Glifosato como Ativador da Resistência Sistêmica Adquirida no Controle da Ferrugem


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Publicado em: 01/12/2012

Glifosato como ativador da resistência sistêmica adquirida no controle da ferrugem asiática em cultivares de soja resistentes ao herbicida

Erlei Melo Reis1, Rudinei Bogorni1 e Mateus Zanatta11Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS - erleireis@upf.br

A soja é a cultura de maior importância econômica para o Brasil, sendo cultivado na safra de 2010/2011 uma área de 22,23 milhões de hectares, tendo uma produção de 53,43 milhões de toneladas e uma produtividade de 2.403 kg/ha (Conab, 2012).

Nesta leguminosa ocorrem várias doenças que reduzem o potencial de rendimento, dentre estas se destaca a ferrugem asiática causada por Phakopsora pachyrhizi Sydow. A moléstia mais destrutiva da soja a nível mundial (9). No Paraguai, Morel (6) cita danos de 50%.

Muitos esforços têm sido feitos por vários países, inclusive o Brasil, para desenvolver cultivares resistentes, porém, esses ainda não estão disponíveis para os produtores.

Até o presente momento a única medida emergencial e eficiente para o controle da ferrugem asiática é a aplicação de conforme indicado pela pesquisa (8).

Anderson e Kolmer (1) e Feng et al. (4) relataram o efeito do herbicida glifosato como indutor da resistência sistêmica adquirida da planta, ao reduzir a intensidade da ferrugem da folha, da ferrugem linear do trigo e da ferrugem asiática da soja. Esse fato se comprovado abriria uma nova possibilidade de manejo da doença.

A soja transgênica ocupa uma área de cultivo superior a 90%, no estado do Rio Grande do Sul. O glifosato é um herbicida largamente utilizado no manejo de plantas daninhas na cultura da soja, em cultivares resistentes ao herbicida. O modo de ação do herbicida envolve a inibição da via metabólica do ácido chiquímico, fundamental para a produção de aminoácidos aromáticos, bem como a de compostos secundários que, por sua vez, são importantes para a proteção de plantas às doenças (5,6).

A hipótese formulada, fundamentada em trabalhos publicados, é de que a aplicação do herbicida glifosato, em cultivares de soja resistentes ao herbicida, pode ativar os mecanismos de defesa da planta, reduzindo a intensidade da ferrugem da soja causada por P. pachyrhizi e constituindo assim numa nova ferramenta para seu manejo.

Neste experimento foram utilizados onze cultivares resistentes ao herbicida: MS 7210 RR, MS 7979 RR, MS 8000 RR e MS 8008 RR de domínio genético da Monsanto, BRS 244 RR, BRS 245 RR, BRS 246 RR, BRS 247 RR, BRS 256 RR e BRS Charrua RR de domínio genético da Embrapa e um cultivar argentino 7321.

A semeadura foi realizada no dia 13 de dezembro de 2006, com distribuição de 25 sementes.m-2. A soja foi cultivada no sistema plantio direto e em rotação de culturas, tendo como a cultura antecessora de verão o milho. A adubação química foi de acordo com as indicações técnicas para a cultura (8).

Figura 1. Áreas abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) avaliada como incidência foliolar da ferrugem da soja em cultivares não tratados (Testemunha) e tratados (Com controle) com quatro aplicações do herbicida glifosato (n.s. = não significativo pela análise da variância).

Os tratamentos constaram das 11 cultivares de soja com e sem a aplicação do herbicida. O delineamento utilizado foi em faixas (cultivares) composta de uma área de 22 m², com três repetições.

O herbicida utilizado foi o glifosato (Roundup Ready®), na dose de 1,5 L/ha, aplicado num volume de calda de 200 L/ha, com equipamento dotado de uma barra de 2,5 metros composta por seis pontas do modelo XR 110 02 espaçadas em 0,5 m proporcionando uma faixa de cobertura de três metros. Foram realizadas quatro aplicações do herbicida, com intervalo de 20 dias, iniciando no estádio V2. Avaliou-se a intensidade da doença, em dez momentos, a intervalo semanal, ao longo do ciclo da cultura.

Para as avaliações foram coletadas cinco plantas, ao acaso, em cada parcela, destacados os folíolos centrais da haste principal, totalizando em média trinta folíolos por amostra. A quantificação da ferrugem, incidência foliolar e densidade de lesões, foi feita no laboratório com auxílio de uma lupa estereoscópica com aumento de até 50x. As avaliações de incidência foram realizadas até o momento em que atingiu 80 %. A partir desse momento passou-se a avaliar severidade em função da densidade de lesões (no.cm-2).

Os dados da área abaixo da curva de progresso da ferrugem (2) foram submetido à análise da variância.

O estudo foi conduzido com várias cultivares visando detectar alguma interação responsiva possível de algum cultivar ao tratamento com glifosato e a redução do progresso da ferrugem.

Anderson e Kolmer (1) e Feng et al. (4) relataram o efeito do herbicida glifosato como indutor da resistência sistêmica adquirida da planta, contra os agentes causais da ferrugem da folha e ferrugem linear do trigo e da ferrugem asiática da soja. Esse fato não foi confirmado no presente trabalho, embora houve uma redução não significativa da densidade de urédias.

Figura 2. Áreas abaixo da curva de progresso (AACPD) da ferrugem da soja, expressas como severidade (número de lesões.cm2) foliolar, em cultivares não tratados (Testemunha) e tratados (Com controle) com quatro aplicações do herbicida glifosato (n.s. = não significativo pela análise da variância).

Mais recentemente Soares et al. (10), conduzindo trabalho in vitro e em casa-de-vegetação tendo demonstrado que houve inibição da germinação de esporos in vitro em função de doses do glifosato e, in vivo, não houve controle significativo da ferrugem. O mesmo fato verificou-se no presente trabalho, no qual independentemente de cultivares, não foi detectado efeito significativo do herbicida em reduzir o progresso da ferrugem da soja.

Os agricultores no sul do Brasil fazem uma ou duas aplicações pós-emergentes do herbicida visando ao controle das plantas daninhas na soja transgênica. Pelos resultados obtidos neste trabalho, mesmo com quatro aplicações, se pode deduzir que o glifosato não apresenta efeito fungitóxico comparável aos fungicidas.

Não é justificável o uso do herbicida glifosato visando ao controle da ferrugem asiática da soja, ao negar-se a hipótese de que o herbicida tem potencial de controle da ferrugem nos cultivares testados pelo mecanismo de ativação da resistência.

Referências bibliográficas

ANDERSON, J. A.; KOLMER, J. A. Rust control in glyphosate tolerant wheat following application of the herbicide glyphosate. Plant Dis. 89:1136-1142. 2005.

CAMPBELL, C.L.; MADDEN, L. V. Introduction to plant disease epidemiology. New York: Wiley, 1990. 532p.

CONAB, Companhia Nacional de Abastecimento.Lavouras.Capturado em 19 de março de 2010. On line. http://www.conab.gov.br

FENG, P. C. C.; BALEY, G. J.; CLINTON, W. P.; BUNKERS, G. J.; ALIBHAI, M.; PAULITZ, T. C.; KIDWELL, K. K. Glyphosate inhibits rust diseases in glyphosate-resistant wheat and soybean. PNAS: 102 (48):172909-17295. 2005

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DUKE, S. O.; CERDEIRA, A. L. Potential environmental impacts of herbicide – resistant crops. In: Collection of Biosafety Reviews, v. 2. Trieste: International Centre for Genetic Engineering and Biotechnology, 2005. p. 66 – 143. Disponível em: http://www.icgeb.org/~bsafesrv/resources/dukecerdeira.pdf

MOREL, W. Roya de la soja. Comunicado técnico – Reporte oficial. Serie Fitopatológica no1 – Junho de 2001. Ministerio de Agricultura y Ganaderia. Subsecretaria de Agricultura. Dirección de Investigación Agrícola. Centro de Investigación Agrícola (CRIA) Capitán Miranda, Itapúa, Paraguay.

INDICAÇÕES TÉCNICAS PARA A CULTURA DA SOJA NO RIO GRANDE DO SUL E SANTA CATARINA 2008-2009/36ª Reunião de Pesquisa da soja da Região Sul, Porto Alegre, RS, 29 a 31 de julho de 2008. Porto Alegre: Fepagro, 2008, 144p.

REIS, E. M.; BRESOLIN, A. C.; CARMONA, M. Doenças da Soja I: Ferrugem asiática. Passo Fundo Editora, Universidade de Passo Fundo 2006. 47p.

SOARES, R. M.; GAZZIERO, D. L. P.; DANIELA ALVES DOS SANTOS MORITA, D.A.S.; CILIATO, M.L.; FLAUSINO, A.M.; SANTOS, L.C.M; JANEGITZ, T. Utilização de glifosato para o controle de ferrugem da soja Pesq. agropec. bras., Brasília, v.43, n.4, p.473-477, abr. 2008 .

Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 132, novembro/dezembro de 2012.