Herbert Bartz: um louco pela agricultura e pela sustentabilidade
Texto: Rogério FischerFotos: Arquivo Família Bartz
Herbert Arnold Bartz, pioneiro do plantio direto no Brasil, na última lavoura de trigo.
Aos 75 anos de idade, à exceção das viagens pelo Brasil ou ao exterior a fim de proferir palestras ou receber homenagens, Herbert Arnold Bartz vive na Chácara Durânia, de 10 hectares, nos arredores de Rolândia, Norte do Paraná. Acorda cedo, acompanha os primeiros noticiários da TV, lê jornais e, invariavelmente, mergulha na oficina mecânica com a qual se dedica a manter e/ou reformar seu Mercedes 1951 a diesel e seu Unimog, um veículo de múltipla aplicação, fabricado em 1954, capaz de desempenhar funções aparentemente tão distintas quanto a de um jipe, um trator, um guincho, uma segadeira ou um pulverizador.
Vez ou outra, a convidados ou a quem o procura, o homem que implantou o sistema de plantio direto na América Latina passa as horas em sua cadeira predileta, no segundo dos quatro pavimentos da casa de estilo genuinamente germânico, conversando sobre o tema ao qual dedicou seus últimos 40 anos: o início, os entraves e, sobretudo, o êxito da técnica que revolucionou a agricultura brasileira – uma epopeia recheada de desafios, aventuras e muita persistência.
Natural de Rio do Sul-SC, a história dos 75 anos de vida de Herbert Bartz registra um número expressivo de contratempos que poderiam ter atrasado em décadas a implantação do sistema plantio direto no Brasil. A primeira ocorreu antes mesmo dele nascer.
Escolhido para cuidar de um touro holandês que havia chegado da Alemanha, Arnold Hubert Bartz (pai de Herbert) – então um dos muitos alemães solteiros que imigraram para Santa Catarina na década de 1920, durante a Grande Depressão Alemã – se viu em maus lençóis durante o trajeto da estação ferroviária até a zona rural. Seguindo à frente do animal, Arnold acabou chifrado, enquanto tentava defender o touro que conduzia (que estava vendado) de outro touro Caracu. Era 1932, o golpe, de baixo para cima, chegou muito próximo do coração de Arnold – e parou por ali graças à calça feita de tweed, um resistente tecido fabricado na Inglaterra. Tão resistente que não foi perfurada – o que, certamente, protegeu o coração. Por conta do chifre serrado, característico da raça caracu, não houve hemorragia.
– Meu pai teve muita sorte, conta Herbert, que nasceria cinco anos depois.
Arnold Bartz e a segunda esposa Gertrud Hilders na Fazenda Rhenania em 1972.
Com Herbert ainda pequeno e a irmã Relinde, Arnold Bartz deixou a serraria e a pedreira que mantinha em Rio do Sul e retornou à Alemanha em busca de auxílio médico para a esposa Johanna. Foram três semanas de navio até Berlim. No percurso, Herbert contraiu difteria e permaneceu três dias no compartimento destinado aos desenganados. Sem esperanças, Johanna, mãe de Herbert, que era enfermeira, exigiu do médico do navio que pudesse, ao menos, ficar segurando a mão do filho. Santa medida.
”A fase perigosa da difteria de repente foi superada pelo meu próprio sistema imunológico. Sou um caso raro de sobrevivente entre os neanderthals”, afirma Herbert, com o sotaque alemão.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a família radicou-se em Dresden, na Saxônia. Obrigado, segundo Herbert, a se alistar no Exército Alemão, Arnold Bartz caiu prisioneiro de guerra e durante três anos foi submetido a trabalhos forçados em uma mina de carvão na Ucrânia, que então integrava a União Soviética. Arnold Bartz trabalhava a 850 metros de profundidade. Eram poucos os que, na saída, suportavam o choque de temperatura de 22 graus no interior da mina com os 35 graus negativos fora dela. Arnold sobreviveu.
Enquanto o pai extraía carvão na Ucrânia, a família sentia na pele as dificuldades do período pós-guerra (fome e frio) numa Alemanha já com as forças desmanteladas. Um dos piores ataques ocorreu na madrugada em que Herbert completava oito anos de idade. Em 14 de fevereiro de 1945, aviões ingleses e americanos atacaram Dresden. Primeiro, com bombas incendiárias, criando um anel de fogo em torno da cidade. No porão da casa da avó, a família Bartz sobreviveu ao suportar durante horas, munida apenas de um tonel de água, uma temperatura interna acima dos 80 graus. Às seis da manhã, com um linho encharcado na cabeça, Herbert foi empurrado pela janela do porão a fim de avisar alguma equipe de resgate de que havia gente viva na casa. Nesse momento, veio o ataque com metralhadoras. Os aviões aliados mataram perto de 360 mil pessoas.
”Lembro do som das balas atingindo o corpo das pessoas. A cidade foi arrasada. Foi muito difícil para minha mãe alimentar cinco filhos (Relinde, Herbert, Arnold, Hagen e Ulrich. O irmão Hagen faleceu no período pós-guerra). O pós-guerra foi um período de extrema necessidade. Passamos fome e muito frio. Chegava a fazer 29 graus negativos. Vivíamos ao redor da mãe, como ratinhos, para nos aquecer”.
Em 1958, Johanna morreu. No ano seguinte, Herbert Bartz ingressou no curso de Engenharia Hidráulica em uma universidade de Aachen (Aachen Technische Hochschule - TH), região onde Carlos Magno foi coroado imperador romano 1.200 anos atrás. Em 1960, a família retornou ao Brasil, não a Rio do Sul, mas a Rolândia, município paranaense colonizado por imigrantes alemães, para tocar um sítio de 40 alqueires. Começava a ligação direta dos Bartz com a terra. Na cabeça de Herbert ainda ressoavam as agruras do conflito armado – em especial, a falta de comida.
– Decidimos: vamos para o Brasil, onde tem calor e alimento à vontade (Este era um dos alentos de esperança que a mãe de Herbert dava para os filhos no período de dificuldade do pós-guerra. Era o sonho de Johanna voltar para o Brasil.). Não pensava em outra coisa senão em ter e produzir alimento em abundância.
Bartz, o pai e irmãos destocaram 2,5 mil pés do café e, no sítio, começaram a plantar milho e arroz de sequeiro. Foram os primeiros agricultores de Rolândia a plantar soja, com sementes trazidas do Rio Grande do Sul. Mas havia um problema recorrente. Colheitas eram perdidas constantemente por conta ora de estiagens ora de chuvas que levavam as sementes e plantas recém-germinadas, além de camadas férteis do solo – condições que despertaram o interesse em Herbert Bartz em conhecer melhor as técnicas de conservação do solo.
Fazenda Rhenânia, em 1972 (esquerda) e em 2007 (direita).
O estalo veio numa noite chuvosa em novembro de 1971. Eram onze da noite quando o céu anunciou uma tempestade. Bartz saiu de casa debaixo do temporal, de capa e lanterna, para observar os efeitos da chuva torrencial. Enxurradas arrastavam a terra morro abaixo, provocando erosão e levando junto as sementes recém-plantadas e fertilizantes aplicados.
– Precisava fazer algo para mudar aquele panorama. Mais uma chuva como aquela e a terra não produziria mais. Seria o fim!
As intempéries acabaram por afastar Arnold Bartz da atividade agrícola. Ele arrendou o sítio para o filho que, por sua vez, arrendou áreas vizinhas, perfazendo cerca de 200 hectares – nascia, em tamanho, a lendária Fazenda Rhenânia. Herbert passou a aplicar suas aptidões do pouco de engenharia que havia aprendido em Aachen. Com a ajuda do irmão Ulrich, adaptava máquinas e equipamentos, sem muitos resultados. Em 1964, chegou a comprar uma pequena colheitadeira automotriz Allis Chalmers de um Donauschwabe (imigrante iugoslavo) que, com medo dos comunistas tomarem o poder no Brasil, mudou-se para a Alemanha.
A tecnologia era deficiente. A pesquisa, incipiente. Faltavam sementes de qualidade e assistência técnica. Investigando aqui e acolá, Herbert Bartz foi à Europa em 1972. Decepcionou-se na Feira Agrícola de Hannover. Pulou para a Inglaterra, onde se plantava cevada sem arar a terra – porém, queimando a palha. Esticou para os EUA. No Kentucky, visitou a fazenda de Harry Young, que havia dez anos que semeava sem preparar o solo de maneira convencional, sob a palhada. Bartz trouxe a técnica para o Brasil. As primeiras tentativas eram pouco animadoras.
Allis Chalmers fazendo o plantio da soja na Fazenda Rhenânia, em 1972.
Seguiu-se, então, um longo roteiro, recheado de vaivéns e aventuras em torno do desenvolvimento de equipamentos adequados, na busca por controle de pragas e no aperfeiçoamento da técnica do plantio direto, que renderam a Bartz o apelido de ”o alemão louco de Rolândia”. Comprou briga com agrônomos conservadores e instituições de pesquisa, até que, passados os primeiros anos de obstinação, finalmente o novo sistema apresentou resultados em termos de produtividade e redução de custos.
Atualmente, com base em seu tripé básico, ou seja, rotação de culturas, cobertura permanente e mínimo revolvimento do solo, o PD tornou-se um sistema copiado no mundo inteiro que ocupa – segundo estimativas da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha – 30 milhões dos 56 milhões de hectares cultivados no Brasil e que, por tabela, impulsionou o desenvolvimento de máquinas e equipamentos exportados a rodo por empresas nacionais.
Auxiliada por Bartz, a primeira comunidade a implantar o plantio direto coletivamente no Brasil foram os japoneses e descendentes estabelecidos em Mauá da Serra, outra localidade do Norte do Paraná. Lá foi inaugurado, no dia 23 de novembro de 2012, o Museu Regional do Plantio Direto (Ver quadro). A cerimônia de inauguração, sob uma enorme tenda que protegia a plateia do sol forte, reuniu, além da comunidade local, secretários de Estado, representantes de institutos de ensino e de pesquisa, deputados que propuseram a adoção do nome Museu Nacional.
Com certa dificuldade, devido a danos na coluna que lhe renderam sete cirurgias nos últimos sete anos, Bartz subiu ao palco, integrou-se ao corpo de convidados ilustres e ouviu todos os discursos atentamente, até mandar o seu recado.
– Babilônia, Império Grego, Império Romano, incas, maias: em seis mil anos de civilização, todos estas civilizações sucumbiram quando perderam a qualidade de seus solos. Em toda a história humana, é a primeira vez que conseguimos transformar ”sujeira” (tradução da palavra ”dirt” do inglês, pode significar barro, lama, poeira, ou seja, solo) em algo aproveitável. A realidade do plantio direto vai muito além do que sonhamos 40 anos atrás!
Herbert Bartz junto ao marco dos 10 anos do plantio direto no Brasil.
Herbert Bartz e Norman Borlaug
Alguns dos títulos recebidos por Herbert Bartz
Em novembro último o Conselho Universitário da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em reunião apreciou a recomendação do Centro de Ciência Agrárias de conceder o título de Doutor Honoris Causa a Bartz pelos relevantes serviços prestados e o aprovou por unanimidade. A solenidade de entrega do título será feita em ocasião oportuna e após a concretização de formalização do título e as providências necessárias.
Prêmio Norman Borlaug, em 2012, da Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG);
Recebeu em 2012, durante o 13° Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Passo Fundo, RS, das mãos o Presidente o IAPAR Florindo Daberto o título de Cidadão Iapariano de Honra.
Medalha Ambientalista de Ouro do Clube Amigos da Terra de Tupanciretã-RS, em 2010;
Medalha Apolônio Sales, em 2009, pelas mãos do então presidente Luis Inácio Lula da Silva, pelos serviços prestados à agricultura brasileira;
Homenagem recebida pela GTZ e Governo do Paraguai devido às contribuições para difusão do Sistema Plantio Direto na Palha nas colônias Menonitas no Paraguai em 2001;
Cidadão honorário dos municípios paranaenses de Rolândia, Pato Branco e Sabáudia. Há uma proposta para ele receber o Título de Cidadão Honorário do Paraná em 2013.
Museu expõe a história do Plantio Direto no Brasil
Texto: Máxima ComunicaçãoFotos: Gabriel Teixeira
Inauguração do Museu do Plantio Direto em Mauá da Serra
Tendo sido a primeira do Brasil a implantar de forma coletiva o sistema de plantio direto, a comunidade de Mauá da Serra, a 75 quilômetros de Londrina, Norte do Paraná, inaugurou no dia 23 de novembro o Museu Regional do Plantio Direto. Com custos em torno de R$ 700 mil, um barracão de 450 metros quadrados abriga os primeiros implementos utilizados no início do plantio direto no País.
Neste espaço estão a semeadora Allis Chalmers trazida por Herbert Bartz dos EUA em 1971, um protótipo desenvolvido pela FNI que deu origem à Rotacaster 80 (primeira semeadora brasileira para plantio direto), a Entrelinhas fabricada pela Hatsuta do Brasil e, também, a TD 300 fabricada pela Semeato.
O museu marca os 38 anos da adoção do plantio direto pela comunidade local, dois anos após as primeiras experiências de Bartz em Rolândia. O terreno, de 10 mil m2, foi doado pelo pioneiro Yukimitsu Uemura. Há ainda auditório para 100 lugares – que vai abrigar cursos e palestras – e sala de apoio e recepção, em um total de 750 m2 de área construída.
”É importante para as gerações futuras”, define o presidente da comissão de construção do museu, Sérgio Higashibara. ”É uma maneira de elas verem e sentirem a dificuldade que foi a implantação do plantio direto, numa época em que as máquinas eram inadequadas, de pouco rendimento”, ele explica.
Visão geral da primeira visita ao Museu do Plantio Direto, em seguida à inauguração.
Os também produtores e membros do Grupo Carlos Kamigushi e Ademar Uemura ressaltam que hoje o Sistema Plantio Direto está espalhado pelo país e é adotado em todas as atividades agropecuárias. ”Ajudou a controlar a erosão, recuperou o solo, proporcionou o aumento da produção e produtividade, viabilizou a agricultura em larga escala no Cerrado, levou mais renda ao pequeno e médio produtor, conciliou a atividade econômica com a preservação do ambiente e a viabilidade da agricultura familiar”, destacam.
”Com o Museu, nós queremos preservar essa importante história e mostrar para os nossos descendentes e a todos que visitarem este espaço a luta de toda uma classe de trabalhadores para recuperar o solo e preservar sua atividade”, complementa Ademar Uemura.
Como tudo começou
A experiência que estava sendo desenvolvida em Rolândia, na fazenda Rhenânia de Herbert Bartz, foi levada para Mauá da Serra pelo tio de Ademar Uemura, Cândido Uemura, e por seu pai, Yukimitsu Uemura.
O produtor Cândido ainda tem claras as lembranças de uma época em que quase tudo que se plantava era facilmente levado pelas águas das chuvas. Retrabalho e prejuízos faziam parte da rotina dos produtores rurais de toda a região.
O município de Mauá da Serra, que era grande produtor de batata, não só perdeu o título – devido ao aparecimento da doença ”mancha do chocolate” - como quase viu a agricultura ser inviabilizada devido às grandes erosões provocadas pelo excesso de chuva sobre um solo descoberto e cultivado dentro dos conceitos da agricultura convencional.
Um dos momentos marcantes para Uemura ocorreu em 1970. A terra estava preparada, o herbicida incorporado, aguardando apenas a chuva para iniciar o plantio de soja. ”Mas ela veio tão forte, que levou tudo embora”, conta Uemura. Era só mais um episódio de uma história que se repetia constantemente.
Desistir não fazia parte do dicionário da família, que, diz Uemura, ”lutava diariamente para sobreviver”. A terra foi toda preparada novamente, mas ele sabia que era preciso fazer alguma coisa. Foi então que ele e o irmão Yukimitsu souberam da experiência de Bartz.
Os pioneiros do sistema Plantio Direto no Brasil, Herbert Bartz e Cândido Uemura.
”Começamos plantando numa pequena área. Notamos que no sistema convencional a planta crescia mais rápido, mas que no final da colheita a produção era a mesma. Mas tinha uma diferença que chamou a atenção: no plantio direto o solo ficava mais sadio”, lembra Cândido Uemura.
Em 1975, grande parte dos produtores de Mauá já adotavam o Sistema, tornando assim, a colônia japonesa da região a primeira a implantar de forma coletiva o Plantio Direto.
Publicado na Revista Plantio Direto edição 132, novembro/dezembro de 2012.