Doenças da soja: atenção especial à ferrugem em 2013
Carlos Alberto Forcelini1, Elias Zuchelli2, Guilherme Ferri2, Julio Franz2,Rafael Roehrig2 e Rudinei Zanon21Eng. Agr., Ph.D., Professor da Universidade de Passo Fundo - forcelini@upf.br2Estudante de Agronomia, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS
A safra de soja 2013, que já teve seu início, se caracteriza por um elenco de situações especiais: grão com recorde de valorização, a maior área de cultivo até hoje utilizada, perspectiva de clima mais chuvoso e condição mais favorável à ocorrência de doenças, especialmente a ferrugem asiática. Em resumo, um cenário completamente diferente do que ocorreu na safra anterior (2012).
A perspectiva de bons lucros facilita a realização de investimentos e adoção da tecnologia disponível para a cultura. Esta deve ser utilizada com critérios, para que possa, realmente, se traduzir em ganhos para o produtor, sociedade e país.
Nas últimas quatro safras de soja (2009, 2010, 2011 e 2012), com base em experimentos conduzidos na Universidade de Passo Fundo (Figura 1), comparando áreas não tratadas com outras submetidas a três aplicações de fungicida, as diferenças foram de 12 sacos/ha em 2012, 16 em 2011, 23 em 2010 e até 31 em 2009. Independente do preço que a soja possa ter no final da safra, estas diferenças evidenciam a capacidade de dano que doenças fúngicas controláveis podem trazer à cultura.
Figura 1. Diferenças em rendimento de grãos de soja (sacos/ha), de 2009 a 2012, na comparação entre áreas com três aplicações de fungicida (à esquerda) e nenhuma (à direita). UPF, Passo Fundo-RS
A situação de clima favorável projetada para a safra 2013 eleva o potencial de rendimento da soja, mas também possibilita maior ocorrência da ferrugem asiática. Dois fatores principais regulam a dinâmica e importância desta doença: o clima e a disponibilidade de inóculo (esporos do fungo em plantas guaxas/tigueras na entressafra). Em 2011 houve boa distribuição de chuvas, mas o inóculo do patógeno era baixo. Em 2012, a ocorrência da ferrugem foi inexpressiva devido à seca. Em 2013, ambos os fatores clima e inóculo se alinham para favorecer a doença.
Analisando resultados de anos anteriores, especialmente as safras 2009 e 2010, nós projetamos, para 2013, diferenças superiores a 20 sacos/ha entre áreas com e sem manejo das doenças. Assumindo-se o valor de R$ 60,00 por saca, essa diferença pode significar mais de R$ 1.200,00 por hectare.
A construção de uma diferença favorável por conta do manejo de doenças envolve três etapas importantes: o estabelecimento da cultura, o crescimento sadio da planta na fase vegetativa e a manutenção da área foliar no período de enchimento de grãos. O primeiro é fruto da qualidade da semente, do seu tratamento e de uma boa semeadura. As sementes de soja obtidas na safra 2012 tem menor incidência de fungos causadores de doença, mas seu vigor é baixo devido à condição de seca em que as mesmas foram geradas. Também há maior ocorrência de danos mecânicos no tegumento da semente. Esta combinação de fatores favorece muito aos fungos de solo, que também se beneficiam da compactação e da maior ocorrência de chuvas em outubro e novembro, quando ocorre a semeadura. Nas últimas três safras, houve aumento significativo na ocorrência de morte de plântulas e podridões de raízes associadas ao fungo Phytophtora, que responde por mais de 30% dos casos que chegam até o Laboratório de Fitopatologia da UPF. Portanto, o tratamento de sementes é fundamental, e seu benefício aproximado foi 3,5 sacos/ha em 2009, 3,3 em 2010 e 3,4 em 2011.
A maioria das lavouras de soja é estabelecida em área de monocultura. Nesta condição, o solo é um verdadeiro berçário de fungos necrotróficos que infectam tanto as raízes (Fusarium, Macrophomina, Phytophthora, Rhizoctonia etc) como a parte aérea das plantas (Cercospora, Colletotrichum, Corynespora, Phomopsis etc). O tratamento de sementes com fungicidas sistêmicos protege a soja nos seus primeiros dias, mas é comum a presença de fungos na planta já na fase vegetativa, com ou sem sintomas das doenças por eles causadas.
A ideia de proteger a soja com fungicidas, já na fase vegetativa, inicialmente soava prematura. Contudo, os resultados obtidos nas últimas três safras na UPF, com uma aplicação entre V5 e V6 (Figura 2), mostraram ganhos médios superiores a três sacos por hectare: 3,4 em 2010, 3,3 em 2011 e até 7,6 em 2012. Neste ano (2012), ampliamos o leque de produtos avaliados (triazóis, benzimidazóis, estrobilurinas e suas possíveis combinações) e todos apresentaram resultados positivos. O tratamento nesta fase da planta diminui a presença de patógenos oriundos dos restos culturais no solo, retarda a ocorrência de doenças como oídio e protege as folhas que irão compor o terço inferior da planta, que nos cultivares atuais abriga maior número de vagens e grãos que anteriormente.
Figura 2. Plantas em estádio V6, momento já propício a uma primeira aplicação de fungicida.
O fechamento dos espaços entre as linhas de cultivo estabelece um limite à proteção das partes inferiores da planta. Caso o produtor opte por não realizar a primeira aplicação de fungicida em V5-V6, sugere-se que a mesma seja efetuada antes do fechamento das ruas, normalmente quando a cultura encontra-se entre V8 e V10, podendo já haver algumas flores presentes no caso de cultivares superprecoces e de hábito de crescimento indeterminado. Essa sugestão teve início a partir de resultados obtidos em estudos com tecnologia de aplicação, os quais mostraram deposição abaixo de 5% no terço inferior (ausência de proteção) acima de 80% no superior (maior risco de fitotoxicidade pela concentração de produto).
A aplicação de fungicidas antes do fechamento completo das ruas permite maior proteção do terço inferior da planta, com reflexos positivos na conversão de flor em vagem (diminui o estresse por doença que pode induzir a produção de etileno e ácido abscísico, compostos ligados à senescência e à queda prematura das vagens) (Figura 3), no atraso das doenças (as infecções geralmente se iniciam pelo baixeiro, devido à maior disponibilidade de água sobre os tecidos) e na preservação da área foliar. Recomenda-se que nenhuma lavoura de soja feche completamente as ruas sem uma aplicação de fungicida.
Figura 3. Plantas na fase de conversão de flor em vagem, momento crítico para a definição do potencial de rendimento.
Os cultivares de soja modernos possuem ciclo mais curto e menor índice de área foliar (IAF de 3,5 a 5,0), por isso são menos tolerantes à desfolha por doenças. Aproximadamente, cada unidade de IAF responde por uma tonelada de grãos por hectare. Portanto, quando se buscam altos rendimentos, a área foliar deve ser melhor protegida. Os tratamentos realizados na fase reprodutiva da soja tem este propósito e a sua contribuição ao rendimento de grãos pode ser superior a 15 sacos/ha em anos com presença de ferrugem. Os danos associados às doenças na fase reprodutiva decorrem da má formação do grão (a queda das folhas deixa as vagens órfãs), do gasto energético envolvido com a autodefesa e da morte prematura da planta.
A movimentação e metabolização dos fungicidas acompanha o fluxo de água na planta. Em anos com maior disponibilidade hídrica no solo, as plantas movimentam água continuamente, com isso o tempo de proteção conferido pelos fungicidas diminui. Paralelamente, o ambiente no dossel da cultura é mais favorável à infecção. Recomenda-se, então, diminuir o intervalo entre aplicações para 17 ou 18 dias.
Com relação ao tipo de fungicida, há um elenco maior de possibilidades para o tratamento em V5 ou V6, como já discutido anteriormente. Para lavouras mais adiantadas (pré-fechamento ou início de floração em diante), recomendam-se as combinações de triazóis + estrobilurinas. Estas geralmente apresentam maior proporção de estrobilurina que triazol, portanto são muito eficazes na proteção contra a ferrugem. Para melhor controle do oídio e de doenças por fungos necrotróficos (cercosporiose, antracnose, mancha-alvo) sugere-se fazer um reforço com benzimidazol ou triazol, especialmente na aplicação de pré-fechamento/floração. Nossos resultados na UPF indicam acréscimos de 3 a 5 sacos/ha com esta prática. Atualmente existem fungicidas comerciais já formulados em mistura tripla.
A indicação do número de tratamentos deve considerar o ciclo da cultivar, a época de semeadura e o risco de doença. Cultivares com ciclo mais curto ou semeaduras realizadas mais cedo geralmente são expostas a uma menor pressão por doenças foliares, ficando em média com duas aplicações de fungicida por safra (floração e enchimento de grãos). Cultivares de ciclo médio ou semeadas mais tarde normalmente requerem um tratamento a mais (pré-fechamento, R3 e enchimento de grãos). Para a safra 2013, dadas às particularidades mencionadas no início, recomenda-se um manejo mais cauteloso, adicionando-se um tratamento extra na fase vegetativa (V6, por exemplo).
Com as sugestões do Quadro 1, se deseja auxiliar o produtor a minimizar o risco de perdas na lavoura, como aconteceu fortemente em 2010 (Figura 4), e aumentar a sua rentabilidade em uma safra que se projeta toda especial.
Quadro 1. Resumo das principais sugestões para o manejo da ferrugem em 2013.
1. Monitorar a lavoura com frequência para detectar eventual infecção antecipada.
2. Realizar o manejo preventivo a partir do estádio V6.
3. Não deixar áreas sem aplicação de fungicidas; se necessário fazer o repasse com pulverizador costal.
4. Diminuir o intervalo entre as aplicações de fungicidas.
5. A partir do pré-fechamento e floração utilizar formulações de fungicidas que contenham estrobilurina na sua composição.
Figura 4. Desfolha causada pela ferrugem asiática na safra 2010.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 131, setembro/outubro de 2012.