Fertilidade do Solo para Altos Rendimentos de Soja


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Publicado em: 01/10/2012

Fertilidade do solo para altos rendimentos de soja

Com crédito à disposição e estimulados pelo aumento dos preços internacionais, provocado pela forte estiagem que prejudica a lavoura dos Estados Unidos, os sojicultores brasileiros sinalizam aumento da área plantada para 27 milhões de hectares, suficientes para colher 82 milhões de toneladas de soja, conforme previsões do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O Rio Grande do Sul, que estava em 3° colocado em termos de produção e rendimento de soja por unidade/área, ficando atrás do Paraná e Mato Grosso, nos últimos anos, está retomando o desafio das melhores lavouras.

Alguns agricultores, já obtiveram produções entre 4 e 5 toneladas de grãos por hectare e alguns casos isolados chegaram a 6 toneladas, ou 100 sacos/ha. No último desafio nacional (2011/2012) do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), por exemplo, a Agropecuária São Felice, de Cruz Alta, obteve o primeiro lugar no Estado, alcançando 102,6 sacos/ha em lavoura de soja irrigada. O vencedor nacional, na categoria soja não irrigada, foi produtor da Fazenda Serrana do município de Correntina, na Bahia. O sojicultor produziu 108,71 sacas por hectare, em um lote de 10 hectares, conforme regulamento do Desafio. Já o vencedor da região Sul foi o produtor da Fazenda Mutuca de Arapoti, no Paraná, com produção de 103,11 sacas por hectare. Ele também foi o segundo melhor produtor, na classificação geral dos produtores participantes do Desafio do CESB. Na safra 2011/2012, o Desafio do CESB atingiu 14 estados, 407 municípios e 1.314 produtores. Em Desafio anterior (em 2009/2010), que abrangeu 800 produtores, 66 áreas, 285 municípios e 10 estados, o vencedor foi o sojicultor da cidade de Mamborê do Paraná que alcançou a impressionante marca de 108,4 sacas de soja por hectare.

Com relação à média de produtividade, na safra 2008/2009, por exemplo, a média geral do CESB foi de 77,8 sacas por hectare, 78% a mais do que a média brasileira naquele ano. Com 800 inscritos em 2010, a média do CESB subiu para 88,1 sacas/ha, 80% a mais do que a média do país, que foi de 48,8 sacas por hectare.

Então, a pergunta que fica é: como chegar lá e se igualar aos líderes?

Para o professor Pedro Varella Escosteguy da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, palestrante convidado do evento Atualização Soja para Altos Rendimentos, que debateu a produção de soja, em setembro, em Passo Fundo, obter 100 sacos da cultura por hectare não é uma meta impossível de ser atingida. Ele cita ainda o caso de produtor de Missouri, nos EUA, vencedor 10 vezes de concurso nacional, que, em área de 4 hectares, em 2010, atingiu a marca dos 160,6 bushel, ou seja, 10.800 kg/ha. Em 2006, ele já havia conquistado o recorde mundial com a marca dos 139 bushel, o equivalente a 9.300 kg/ha. ”Isso prova que nós podemos sonhar como este produtor sonhou. Hoje a pesquisa sobre o manejo da lavoura de soja e do solo, o nível de tecnologia, a qualidade dos produtos de mercado, o controle do clima e a qualidade das sementes disponíveis nos permitem enfrentar o desafio dos 100 sacos/ha”, considera.

Ao introduzir o assunto da sua palestra, o professor explicou que mais de cinquenta fatores interferem no processo de produção da soja, os quais podem ser agrupados no potencial genético, condicionado a semente (as atuais tem a capacidade para produzir mais do que 100 sacos/ha) e nos fatores de ambiente (clima, solo, manejo de doenças, de pragas e de plantas daninhas). ”Com o nível de conhecimento hoje disponível, nós temos boa parte das respostas para fazer com que o fator solo responda no mesmo nível que os demais fatores, superando assim gargalos que comprometem a aumento do rendimento de grão da soja, quando cultivada em solos com problemas de fertilidade”.

Escosteguy salienta que embora o produtor invista em sementes de variedades geneticamente superiores, isso pode significar pouco, se os demais fatores de produção não estiverem presentes em condições favoráveis. Nesse sentido, é necessário que a planta de soja tenha disponibilidade de água na quantidade e no momento certo, de nutrientes conforme as necessidades da cultura, e que o solo não tenha problemas de compactação ou encharcamento, além de ausência de pragas e de doenças. ”O desafio do produtor é o de orquestrar todos os fatores que condicionam a produção vegetal, para que eles possam interagir e potencializar a produção, chegando assim até a 10 mil ou mais quilos do rendimento de grão por hectare, como já constatado nos Concursos de Produtividades dos Estados Unidos”. Escosteguy vê a irrigação como um dos principais fatores que potencializam a qualidade atual das sementes, ou do nível de tecnologia, de controle de doenças e de plantas daninhas e até mesmo de fertilidade do solo, atualmente disponíveis para uso. ”Sem água fica difícil obter alta produção de grãos”, reconhece.

Para ele, a soja é uma cultura que requer planejamento da lavoura, paciência, persistência, confiança no trabalho e investimento na qualidade do solo. ”Em relação ao fator solo, a nutrição e adubação são fundamentais para produzir grãos de maior massa”. No entanto, Escosteguy destaca ainda que a melhoria da fertilidade do solo, através da utilização correta de corretivos e de fertilizantes, é apenas um dos fatores que determinam o sucesso ou não da cultura da soja. Além desta prática, o resultado esperado de 100 sc/ha, depende também dos demais fatores mencionados.

Demanda: o que a soja precisa?

A planta de soja (bem como a bactéria simbiótica associada a ela) requer nutrientes minerais como nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), enxofre (S), cálcio (Ca), magnésio (Mg), ferro (Fe), boro (B), manganês (Mn), zinco (Zn), cobre (Cu), cobalto (Co) e molibdênio (Mo). A maior parte desses nutrientes é absorvida do solo, porém, parte do N é obtida por meio da fixação do N do ar do solo, o que é realizado pelas bactérias que desenvolvem nódulos na raiz da planta. Os nutrientes são absorvidos junto com a água pelas raízes da planta e movem-se no interior desta até as folhas e outros órgãos vegetativos. No caso de Co e Mo, pode-se fornecê-los via semente, por ocasião do tratamento destas com fungicidas e inseticidas. Contudo, a inoculação da bactéria que fixa o N do ar deve ser posterior ao tratamento da semente com estes produtos fitossanitários.

Cabe reforçar que as quantidades de nutrientes disponíveis variam com o tipo de solo, profundidade de amostragem e práticas de cultivo, e são influenciadas pelas condições de temperatura e umidade no solo. As raízes gastam mais energia para crescer em solo com baixa umidade e esta deve ser adequada para que o sistema radicular possa absorver os nutrientes. Por outro lado, o excesso de umidade no solo limita a aeração das raízes, as quais necessitam de oxigênio para crescer.

Nitrogênio (N)

Para se chegar a meta de 100 sacos/ha, Escosteguy explica que a demanda de N da planta inteira é de 380 a 400 kg/ha, sendo que o grão exporta 60% a 70%, ou seja de 300 a 350 kg de N/ha. Isso indica que a quantidade de N absorvida em 100 sacos/ha de soja é de quase 500 kg, o equivalente a meia tonelada de N/ha. Como cerca de 25% desta quantidade fica nos resíduos da soja, isso significa que 100 a 150 kg de N/ha ciclam no solo, podendo parte disso ser utilizada pela cultura de inverno. Esse aspecto é importante, pois parte desse N absorvido pela lavoura de inverno voltará novamente para a soja ou para outra cultura da rotação. ”Esse N que a soja fornece ao sistema se perde e faz falta na nova soja”, ressalta. De 480 kg de N/ha, cerca de 408 a 410 kg são supridos pela bactéria Rhizobium, que são organismos que captam o N do ar e fornecem para a raiz da planta”. Mas, para que ocorra essa fixação, segundo ele, é preciso uma população mínima de nódulos, formados por estas bactérias, por planta. ”Numa densidade de 300 mil plantas por ha, pode-se ter, por exemplo, 30 nódulos por planta. Mas não é raro, termos de 80 a 100 nódulos por planta. Nesse caso, a quantidade de nódulos triplicada. Se calculamos quanto de N que cada nódulo deveria fornecer ao longo do ciclo da planta, principalmente, a partir dos 40 dias até o enchimento de grãos, para a produção de 100 sacos/ha, constataremos cerca de 53 mg de N/nódulo. Portanto, se nós duplicarmos o número de nódulos por planta, o aporte de N de cada nódulo poderá ser menor. Em síntese, para o maior suprimento de N da soja, ou aumentamos o número de nódulos, ou do tamanho destes (maior peso), ou aumentamos o número de plantas por área. Nesse sentido, ”é importante controlar a nodulação da soja e a densidade de plantas, pois isso significa que a quantidade de N necessária para altos rendimentos seja obtida”, observa.

O professor cita alguns fatores que podem restringir a nodulação, como o excesso de N mineral, principalmente logo após a semeadura; a baixa umidade e temperatura do solo; a restrição ao crescimento adequado da raiz, que aumenta com a compactação, o excesso de Al e o baixo teor de Ca do solo. Além destes fatores, a nodulação é comprometida pelo baixo teor de P do solo ou pelos baixos teores de Mo e de Co nas sementes.

”A aplicação de N em semeadura requer cuidado, pois o N mineral adicionado com o fertilizante é antagônico ao Rhizobium. Devido a isso, o recomendado é aplicar doses baixas de N em semeadura, entre 8 a 12 kg/ha. Contudo, quando a formulação NPK aplicada na semeadura da soja tem maior concentração deste nutriente, a dose de fertilizante a aplicar deve ser limitada em 20 kg de N/ha. Na semeadura de novembro, por exemplo, o solo geralmente tem maior temperatura e a umidade tende a decrescer. Por outro lado, para a nodulação e fixação de N adequadas, a temperatura do solo deve ser entre 25°C a 30°C, o que pode ser obtido com a cobertura do solo com bastante palha. Temperaturas de solo maiores que 27°C limitam a nodulação e, consequentemente, o suprimento de N. Assim, devido à alta radiação solar do mês de novembro e a compactação dos solos argilosos aqui do Sul, sem irrigação e com a diminuição da quantidade de palha, não tem mágica para produzir 100 sacos/ha de soja”. O Professor acrescenta que a nodulação e a absorção da água dependem das raízes, que muitas vezes crescem menos devido à acidez e a compactação das camadas mais profundas do solo. Nessas condições, as raízes tendem a ser menos profundas e fibrosas, com menor número de estruturas laterais bem desenvolvidas, o que decresce a absorção de água.

Ele acrescenta ainda: ”Para que a fixação simbiótica de nitrogênio seja favorecida, é preciso também corrigir a acidez do solo, fornecendo os nutrientes que estejam em quantidades limitantes no solo, condições estas que podem ser diagnosticadas com a análise química do solo”.

Acidez do solo

Segundo Escosteguy, o pH do solo ideal para a cultura da soja situa-se na faixa de 5,5 a 6,0, dependendo do tipo de solo e da disponibilidade de nutrientes deste. ”Nesta faixa de pH, ocorre o melhor aproveitamento dos nutrientes, condições adequadas para os processos naturais que ocorrem no solo, como a liberação de nutrientes contidos na matéria orgânica e a fixação de N atmosférico, quando espécies leguminosas são cultivadas em sistema de rotação. Como a soja tem simbiose com bactérias fixadoras de N, devemos lembrar que este nutriente é o mais absorvido pela soja e, portanto, com alto impacto na produção de grãos. Esta absorção é principalmente decorrente destas bactérias, as quais crescem menos em solos ácidos”. Assim, a acidez restringe bastante o desenvolvimento do nódulo. ”Em solo com o plantio direto consolidado, a pesquisa sugere que a calagem seja realizada quando o valor do pH em água seja menor que 5,5 e a saturação por base menor que 65 %. No entanto, se observa respostas a calagem em algumas lavouras de soja, quando se aplicam doses de calcário para elevar o valor de pH para 6,0. Quando isso acontece? Quando o sistema plantio direto não foi iniciado e conduzido como recomendado, ou seja, não está consolidado. Nessa situação, as propriedades físicas ou químicas do solo restringem o crescimento das raízes e a manutenção da umidade do solo por período mais prolongado. Em sistema de plantio direto bem conduzido, a resposta à calagem é alta, quando se aplicam as doses recomendadas para pH 5,5. Mas, se o solo não vem sendo bem manejado, sem uma boa estrutura, com pouca palha, com retiradas de terraços sem os devidos critérios recomendados pela pesquisa, sem rotação de culturas, que agregue carbono, tudo isso que restringe a manutenção da umidade no solo; e ainda com Al na camada abaixo de 10 cm e com teores limitantes de fósforo nessa camada, entre outros fatores limitantes a nodulação e as raízes, então a cultura da soja pode responder a aplicação de doses de calcário recomendadas para pH 6,0. Isso pode acontecer, pois os benefícios do sistema de plantio direto, que potencializam o efeito desta prática, não existem nestas condições de manejo inadequado do solo.

No Rio Grande do Sul, segundo o pesquisador, é muito comum que os campos nativos tenham valores de pH entre 4,3 a 4,8 (Quadro 1), dependendo da região. Ele cita o exemplo de uma área com 25 anos de plantio direto, que evoluiu do sistema convencional, e que antes desse processo, teve o calcário incorporado para obter um pH 6,0. Na sequência do desenvolvimento da condução dessa área, a calagem foi suspensa por cerca de 26 anos e o valor do pH, embora tenha diminuído, estabilizou em cerca de 5,0, ou seja, maior que o valor do pH do solo quando era campo nativo. Com isso, o Professor demonstrou a importância da correção adequada da acidez do solo, na fase de implantação do sistema de plantio direto, em área com campo nativo. Os que iniciaram esse sistema corrigindo adequadamente a acidez, e fizeram a manutenção com a aplicação de calcário em superfície, de acordo com a análise de solo, hoje não tem grandes problemas em relação a isso, mas aqueles que dessecaram áreas de campo e aplicaram calcário em superfície, em solos argilosos, que identificamos como solos de alta acidez potencial, hoje enfrentam sérios problemas de crescimento radicular em profundidade. Esses problemas são mais evidentes durante a estiagem, quando a planta busca água nas camadas mais profundas do solo.

Quadro 1. Alguns atributos químicos da camada de 0 a 20 cm de Latossolos do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, com pastagens naturais, não adubados e sem aplicação de calcário.

Escosteguy explica que é possível melhorar a acidez do solo aplicando calcário na superfície, mas, em solos com lavouras de grãos, a ação desse corretivo se restringe aos primeiros centímetros do solo, dificilmente superando os 10 cm iniciais. ”Assim, a correção dos teores de Al, de Ca, de Mg e do pH do solo em camadas mais profundas; criando um ambiente favorável para a adequada nodulação e desenvolvimento do grão da soja, é pouco provável em solos argilosos, quando se aplica somente calcário em superfície”.

”Gesso, em curto prazo, não faz milagre”

Para o professor, o gesso agrícola é uma das alternativas do sojicultor para a correção de cálcio e para amenizar a toxidez de Al, quando estes problemas ocorrem nas camadas mais profundas do solo. ”Em solos onde o teor de Ca é baixo em profundidade, bem como a toxidez de alumínio é alta, é imprescindível que tenhamos alternativas ao calcário em superfície, para promover o crescimento das raízes, principalmente em profundidade”, recomenda.

Ele ressalta que abaixo da camada de 10 a 20 cm de profundidade, é preciso proporcionar um ambiente favorável para o desenvolvimento radicular das plantas, que gastarão menos energia para absorver nutrientes e água. O gesso, por ser mais móvel que o calcário e não aumentar o pH e a quantidade de cargas negativas do solo proporciona maiores concentrações de Ca na solução do solo, favorecendo o movimento desse nutriente em profundidade. Além disso, o sulfato adicionado pelo gesso reagirá com o Al, formando compostos com menor toxidez nas camadas subsuperficiais. Isso ”melhora” o ambiente para o crescimento radicular, pois o Al é tóxico a raiz, enquanto que o Ca estimula o crescimento desta parte da planta. No entanto, ele salienta que enquanto o efeito do gesso em suprir enxofre pode ser observado em curto prazo, a movimentação do Ca no perfil de solos argilosos e com baixo pH ou saturação das cargas negativas com cátions de reação básica é um processo lento.

”O perfil natural de boa parte dos solos do Planalto gaúcho indica muita restrição nutricional. São solos ácidos, com pouco Ca, Mg e P e muito Al. Nas áreas de acidez subsuperficial, o gesso é uma alternativa para amenizar os problemas da acidez. ”Em condições normais, o calcário desce de 2 a 3 cm por ano. Em solos argilosos, não adianta aplicar maior quantidade de calcário do que recomendado, com o intuito de corrigir a camada mais profunda. Isso, ainda, pode elevar demais o valor do pH na superfície do solo, resultando em maior perda do N aplicado em gramíneas cultivadas em rotação com a soja, em menor disponibilidade de micronutrientes, como o manganês e o zinco, e, dependendo do valor do pH, até em menor disponibilidade de fósforo”.

Ele cita o exemplo de um trabalho, orientado pelo Engenheiro Agrônomo Fabiano Paganella, com aplicação de gesso, em um solo do município de Esmeralda, próximo à Vacaria. Antes da aplicação do gesso, entre 2005/2006 e 2010, foram adicionadas 5 t/ha de calcário, em 2005; 4 t/ha, em 2007; e 3 t/ha; em 2009; na superfície do solo. Embora a produção fosse razoável, o padrão estava abaixo do esperado. Com o monitoramento detalhado do solo, constatou-se Al em excesso, na camada de 10 a 20 cm, além de outros problemas de acidez. Por outro lado, os valores de pH e os teores de Ca e de Mg eram elevados, e os de Al adequados, na camada de 0 a 10 cm. Estes resultados mostraram que não adianta aumentar a dose de calcário em superfície, para corrigir a acidez do solo em profundidade, em solos argilosos. A maior dose, em relação à recomendada, não resultou em maior ação desse corretivo em profundidade. O Professor explica que isso se deve ao aumento de cargas negativas do solo proporcionado pela calagem e que estas cargas retêm o Ca na superfície, decrescendo o movimento dele no perfil do solo. Em 2010, optou-se por aplicar gesso e em taxas variáveis, mas de acordo com a análise do solo. Esse corretivo foi aplicado após o calcário e os resultados da análise de solo mostraram que a acidez decresceu, na camada de 10 a 20 cm. Esse exemplo demonstra algo pouco comum de se observar, que é o efeito do gesso em melhorar a acidez das camadas mais profundas do solo, em curto prazo. Isto ocorreu, pois a camada superficial continha altos teores de Ca e de Mg, devido à ”supercalagem”; o gesso foi aplicado em taxas variáveis calculadas para decrescer a saturação por Al, o que resultou em altas doses em alguns pontos, raro de se observar a campo; e após a aplicação houve distribuição de chuva além do normal, no período de primavera e verão. O Professor salienta que quando o efeito do gesso é observado em curto prazo isso se deve mais ao efeito da adição de enxofre, em solos com deficiência desse nutriente; ou a deficiência de Ca na camada superficial; do que a ação desse corretivo na acidez das camadas mais profundas do solo.

”O comum de se observar nas lavouras do Planalto do RS é justamente o contrário, pois aplicam doses baixas de gesso, sem considerar a análise de solo e sem aplicação prévia de calcário”. Para ilustrar esta situação, o Professor mostrou resultados de um trabalho de pesquisa, conduzido no Campo Experimental da Faculdade de Agronomia da UPF, em solo com alta acidez, ao longo da camada de 0 a 20 cm. No trabalho, estão sendo testadas diferentes fontes e formas de aplicação de Ca, como o calcário na linha e a lanço, o gesso, a lama de cal, entre outros (Quadro 2). Os tratamentos foram iniciados na semeadura da cultura de inverno, em 2011. Após o inverno, os tratamentos aplicados no sulco de semeadura foram reaplicados, sendo isso efetuado no momento da semeadura da soja (safra 2011/12). Embora a alta estiagem dessa safra, os resultados mostraram diferenças entre os tratamentos. Os maiores rendimentos de grão foram obtidos com a aplicação das fontes de Ca no sulco de semadura, além do calcário em superfície (Quadros 3 e 4). Já a aplicação de gesso, com ou sem escarificação, não melhorou o rendimento de grão da soja, o que era esperado, devido o curto prazo decorrido entre a aplicação e a avaliação, a estiagem, e a dose testada não ser suficiente para saturar o solo superficial com Ca, decrescendo a mobilidade desse nutriente no perfil. ”Por outro lado, isso pode ser obtido aplica esse corretivo em conjunto com o calcário, ou em seqüência a esse”, salienta o professor. ”Como o solo do experimento tem teor adequado de enxofre, nestas condições, o efeito do gesso não faz milagre em curto prazo”, alerta Escosteguy.

Quadro 2. Fontes e forma de aplicação de cálcio testadas em Latossolo Vermelho ácido, cultivado com culturas de grãos. Universidade de Passo Fundo, 2012.

Quadro 3. Rendimento de grão de soja cultivada em Latossolo Vermelho ácido, tratado com diferentes fontes e forma de aplicação de cálcio.

Quadro 4. Rendimento de grão de soja tratada com diferentes fontes e forma de aplicação de cálcio. Comparação dos tratamentos com a técnica do contraste. *, **Diferenças são significativas a 10 e 5 % de probabilidade do erro experimental, respectivamente. ns: Diferenças não são significativas a 5 % de probabilidade.

Fósforo (P)

Embora seja menos absorvido que o N e o K, o P é o nutriente que mais limita a produção de soja para elevados RG, devido à baixa concentração no solo e a perda do P aplicado com os fertilizantes, para formas de baixa disponibilidade no solo. Levantamento estatístico das amostras de solo analisadas, em 2001, nos principais laboratórios do RS, indicaram que 79 % das amostras analisadas apresentavam valor baixo a médio de P. O Professor Pedro Escosteguy salienta que a baixa concentração de P na planta resulta em maior aborto de flores. Posteriormente, se manifesta na formação e retenção de legumes e menor RG. Além de ser importante para a formação dos grãos, reduz o crescimento da raiz e da nodulação, influindo, portanto, em todo o desenvolvimento da planta, e consequentemente no rendimento dos grãos. Esse nutriente é importante para o desenvolvimento das bactérias fixadoras de N, pois contribui para o fornecimento de energia que a planta destina a estas bactérias.

”Para 100 sacos/ha, a planta inteira de soja demanda 72 a 94 kg de P205/ha, exportando cerca de 60% dessa quantidade, o que equivale a quase 50 ou 60 kg de P2O5/ha sendo removido pelos grãos” (Quadro 5). Em solos com teores de P corrigidos e assumindo a exportação de 45 a 58 kg de P2O5/ha, em 100 sacos de soja/ha; e adicionando mais 30 %, para compensar as perdas da adubação (o que significa 13 a mais de 17 kg); entre 58 a 75 kg de P2O5/ha são necessário para manter a fertilidade do solo, segundo Escosteguy (Quadro 6).

Quadro 5. Estimativas das quantidades absorvidas e exportadas de fósforo, em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha).

Quadro 6. Quantidades de fósforo estimadas para repor a exportação desse nutriente, em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha), considerando perdas de 30 % da quantidade adicionada com a adubação.

Para o professor, seria importante corrigir o P das camadas mais profundas do solo, o que, em geral, não ocorre quando ele é aplicado na superfície de solos argilosos. ”Estes solos, tem capacidade de armazenar quantidades elevadas de água até a profundidade de 50 cm, o que possibilitaria atender a demanda de duas ou mais semanas da cultura da soja. No entanto, a raiz dessa cultura não atinge esta profundidade, devido a concentração de nutrientes na superfície e o baixo teor na subsuperfície, além das restrições decorrentes do excesso de Al e das camadas compactadas. Esse é um dos aspectos básico para quem não trabalha com irrigação. Uma das estratégias que pode contribuir para melhor distribuir o P no perfil do solo é a rotação de culturas e de formas com que se aplicam os fertilizantes no solo, o que o Professor chamou de ”rotação de adubação”. Dessa forma, pode-se aplicar entre 60 e 70 kg de P2O5 no sulco da semeadura das culturas de inverno, como trigo, aveia, cevada, etc; a cada 17 cm de distância entre linhas, localizando o fertilizante na camada mais superficial. Essa mesma dose pode ser aplicada no sulco da semeadura da cultura da soja, que é mais profundo que o do trigo. Já na cultura de milho, pode-se aplicar doses maiores de P, possibilitando localizar esse nutriente em camada mais profunda, a cerca de 10 a 12 cm da superfície. Essa rotação de adubação e de cultura, melhora a distribuição de P no perfil do solo, evitando os problemas de concentração desse nutriente nos primeiros centímetros do solo, verificado em áreas adubadas a lanço”, frisa o Professor.

Potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg)

Em relação à região do Planalto, Escosteguy salienta ainda que a disponibilidade de Potássio (K) dos solos, no geral, é considerada muito alta. ”Levantamentos apontam que mais de 90% dos solos desta região apresentam níveis altos de K”. Segundo ele, a demanda de K da soja é ”de 200 a 228 kg de K2O/ha para produzir 100 sacos por ha, sendo 66% exportada e cerca de 1/3 concentrada nos resíduos vegetais” (Quadro 7). Em solos com teores de K corrigidos, assumindo esta taxa de exportação de K nos grãos e adicionando mais 15 a 20 %, para compensar as perdas da adubação; serão necessários entre 150 a 170 kg de K2O/ha, para manter a fertilidade do solo em lavouras que produzem 100 sacos/ha, segundo Escosteguy (Quadro 8). Ele salienta que esta quantidade de K deve estar distribuída no perfil do solo, a exemplo do comentado com o P; o que será melhor para a absorção da planta, em comparação a uma grande concentração desse nutriente nos primeiros 5 cm da superfície do solo. É pouco provável produzir 100 sacos/ha tendo alto teor de K e outros nutrientes, somente nesta camada superficial, pois havendo estiagem as raízes da soja necessitam crescer e absorver água e nutrientes em camadas mais profundas que 10 cm.

Quadro 7. Estimativas das quantidades absorvidas e exportadas de potássio, em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha).

Quadro 8. Quantidades de potássio estimadas para repor a exportação desse nutriente, em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha), considerando perdas de 15 % da quantidade adicionada com a adubação.

A demanda de Ca e de Mg da cultura da soja, para o rendimento de 100 sacos, é de cerca de 200 kg/ha de Ca e a metade de Mg, sendo um baixo percentual exportado nos grãos (cerca de 8 %, para o Ca; e cerca do dobro, para o Mg) (Quadro 9). Nesse quadro constam também os teores recomendados desses nutrientes em solos do RS e de SC, que foram transformados de cmolc/dm3 (unidade de medida expressa na análise de solo) para kg/ha. ”Considerando os teores altos recomendado para o Ca (> 4,0 cmolc/dm3) e para o Mg (> 1,0 cmolc/dm3) vejam que a transformação destes em kg por ha supera a quantidade demandada para a produção de 100 sacas/ha”. Isso demonstra que a manutenção dos níveis de Ca e de Mg em teores considerados altos é suficiente para esta meta de produção, finaliza o Professor.

Quadro 9. Estimativas das quantidades absorvidas e exportadas de cálcio (Ca) e de magnésio (Mg), em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha).

Enxofre (S)

A demanda de enxofre (S) da soja varia de 36 a 48 kg/ha, para a produção de 100 sacos por ha, enquanto que cerca de 30 a 40 % dessas quantidades são exportadas pelos grãos, equivalendo a 16-18 kg/ha de S (Quadro 10). Transformando estas últimas quantidades em teores de S do solo, isso equivale ao teor de 16 a 18 mg de S, na camada de 0 a 10 cm, ou a metade destes valores na camada de 0 a 20 cm, explica Escosteguy. Assim, teores maiores que 10 mg/kg de S nesta camada do solo são suficientes, para manter a fertilidade do solo, em lavouras que produzem 100 sacos/ha de soja. Em solos com teores menores do que este, Escosteguy recomenda aplicar 20 kg/ha de S, que é o equivalente a 20 mg/dm3, na camada de 0 a 10 cm. O Professor conclui salientando que este nutriente, ao contrário do P e do K, tem maior mobilidade e melhor distribuição no perfil do solo. Isso significa que os fertilizantes com S podem ser aplicados na superfície do solo.

Quadro 10. Quantidades de enxofre estimadas para repor a exportação desse nutriente, em plantas de soja com produção de 6.000 kg/ha (100 sacos/ha).

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 131, setembro/outubro de 2012.