Família Raymundi: paixão, persistência, planejamento e precisão
Luciano e Luiz Carlos Raymundi, pai e filho superando pequenas diferenças e andando lado a lado na condução da propriedade.
Depois de décadas de sucessivas tentativas, dúvidas e frustrações no plantio de culturas como trigo e soja e que resultaram em dívidas gigantescas, devido a falta de planejamento, somadas a forte queda de preços (1984) no mercado de grãos, duas grandes secas (dezembro 2004 e 2005) e geada precoce (março 2008) que dizimou plantações de milho e soja, a família Raymundi começou a colher bons resultados com a agricultura. O segredo: orientação técnica, planejamento e aposta na agricultura de precisão.
Apaixonado pela agricultura e cansado de tanta ”má sorte” nos negócios do pai, um dos filhos do advogado e produtor rural, Luciano Raymundi, 59 anos, o administrador Luiz Carlos, 27, foi quem mudou radicalmente a forma de tocar a propriedade e lavouras a partir de 2009, agregando novas culturas e aplicando o que aprendeu na área de gestão na faculdade de Administração. De lá para cá, as dívidas foram sendo pagas e a venda de grãos, nem sempre tão lucrativa, já mostra um resultado 10 vezes maior mesmo plantando em áreas 100% arrendadas e com ano de estiagem prolongada. A família planta lavouras de trigo (20%), soja (55%), milho (30%) e feijão (20%) nos municípios gaúchos de Sananduva e Muitos Capões, Região Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul.
Luiz Carlos conta que se criou na lavoura vendo o pai trabalhar, mas sempre com a sensação de que as coisas não iam para frente. ”Eu lembro que quando criança já estava em cima de uma colheitadeira tomando pó do rosto junto com os funcionários. Quando chegava em casa ainda ia brincar com tratores e máquinas, fingindo que estava plantando. No decorrer de todo esse tempo, da infância até 2009, eu vivi apavorado e com a sensação de nunca ir para frente. Até pensei. Será que nós é que somos azarados? Mas de uma coisa eu tinha certeza: me identificava com a agricultura e não estava ali por acaso ”, diz Luiz Carlos.
”Eu era um granjeiro, não um agricultor”
A paixão do filho pela terra emociona, orgulha e arranca elogios do descendente de italianos Luciano Raymundi. ”Eu não tinha esse sentimento de agricultor como o meu filho. Eu era um granjeiro. Que ia a feiras como a Expointer, via uma máquina, comprava e não sabia como ia operar e tão pouco como pagar. No momento que eu comecei a dar atenção para as ideias do meu filho eu senti que ele era um agricultor. Tinha sentimento pela terra. Outra coisa, eu nunca tive problemas financeiros. Meu pai, Luiz Francisco Raymundi, nunca deu importância para isso eu me habituei da mesma forma. Eu também não media as consequências de certos atos na agricultura e como não trabalhava com reservas, foram surgindo às dívidas. Nessa época, nem passava pela minha cabeça melhorar a produção da área. Até porque de segunda a quinta, eu advogava em São José do Ouro e de sexta a domingo, ia para a lavoura lavrar e plantar. Lembro que tinha um trator Agrale, um arado e uma plantadeira de três discos. Eu também não acompanhava muito de perto o que os funcionários faziam lá na plantação. E na vontade de ampliar a área de lavouras, vieram os financiamentos e eu comecei a ter problemas de gestão. Eu não tinha o conhecimento. E para agravar, as parcerias e conselhos, no geral, tinham o mesmo vício das dívidas. Não davam uma saída, só pioravam. Principalmente diante das incertezas geradas pelos sucessivos planos econômicos lançados pelos governos na época, onde ora a inflação era exorbitante e ora era inflação ”zero”. Não havia como acertar um planejamento” reconhece.
Luciano Raymundi: ”No momento que eu comecei a dar atenção para as ideias do meu filho, senti que ele era um agricultor. Que ele tinha sentimento pela terra”.
A mudança
O administrador Luiz Carlos conta ainda que entre secas e geadas e sem saber identificar onde estava o problema, crescia também o endividamento da família. Foi quando, há três anos, ele decidiu sentar com o pai para conversar pela primeira vez sobre planejamento e ver o que poderia ser feito dali para frente.
”Pensei, chega de errar. Não quero mais saber de dívidas. Então eu sentei com o meu pai para encontrar uma saída e juntos tomarmos uma decisão. Posso dizer que foi a primeira vez que eu comecei a ter uma afinidade com ele para poder falar sobre planejamento e que a gente precisava andar na mesma direção na agricultura. Na época, tomamos a decisão que nos pareceu mais adequada para o momento e enfrentamos as consequências disso. Eu tinha o sonho de que as coisas podiam dar certo. E é o que estamos conseguido desde então. Fazer dar certo”, garante o jovem agricultor.
Luiz Carlos relata que ao invés de vender um pedaço da propriedade, eles decidiram por vender toda a área, pagar as dívidas e ainda fazer sobrar dinheiro. ”Com a venda das terras, conseguimos aumentar o capital de giro para adquirir nova área”.
Luiz Carlos: ”Penso que não adianta ficar tomando chá em casa. Se você não tem o diagnóstico da doença, precisa consultar um especialista, fazer exames, saber qual é o foco do problema”.
Com a vontade de acertar, deixando apenas no passado as lembranças amargas de anos de colheitas nem tão lucrativas, ele conta que o próximo passo foi montar ações de planejamento, adequando financeiro e investimentos e partindo para as prioridades. A gestão financeira ficou com o pai, assessorado pelo filho que também ficou responsável pelo levantamento de preços, compra de produtos e negociação da safra.
Durante vários anos Luciano e Luiz Carlos contaram com assistência técnica de qualidade oferecida pela empresa Agropal. Mas sentindo a necessidade de buscar orientação para iniciar o processo de implantação da agricultura de precisão na propriedade, em 2009 o jovem administrador contratou os serviços da Plantec de Vacaria. Empresa que atualmente é também parceira da Agropal. O processo de implantação da AP iniciou com a correção de pH do solo em 20% da área plantada. Começava aí uma nova faze para os Raymundi.
”Na época fui muito sincero com o Fabiano Paganella, da Plantec, conseguimos estabelecer uma relação profissional série e comprometida e hoje somos como irmãos, confio totalmente no trabalho dele. Eu disse que não queria mais um vendedor na minha propriedade. Eu precisava de alguém que me orientasse para que as lavouras dessem certo. Então, o primeiro dinheiro gasto com a agricultura de precisão foi na correção 100% do pH do solo. Foi feita análise inclusive do calcário que seria aplicado. De cada carga espalhada foi coletada uma mostra.
De nada adiantava comprar máquina nova ou colocar mais adubo sem antes corrigir o solo. Aprendi que primeiro, é preciso fazer o feijão com arroz como se diz. Trabalhamos também a questão do fósforo, potássio e enxofre. A ideia era corrigir a área para produzir mais, planejando o plantio. A agricultura de precisão me deu a certeza de que eu podia trabalhar melhor e com a menor margem de erro. Eu penso que não adianta ficar tomando chá em casa. Se você não tem o diagnóstico da doença, precisa consultar um especialista, fazer exames, saber qual é o foco do problema. Com base no resultado das amostras de solo, e antes mesmo ter colhido resultado de grãos na produção, eu cheguei à conclusão que estava muito atrasado nesse processo. Assim, optei por prorrogar por mais um ano as dívidas com juros mais baixos para fazer agricultura de precisão no restante da área”, conta.
A mesma exigência ele fez aos funcionários que trabalhavam para a família. ”Eu queria gente com boa intenção ao meu lado e que gostava de estar na lavoura”, afirma.
Somente a partir da primeira safra, colhida em 2010, é que os Raymundi começaram a perceber o que é produtividade. ”Com planejamento e focados no clima, lavoura e preço, conseguimos finalmente obter o resultado que tanto esperávamos. Aumentar a produção da lavoura e a rentabilidade nos negócios”, ressalta Luiz Carlos.
No mês de janeiro Luiz Carlos reúne com o Fabiano Paganella e faz o planejamento da lavoura dividindo a área em quatro partes onde o trigo ocupa 20%, milho 30%, soja 55% e feijão 20%. Ele relata ainda, que depois da agricultura de precisão a média de produção mesmo com seca e plantando em terra 100% arrendada em 2011 foi de 67,5 sacos/ha (trigo), 147,75 (milho), 52,39 (soja), 29,03 (feijão preto) e 17,94 (feijão carioca). Como resultado do planejamento e manejo com base em diagnóstico técnico, Luis Carlos registra resultados positivo em todas as culturas.
Para Luis Carlos o sucesso é consequência de uma soma de fatores, ele acontece pela dedicação em todos os processos. ”Não adianta corrigir a área e plantar na época errada ou na velocidade inadequada. Eu manejo a compra de insumos, a fertilidade do solo, a formação de palhada, a rotação de culturas e a semeadura. Acho que a semeadura é um processo que merece muita atenção. Nas minhas lavouras a velocidade de plantio é limitada a 5 km/hora. Também uso monitor de plantio para controlar a população de plantas. Errar no estande é como preparar almoço para 10 pessoas e só receber cinco ou programar o cardápio para cinco e receber 20. Não posso errar a população”.
”Ninguém vive só de soja”
Na época, o jovem administrador sentiu também que a diversificação de culturas era uma boa opção para incrementar renda. ”O planejamento já me orientava claramente para um benefício financeiro na aquisição de insumos e fertilizantes em um período de baixa procura e a importância da rotação de culturas como fonte de geração de renda no sistema”. Então, a família incluiu, ainda em 2009, o cultivo de feijão em 20% da área. Dessa forma, o dinheiro passou a entrar de forma distribuída e, em meses variados, o que permitiu aos Raymundi investir na compra de insumos, dando estabilidade ao negócio. ”Ninguém vive só de soja. Você também não pode ficar só com uma curta janela de entrada de dinheiro. Hoje, em dezembro, o dinheiro vem do trigo; em janeiro, do feijão; em fevereiro e março, do milho e em maio, da soja. Esse ano, por exemplo, garantimos em janeiro a compra do adubo para todo o ano com o dinheiro do feijão”.
Venda programada
Luiz Carlos explica também que a decisão de venda da safra passou a ter tomada com base na programação e não na troca. ”Troca de produtos eu não faço. Se alguém está te propondo isso, é porque está bom para quem está do outro lado. A nossa lavoura é planejada com base em um preço mínimo. Até para eu poder me encaixar na realidade. Na pior das hipóteses, eu não terei prejuízo. Com isso, a gente estipulou que se o preço está dentro do previsto, não esperamos para fechar o negócio no dia seguinte só para ganhar R$1,00 a mais. A Nossa intenção não é essa. Não queremos, por exemplo, vender o saco da soja a R$70,00 ou R$80,00 para pagar R$100,00 pelo adubo. Um exemplo, fixei parte da soja em R$53,00 e o fertilizante em R$ 25,00. Hoje, o preço do fertilizante equivale ao preço de R$90,00 o saco da soja. A compra de insumos é feita com base no diagnóstico técnico”.
Um longo caminho até o acertar o passo
A história da família Raymundi inicia por volta de 1900 em Sananduva, região norte do RS. O avô de Luciano, Carlos Raymundi, veio para o Brasil com uma leva de imigrantes italianos quando tinha sete anos junto com a mãe, que perdeu o marido e mais dois filhos, vítimas da peste negra.
No Brasil, Luigia Zuchinnali, mãe de Carlos, casou-se pela segunda vez com Giovanni Pagnoncelli, também viúvo e com o qual havia viajado para o Brasil trazendo os três filhos da Itália. O segundo marido da bisavó de Luciano passou a se dedicar a atividade de comércio em Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha. Mais tarde, junto com o irmão Giuseppe Saule Pagnoncelli, Carlos Raymundi passa a organizar o transporte e comércio de produtos coloniais para Lagoa Vermelha e Vila de Sananduva.
Por volta de 1918, Carlos já possuía a maior casa comercial da Vila de Sananduva, sendo o sexto maior contribuinte de impostos para a Prefeitura em Lagoa Vermelha. ”Meu avô foi um empreendedor, graças a ele que a comunidade teve energia elétrica pela primeira vez. Meu avô havia instalado um locomóvel para gerar energia para suas atividades de comércio e acabou cedendo para toda a cidade”, conta.
Impressionado pela prosperidade de Carlos Raymundi com o comércio de bens, um grande proprietário de terras da região propôs a permuta da Casa Comercial por uma quantidade considerável de terras entre Sananduva e Lagoa Vermelha. No acordo havia a condição de que Carlos Raymundi não exerceria atividade comercial por dois anos. Mas, sob a nova administração a Casa Comercial não prosperou e acabou fechando as portas ao final de um ano. Então, Carlos reabriu o comércio junto com o filho Luiz Francisco, pai de Luciano Raymundi.
Com a morte do pai, Luiz Francisco, seguiu com pecuária até 1964, após esse período ingressou na agricultura plantando trigo. Ele foi ainda subdelegado e se destacou como líder político em Sananduva, teve 10 filhos, um deles Luciano, que mais tarde se formou advogado, e seguiu na agricultura numa sociedade com o pai e com os irmãos. Na década de 1980 começou a plantar soja e depois em função da idade Luiz Francisco fez a partilha das terras entre os filhos. Com a divisão as áreas tornaram-se pequenas para viabilizar o negócio individualmente. Como Luciano trabalhava como advogado e tinha um pequeno capital que poderia investir, propôs o arrendamento das terras dos irmãos e começou a plantar. ”De 1984 até 1988 até que eu fui muito bem. Passado esse período, acabei investindo na construção de um motel, porque a agricultura parecia que não era o melhor caminho. Como advogado eu não dava atenção para questões importantes como preço, clima e lavoura”, relata Luciano.
Depois veio a separação e divisão de bens, situação que somada com as dívidas já contraídas, fez sobrar poucos hectares para dar continuidade a agricultura. Foi então que em 2002 ele permutou uma parte da terra em Sananduva por outra em Capão Bonito do Sul com a intenção de plantar nas duas áreas. Mas só acabou recebendo a terra somente dois anos depois, em 2004.
”Aí, fui para lá construir galpão e casa. Mas em 2004 veio a seca, e eu tinha duplicado a área plantada e não colhi nada. As reservas, eu tinha investido na construção da casa e galpão novos. Em 2005, quando eu achei que ia me recuperar, outra seca. Enchi tudo de trigo, colhi em dezembro em Capão Bonito do Sul, mas em março não colhi nem soja e nem milho na outra área em função de uma geada precoce. Mais uma vez a falta de planejamento. Se tivesse me planejado, não iria plantar tão tarde e a geada não iria prejudicar lavoura. Resultado: eu tive que pegar soja emprestada, e acabei me endividando. Em 2005, fiz uma renegociação das dívidas que só terminei de pagar esse ano. Teve anos que eu colhia mais de 10 mil sacos e sobrava só uns R$ 20 mil de lucro. Eu não conseguia sair da dívida. Era uma pressão constante”, relembra.
O momento decisivo na história da família foi em 2009, quando o agricultor chegou ao ponto de querer se desfazer de tudo para se livrar das dívidas, honrando com compromissos e assim poder começar uma nova vida e mais tranquila. ”Pensei, tenho maquinário, área arrendada e, nesta época, eu já tinha o meu filho Luiz Carlos encaminhado. Foi então, que decidimos andar juntos, iniciando uma nova fase na agricultura”.
Uma coisa o produtor rural diz que aprendeu. ”O planejamento de reservas é chave para qualquer atividade. Se você não tiver um capital de giro, não vai poder esperar o melhor momento para vender o produto, porque precisa do dinheiro. Era o que acontecia também. Eu achava que a lavoura tinha que se adequar ao dinheiro, enquanto deve ser ao contrário, o dinheiro deve se adequar a lavoura”, conclui.
Para Luciano e Luiz Carlos a sucessão familiar na agricultura acontece naturalmente quando os pais preparam e dão oportunidade aos filhos para a continuidade do negócio seguindo suas próprias ideias. Esse entendimento parte da compreensão de que acontece uma evolução natural em todas as atividades, inclusive na agrícola e que essas mudanças precisam ser acompanhadas, evitando o uso do radicalismo arcaico e egoísta comum entre os mais conservadores que lutam contra as mudanças.
Eles destacam também, a necessidade de se acompanhar a evolução tecnológica na agricultura. Citam como exemplo a implantação da agricultura de precisão no sentido amplo do termo. A diversificação de culturas através da rotação de culturas real. A modernização das máquinas e equipamentos agrícolas utilizados na implantação das lavouras e a utilização de sementes de qualidade, com origem e tecnologia comprovadas.
Finalmente, e como maior ênfase, pai e filho defendem a necessidade de que todas as propriedades tenham uma gestão com visão empresarial do agronegócio. Para eles esses passos garantem boa parte do sucesso na atividade.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 130, julho/agosto de 2012.