Uma Reflexão da Assistência Técnica sobre o Avanço da Resistência de Plantas Daninhas


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Publicado em: 01/04/2013

Uma reflexão da assistência técnica sobre o avanço da resistência de plantas daninhas aos herbicidas

Carlos MertinsEngenheiro Agrônomo, Cotrijal, Não-Me-Toque, RS

Os bons resultados de produtividade e de rentabilidade agrícola fazem com que o produtor repita várias vezes a mesma prática agrícola, durante vários anos. É assim em qualquer lugar onde se faz agricultura. Aquela velha história de que em ”time que está ganhando não se mexe”. No caso de plantas daninhas, especificamente, tais procedimentos vêm gerando além de dificuldade no controle das mesmas, problemas com plantas tolerantes e/ou resistentes ao glifosato, colocando em risco práticas, que são eficientes na sua essência, mas que por serem utilizadas equivocadamente, não surtem mais os efeitos esperados.

Práticas que comumente são realizadas e contribuem para o surgimento de plantas daninhas tolerantes e/ou resistentes:

a) o uso repetitivo de herbicidas com o mesmo modo de ação, exercendo alta pressão de seleção de plantas daninhas;

b) aplicação de herbicidas em condições climáticas inadequadas;

c) uso de subdosagens;

d) produtos em mistura que neutralizam a ação do glifosato;

e) má qualidade da água;

f) o não repasse de plantas escapes;

g) a tecnologia de aplicação (pontas, gotas, equipamentos);

h) a falta de manejo no pós-colheita das culturas, causando um aumento no banco de sementes.

A introdução da tecnologia da soja transgênica, que permite o uso do glifosato em pós-emergência da soja sem afetar a cultura, oportunizou aos produtores controlar as plantas daninhas de forma fácil, eficiente e com relativo baixo custo. Existem casos em que o custo com herbicidas foi reduzido em mais de 70%, o que tornou o cultivo da soja viável mesmo em condições difíceis como foi o ano de 2005. Para a pesquisa e a assistência técnica, essa tecnologia apresentou-se como importante alternativa para incrementar o manejo das plantas daninhas, principalmente de espécies resistentes aos inibidores ALS, como o leiteiro e o picão-preto resistentes ao imazaquin, já que o glifosato possui mecanismo de ação diferente daqueles que vinham sendo utilizados para controlar daninhas seletivamente na cultura da soja, sendo então recomendada e imediatamente adotada pelos produtores. Com o passar dos anos, no entanto, produtores e técnicos começaram a ser dar conta que o uso repetido de glifosato estava provocando uma rápida seleção de espécies daninhas.

Neste caminho, as tendências para o futuro são o aumento de plantas tolerantes e/ou resistentes ao glifosato. A pesquisa juntamente com a assistência técnica precisa lançar mão de estratégias de manejo preventivas, além de buscar novas alternativas de controle, sob pena de colocar em risco a viabilidade de tecnologias importantes como o cultivo de soja transgênica.

Atualmente existem no mundo mais de 365 biótipos resistentes em mais de 450.000 locais. Aproximadamente 9 novos biótipos são descritos pelos pesquisadores por ano. Nos EUA, há 20 plantas daninhas resistentes somente com EPSPs (glifosato), no Brasil, começou em 1992 com o leiteiro (Euphorbia heterophylla) resistente a ALS ( Scepter e outros) e hoje temos mais de 23 plantas daninhas resistentes a ALS, ACCase, FT II, EPSPs, Auxina Sintética e PPO. Com glifosato temos 4 plantas daninhas resistentes (buva, azevém, capim-amargoso e capim-pé-de-galinha) e algumas delas já resistentes a 2 mecanismos de ação como o azevém (EPSPs e ALS). Entretanto, tanto os produtores como os técnicos foram surpreendidos com a rápida seleção de espécies de plantas daninhas em resposta ao uso repetido de glifosato.

Sub-dose e tecnologia inadequada, favorece a sobra de plantas invasoras na lavoura.

Futuro exige mudança de atitude

Não há para os próximos anos um herbicida que possa vir a substituir o glifosato na agricultura atual ou herbicida com novo modo de ação. Os pesquisadores americanos já admitem que mesmo com as novas tecnologias a serem liberadas, não vai haver um controle de 100%, teremos plantas resistentes convivendo no meio da soja, milho e algodão. Pois as novas cultivares de soja, milho e algodão virão com eventos de RR, STS, Liberty-Link, resistentes ao 2,4-D (Colina), Dicamba, ou seja, para cada cultivar vai ser necessário um manejo diferente, assim como já é no milho PRO 2, que para controlá-lo no pós-colheita não adianta aplicar somente glifosato. Antes o produtor misturava água mais glifosato no tanque do pulverizador para manejar no pós-colheita, agora precisa associar água mais glifosato e mais o herbicida específico. Haverá um aumento de associação de herbicidas ao glifosato com residual. Desta forma, a pressão de seleção vai aumentar. Se o assistente técnico e o produtor sabem como ocorre a seleção de plantas daninhas, a pergunta que nos resta fazer é: Por que as práticas agronômicas ainda não estão acontecendo?

É necesssário efetuar o manejo das invasoras pós-colheita para evitar o aumentar o banco sementes.

Manejar plantas daninhas é uma filosofia de trabalho, que requer planejamento, conhecimento para desenvolver uma integração de várias informações e coragem para mudar mesmo em time que está ganhando. Precisamos desenvolver uma estratégia de manejo proativo que é a implantação das táticas antes do aparecimento da resistência. Práticas simples como: rotação de culturas (ex. milho); rotação de produtos com modo de ação diferentes (atrazina); não deixar áreas em pousio; utilizar o manejo pós-colheita; começar a cultura no limpo; utilizar a dose certa e o momento correto da aplicação, antecipando o manejo; monitorar os resultados da estratégia do manejo, identificando as manchas e o banco de sementes; usar medidas para evitar a dispersão de sementes e principalmente alimentar o solo e não a cultura, precisam ser urgentemente retomadas. Só assim teremos um sistema sustentável.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 133, janeiro/fevereiro de 2013.