A novidade é relembrar velhos conceitos para melhorar o controle
O Pesquisador Mário Bianchi, da CCGL Tecnologia de Cruz Alta, RS, abordou durante o Encontro Nacional Sobre Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas o tema resistência de azevém (Lolium multiflorum) aos herbicidas. De acordo com o pesquisador, a novidade para melhorar o controle dessa planta daninha é relembrar alguns conceitos que foram progressivamente sendo esquecidos. ”Novos herbicidas não vão surgir tão rapidamente, eu não esperaria isso ainda na próxima década. Então, teremos que ”reinventar” algumas coisas e, principalmente, utilizar os conceitos básicos de manejo de plantas daninhas e do plantio direto em si, entre eles a rotação de culturas. Com certeza muitos dos problemas com resistência enfrentados nas propriedades podem ser resolvidos aplicando-se os conceitos já conhecidos”, explica Bianchi.
Mário Bianchi e o moderador da apresentação Carlos Mertins: reduzir o banco de sementes é um importante passo para manejar o azevém resistente.
Resistência de azevém: breve histórico
De acordo com Mário Bianchi a resistência de azevém na Europa foi registrada pela primeira vez em 1990, com casos de resistência a inibidores de ACCase e de Fotossistema II, por exemplo, atrazina. Em 1993, na França, foi registrada resistência a ACCase, em 1995, na Itália, resistência múltipla ACCase+ALS (iodosulfurom e clodinafop), na Espanha, a resistência a glifosato foi registrada em 2006 e na Dinamarca o mesmo caso da Itália que em 2010 apresentou casos de resistência múltipla ACCase+ALS.
Nos Estados Unidos o primeiro caso de resistência aos inibidores de ACCase (graminicidas) foi registrado em 1987. De acordo com o pesquisador, nessa época no Brasil ainda não se falava em resistência de plantas daninhas. Em 1995 houve o registro da resistência a dois mecanismos de ação ALS e ACCase. Em 2004 registrou-se a resistência a glifosato (EPSPS). Já em 2005, os Estados Unidos começou a enfrentar a resistência tripla ACCase + ALS + Mitose (pedimentalim). Em 2010 outra preocupação para os agricultores e pesquisadores americanos, foi o conhecimento de um caso de resistência a glifosato + glufosinato (EPSPS + GS).
Na América do Sul, o Chile é o país pioneiro na descoberta de resistência em azevém. Em 1998 foram os inibidores de ACCase, em 2001 ao glifosato. O primeiro registro da resistência a mais de um mecanismo de ação no Chile foi em 2002, a ALS + EPSPS. Isso dificultou o controle, reduzindo as alternativas. ”Quando existe resistência a ALS a alternativa é o glifosato, no caso de resistência múltipla, o que fazer? Em 2005 o Chile registrou a resistência do azevém a ACCase + ALS, em 2006 ACCase + EPSPS e em 2007 o problema ficou maior ainda com a resistência a três mecanismo de ação de herbicidas (ACCase + ALS + EPSPS), ou seja, sobram poucas opções para controlar o azevém na cultura do trigo e milho por exemplo”.
No país vizinho, a Argentina, foram registrados quatro casos de resistência até o momento, em 2007 a glifosato, em 2009 aos inibidores de ACCase e em 2010 a ALS + EPSPS e ACCase + EPSPS.
No Brasil, a partir de 2003, foram três eventos envolvendo o azevém, resistência a glifosato (EPSPS), em 2010 resistência a ALS (iodosulfuron) e o terceiro é de resistência a dois mecanismos de ação os inibidores da ACCase (graminicidas) + glifosato (EPSPS), com registro também em 2010.
Bianchi salienta que o registro dos casos de resistência não motiva pânico. ”É importante deixar claro que a existência de um caso não representa a predominância da resistência em toda a área. No momento que a pesquisa identifica um caso na região não significa que o problema esteja disseminado em todas as propriedades e no mesmo grau de infestação”, esclarece.
Alternativas de controle
O pesquisador lista os herbicidas que controlam ou têm ação sobre azevém e destaca que essas são ferramentas que o agricultor pode trabalhar atualmente.
Inibidores de EPSPS: Glifosato
Inibidores da ALS: Iodosulfuron, nicosulfuron
Inibidores da ACCase: Cletodim, Setoxidim, Tepraloxidim Haloxifop, Fluazifop, Quizalofop, Clodinafop
Inibidores de GS: Glufosinato
Inibidores do FS I: Paraquate
Inibidores do FS II: Atrazina
Inibidores de Mitose: Pendimetalin, Metolaclor
Inibidores da síntese de carotenóides: Clomazone
”Se considerarmos que já foram registrados casos de resistência a EPSPS, ALS e ACCase, qual será o caminho caso esses três grupos de herbicidas não funcionem mais? Essa é a grande questão. Caso esses mecanismos não funcionem teremos que controlar azevém com glufosinato, tendo como limitação o estádio, a dose e o potencial de controle. Paraquate é ótimo para controle de planta pequena de azevém, com um afilho no máximo, mas de preferência antes do afilhamento. No caso do Rio Grande do Sul pode acontecer em um futuro próximo, não seja mais possível usar esse produto, devido a proibição no Estado. A partir disso a situação fica ainda mais complicada no que se refere ao manejo da resistência. Usar atrazina como opção? É recomendada para milho. Qual a proporção dessa cultura no Estado? Hoje o carro chefe da lavoura é soja, a contribuição do milho dependendo da região é quase zero. O pendimetalin e o metolaclor são seletivos, devem ser usados na dessecação. Como fazer a dessecação sem o uso de glifosato e inibidores de ACCase e no caso do Rio Grande do Sul sem o paraquat? Teremos que dessecar o azevém pós colheita da soja com glufosinato. É difícil e vai exigir várias aplicações, com isso, pode acontecer a seleção de azevém resistente a glufosinato. É só usar repetidamente o herbicida que a resistência tem grande chances de ocorrer. Por isso, antes de chegarmos nesse ponto, devemos repensar um pouco a forma de manejar o azevém”.
Bianchi comenta que como herbicida seletivo para trigo é possível usar o pendimentalin, mas com muitas limitações. ”Para aqueles que gostam de semear trigo a 12 km/hora, esse herbicida não vai dar certo, porque ele deve ser aplicado após a semeadura para ser seletivo ao trigo e não pode ser misturado com a semente. Essa é uma alternativa para aqueles que fazem a semeadura no capricho, com velocidade baixa, tomando um chimarrão”, brinca o pesquisador. ”O metolaclor também tem limitações em função da palhada, é um pré-emergente direcionado ao milho e soja. O clomazone não é para trigo, é para soja. Com isso, se pensarmos em um futuro sem mudanças no processo, teremos sim dificuldade no controle do azevém”.
Distribuição dos casos de resistência do azevém (Lolium multiflorum) no Rio Grande do Sul
Nas regiões onde foram registrados casos de resistência as plantas daninhas são buva e azevém (Figura 1). No entanto, não significa que nos município assinalados todas as lavouras tenham plantas resistentes ao glifosato.
Figura 1. Distribuição dos casos de resistência do azévem (Lolium multiflorum) no Rio Grande do Sul. Fonte: L. Vargas, Embrapa Trigo.
O azevém resistente a inibidor de ALS ocupa uma área menor no Estado, mas também não significa que todos os municípios assinalados no mapa tenham 100% de resistência. O mapeamento ocorre para mostrar que o problema está presente e ajudar no direcionamento das ações para o enfrentamento do problema. ”Temos alternativas muito superiores a maioria dos países que possuem casos de resistência no mundo. Penso que seja necessário apenas relembrar conceitos, repensar o manejo”.
Redução do banco de sementes: uma necessidade
Mário Bianchi reforça a importância da diminuição do banco de sementes no solo. Ele exemplificou essa questão tomando como base um trabalho de pesquisa realizado no Brasil e que aponta o período no qual o banco de sementes de azevém está mais denso. Os resultados indicam que em áreas de pastagem (gado de corte) de setembro a outubro as plantas estão no início do florescimento e com formação de sementes, mas o banco de sementes está praticamente zerado no solo. Na cultura da soja acontece a dispersão das sementes e um curto período de dormência de aproximadamente três meses. Com o retorno da pastagem, de maio a setembro, ocorre o esgotamento do banco de sementes, chegando a quase zero em agosto (Figura 2).
Figura 2. Como se comporta o banco de sementes de azevém no solo.
”Para quem tem foco em pastagem o que interessa é aumentar o banco de sementes e fazer ressemeadura natural. Quando as plantas de azevém estão no início do florescimento e com formação de sementes, praticamente não existe banco de sementes, porque as sementes ainda serão produzidas e, após um mês (outubro/novembro), vão maturar e cair no solo, com isso o banco de sementes ficará maior. Essa situação é comum para azevém que é uma planta com banco de sementes transitório e que não tem um período de dormência de planta daninha típica. O aumento do banco de sementes interessa somente a quem faz pecuária de corte, para quem cuida de lavoura isso não interessa. Então, de novembro a março ocorre a dispersão das sementes, chegando ao pico de germinação. Depois, no outono, há o esgotamento do banco de sementes”, explica Bianchi. Como recomendação prática para reduzir a infestação de azevém deve-se evitar a produção de sementes dessa planta. Pode-se dessecar ou eliminar as plantas antes da floração, assim o banco de sementes não será abastecido e a infestação vai diminuir.
Outro trabalho de pesquisa apresentado pelo pesquisador aponta o número de plantas de azevém emergidas em diferentes formas de manejo. ”Se temos um banco de sementes que é fortalecido pela produção de azevém nos meses de setembro e outubro, com um sistema de rotação simples se conseguem uma redução. Nesse trabalho de pesquisa a contagem das sementes no solo foi feita de abril a outubro em diferentes sistemas de manejo, sendo: pousio/soja; aveiapreta/soja; trigo/soja e aveia preta/milho. O pousio/soja registrou o maior número de sementes e aveia preta/milho praticamente zerou o banco de sementes. Diante dessa informação é necessário dizer mais alguma coisa? O herbicida ajuda, é uma ferramenta, mas não resolve tudo sozinho. No pousio a dessecação gasta uma parte do banco de sementes, mas sem cobertura na área vai ocorrer nova emergência de azevém que vai produzir semente” destaca Bianchi.
Para o pesquisador a ausência de milho no sistema de produção dificulta muito o manejo do azevém resistente. ”Não temos milho no sistema e isso é um problema. Daí vem a pergunta: vai aumentar a área de milho em função do azevém? Penso que não. Mas se a área de milho aumentar certamente será uma grande oportunidade para reduzir o banco de sementes do azevém. Isso porque a viabilidade da semente no solo é pequena, por isso precisa a ressemeadura todo o ano, esse não houver ressemeadura natural para manter a pastagem para o gado de corte é necessário semear. Essa é uma realidade tanto para o azevém sensível quanto para o resistente”, explica.
Segundo o pesquisador se o agricultor conseguir estabelecer um sistema de manejo que consuma as sementes que estão no solo e que tem, em média, dois anos de viabilidade, o banco de semente será reduzido naturalmente. Com isso os herbicidas começam a funcionar de forma mais eficiente.
Em um experimento o milho e a soja foram colhidos, no momento de semear o trigo na área onde anteriormente estava o milho foram registradas 15 plantas de azevém e na área de soja foram encontradas 238 plantas de azevém (Figura 3). ”Em uma situação de lavoura fica claro que o agricultor teria um problema para resolver, pois nesse caso o herbicida não funcionaria direito, porque uma planta sombreia a outra, há heterogeneidade de estádios de desenvolvimento, uma planta tem afilho e a outra é pequena e a aplicação do produto não tem o resultado esperado, é preciso fazer aplicações sequenciais. Importante lembrar que a lavoura é o ”ganha pão”. Por isso existe a necessidade de reduzir banco de sementes, saber qual o momento certo e a forma mais adequada para o manejo. É claro que isso deve ocorrer antes da produção de sementes viáveis ou mesmo da produção sementes pela planta. Colher o azevém para tirar o máximo possível dessa semente da lavoura, ou ainda, dessecar de forma antecipada para colher e evitar a liberação de sementes para o solo pode ser uma alternativa. Como o azevém é voluntário vai maturar em épocas diferentes e isso precisa ser observado pelo agricultor”, reforça.
Figura 3. População de azevém (plantas/m2) três dias antes da semeadura do trigo em função da cultura anterior.
Figura 4. Condição ideal para semeadura.
Mário Bianchi conclui sua apresentação no Encontro Nacional considerando que um dos problemas nas propriedades rurais é a aplicação de herbicidas em momentos inadequados, principalmente pós-emergência no trigo e no milho. Para reduzir banco de sementes o pesquisador sugere: controle químico com plantas pequenas; uso de aplicação sequencial contemplando herbicidas com dois a três mecanismos de ação diferentes, em trigo e milho; associação ou alternância de herbicidas com diferentes mecanismos de ação; em pastagens preferencialmente dessecar as plantas de azevém e colher as sementes antes de caírem no solo e usar o nabo forrageiro como uma oportunidade de controle para plantas de azevém pequenas, para garantir o alcance do herbicida (Figura 5).
Figura 5. Oportunidade de controle do azevém antes do fechamento das plantas do nabo-forrageiro.
”Na verdade a grande novidade hoje é tirar o foco do controle químico e considerar o herbicida uma ferramenta a mais no processo. É preciso observar, planejar, usar mais técnica e sistema de produção. Essa é a grande novidade”, reforçou o pesquisador.
Revista Plantio Direto, edição 134.