Trigo Transgênico


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Publicado em: 01/06/2012

Trigo transgênico: retomada do interesse no cultivo comercial

Elene Yamazaki LauPesquisadora da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, yamazaki@cnpt.embrapa.br

Considerando plantas transgênicas de trigo, até o presente momento, houve apenas uma liberação comercial ocorrida em 2004 nos Estados Unidos, e mesmo assim não chegou a ser colocado no mercado por diversas razões. Uma das grandes questões foi a rejeição dos produtores, com receio de perder os mercados europeu e japonês. Desde este evento, não foi relatada nenhuma outra tentativa de colocar um trigo transgênico no mercado e a cautela foi adotada por vários anos nas atividades de pesquisa desta área. No entanto, segundo o site do GMO Compass , desde 1993 até a atualidade, já foram efetuados mais de 450 testes em campo com trigo geneticamente modificado (identificado pela sigla GM), incluindo experimentos realizados no Brasil pela Coodetec, com trigo contendo o gene P5CS, o qual confere tolerância à seca. Isto significa que houve cautela, mas as pesquisas não ficaram paralisadas.

Uma planta transgênica nada mais é do que aquela que recebeu um ou mais genes (fragmento de DNA) no seu genoma por meio do uso de técnicas da engenharia genética. E este gene, geralmente, codifica para a produção de uma proteína que irá conferir uma característica desejada como, por exemplo, nos casos sendo estudados em trigo, maior quantidade de fibras alimentares, aumento na termoestabilidade da enzima fitase (permite maior absorção de ferro e zinco) e resistência a doenças.

Os relatórios de 2009 a 2011 do ISAAA indicam que a situação do trigo transgênico comercial está se modificando e que está ocorrendo uma retomada das intenções para obtê-lo por parte de setores privados e públicos. Ainda, de acordo com o ISAAA, acredita-se que este produto chegue ao mercado antes de 2020.

Figura 1. Exemplo de obtenção de planta transgênica

A Argentina está buscando obter trigo transgênico e, naquele país, há o questionamento se o mercado brasileiro estaria aberto a este produto, visto que atualmente o Brasil é o principal importador do produto argentino. Na Austrália, embora cercado de polêmicas, foi aprovado em 2011 o teste em seres humanos de um trigo transgênico apresentando baixo índice glicêmico e maior teor de fibras alimentares. Muitas instituições públicas (principalmente de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, China e Índia) e companhias privadas estão buscando inserir por transgenia características como tolerância à seca, resistência a doenças e maior qualidade dos grãos.

Nesse contexto, a Embrapa Trigo tem investido no estabelecimento da técnica e este esforço foi intensificado nos últimos anos. Atualmente, a Empresa estuda incorporar por transgenia em trigo as características de tolerância à seca e ao calor, principalmente visando auxiliar na viabilização do cultivo de sequeiro no Cerrado do Brasil Central. Nesta região há uma expressiva área em potencial para esse tipo de cultivo. Esta é a principal característica sendo buscada por transgenia nessa cultura por dois motivos: preparar-se para as possíveis consequências ocasionadas pelas mudanças globais no clima e a dificuldade de obter esta característica utilizando métodos convencionais de melhoramento.

O caminho a ser percorrido para obter uma planta GM comercial é longo. Após verificar se o uso desta tecnologia é a estratégia mais adequada para incorporar ou alterar características de determinada cultura (por exemplo, a adoção de culturas perenes GM pelo mercado seria difícil, visto que não são retiradas do campo a cada ano). Outro passo é decidir qual característica alvo seria trabalhada via engenharia genética, sendo ela difícil ou praticamente impossível de ser obtida pelo melhoramento convencional. Outro desafio é identificar os genes candidatos e sequências regulatórias (promotores) mais promissores e obter várias plantas transformadas para cada combinação gene/promotor, a fim de minimizar o efeito de posição de inserção do transgene no genoma e da variação somaclonal (alterações decorrentes da cultura in vitro). É necessário dominar a tecnologia que permite transferir genes para células vegetais e obter plantas férteis a partir destas ou contratar um prestador deste serviço. Uma vez obtidas, estas plantas devem ser avaliadas em casa de vegetação e no campo quanto à expressão da característica desejada e com relação aos quesitos agronômicos. Após identificar um evento elite, este deverá ser introduzido em materiais genéticos que possam ser recomendados para os ambientes alvos. Além disto, é preciso realizar testes quanto às características bioquímicas da proteína transgênica e também comprovar se esta planta possui as características fenotípicas, agronômicas e ecológicas idênticas às não transgênicas, em várias gerações, a fim de se obter a liberação comercial junto à CTNBio. Ressalta-se que todos esses procedimentos devem ser realizados em rígidas condições de biossegurança.

É recomendável também que seja criado um sistema que permita segregar os grãos transgênicos dos não transgênicos, a fim de respeitar os direitos de escolha do consumidor e também aproveitar ao máximo o potencial do mercado. Esta segregação vem, aos poucos, tornando-se realidade para a soja, visando o atendimento de mercados que desejam soja não OGM.

Enfim, há um árduo trabalho a ser feito até que seja gerada uma planta GM com potencial comercial. Urge a recuperação desse atraso na pesquisa em trigo no Brasil. Pelo alto custo e também como estratégia de mercado, possivelmente uma aliança entre iniciativa pública e privada seja realmente uma opção favorável e é o que está ocorrendo.

Como ponto a favor da aceitação do trigo GM no mercado brasileiro pode ser citado que, em culturas transgênicas, o Brasil possui posição de destaque no cenário mundial, pois a partir de 2009, tornou-se o país com a segunda maior área cultivada com esse tipo material. De 2010 a 2011, houve um acréscimo de cerca de 4,9 milhões de hectares, totalizando 30,3 milhões de hectares, representando 18,9% de toda a área plantada com culturas GM no mundo, segundo o relatório do ISAAA de 2011. Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil apresentou o maior índice de aumento em área plantada de culturas transgênicas em todo o mundo. De acordo com a estimativa do Céleres, nas lavouras brasileiras, cerca de 85% da soja, 82% do milho e 32% do algodão cultivados em 2011 foram transgênicas.

No caso específico da Embrapa, pode ser citado como um fator favorável à obtenção de trigo GM comercial, a sua experiência recente a seguir descrita. Ao final de 2009, em trabalho conjunto com a BASF, a Embrapa teve participação na liberação comercial da soja tolerante a imidazolinonas junto à CTNBio . Em setembro de 2011, a Empresa obteve a liberação do feijão resistente ao vírus do mosaico dourado. No primeiro caso, o fato de possuir um processo de transformação genética de soja gerado e protegido pela Embrapa foi fundamental. No segundo, destaca-se o fato de ser o primeiro evento aprovado no Brasil não relacionado à tolerância a herbicidas e à resistência a insetos. Como a soja GM já está consolidada no mercado, caso a característica conferida pelo gene seja realmente vantajosa, não haverá problemas para que seu cultivo seja adotado pelos agricultores. Já o feijão, sendo um produto utilizado essencialmente para alimentação humana, ainda há dúvidas se será aceito. O que acontecer com este produto pode ser um indicativo do que pode vir a ocorrer com o trigo quanto à aceitação.

Com relação à segurança na saúde, vale lembrar que plantas GMs são cultivadas comercialmente desde 1996, ou seja, 15 anos se passaram e, pelo menos neste intervalo de tempo, não houve nenhum caso comprovando inequivocamente que os efeitos no meio ambiente, na saúde animal e humana são diferentes da sua contraparte não transgênica. No Brasil, o cultivo ocorre desde 1998 e, da mesma forma, nada que diga o contrário foi comprovado.

Concluindo, após vários anos de penumbra, muitos fatos concretos indicam que a idéia do trigo transgênico comercial está de volta com bastante convicção, mas ainda falta muito trabalho a ser realizado e o Brasil tem aspectos que contribuem para obter este produto.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 129, maio/junho de 2012.