Fusariose ou podridão-de-fusarium na cultura do milho
João Américo Wordell FilhoEngenheiro-Agrônomo, D. Sc. em Fitopatologia, Pesquisador na Epagri/Cepaf, Chapecó, SC.(49) 3361-0615 - wordell@epagri.sc.gov.br.
O milho (Zea mays L.) tem grande importância socioeconômica no Sul do Brasil, principalmente no Planalto e Oeste gaúcho e catarinense e nos Campos Gerais do Estado do Paraná. Na safra de 2010/11, a produção de milho da região sul do Brasil foi de aproximadamente 21,9 milhões de toneladas de grãos, representando 38,4% da produção nacional desse cereal (Cepa, 2012).
Entre os fatores que podem reduzir o rendimento da cultura do milho estão às podridões-de-colmo e da espiga, causadas pelo fungo Fusarium verticillioides (Sacc.), que também é conhecido por Fusarium moniliforme J. Sheld., cuja forma perfeita (forma sexuada) é a Gibberella moniliformis Wineland ou Gibberella fujikuroi (Saw.) Wr.. Esse fungo é responsável por aproximadamente 60% das podridões-de-colmo diagnosticadas pelo Laboratório de Fitossanidade da Epagri/Cepaf, Chapecó, SC, além de estar presente na totalidade das patologias de sementes realizadas nos últimos anos nesse mesmo laboratório. Esse patógeno é o principal responsável pela produção de micotoxinas em grãos de milho e nos subprodutos oriundos desse cereal destacando-se aquelas do grupo das fumonisinas (Wordell Filho, 2010), que causam a síndrome do edema pulmonar e diminuição do consumo de alimentos em suínos e diarreia, inibição do crescimento e mortalidade em aves (Gil & Lima, 1996).
De acordo com Rocha (2010), que estudou a distribuição de fungos e micotoxinas em grãos de milho recém-colhidos, provenientes de quatro regiões do Brasil: São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Bahia, constatou que o fungo F. verticillioides foi o patógeno mais encontrado e as fumonisinas foram à micotoxinas mais frequentes nos grãos desse cereal nas quatro regiões estudadas.
A ocorrência da fusariose tem sido subestimada por pesquisadores e profissionais da assistência técnica envolvida com o cultivo do milho, principalmente pelo desconhecimento de sintomatologia/diagnose dessa doença.
Sintomatologia da doença
Os sintomas visíveis da fusariose nas plantas iniciam pela alteração da coloração externa da base do colmo, embora que as plantas infectadas apresentem a medula de cor branca-rosada à rosa-salmão. Comumente, a doença torna-se mais severa à medida que a planta se aproxima da fase de maturação fisiológica dos grãos. Quando acontece infecção severa, pode ocorrer esporulação do patógeno na parte externa do tecido afetado, na forma de uma massa de esporos de cor rosa-salmão (Figura 1). Essa doença provoca o apodrecimento das raízes da base da planta e dos entrenós inferiores, o que pode levar à quebra do colmo e à maturação prematura.
Figura 1. Planta de milho com podridão-do-colmo causado por Fusarium verticillioides, apresentando raízes apodrecidas, lesão externa no colmo e feixes vasculares danificadas pela doença.
A podridão-de-fusarium pode ser diferenciada da podridão-de-giberella porque essa última apresenta peritécios sobre a superfície do tecido afetado (Reis et al., 2004).
Outras espécies de Fusarium podem estar associadas à podridão-de-fusarium do milho, incluindo Fusarium subglutinans (Wollenw. & Reinking) e Fusarium proliferatum (Matsushima) (Booth, 1971; Pfenning, 2002). Na espiga, os sintomas dessa doença podem ser observados principalmente na base (Figura 2), sendo que no interior se manifesta em grãos isolados (Figura 3) ou em grupos de grãos (Figura 4). A distribuição dos grãos infectados está relacionada à infecção do fungo pelo canal dos estigmas ou associada às injúrias provocadas por insetos, principalmente pela lagarta-da-espiga, Helicoverpa zea (Boddie) (Lepidoptera: Noctuidae) e percevejo-gaúcho, Leptoglossus zonatus (Dallas) (Hemiptera: Coreidae) (Chiaradia, 2012), ou por danos mecânicos. Os grãos de milho podem ser danificados por esse fungo em pré-colheita, acarretando o aparecimento de grãos ”ardidos”, que se constituem todos aqueles que possuem pelo menos um quarto de sua superfície com descolorações, cujo matiz pode variar de marrom claro a roxo ou de vermelho claro a vermelho intenso.
Figura 2. Sintoma de podridão-de-fusarium na base da espiga.
Figura 3. Espiga de milho com grãos isolados infectados por Fusarium verticillioides.
Figura 4. Espiga de milho com grupo de grãos infectados por Fusarium verticillioides.
O fungo F. verticillioides também provoca a morte de plântulas (Figura 5), causando necrose no coleóptilo, que assume colorações variando da branca-rosada à rosa-salmão. A ocorrência dessa doença em plântulas de milho vem aumentando nos últimos anos, especialmente nas áreas conduzidas pelo sistema de semeadura direta e nos locais onde a semeadura é realizada em períodos frios e com solo úmido, pois esse ambiente favorece a incidência desse patógeno nas sementes e em plântulas, principalmente quando os cultivos são conduzidos em solos argilosos, compactados e com palhada ou resíduos vegetais. Falta de rotação de culturas, antecipação da semeadura, criam ambientes que aumentam os riscos da ocorrência dessa doença (Wordell Filho & Casa, 2010).
Figura 5. Redução de estande na lavoura de milho causado por Fusarium verticillioides. No detalhe, coleóptilo e raiz de plântulas de milho atacadas pelo patógeno.
Etiologia e epidemiologia da doença
O estádio imperfeito (forma assexual) do fungo F. verticillioides produz conídios em esporodóquios. Os macroconídios do fungo são raros. Neste caso, são hialinos, medem 2,5 a 5 x 15 a 60 mm, possuem as extremidades curvadas e apresentam três a cinco septos. Os microconídios são abundantes e unicelulares, e medem 2 a 3 x 5 a 12 mm (Figura 6) (Booth, 1971; Pfenning, 2002).
Figura 6. Colônia de Fusarium verticillioides se desenvolvendo sobre grão de milho em meio BDA. No detalhe, microconídios do fungo dispostos em cadeia.
O estádio perfeito de F. verticillioides é raramente observado na natureza, não havendo referência de sua ocorrência no Brasil. Na fase perfeita, os peritécios são globosos, lisos e de coloração azul-negra. As ascas são oblongas, medem 75 a 100 x 10 a 16 mm, contêm oito ascosporos, retos, com extremidades afiladas, que têm constrição nos septos, sendo a maioria com um único septo, que mede 4,5 a 7,0 x 12 a 17 mm. O fungo F. verticillioides produz microconídios em cadeias, enquanto que F. subglutinans tem microconídios em falsas cabeças (Booth, 1971; Pfenning, 2002).
Além do milho, o arroz (Oryza sativa L.), a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.) e o sorgo Sorghum bicolor (L.) são hospedeiros de F. verticillioides (Tarr, 1962), sobrevivendo também em seus restos culturais.
No milho, sob condições favoráveis, o fungo F. verticillioides pode infectar as raízes e os colmos diretamente ou invade a planta por ferimentos causados principalmente por insetos. Os esporos do fungo dispersados pelo vento ou pela chuva podem ser depositados nas bainhas do milho, infectando os nós. Além disso, esse fungo pode ser transmitido pelas sementes (Foley, 1962; McGee, 1990; Pinto, 1998).
Manejo da doença
Para manejar a fusariose ou podridão-de-fusarium é imprescindível aplicar, de forma integral e integrada, as práticas recomendadas, pois uma única medida geralmente torna-se ineficiente. A seguir serão citadas algumas medidas:
Realizar rotação de culturas com espécies não hospedeiras do patógeno (Denti & Reis, 2001 e Casa et al., 2005);
Realizar adubação com base na análise do solo, evitando o excesso de adubação nitrogenada (Wordell Filho & Casa, 2010);
Evitar semeaduras em solo úmido, frio e mal drenado;
Tratar as sementes com fungicida dos grupos químicos benzimidazol (carbendazim) + dimetilditiocarbamato (Tiram) na dose de 200 a 300 mL/100 Kg de sementes (Agrofit, 2012);
Semear híbridos ou variedades resistentes e com bom empalhamento. Informações sobre a resistência de materiais podem ser encontradas na internet, na página da Embrapa Milho e sorgo (Embrapa, 2012);
Utilizar a população de plantas recomendada pela empresa produtora de sementes para cada híbrido ou variedade.
Literatura citada
AGROFIT: Sistema de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2012.
BOOTH, C. The genus Fusarium. Kew Commonwealth Mycological Institute.1971. 237p.
CASA, R.T; REIS, E.M. & MOREIRA, E.N. Transmissão de fungos em sementes de cereais de inverno e milho: implicações epidemiológicas. In: ZAMBOLIM, L. (Ed.). Sementes: Qualidade Fitossanitária. Viçosa:UFV; DFP, 2005, p.55-71.
CEPA. Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina 2009/2010. Disponível em:http://cepa.epagri.sc.gov.br/Publicacoes/Sintese_2010/sintese%202010_inteira.pdf. Acesso em: 19 jun. 2012.
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Publicado na Revista Plantio Direto, edição 131, setembro/outubro de 2012.