resultados dos estudos apontam nessa direção. Por isso a época mais adequada de controle de buva no Rio Grande do Sul é pouco antes da safra de inverno, com temperaturas mais amenas.
Figura 7. Influência da da temperatura no controle das plantas resistentes.
No entanto, o melhor sistema para controle de buva ainda é a cobertura de solo, afirma Adegas. ”Mas é interessante registrar que não é só a quantidade de palhada, mas a qualidade da distribuição desta cobertura do solo. Uma opção excelente são as culturas intercalares. Os conceitos básicos de condução de lavoura não podem ser esquecidos. É importante que o agricultor se convença que cobertura é o primeiro passo para o controle de plantas daninhas resistentes. Cada agricultor deve pensar nas alternativas possíveis em sua região para poder oferecer palha para o sistema de forma adequada”.
Figura 8. Milho safrinha, produção de 5912 kg/ha deixa 60% do solo coberto (A) resultando em 18,4 plantas de buva/m2 e o trigo com produção de 5508 kg/ha proporcionou cobertura de 90% do solo e apresentou 3,2 plantas de buva/m2 (B).
No sistema de cultivo de grãos no Brasil o milho safrinha está fortemente inserido. Isso porque onde antes se colhia soja em março/abril hoje a colheita é realizada até metade de janeiro e o agricultor está plantando cada vez mais cedo e colhendo cadê vez mais cedo também, às vezes aumentando ou mudando algumas situações de pousio.
De acordo com Adegas, no Rio Grande do Sul a mudança não foi tão drástica quanto em outros estados, pois se antecipa a colheita da soja, se mantém o plantio de trigo ou aveia, o que mudou foi a janela de pousio, que ficou um pouco maior, principalmente pela antecipação da colheita de soja. Como resultado houve a alteração da janela de dessecação de pré-semeadura do verão/inverno, fazendo forte pressão de seleção pelo uso do glifosato, reduzindo o potencial competitivo da soja e aumentando a presença de plantas daninhas resistentes. ”É importante que fique claro que os produtos não perdem sua eficiência, o que precisa ser analisado é como inseri-los no sistema de produção mais adequado”.
Figura 9. Controle de herbicidas residuais em baixa população.
Figura 10. Controle de herbicidas residuais em alta população.
Figura 11. Controle 21 dias após a aplicação em plantas ”medianas” e/ou com ”estresse”.
Produtos
Durante a apresentação no Encontro Fernando Adegas comentou que para baixas populações os herbicidas residuais de até 14 dias funcionam bem, a diferenciação ocorre com o tempo de residual, nesse caso sempre se destacam Imazaquim, Metribuzin e o Diclosulam. No Rio Grande do Sul não é necessário 30-40 dias de residual, mas do Paraná para cima é necessário. Como opções para ”retardar” o fluxo da buva podem ser citados: Diclosulam, Imazaquim, Metribuzin, Flumioxazin, Sulfentrazone ou Sulfometuron+Chlorimuron
No caso do agricultor gaúcho é interessante usar um residual próximo a semeadura de soja e não se deve pensar só em buva, há um complexo de plantas daninhas que deve ser considerado para decidir qual o residual que vai ser trabalhado em um sistema de alta população de invasoras. A buva quando passa da situação adequada de controle (planta pequena) o que vai funcionar são os sequenciais onde a primeira é normalmente glifosato +2,4-D seguida de glifosato + clorimuron, glifosato + inibidor de ALS e completa com um produto de contato.
E para aquele agricultor que deixou a buva se estabelecer no meio da soja? Para controle da buva na cultura da soja existem dois produtos em pós emergência: cloransulam e clorimuron. Adegas sugere cuidado com o clorimuron, pois a fitoxicidade pode ser maior. ”É importante destacar que nesses casos é difícil conseguir um controle acima de 60-70% com altas dosagens. Na verdade se está amenizando um problema que deveria ser resolvido antes. Fundamental é sempre fazer o dever de casa bem feito”, reforça.
Em regiões mais quentes os dados de pesquisa sugerem que imediatamente após a colheita do milho safrinha se faça uma aplicação de glifosato + 2,4-D com os herbicidas residuais ou um sequencial de três aplicações com os sistemas apresentados na figura 12. Quando se tem plantas menores se evita a primeira aplicação ou se faz uma aplicação com produto residual mais próxima do plantio.
Figura 12. Controle após a colheita do milho.
Figura 13. Controle com pequeno pousio após a colheita do milho.
”Para o Rio Grande do Sul a sugestão é que se faça um bom manejo no pousio. No trigo e aveia e na janela de pousio antes da soja. Essa janela de pousio é mais curta e por isso não pode ter planta de buva grande, pois não há tempo para aplicações sequenciais. Nesse caso, o melhor é usar o residual pensando nas outras plantas daninhas e no estabelecimento da cultura da soja”(Figura 14).
Figura 14. Época de cultivo no Sistema de Produção de Grãos do Rio Grande do Sul.
Adegas comenta ainda que quando existem duas plantas resistentes na mesma área normalmente uma delas é a buva. ”No caso de duas plantas resistentes na mesma área, uma buva e a outra gramínea, como pode ser feito o controle quando a maior parte dos produtos não serve para essas duas plantas? O que me preocupa é que os conceitos básicos de controle de plantas daninhas foram deixados de lado, como exemplo as misturas de latifolicidas com graminicidas que não devem acontecer em hipótese alguma”, conclui.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 134.