Fertilização foliar com boro na cultura da soja
Geraldo Chavarria1*, Ana Cláudia Pedersen2, Pedro Alexandre Varella Escosteguy31Eng. Agr°. Dr. Professor Fisiologia das Plantas Cultivadas, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo-RS. e-mail: geraldochavarria@upf.br - Autor para correspondência.2Mestranda em Agronomia, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo-RS. e-mail: ana_perdersen@yahoo.com.br3Eng. Agr°. Dr. Professor Solos, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo-RS. e-mail: escosteguy@upf.br
Introdução
O boro (B) é um micronutriente essencial às plantas, pois afeta a divisão e a elongação celular, a germinação do pólen, a elongação do tubo polínico e fecundação, garantindo a formação dos legumes e sementes, tendo importância na quantidade e na qualidade da produção de soja (FURLANI et al., 2001; TAIZ & ZEIGER, 2004). Na cultura da soja, que demanda uma alta quantidade de boro, alguns compostos polióis, como o pinitol, favorecem a resposta da soja a fertilizações foliares de B (BLEVINS & LUKASZEWSKI, 1998). Embora, no RS e em SC, a adubação com B na cultura da soja é recomendada quando os teores desse micronutriente no solo são menores que 0,3 mg dm-3 (CQFS-RS/SC, 2004), a aplicação foliar de B tem sido amplamente utilizada em lavouras comerciais. Esta prática pode resultar em gastos desnecessários, além de elevar o teor de B no solo, que em concentrações elevadas pode causar fitotoxidez.
O trabalho teve por objetivo avaliar o efeito da fertilização foliar de B, em dois estádios fenológicos, sobre o pegamento de flores, de frutos e na produtividade da soja cultivar BMX Apollo RR, cultivada em solo contendo teor adequado de B.
Material e métodos
O experimento foi realizado na estação experimental da Universidade de Passo Fundo (28º14’S, 52º22’O), em Passo Fundo-RS, no ano agrícola de 2010, em Latossolo Vermelho. Anterior à semeadura, amostras de solo foram coletadas nas profundidades de 0-10 e 10-20 cm, e analisados de acordo com TEDESCO et al. (1995) (Tabela 1).
Tabela 1. Análise química do solo com amostragem efetuada no período de instalação do experimento. Passo Fundo, 2011.
A semeadura foi realizada com semeadora Marca: Kuhn, Modelo: SDM Select no espaçamento entre linhas de 45cm e densidade de semeadura de 14 plantas por metro linear. A adubação de semeadura foi efetuada com 250 kg ha-1 da fórmula NPK 05-25-25. Quando a maioria das plantas estava no estádio fenológico de V3 (segunda folha trifoliolada expandida e a terceira aberta) foi realizado o recorte das parcelas.
O delineamento experimental foi de blocos casualizados com quatro tratamentos e oito repetições, totalizando 32 unidades experimentais (UE). A área das UE foi de 18,9 m2 (6 x 3,15 m) com distanciamento entre as mesmas de 2 m. Os tratamentos realizados foram: testemunha (sem aplicação), aplicação de fertilizante foliar no estádio de V7 (sexta folha trifoliolada expandida e a sétima folha trifoliolada aberta), aplicação em R1 (início do florescimento) e aplicação em V7 e R1. As aplicações foram efetuadas, com pulverizador pressurizado com CO2 (Marca: Herbicat, Modelo: HB PES 003 PULV.), nos estádios fenológicos anteriormente descritos, utilizando a dosagem de 1 kg de ulexita por hectare (150 g de boro).
Após a realização dos tratamentos, foram selecionadas dez plantas, aleatoriamente, em cada parcela e contadas o número de flores por planta e posteriormente o número de legumes e determinada a frutificação efetiva. Foram retirados todos legumes destas plantas e, realização estratificação quanto ao número de grãos por legume e o número de falhas de grão em cada grupo de legumes. A parcela foi colhida deixando duas linhas de bordadura e um espaço 0,5 m no início e no final da parcela. Foi pesada a massa da parcela e separada uma alíquota de sementes para determinação da massa de mil sementes.
Os resultados obtidos das avaliações de contagem de flores, estratificação de legumes, massa de mil sementes e produtividade foram analisados através de análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade de erro.
Resultados e discussão
O número de legumes por planta, independente da aplicação foliar de B, foi de 38 a 39 (Tabela 2). O maior percentual (em média 69 %) de legumes formou três grãos por legumes (Tabela 2).
Tabela 2. Número de legumes e estraficação do número de grãos por legumes e suas respectivas falhas em função da fertilização na parte aérea com boro na cultivar de soja BMX Apollo RR. Passo Fundo, 2011.
Em condições de deficiência severa de B, as plantas de soja se caracterizam por encurtamento dos internódios, formação de roseta apical, folhas novas de tamanho reduzido, encurvadas, deformadas e espessas; raízes pretas e grossas (FURLANI et al., 2001). Estes sintomas não foram observados nas plantas do experimento, em qualquer um dos tratamentos.
Como consta na Tabela 1, a análise química de solo, anterior a instalação do experimento, indicou teores de 0,5 e 0,4 mg B dm-3, respectivamente, nas profundidades de 0-10 e 10-20 cm. Estes teores são considerados alto no RS e em SC, onde as indicações da pesquisa sugerem o valor de 0,3 mg B dm-3 como nível crítico (CFQS-RS/SC, 2004). Desta forma, os resultados obtidos não corroboram a prática de aplicação foliar de B, adotada por muitos produtores do RS, baseada na recomendação de técnicos que utilizam como padrão níveis de B mais elevados no solo (0,5 a 1 mg dm-3), desconsiderando a recomendação da pesquisa.
A média de flores por planta na cultivar BMX Apollo RR variou de 57 a 60 flores por planta e o número de legumes variou de 37 a 41 por planta, tendo então uma frutificação efetiva de 73% (Tabela 3). Não houve diferença entre os tratamento. A média da massa das sementes e produtividade foram 189,6 g e 4501,9 kg ha-1, respectivamente, e essas variáves não apresentaram diferenças entre os tratamentos (Tabela 3).
Tabela 3. Componentes do rendimento, redução de flor-legume e produtividade de soja cv. BMX Apollo RR submetida à fertilização foliar com boro em dois estádios fenológicos. Passo Fundo, 2011.
No ano de realização do experimento, a precipitação pluvial foi adequada para a obtenção de altos rendimentos na cultura da soja, o que pode também ter exercido influência sobre os resultados. Em condições de restrição hídrica, existe uma possibilidade de maior deficiência nutricional, em especial o B, haja vista que sua mobilidade no solo é dada preferencialmente por fluxo em massa (MATTIELO et al., 2009).
Conclusões
A fertilização foliar a base B não influenciou no pegamento de legumes, no número de grãos por legumes, na massa de mil grãos e na produtividade da cultivar de soja BMX Apollo RR em função da disponibilidade deste nutriente no solo estar adequada (> 0,3 mg B dm-3).
Indica-se que o nível crítico de B no solo (0,3 mg dm-3) sugerido por CQFS-RS/SC (2004) é adequada para alto rendimento nos estados do RS e SC região produtora de soja.
Portanto, aplicação foliar de B na soja em áreas com níveis de B superior a 0,3 mg dm-3 não melhora rendimento de grãos.
Referências bibliográficas
COMISSÃO DE QUÍMICA E FERTILIDADE DO SOLO – CQFS-RS/SC. Manual de adubação e de calagem para os estados do RS e SC. 10 ed. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo - Núcleo Regional Sul, 2004. 394p.
BLEVINS, D.G.; LUKASZEWSKI, K.M. Boron in plant structure and function. Review of Plant Physiology and Plant Molecular Biology, v.49, p.481-500, 1998.
TEDESCO, M. J. et al. Análises de solo, plantas e outros materiais. 2ed. Porto Alegre: UFRGS, 1995. 188p. (Boletim técnico, 5)
FURLANI, A. M. C. et al. Exigência a boro em cultivares de soja. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.25, n.4, p.929-937, 2001.
MATTIELLO et al. Transporte de boro no solo e sua absorção por eucalipto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.33, n.5, p.1281-1290, 2009.
Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 132, novembro/dezembro de 2012.