Novos desafios no controle de lagartas em soja
Dirceu GassenGestor da Área Técnica da Cooplantio e conselheiro do CCAS - dirceu@dirceugassen.com
As lagartas tornaram-se novo tormento para os produtores de soja na Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Novas espécies causaram danos severos e os agricultores encontraram dificuldades no controle com os inseticidas e doses consideradas eficientes para as lagartas conhecidas em soja.
O manejo de pragas depende da identificação correta das espécies e de informações sobre populações resistentes a inseticidas, incluindo a taxa de resistência e as alternativas de controle.
A falta de taxonomistas, para a identificação de pragas e de inimigos naturais é uma evidência no Brasil, mostrando a necessidade de maior investimento na pesquisa. Além da identificação de espécies, o monitoramento de populações resistentes a inseticidas é uma necessidade para a adoção de boas práticas agrícolas, atendendo as demandas do mercado para a rastreabilidade de grãos de soja.
Neste texto serão apresentadas características das lagartas encontradas em soja, com base em observações de lavouras, estudos de laboratório, informações dos pesquisadores Daniel Igarzabal (Universidade de Córdoba, Argentina) e Jerson Guedes (Universidade Federal de Santa Maria) e texto publicado na Revista Plantio Direto 115, janeiro-fevereiro, 2010.
Identificação
Entre as espécies de lagartas mais conhecidas em soja, desde o início da expansão da cultura no Brasil, se destaca a Anticarsia gemmatalis, que continua presente nas lavouras.
A falsa-medideira, da subfamília Plusiinae e as brocas do colo e das ponteiras, tiveram ocorrências esporádicas no passado e agora estão entre as principais pragas em soja.
Anticarsia gemmatalis (centro) e Pseudoplusia includens, falsa-medideira em folha de soja.
Nos últimos 10 anos ocorreram populações elevadas de lagartas, com intensos danos na cultura da soja. A enroladeira-de-folhas. Omioides (Hedilepta) indicata, causou danos severos nos Cerrados e também no Sul.
A falsa-medideira, Pseudoplusia includens, apareceu com maior frequência e com populações resistentes a inseticidas, na Argentina e no Sul do Brasil.
A lagarta-preta, Spodoptera cosmioides, apareceu em populações elevadas, a partir de 2003. Essa lagarta é, frequentemente confundida com a Spodoptera eridanea, indicando a necessidade de pesquisa em taxonomia e em métodos de controle por espécie.
Na safra de soja colhida em 2013, os danos de lagartas do gênero Helicoverpa ou Heliothis foram severos em todas as regiões de produção de soja do Brasil. As dificuldades de controle, com reaplicações de inseticidas e aumento nas doses dos produtos foram as principais demandas de produtores de soja. Pode-se afirmar que as lagartas passaram a ser um novo desafio para a produção de soja no País.
As dificuldades iniciaram com identificação da ”nova praga” como Heliothis virescens, lagarta-das-maçãs do algodão. Essa conclusão foi precipitada, pois, os insetos não mudam hábitos alimentares, saindo do algodão e passando para soja e, ao mesmo tempo, tornando-se resistente a inseticidas de vários grupos químicos.
Além disso, a lagarta passou a ocorrer de forma generalizada no Sul do Brasil, onde não há algodão e H. virescens não é citada em lavouras extensivas. Os insetos apresentam hábitos alimentares definidos com raros casos de mudança repentina de hospedeiro e de outras características biológicas. A lagarta Heliothis virescens é citada e estabelecida há dezenas de anos como praga em algodão, fumo, tomate, mas não é considerada praga em soja, cultivada no mesmo ambiente.
Da mesma forma, a Helicoverpa zea, lagarta-da-espiga do milho, não mudaria de hábitos ou passaria para a soja por causa do milho Bt, uma lógica fantasiosa.
Em março de 2013, o presidente da Embrapa anunciou a identificação da espécie coletada no Centro Oeste do Brasileiro, como sendo Spodoptera armigera. Essa espécie ocorre em países do Hemisfério Norte e é considerada nova no Brasil.
A constatação da nova espécie explica as características de hábitos alimentares e hospedeiros diferentes, causando danos em soja, feijão e outras culturas. Também explica as dificuldades no controle da praga, com o uso dos inseticidas conhecidos e eficientes para outras lagartas.
Com base em pesquisa realizada na Argentina, desde 2009 ocorreram populações elevadas da lagarta denominada de ”bolillera” e identificada por taxonomistas como Helicoverpa gelotopoeon. A espécie foi descrita por Dyar, em 1921 e citada como nativa na América do Sul, especialmente Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Sul do Brasil.
No Brasil essa espécie foi reportada por Ceslau Biezanko, em Pelotas, no ano de 1952 e Dionísio Link, de Santa Maria, em 1972. Ela foi constatada como lagarta esporádica em soja, desde a década de 1970, e citada como praga na cultura desde a safra de 2007, no RS (DNGassen).
Spodoptera eridanea (esquerda) e Spodoptera cosmioides (direita).
Com base no conhecimento disponível, acredita-se que existem duas espécies consideradas novas em soja. A Helicoverpa armigera, na região de clima tropical (Cerrados, Centro Oeste, Nordeste e Centro Sul). No Sul do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai acredita-se que a espécie nova, como praga, é H. gelotopoeon.
Portanto, existe mais de uma espécie do complexo Heliothinae, causando danos em soja na América do Sul.
As dúvidas e confusões geradas na identificação da praga no Brasil, tem origem nas variações de cor e de aparência geral do corpo das lagartas da subfamília Heliothinae, que não permitem visualizar, com facilidade, as diferenças entre os gêneros Heliothis e Helicoverpa. Para a identificação das espécies de Helicoverpa, as dificuldades são ainda maiores e os taxonomistas descrevem detalhes da mandíbula e de espinhos sobre o corpo das lagartas, necessitando o auxílio de lupa em laboratório, para serem visualizados.
Portanto, diferenciar os gêneros Helicoverpa e Heliothis é uma tarefa difícil para leigos e a caracterização das espécies de lagartas do gênero Helicoverpa é um desafio para taxonomistas. Com isso, se justificam os erros nas identificações feitas por assistentes técnicos no campo.
Helicoverpa armigera, em soja, no Mato Grosso.
Plantas hospedeiras
As plantas hospedeiras de H. gelotopoeon, citadas na bibliografia do Brasil e da Argentina incluem soja, algodão, ervilha, girassol, tomate, fumo, linho, cebola e milho.
Na Argentina foram constatados surtos esporádicos em soja desde 1988, porém com maior severidade a partir de 2008, continuando nas safras seguintes.
A espécie H. armigera é considerada de introdução recente no Brasil e por isso não há histórico de hospedeiros no País.
Danos
As lagartas consomem a quantidade de alimento necessária para armazenar energia e passar as fases de pupa e adulto para reprodução, que corresponde a área foliar entre 100 e 150 cm2.
As lagartas do gênero Helicoverpa causam danos em todas as fases da planta, confundindo com as características de outras espécies. Iniciam como cortadoras de plântulas, apresentando um dano assemelhado ao da lagarta-rosca. As injúrias ocorrem desde a germinação da soja, indicando que a postura pode ser realizada em plantas daninhas ou no ambiente, antes da emergência da cultura principal.
Outro dano característico ocorre nas folhas jovens, quando a lagarta se aloja dentro do folíolo, juntando o limbo foliar com fios de teia, permanecendo protegida e oculta. Nessa fase causa confusão com a lagarta-enroladeira de folhas, Omioides indicata. Também se alimenta de rácemos e pode perfurar o caule, confundindo com o dano da broca-das-ponteiras, Epinotia aporema.
A oviposição é feita individual e em folhas jovens, onde as larvas preferem se alimentar, caracterizando a dificuldade de controle, pois nenhum inseticida aplicado em soja é capaz de penetrar na planta, circular com a seiva e proteger folhas jovens, formadas depois da aplicação.
Na fase vegetativa das plantas, o consumo de folhas é semelhante ao da lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis.
Estudos realizados na Argentina indicam que cada lagarta H. gelotopoeon consome em média 10 grãos, podendo chegar a 18 grãos. A perda de 37 grãos/m2, corresponde a 60 kg de soja por hectare. Porém, a análise não deve ser feita, apenas pela capacidade de consumo de grãos, pois a planta compensa perdas aumentando o peso de outros grãos no mesmo nó.
De qualquer maneira, a capacidade de consumir o broto, as folhas e os grãos em formação, caracteriza uma praga diferenciada e exige identificação correta, monitoramento de populações e decisão de controle com inseticidas e doses mais eficientes.
Controle e inseticidas
A aplicação de inseticidas é a prática mais frequente no controle de lagartas em soja e de domínio do agricultor. As dúvidas estão na eficácia dos produtos disponíveis no mercado, que eram eficientes para as pragas conhecidas e foram insatisfatórias para as lagartas do gênero Helicoverpa.
A escolha de inseticidas mais seletivos é uma prática importante para evitar a ressurgência de populações. O uso de misturas de produtos amplia o espectro de ação eliminando inimigos naturais e facilitando a reaparecimento da praga e o estabelecimento de insetos secundários como praga na lavoura.
Há dificuldade de aplicar inseticidas na parte mediana e inferior do dossel da planta dificulta a obtenção de resultados positivos no controle das lagartas do gênero Helicoverpa e também da falsa-medideira. Isso ocorre em função da localização da lagarta em partes de difícil acesso com a tecnologia de aplicação de inseticidas.
Helicoverpa gelotopoeon, nas formas verde clara e marrom-escura, coletadas em 2007, na cultura da soja, no RS.
Considera-se que a explosão de populações de pragas secundárias pode estar relacionada ao significativo aumento de área cultivada com soja, desde a Argentina até a Amazônia, com lavouras contínuas e semeadas na mesma época. Outro fator pode estar relacionado ao uso de fungicidas para controle de ferrugem e doenças em soja, que podem afetar as populações de fungos benéficos, causadores de controle biológico natural de lagartas, ácaros e outras pragas consideradas de menor frequência e severidade no passado.
Para controle de lagartas em soja é importante identificar as espécies e determinar o tamanho das populações e dos estádios de desenvolvimento da fase de larva.
Lagartas pequenas são de mais fácil controle com inseticidas denominados fisiológicos. Há diferença significativa de dose para controle eficaz de diferentes espécies.
Uma das alternativas é agrupar as lagartas em grupos e adotar doses e produtos conforme a frequência das espécies.
A lagarta da soja, Anticarsia gemmatalis é a mais fácil de controlar e as doses normais tem eficiência comprovada.
O grupo das falsas medideiras, Pseudoplusia includens e outros Plusiinae, tem respostas erráticas de controle. Na Argentina comprovou-se a ocorrência de populações resistentes aos principais grupos de inseticidas. Como essas lagartas ocorrem em hortaliças e outras culturas com uso frequente de inseticidas, pode se considerar a hipótese da presença de populações resistentes no Brasil, também.
As lagartas pretas, Spodoptera cosmioides e Spodoptera eridanea, formam um grupo intermediário na escala de dificuldade de controle, pela localização na parte mediana da planta e pelas características de doses mais elevadas de inseticidas, em relação a lagarta comum da soja.
Heliothis virescens (esquerda) Helicoverpa zea (direita).
As lagartas mais difíceis de controlar são as do gênero Helicoverpa, tanto na Argentina, como no Sul, Centro Oeste e Norte do Brasil. Faltam dados consistentes para identificação das espécies e, principalmente, dados de pesquisa comparando inseticidas e doses mais eficientes para cada espécie. Na safra 2012-13, de forma geral, houve dificuldade de controle, mesmo com duas a três vezes a dose usada para controle de outras lagartas em soja.
Nenhum inseticida disponível no mercado é capaz de circular na planta e contaminar brotos novos. Portanto, a folha formada depois da aplicação de inseticida, não tem possibilidade de ser protegida contra pragas, via sistêmica ou por formação de gases.
A mariposa de Helicoverpa realiza a postura nas folhas jovens, nas ponteiras e na fase de crescimento vegetativo da soja, entre v6 e v16, o período de formação de cada folha ocorre entre 2 e 3 dias. Por isso, se constata a ocorrência da lagarta poucos dias depois da aplicação.
É importante destacar que os inseticidas disponíveis no mercado não têm registro, nem dose eficiente comprovada, para controle de H. gelotopoeon ou H. armigera.
Danos de Helicoverpa gelotopoeon em flores e rácemo de soja, em 2007, no RS.
As observações de campo indicam dificuldade de controle com inseticidas piretróides, mesmo em doses elevadas.
Os inseticidas carbamatos, os fosforados e os inibidores de quitina, têm matado as lagartas presentes na aplicação, porém com doses elevadas.
Os novos grupos de inseticidas como as antranilamidas (clorantraniliprole - Premio, rinaxapir), as diamidas (flubendiamida - Belt) e as espinosinas (espinosade - Tracer) são lagarticidas eficientes e controlam as duas espécies de Heliothis, porém em doses mais elevadas do que as usadas para as lagartas conhecidas em soja e em algodão.
Os inimigos naturais de Helicoverpa são pouco conhecidos. No Brasil foi encontrado o parasitóide de lagarta (Campoletis sp.) que é citado na Argentina, onde também são destacadas as formigas predadoras como inimigos naturais importantes
Danos de Helicoverpa gelotopoeon em grão e haste de soja (esquerda) e casulo de Campoletis sp., parasitoide da lagarta H. gelotopoeon (direita).
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 133, janeiro/fevereiro de 2013.