Carlos Crovetto: um caso de amor com a natureza e com o solo
Foto: Eduardo Copetti
”Recebi a Fazenda Chequén como herança de família no ano de 1953. Tinha 20 anos e não sabia nada sobre agricultura, mas queria fazer muitas coisas, tudo me interessava”, assim Carlos Crovetto definiu o início de sua trajetória como agricultor no Sul do Chile.
Agrochequén teve no passado, em seu solo de 300 anos, intenso preparo para subsidiar uma agricultura conduzida na base do ferro e fogo. Mas há 40 anos, Carlos Crovetto deixou de arar e gradear o solo e começou o plantio direto, cultivando milho, trigo, soja, triticale, aveia, tremoço e pastagens. O solo da propriedade tem hoje cobertura permanente, é estruturado e fértil. Chequén está localizada em Florida, a 30 km de Concepción, no Chile, e foi a primeira propriedade a adotar o plantio direto como sistema de cultivo no país.
”Eu não conseguia entender porque precisava destruir para produzir. Não me conformava com isso, não precisava ser assim, não considerava esse um processo natural. Via todas as propriedades na volta fazendo o mesmo. Todos os campos eram degradados e praticamente destruídos. Mesmo com minha pouca idade e inexperiência, não pude aprender com meus vizinhos como melhorar, pois todos faziam da mesma forma e não enxergavam o resultado trágico de suas ações. Logo me dei conta que arar o solo e queimar a palha, um costume trazido da Europa pelos colonizadores espanhóis, que ensinaram a ”mutilar” a terra, era algo muito forte na cultura local e difícil de ser mudado. Trabalhei por cinco anos seguindo esse padrão de cultivo e, incomodado com a situação, percebi que precisava estudar para mudar, pois sabia que não podia continuar assim”.
Carlos Crovetto recebendo visitantes em seu Fundo Chequén, propriedade que conta com sua dedicação há 60 anos. (Foto: Eduardo Copetti)
Em 1958 Carlos Crovetto conseguiu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, onde passou 12 meses aprendendo sobre o que chamavam de mínima labranza (cultivo mínimo). ”Usava-se a grade ao invés do arado, cultivando superficialmente o solo. Havia menos danos, porque a movimentação era superficial, mesmo assim essa camada era danificada, igualmente se destruía e ainda não era o que eu desejava”.
Crovetto tinha a convicção de que solo não devia ser movimentado, mas para fazer a semeadura seguindo esse princípio ele precisava de equipamentos adequados, e essa era apenas uma das dificuldades. ”Não consegui encontrar uma semeadora que pudesse fazer esse trabalho e também não havia herbicidas capazes de controlar as plantas daninhas. Em 1963 comprei uma semeadora americana da marca Bush Hog, que era na verdade uma regeneradora de pastagens. Lembro que ela tinha um pequeno sulcador que ia rompendo o solo em linha, não afetava a estrutura entre as linhas de plantio. Com isso a erosão diminuiu. Essa foi a primeira experiência próxima a um plantio direto de fato”, conta Crovetto.
Nessa fase, o objetivo era semear apenas culturas de pastagem destinada a criação de gado, como trevo, tremoço, ervilhaca e azevém, pois ainda não se produzia grãos em Chequén. ”Tivemos gado de corte durante 20 anos. Mesmo sendo pecuária eu estava contente porque estava produzindo algo que permitia que o solo ficasse em paz. No entanto, quando chovia os animais escorregavam nas áreas inclinadas e rompiam o solo com os cascos, causando forte erosão”. Segundo Crovetto o gado foi a principal atividade na propriedade por 20 anos, de 1958 até 1978.
A produção de grãos
”Li em uma Revista da John Deere que um agricultor havia aplicado Gramoxone, herbicida de contato, para controlar as plantas daninhas na lavoura. Fiz uma experiência com o produto. Digamos que controlava entre aspas, pois na verdade ele controlava as plantas daninhas por um mês e meio, não mais que isso, e depois a invasora rebrotava. Foi um problema porque quando esse rebrote acontecia não era possível nova aplicação, a cultura já estava estabelecida”. Crovetto conta que soube de uma nova opção para controle de plantas daninhas na Universidade, era a atrazina, na época um produto em fase experimental. ”Aplicamos nas parcelas demonstrativas da Universidade e o resultado foi muito positivo e isso me deixou empolgado novamente”.
Para o plantio direto de milho em dezembro de 1978 o pioneiro do Chile trouxe uma semeadora dos Estados Unidos, a Allis Chalmers - modelo fabricado pela primeira indústria de semeadoras para plantio direto no mundo, ela trabalhava por pressão e não por vácuo e tinha duas linhas. ”Foi o primeiro plantio direto de milho do Chile e eu estava muito emocionado. Na colheita o rendimento foi de quatro mil quilos por hectare, abaixo do esperado, isso porque comentemos muitos erros e houve dificuldade de controlar as plantas daninhas, tivemos que ”laçar” as invasoras no meio da cultura. Lembro que chegou o Natal e ainda estávamos tentando limpar as áreas. Na próxima safra apliquei Roundup que custava U$ 42,00 o litro e depois atrazina, em pós-emergência, e isso fez com que a produção aumentasse, colhi 6 mil quilos/hectare”, lembra.
O trigo faz parte da história do plantio direto em Agrochequén. (Foto: arquivo Carlos Crovetto
Lavoura de milho na propriedade do pioneiro do plantio direto no Chile.(Foto: arquivo Carlos Crovetto)
No ano seguinte Crovetto viajou para os Estados Unidos e comprou uma semeadora de grãos finos chamada Tye. Fabricada por John Tye. Segundo ele, Tay era um homem de dois metros de altura, que ficou muito nervoso quando Crovetto afirmou que precisava fazer adaptações na máquina. ”Foi a primeira semeadora de plantio direto de trigo do Chile. A máquina trabalhava muito bem, possuia disco frontal e sulcador independentes e dois discos atrás, mas tinha pouco peso para cortar palha. Com ela consegui o primeiro recorde de produção de trigo, mais de 10 mil kg por hectare. Logo depois chegaram os novos herbicidas, começamos a entender o sistema e resolver, ou ao menos contornar, os principais problemas”.
Devido às dificuldades iniciais para plantar sobre a espessa camada resíduos da cultura antecessora, Crovetto considera o picador de palha um acessório importante para quem faz plantio direto, porque com ele é possível reduzir o tamanho e o volume da palha, resultando em uma superfície mais densa e uniforme, o que facilita o trabalho do facão da semeadora. Para ele, quando a palha está solta, em tamanho grande e distribuída de forma irregular, acontece o encestamento da semente, resultando em um plantio desuniforme e perdas. ”Considero o manejo da palha muito importante em qualquer propriedade. Quem faz plantio direto precisa entender que existe um conjunto de ações envolvidas no processo de semeadura direta que devem ser seguidas e uma delas é o manejo adequado da palha”.
Como adubo verde Crovetto usa ervilhaca, que teve a primeira fase na propriedade em 1960. ”Hoje colho os benefícios do consórcio ervilhaca com aveia preta daquela época, pois essa planta tem sistema radicular eficiente, ajuda oxigenar e nitrogenar o solo. Faço fardos de palha de 24 kg que alimentam boa parte do gado de leite na região de Florida. O corte é feito no florescimento, depois a ervilhaca volta crescer para cobertura do solo, fazendo com que o sistema radicular desenvolva ainda mais”, ressalta.
Em Chequén o milho é semeado no final de setembro nas partes mais altas e nas demais áreas em outubro. No entanto, Crovetto se diz um pecador por não ter respeitado a rotação de culturas em alguns períodos. ”Tenho feito rotação trigo, triticale, pasto. O azevém é um problema no Chile, pois não temos herbicidas para fazer o controle no trigo, que é plantado em maio e colhido em dezembro ou janeiro. No mês de abril se planta pasto, que rende em torno de três toneladas por hectare. O pasto fica durante um ano nas áreas e depois, pensando na semeadura de grãos, é feita a cobertura com um consórcio entre ervilhaca e aveia”, conta.
É necessário paixão para que o plantio direto evolua no Chile
Quando questionado sobre como desenvolver o plantio direto no Chile Crovetto afirma: ”antes de tudo deve-se respeitar o solo, pois no Chile a palavra respeito muitas vezes não existe na agricultura, está no dicionário e não na prática diária. O respeito é manifestado quando se tem amor pelos solos, pela ”Pachamama” (divindade presente na cultura popular no extremo norte do Chile, relacionada com a terra e com a fertilidade). Devemos ter os olhos e ouvidos abertos e o coração palpitante no momento de fazer a lavoura. É necessário ter paixão. Quando vejo um cultivo bem feito me alegro infinitamente, porque sei que debaixo desse cultivo há riqueza. Sou apaixonado pelo meu solo”.
Crovetto lembra que entre o início da década de 1980 e meados da década de 1990, os movimentos de pró-adoção da ”siembra directa” no Chile funcionavam. Nessa fase foram promovidas inúmeras palestras, treinamentos, semeadoras foram importadas, havia real interesse dos agricultores. ”Hoje, infelizmente, isto está esquecido. O Chile tem solos de origem vulcânica, alofânicos, com grande quantidade de silicatos de alumínio, caracterizados como amorfos, por isso precisam de cobertura permanente. O que me surpreende é que muitos ainda queimam a palha, são uns ”mal nascidos”, desabafa Crovetto.
Carlos Crovetto compartilhou experiências com aqueles que visitaram a propriedade no Chile e também nos mais de 20 países em que já esteve falando sobre plantio direto.
Então ele se pergunta: ”Diante disso o que fazer? A participação efetiva dos profissionais de assistência é importante para mobilizar, esclarecer e motivar. Um agrônomo é uma pessoa civilizada, inteligente, com conhecimento, mas às vezes parece uma pedra, não tem paixão pelo que faz. Por isso, penso que a obrigatoriedade da cobertura permanente teria que vir por lei, não uma lei punitiva, mas educativa, para conscientização contra a queima da palha no Chile”, defende.
Reconhecimento
Embora no Chile seja pouco divulgado, seu trabalho é reconhecido em todo o mundo. Nos Estados Unidos influenciou a formação de produtores conservacionistas da Carolina do Norte, Geórgia, Pensilvânia, Delaware, Maryland, Illinois, Kansas, Dakota do Norte, Califórnia e Washington. Seu trabalho de extensão agrícola já lhe rendeu o reconhecimento de instituições como a Sociedade de Conservação do Solo e da Água nos Estados Unidos que concedeu três prêmios: o ”Prêmio de Honra”, Prêmio Fellow” e ”Hugh H. Bennett”, a mais alta distinção, concedida em agosto de 2001. No mesmo ano, da Sociedade Americana de Editores de Agricultura ele recebeu o prêmio ”Distinguished Service Award” para o serviço excepcional e meritório à agricultura americana.
Para registrar sua trajetória e motivar agricultores em todo o mundo, Carlos Crovetto publicou três obras que abordam o plantio direto. O livro ”resíduos sobre o solo: uma introdução para o plantio direto”, publicado em 1992, tem seis edições e foi traduzido para o inglês, francês e russo.
Em 2002, publicou o seu segundo livro, intitulado ”O plantio direto, resíduos de colheita, nutrição do solo e sua relação com a fertilidade das plantas”, uma obra que foi traduzida para o inglês e francês.
Já o seu último livro: ”Meu solo, uma lição de amor”, traz a mensagem da vida de Carlos Crovetto. Ele fala do amor e respeito pela terra. ”Nesse livro conto como, a partir do meu solo, do afeto que sinto por ele, passei a amar e respeitar as pessoas. Falo também do contato que tive com agricultores de todo o mundo, nos mais de 20 países por onde passei, participando de conferências sobre plantio direto nesses anos. É um romance sobre agricultura”, finaliza Crovetto.
Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 132, novembro/dezembro de 2012.