Penetração, mobilidade, ação preventiva e período de proteção de fungicida triazol em folíolos de soja
Erlei Melo Reis1, Tiago Zanatta1 & Oldemar Sheer11Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo - erleireis@upf.br
Introdução
A soja [Glycine max (L.) Mer.] é uma cultura de grande importância à economia do Brasil. Na safra 2011/12 a área cultivada foi de 25 milhões de ha e produção de 75 milhões de toneladas (Conab, 2012). Em setembro de 2012 o preço máximo pago por saco (60kg), em Passo Fundo, foi de R$ 80,00.
Dentre as medidas preconizadas no manejo integrado de doenças da soja, destaca-se o uso de fungicidas para controle de enfermidades causadas por fungos em sementes e em órgãos aéreos (Indicações, 2010).
O termo fungicida protetor é empregado referindo-se a ação do fungicida que impede a infecção do hospedeiro, matando o fungo fitopatogênico no processo de germinação dos esporos depositados na superfície foliar, antes da penetração; na ação curativa o fungicida penetrante nos tecidos foliares determina a morte do parasita após a penetração, porém, antes da manifestação dos sintomas/sinais; na erradicativa o fungicida penetrante determina a morte do fungo após a manifestação dos sintomas/sinais (Hewitt, 1998).
Muitas indagações frequentes feitas pela assistência técnica em relação a absorção/penetração, mobilidade e período de proteção conferido pelo fungicida em folhas de soja ainda não tem resposta. Esse trabalho teve por objetivo quantificar a absorção de fungicida triazol por folhas, a mobilidade via xilema ou floema, o movimento translaminar ou ação de profundidade e o período de proteção do fungicida em folíolos de soja.
Material e métodos
Trabalhos de penetração e mobilidade de fungicidas no interior de folhas necessitam de um indicador da presença/ausência do produto em teste nos tecidos foliares do hospedeiro. Por presença entende-se a concentração inibitória do fungo alvo, pelo fungicida nos tecidos foliares do hospedeiro.
Foi utilizado como ferramenta o fungicida difenoconazol para o qual o fungo do oídio é extremamente sensível. Portanto, o critério indicador da presença/ausência do fungicida foi o desenvolvimento ou não dos sinais de Erysiphe diffusa (Cooke & Peck) U. Braun & S. Takamatsu (Sinônimos: Microsphaera diffusa Cooke & Peck, Trichocladia diffusa (Cooke & Peck) Jacz). O não desenvolvimento dos sinais do fungo, nas áreas aonde foi aplicado, indicaria a sua presença numa concentração inibitória efetiva para prevenir o seu crescimento. O inverso seria verdadeiro.
O estudo foi conduzido com o cultivar de soja BR 16, suscetível ao oídio, cultivado em vasos contendo 2,0 kg de substrato com quatro plantas por recipiente, em casa-de-vegetação, na Universidade de Passo Fundo – RS,
O inóculo de E. diffusa foi obtido em plantas de soja voluntárias em lavouras naturalmente infestadas e transplantadas para vasos mantidos em casa-de-vegetação. A inoculação nas plantas do ensaio ocorreu naturalmente pela circulação do ar garantindo ciclos secundários da doença e a manutenção do inóculo.
O fungicida difenoconazol (cistrans-3-cloro-4-[4-metil-2-(1H-1,2,4-triazol-1-ilmetil)-1,3-dioxolaan-2-il] fenil 4-clorofenil éter) foi utilizado na dose de 20 mL do produto comercial (Score 250 EC) para 100 L de água (ou 200 ml/ha).
Nos estádios V3 e V4, folíolos centrais de trifólios individuais, completamente expandidos foram submetidos à inoculação pelo fungo posicionando-se vasos entre as parcelas, com plantas de soja com abundante esporulação do fungo.
Foram comparados os tratamentos: (1) Testemunha sem a aplicação do fungicida; (2) aplicação do fungicida numa faixa de 2,0 cm de largura previamente demarcada com um pincel marcador na base; (3) no centro longitudinal; (4) no centro transversal; (5) no ápice dos folíolos; (6) num círculo de dois cm de diâmetro no centro do folíolo e (7) aplicação em toda a superfície do folíolo. A ação translaminar (8) foi estuda aplicando-se o fungicida no lado inferior do folíolo num círculo demarcado de 2,0 cm de diâmetro. A suspensão fungicida foi pulverizada com um mini aspersor (Figura 1). Um teste separado constou da deposição de 1,0 mL da suspensão aquosa do fungicida em orifícios no solo e deposição de sementes no mesmo local.
Figura 1. Mini aspersor utilizado na aplicação do fungicida sobre folíolos de soja.
A avaliação constou em se documentar fotograficamente a severidade do oídio no interior das áreas demarcadas comparando-as com a intensidade da testemunha e na área fora do sítio de aplicação do fungicida. No caso da verificação da presença de ação translaminar onde o fungicida foi aplicado na face inferior (Tratamento 8), avaliou-se a severidade na face superior.
Resultados e discussão
A ação protetora do oídio pelo fungicida difenoconazol ficou claramente demonstrada em todos os tratamentos nos quais o produto foi aplicado sobre os folíolos.
O período de ação protetora do fungicida foi de aproximadamente 20 dias quando houve uma retomada no aumento da severidade da doença nas áreas tratadas dos folíolos.
Não se observou visualmente nenhuma indicação da mobilidade do fungicida via floema além das áreas demarcadas, ou presença de concentração inibitória. Apenas houve movimento apical via xilema (Figura 2). Deduziu-se que não houve mobilidade do composto químico, via floema, em folíolos de soja nas condições do experimento.
Figura 2. Movimento de fungicida penetrante (triazol) aplicado preventivamente em folíolos de soja. Intensidade do oídio (Erysiphe diffusa) em folíolos de soja pulverizados com o fungicida difenoconazol em áreas marcadas, onde: a) Testemunha, sem a aplicação do fungicida; b) fungicida aplicado em toda a área do folíolo; c) aplicação na base; d) aplicação na extremidade apical; e) aplicação numa faixa ao longo da nervura central; f) aplicação numa faixa transversal; g) aplicação dentro de um círculo na face superior; h) aplicação dentro de um círculo na face inferior (evidência de movimento translaminar). Áreas verdes, sem a presença de sinais, indicam a presença do fungicida em concentração inibitória do fungo indicador.
Por outro lado, nos folíolos tratados no lado inferior da folha, apresentaram uma redução marcante da severidade na região oposta correspondente no lado superior do folíolo, o que evidencia a ação de profundidade e translaminar do fungicida (Figura 2). Constatou-se a absorção radicular do fungicida conferindo proteção do oídio nos primeiros trifólios da soja.
Um aspecto prático que deve ser considerado em face dos resultados obtidos é que para o controle do oídio em soja, havendo movimento via xilema e ação translaminar do fungicida testado, a cobertura foliar em aplicação no campo deve ser a melhor possível. Nesse caso, Hoffmann (2003) sugere volumes superiores a 150 L de calda/ha. Folhas e áreas da folha que não receberam o fungicida não apresentaram proteção.
O termo sistêmico sugere que um fungicida penetra e se movimenta na planta via xilema (movimento apical) e floema (movimento basipetal) dando a entender que o produto movimenta-se de folhas tratadas para não tratadas. Evidenciou-se que sendo o movimento apenas via xilema, não ocorre a translocação de uma folha para outra, ou que, depositado na parte superior do dossel, movimenta-se conferindo proteção às partes inferiores da planta.
Do presente trabalho se pode concluir que: (a) o fungicida triazol, aplicado na dose de 200 mL/ha, apresenta ação penetrante e mobilidade pelo xilema não havendo evidência de movimento via floema em folíolos de soja; (b) apresenta ação translaminar, absorção radicular e (c) ação protetora de E. diffusa de 20 dias.
Referências Bibliográficas
CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Lavouras. Capturado em 14 de Janeiro de 2012. On line. http://www.conab.go.br.
HEWITT, H. G. Fungicides in crop protection. CAB International, 1998. Chapter 4. Fungicide Performance. p. 87-153.
HOFFMANN, L. L. Tecnologia de aplicação de fungicidas na cultura da soja. Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. COOPAVEL/COODETEC/BAYER Crop Science, 2003. p.48-72.
INDICAÇÕES. Reunião de pesquisa de soja da região sul (30.: 2002: Cruz Alta). Indicações técnicas para a cultura da soja no Rio Grande do Sul e Santa Catarina 2002/2003. 139 p.
REIS, E. M. ; ZANATTA, M. ; BOGORNI, R.; BARUFFI, D. ; REMOR, L. . Velocidade de absorsão de fungicida triazol em folíolos de soja. Revista Plantio Direto, v. Nov/Dez, p. 23-25, 2010.
YORINORI, J. T. Sucessos e novos desafios no controle de doenças fúngicas da soja através da resistência genética, no Brasil. Anais, Congresso Brasileiro de Soja, Londrina, PR. 1999. pp 449. (Resumo).
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 130, julho/agosto de 2012.