Reflexão sobre o avanço da resistência de plantas daninhas aos herbicidas no Rio Grande do Sul
Mário BianchiDoutor, Pesquisador da CCGL Tecnologia, Professor da Universidade de Cruz Alta.E-mail: mario.bianchi@ccgl.com.br
Os registros de casos de resistência de plantas daninhas aos herbicidas no Brasil iniciaram na década de 1990, sendo o primeiro caso registrado em 1993 (www.weedscience.org). Em culturas de sequeiro, na década de 1990 foram registrados três casos, na década de 2000 foram 11 casos e na década 2010 já são seis casos (Figura 1), totalizando 20 casos de resistência em 14 espécies daninhas. No Rio Grande do Sul assume grande importância nas lavouras os casos de resistência das espécies Bidens pilosa (picão preto), Euphorbia heterophylla (leiteira), Raphanus sativus (nabo), Lolium multiforum (azevém) e Conyza bonariensis (buva). Nota-se aumento do número de casos de resistência, partindo de três na década de 1990 (0,3 caso/ano), 11 na década de 2000 (1,1 caso/ano) e finalizando com seis na década de 2010 (0,6 caso/ano). Os números da década de 2010 representam os anos 2010 até 2013, sendo assim tem-se uma média de três casos por ano. Seguindo essa tendência de aumento, ao final da década de 2010 haveria o registro de 30 casos. Talvez esse número não seja atingido, mas essa estimativa serve como alerta.
Figura 1. Evolução do registro de casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas em culturas de sequeiro no Brasil (adaptado de www.weedscience.org).
Outra questão importante é a relação entre a resistência das espécies daninhas resistentes e o mecanismo de ação dos herbicidas (Figura 2). Dos 20 casos, sete apresentam resistência aos herbicidas inibidores da enzima ALS (Acetolactate Synthase), cinco aos herbicidas inibidores da enzima EPSPS (Enolpyruvyl Shikimate-3-Phosphate Synthase), quatro aos herbicidas inibidores da ACCase (Acetyl CoA Carboxylase). Os quatro casos restantes apresentam resistência a dois mecanismos de ação (resistência múltipla), sendo Bidens subalternans (picão preto) a inibidores da ALS e PSII (Photosystem II), azevém a inibidores da EPSPS e ACCase, leiteira a inibidores da ALS e da enzima PPO (Protoporphyrinogen Oxidase) e Conyza sumatrensis (buva) a inibidores da ALS e EPSPS. Destaca-se que nesses quatro casos de resistência múltipla a resistência aos herbicidas inibidores da ALS ocorre em três e aos inibidores da EPSPS ocorre em duas espécies.
Figura 2. Casos de resistência por mecanismo de ação de herbicidas em culturas de sequeiro no Brasil (adaptado de www.weedscience.org).
Esse quadro de aumento do número de casos de resistência indica que ações devem ser tomadas para diminuir ou evitar o surgimento de novos casos, ou seja, agir e não reagir. Que manejo de plantas daninhas é utilizado nas lavouras de trigo, pastagens de inverno, milho e soja? As medidas preventivas são adotadas?
Pode-se dizer que dois sistemas de sucessão de culturas predominam: a) Trigo/Soja; b) Pastagens de inverno/Soja. São menos frequentes os sistemas de culturas que além do cultivo de trigo e de soja, inserem adubos verdes no inverno e milho na primavera. Uma sequência de culturas que ganha espaço ano a ano na região noroeste do RS é o cultivo de soja após a colheita do milho. De um modo geral a diversidade de culturas e a cobertura vegetal constante do solo facilitam o controle de plantas daninhas e diminuem a probabilidade das mesmas dominar o ambiente a ponto de ser consideradas como um problema de difícil solução.
Os sistemas de produção predominantes na lavoura de sequeiro gaúcha apontam uma situação preocupante: o uso intenso de herbicidas inibidores de EPSPS, da ACCase e da ALS. Na sucessão Trigo/Soja os herbicidas mais utilizados são a associação de glifosato com metsulfurom-metílico e/ou glifosato com cletodim na dessecação que precede a semeadura do trigo e iodosulfurom-metílico em pós-emergênca do trigo, a associação de glifosato com clorimurom-etílico ou com diclosulam na dessecação que precede a semeadura da soja e glifosato ou a associação de glifosato com clorimurom-etílico em pós-emergência da soja. Na sucessão Pastagens/Soja ocorre a aplicação de metsulfurom-metílico em pós-emergência das pastagens (uma ou duas aplicações) e na soja associação de glifosato com clorimurom-etílico ou com diclosulam na dessecação que precede a semeadura e a associação de glifosato com clorimurom-etílico em pós-emergência da soja.
No controle de biótipos de buva resistente aos inibidores da EPSPS (glifosato) a alternativa mais utilizada são herbicidas inibidores da ALS e no controle de biótipos de azevém resistente aos inibidores da EPSPS a alternativa são herbicidas inibidores da ACCase. Nas duas sucessões de culturas referidas anteriormente usam-se herbicidas de apenas dois mecanismos de ação como alternativa para o controle de biotipos resistentes aos inibidores da EPSPS: inibidores da ALS (metsulfurom-metílico, iodosulfurom-metílico, clorimurom-etílico e diclosulam) para o controle da buva e inibidores da ACCase (cletodim, setoxidim, haloxifop, quizalofop, clodinafop) para o controle do azevém. Nesse exemplo, o uso contínuo desses dois mecanismos de ação é preocupante pela alta pressão de seleção de plantas daninhas que exerce. Analisando-se a situação mundial nota-se que os inibidores de ALS ocupam a primeira posição, os inibidores da ACCase a terceira posição e os inibidores de EPSPS a sexta posição em número de casos de biótipos resistentes (www.weedscience.org). Se for somado a isso as doses utilizadas a situação fica mais grave ainda. Devido as doses, normalmente acima das indicadas, estima-se que o processo de seleção seja antecipado em dois a três anos, ou seja, se com uso continuado desses produtos uma planta daninha resistente surgisse em 2016, com as doses praticadas atualmente ela surgiria hoje.
Destaca-se, como já referido anteriormente, que em algumas lavouras do sul do Brasil já foram comprovados casos de resistência múltipla de azevém (EPSPS+ACCase) e de buva (EPSPS+ALS). A dispersão dessas sementes agrava dificultará muito o controle dessas espécies com os herbicidas disponíveis atualmente no mercado brasileiro.
Não é de hoje que instituições de pesquisa, de ensino, de extensão e empresas que produzem e comercializam agroquímicos alertam para o problema da resistência e divulgam estratégias para minimizar e/ou cessar o avanço deste problema. Utilizar herbicidas eficazes e de mecanismo de ação diferente no controle de plantas daninhas é uma das técnicas difundidas para reduzir o avanço da resistência. Esse procedimento também aumenta a vida útil dos produtos, resultado que é muito importante porque novas moléculas com ação herbicida tem baixa probabilidade de comercialização nos próximos dez anos. Esse é o ponto frágil dos sistemas atuais: o controle de plantas daninhas depende excessivamente de herbicidas. Espera-se por um milagre, um produto que resolva todos os problemas. Se o controle continuar altamente dependente de herbicidas o número de casos de plantas daninhas resistentes aumentará com o passar dos anos.
Para refletir sobre o avanço da resistência de plantas daninhas aos herbicidas, ficam algumas perguntas:
Quais práticas de manejo de plantas daninhas resistentes são adotadas na propriedade rural?
Qual a limitação para utilizar herbicidas eficientes e de mecanismo de ação diferentes com o objetivo de prevenir a resistência?
Excluindo o uso de herbicidas, o que é utilizado na propriedade rural para reduzir a população de plantas daninhas?
Como tornar a cultura mais competitiva com plantas daninhas?
Como utilizar a rotação de culturas para prevenir a resistência?
Qual a importância dada ao controle de plantas daninhas diante de outras atividades na condução de uma lavoura?
O que o leitor conhece a respeito do manejo de plantas daninhas resistentes?
Como seria realizado o controle nas culturas de Trigo e de Soja se as duas principais espécies daninhas, azevém e buva, fossem resistentes aos herbicidas inibidores da EPSPS, da ALS e da ACCase?
Problemas sempre vão surgir. No estágio atual da agricultura, eficiente e com alta produtividade, não é admissível apenas reagir a eles. É necessário antever os problemas, desenvolver e adotar tecnologia para superá-los. É importante considerar no manejo de plantas daninhas a propriedade rural como um todo e não proceder somente o controle na cultura principal (trigo, milho e soja). Um caminho provável para superar as dificuldades no controle de plantas daninhas e, em especial, de biótipos resistentes aos herbicidas, é adotar práticas de manejo integrado onde o herbicida é uma das ferramentas de controle e não a única alternativa para o controle.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 133, janeiro/fevereiro de 2013.