Eficiência do manejo da água pelo agricultor
Com o objetivo de apresentar um pouco de sua experiência de quase 30 anos na área agrícola, mais especificamente os 12 anos na prática da irrigação e seu manejo, o Engenheiro-Agrônomo e produtor rural Claudio Macagnan, participou do Painel ”Manejo de solos e água para altos rendimentos”, durante o 27o Seminário da Cooplantio que aconteceu em Gramado, RS, no mês de junho.
Figura 1. Vista aérea dos pivôs de irrigação na Parceria Agropecuária Nova Era, de Cruz Alta, RS.
”O início da minha experiência na agricultura foi em setembro de 1983, aonde encontramos o primeiro grande desafio: a erosão do solo. Este desafio começou a ser superado em 1987 quando fundamos em Cruz Alta, RS, o Clube Amigos da Terra, Associação da qual participamos intensamente durante 20 anos. Como consequência do trabalho desenvolvido no CAT, participei também da Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha – FEBRAPDP, desde a sua fundação em 1992, em Cruz Alta-RS e durante 12 anos participei da diretoria da desta entidade. Devido a minha experiência na área de irrigação O Clube Amigos da Terra indicou meu nome como representante no Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí, durante seis anos. Atualmente participo da administração da Parceria Agropecuária familiar Nova Era, em Cruz Alta, RS”, conta.
De acordo com Macagnan, a empresa cultiva 1.524 hectares, sendo 712 irrigados por sistema de pivô central em um total de 10 conjuntos instalados a partir de 1999 e finalizados em 2003. O sistema de irrigação da Nova Era possui duas medições em alta tensão, cada uma com 600 KW e 3 pontos de captação de água devidamente licenciados.
”Optamos pela irrigação para quebrarmos o ciclo das seguidas frustrações de safra que enfrentávamos em nossa região e também, para obtermos o crescimento vertical da produção, pois existia e continua existindo a dificuldade de incorporar novas áreas ao processo produtivo, através de arrendamento ou compra (oportunidade e custo alto)”.
Como razões para programar a irrigação o agricultor destaca:
segurança do capital investido em equipamentos, máquinas e no custo produção;
participação em mercados de produtos com alto valor agregado;
programação de lavouras e atividades a médio e longo prazo.
”Em minha opinião é importante mostrar os passos para que o agricultor tenha sucesso na irrigação de suas áreas. Para isso, primeiramente, três perguntas devem ser respondidas pelo futuro irrigante:
a) Tenho acesso à água?
b) Terei energia elétrica, disponível para o projeto?
c) Obterei as licenças ambientais (LP-LI e LO)?”
Para Macagnan, após serem respondidas essas perguntas é momento de focar no projeto, que deve atender os seguintes pré-requisitos pelo agricultor que deseja utilizar um sistema de irrigação na propriedade:
1. Planejamento da irrigação para todas as glebas área, para uma visão global, sempre atento em cumprir a legislação ambiental;
2. Buscar informações, visitando outros projeto já instalados e em funcionamento;
3. Buscar o correto dimensionamento dos equipamentos visando a atender as necessidades das culturas e aproveitando ao máximo o tipo de energia utilizado (elétrica ou diesel).
4. Estabelecer as etapas de instalação de acordo com a resposta financeira de cada gleba a ser irrigada.
”Pela experiência que tivemos na Nova Era, o custo do projeto de irrigação é bastante variável, pois depende da diversidade das situações de cada gleba a ser irrigada (construção de barragens, altura de recalque, tamanho do pivô, entre outros), explica Macagnan.
Como exemplo ele cita, um pivô médio de 80 ha tem, a princípio, a distribuição de custos apresentada na Tabela 1.
Tabela 1. Distribuição de custos para instalação de um Pivô médio de 80 hectares.
De acordo com as informações do BRDE, uma das formas de financiamento disponível é o FINAME PSI:
Dez anos com juros de 5,5% a.a
Dois anos de carência com pagamento somente dos juros.
Amortização em nove parcelas.
O tempo para pagar o investimento depende do critério que for proposto:
1. Pela aquisição do pivô durante o ano, (por exemplo: usando o inverno, o verão e a safrinha), pode ser pago em curto prazo principalmente se os preços das commodities estiverem altos como na última safra.
2. Aproveitando o financiamento, mantendo o capital e diminuindo os riscos se paga nos 10 anos da operação bancária.
Energia elétrica versus óleo diesel
Macagnan considera que, devido a dificuldade e limitação da energia elétrica nas propriedades rurais em nosso Estado, o uso do diesel, muitas vezes é necessário para que se consiga instalar o projeto.
Qual a diferença de custo hoje? Custo da energia elétrica na Agropecuária Nova Era na safra 2011/2012: R$ 200,00/ha. Custo de óleo diesel na Agropecuária Zeilmann (Boa Vista do Incra – RS) na safra 2011/2012 R$ 330,00/ha. Diferença de 65% (somente no custo do tipo de energia)
Cultura irrigada versus cultura de sequeiro
A diferença de custo de produção e da receita obtida em lavouras de sequeiro e irrigada é demonstrada na Tabela 2.
Tabela 2. Diferença de custo de produção e receita obtida em lavouras de sequeiro e irrigada.
Histórico da produtividade de soja: irrigada versus sequeiro
Os registros da produtividade de soja nos dois sistemas de produção no período 2004 a 2012 podem ser vistos na Figura 2.
Figura 2. produtividade de soja nos dois sistemas de produção no período 2004 a 2012.
A soja obteve grandes acréscimos na produtividade em função da evolução da melhoria de técnicas de manejo, ganhos genéticos e, principalmente, do manejo irrigação que otimizou todos os fatores de produção da soja.
A irrigação permite programar atividades essenciais as diversas culturas como, por exemplo, a aplicação de nitrogênio no milho sem a preocupação com possíveis perdas.
”A utilização da irrigação transforma a antiga atividade rural chamada ”Granja” em Empresa Rural, trazendo consigo a necessidade de qualificação da mão de obra nos diversos níveis operacionais e administrativos. Podemos resumir todas essa mudança de postura em uma frase: Quem Sabe Faz!”, finaliza.
Desafios para o futuro:
Administrar possíveis conflitos pela água;
Cobrança pelo uso da água;
Para novos projetos, buscar sempre a construção de barragens, evitando a água de mananciais;
Viabilização dos projetos buscando a produção de culturas com alto valor agregado;
Acompanhamento da Legislação Ambiental em todos os níveis.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 131, setembro/outubro de 2012.