Manejo de doenças em trigo
Carlos Forcelini, Camila Ranzi, Rafel Roehrig, Julio Franz,Denis Braganholo, Rudinei Zanon, Guilherme Ferri, Luana Rossi e Andrea Van RielProfessor e estudantes de graduação e pós-graduação em Agronomia, UPF. forcelini@upf.br
O cultivo de trigo no Brasil, embora um dos mais importantes e tradicionais no Sul do país, representa um desafio o qual menos agricultores estão dispostos a enfrentar a cada ano. Incertezas com relação ao clima, à comercialização e às doenças que incidem sobre a cultura estão entre as maiores preocupações dos produtores. Essas dificuldades tem levado a uma profissionalização cada vez maior da cultura, onde a decisão pelo seu plantio implica na adoção de estratégias de manejo que maximizem a rentabilidade e minimizem os riscos a ela associados. Nesta matéria, desejamos apresentar alguns resultados de pesquisa obtidos na safra 2012, em relação às principais doenças da cultura, com o propósito de contribuir para o manejo e sustentabilidade do trigo no Sul do Brasil.
Ferrugem da folha
O fator ambiental é um dos principais a regular o início e a intensidade das doenças que ocorrem na cultura do trigo. O início de uma epidemia por um fungo causador de doenças depende de dois fatores: a quantidade de esporos que chega até a cultura e a eficiência destes esporos em estabelecer uma infecção bem sucedida. Temperaturas acima das normais históricas ou chuvas mais frequentes no início do ciclo da cultura potencializam a ação do patógeno. Situações como estas são frequentes no início do ciclo da cultura, especialmente nos meses de julho e agosto, como verificado em 2007, 2008 e 2011. No último ano, por exemplo, as chuvas somaram quase 600 mm (dados de Passo Fundo) em julho e agosto. A consequência prática deste fato foi a ocorrência mais precoce da ferrugem da folha, já no início de agosto, uma antecipação de quase duas semanas em relação ao seu aparecimento normal. Ao final da safra, a severidade da ferrugem da folha foi a maior observada nos últimos anos, como ser verificado na Figura 1, correspondente a plantas não tratadas com fungicida.
Figura 1. Severidade da ferrugem na folha bandeira (centro) e aspecto das áreas com (esquerda) ou sem (direita) aplicação de fungicidas. UPF, 2011.
Os programas de manejo baseados em aplicações de fungicidas a partir do final do perfilhamento ou início da elongação foram, em sua maioria, curativos, ou seja, aplicados com a ferrugem já presente. Em situações como esta a eficácia do controle é menor, especialmente quanto ao período de proteção conferido à planta, e o saldo não controlado é transferido para as aplicações seguintes, que também terão mais dificuldades. O resultado foi tal que sobrou ferrugem, especialmente na folha bandeira, após a terceira e última aplicação posicionada na floração.
Em nossos experimentos na UPF, os programas de aplicação iniciados ainda durante o perfilhamento do trigo apresentaram rendimento médio de grãos 9,5 sacos/ha maior que aqueles iniciados na elongação (Figura 2, ano 2011). Essa resposta foi menor (3 sacos/ha) em 2010 devido à menor pressão de doença, porém ainda significativa.
Figura 2. Rendimentos de grãos de trigo (sacos/ha) obtidos com programas de aplicação de fungicida iniciados no perfilhamento ou na elongação, em 2010 e 2011.
Outros fatores como o uso de maior população de plantas e cobertura nitrogenada podem contribuir para o aumento da doenças, especialmente a ferrugem e o oídio, que são causadas por fungos biotróficos, mais ativos em tecidos ricos em nitrogênio (N). Contudo, a resposta da planta ao controle com fungicidas também é superior em plantas com maior aporte de N. Nos experimentos conduzidos em 2011, combinando aplicações de fungicida com quantidades variáveis de uréia (100, 150 e 200 kg/ha), o rendimento de grãos foi proporcional ao incremento em nitrogênio (Figura 3). Com o alto custo dos fertilizantes nitrogenados em 2012, é provável que alguns produtores pensem em diminuir o seu uso nesta safra. Contudo, é importante salientar que plantas bem nutridas respondem melhor ao manejo das doenças.
Figura 3. Rendimento de grãos de trigo (sacos/ha), nos cultivares Mirante e Fundacep Horizonte, combinando três aplicações de fungicida com níveis de nitrogênio em cobertura. UPF, 2011.
Manchas foliares
As manchas foliares, especialmente a mancha-amarela, foram novamente importantes em 2011. Seu início também foi favorecido pela maior frequência e distribuição de chuvas no início do ciclo da cultura. Apesar do mês de setembro ter se caracterizado por pouca chuva (47 mm), a doença continuou evoluindo. Diferentemente da ferrugem, cujo aumento da epidemia depende da formação de novas lesões a partir de esporos, as manchas foliares crescem mais pelo aumento do tamanho das lesões existentes, processo mediado pela produção de toxinas e mais influenciado pela temperatura. Pode-se dizer, então, que as infecções iniciais das manchas (dependentes dos esporos) ocorreram sob condições favoráveis de chuva em julho e agosto, mas a maior a evolução da doença (através da expansão da lesão) ocorreu em setembro, sob temperaturas mais altas. Nesse processo há grandes diferenças entre cultivares, como pode ser observado nas Figuras 4 e 5.
Figura 4. Sintomas da mancha-amarela do trigo mostrando diferenças em susceptibilidade entre cultivares de trigo.
Figura 5. Tamanho da lesão da mancha-amarela do trigo, em diferentes cultivares, aos dois (inicial) e 21 dias (final) após a inoculação. UPF, 2011.
O controle das manchas foliares é mais dependente dos fungicidas triazóis do que das estrobilurinas. Aplicações de fungicida triazol (ou sua mistura com estrobilurina) após o estabelecimento do fungo na planta conseguem reduzir o processo de expansão das lesões, o que não é possível somente com estrobilurinas. Contudo, a ação do triazol diminui gradativamente à medida que a aplicação é retardada, comportando-se como a estrobilurina quando utilizado em intervalos iguais ou maiores a dez dias após o estabelecimento do fungo na planta, o que reforça a necessidade de controlar a doença tão logo detectado seus primeiros sintomas.
No Brasil, os fungicidas comerciais são desenvolvidos, prioritariamente, para serem eficazes no controle da ferrugem da soja, visto que esta é a principal doença de uma cultura que ocupa aproximadamente 25 milhões de hectares, área dez vezes maior a do trigo. Em geral, as principais misturas comerciais de estrobilurina + triazol apresentam uma proporção de 2,5: 1. Sua utilização em trigo controle muito bem a ferrugem, porém não as manchas foliares e a giberela, que são causadas por fungos necrotróficos, e requerem mais triazol. Dada à composição maior em estrobilurina, aumentar a dose dos fungicidas comerciais não é a melhor solução. Resultados mais satisfatórios são obtidos com reforço de triazol em ”mistura de tanque”, especialmente com o propiconazol. Outros triazóis como o tebuconazol e o epoxiconazol também podem ser utilizados. A quantidade de fungicida comercial a ser utilizada pode variar de 0,3 a 0,5 L/ha (Figura 6), sendo definida em função da necessidade de controle das manchas, a qual varia em função do cultivar utilizado, do clima e do sistema de cultivo (monocultura ou rotação). Recomenda-se esse reforço para controle das manchas foliares nas aplicações realizadas na elongação e emborrachamento. Caso a doença ocorra já na fase de perfilhamento, sugere-se antecipar a primeira aplicação e realizá-la com um fungicida triazol.
Figura 6. Rendimento de grãos de trigo, cultivar Fundacep Horizonte, em função da adição de triazol, em diferentes doses, à primeira e segunda aplicações de fungicida. UPF, 2011.
Oídio
Atualmente são poucos os cultivares de trigo mais suscetíveis ao oídio (Ex. Guamirim, Marfim e Mirante), por isso a doença tem sido menos importante em relação a outras que afetam as folhas, como a ferrugem e as manchas. Em 2011, o oídio se desenvolveu mais em setembro, devido à menor frequência de chuvas. A descontinuidade de fabricação ou comercialização dos fungicidas triadimenol (Bayfidan) e fempropemorfe (Corbel) comprometeu o controle do oídio em trigo e cevada, uma vez que os demais triazóis apresentam eficácia mediana sobre a doença. Por este motivo, as aplicações devem iniciadas logo que percebido o oídio no campo; caso contrário, o controle será insatisfatório. A Tabela 1 apresenta resultados com o controle do oídio e de manchas foliares em 2011, na UPF.
Tabela 1. Controle do oídio e manchas foliares e seu impacto sobre o rendimento de grãos em trigo Marfim. UPF, 2011.
Giberela
A giberela é doença de grande importância na cultura do trigo. Sua ocorrência nas espigas compromete a produtividade e a qualidade do trigo e seus derivados, devido à presença de micotoxinas produzidas pelo fungo durante o processo de colonização dos tecidos. A ocorrência da giberela é dependente de molhamento prolongado das espiguetas em floração. Em 2011, na maioria das lavouras de trigo, as plantas floresceram em setembro e início de outubro, período de pequena ocorrência de chuvas e molhamento de espigas insuficiente para a giberela. A incidência da doença foi baixa e a qualidade do trigo alta: peso do hectolitro de 80 a 84 kg/100 L e teores de micotoxinas mais baixos.
O manejo da giberela é bastante dependente do estádio da cultura quando da aplicação dos fungicidas. Em trabalho realizado por Casa et al. (Revista Ciência Rural, 2007), com dois fungicidas triazóis e uma mistura de triazol + estrobilurina (Tabela 2), melhor controle da giberela foi obtido com a aplicação dos fungicidas no início da floração.
Tabela 2. Eficácia de controle da giberela e contribuição ao rendimento de grãos com aplicação de fungicidas em diferentes estádios das plantas1
Como a giberela também depende do molhamento, para o fim da aplicação do fungicida deve-se combinar o estádio da cultura com a condição do tempo. Em trigos em floração, havendo previsão de chuvas, sugere-se a aplicação de fungicidas um a dois dias antes das mesmas. Em cultivares de trigo com ciclo mais longo, o intervalo de tempo entre a segunda aplicação e a terceira (floração) pode ultrapassar três semanas e favorecer o aumento das doenças foliares. Em situações como estas, pode-se optar por realizar a terceira aplicação (triazol + estrobilurina) 18 a 20 dias após a segunda, e fazer uma extra de triazol sozinho uma semana depois. Esta estratégia também é útil em situações de chuvas frequentes na floração.
Perspectivas para 2012
Toda nova safra começa pela semente. Em 2012, as sementes de trigo e cevada analisadas pela UPF apresentaram menor incidência por Fusarium graminearum (8 a 10%) e maior por Drechslera spp. (12 a 20% no trigo) e Bipolaris sorokiniana (até 58% na cevada). Fusarium é oriundo de grãos giberelados e causa podridão de raízes. Como o ano de 2011 não foi favorável à giberela, a incidência do fungo é pequena nesta safra, com reflexos positivos na qualidade das sementes e na sanidade das raízes no campo.
Por outro lado, as sementes estão com maior incidência de fungos causadores de manchas foliares (Drechslera e Bipolaris). Apesar do tratamento de sementes contribuir para a redução destes fungos, dificilmente ele controla 100%, especialmente quando a incidência é mais elevada, como no caso da cevada. Sugere-se, portanto, monitoramento mais assíduo dos estádios iniciais do trigo e da cevada para verificar a necessidade de aplicações foliares de fungicidas visando o controle das manchas.
O mês de junho e o início de julho de 2012 apresentaram condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças nas culturas de inverno. Junho teve precipitação 50 mm acima da sua normal histórica e a temperatura vem se mantendo também acima da média para a mesma época do ano. Como mencionado no início desta matéria, estes dois fatores potencializam a ação dos fungos causadores de doenças, resultando em infecções mais precoces, como já observado para manchas foliares, na cevada e no trigo. A ferrugem da folha também pode se favorecer desta condição de maior temperatura. Nestas situações, uma aplicação de fungicida no perfilhamento da cultura pode ser de grande valia, podendo-se optar por triazol no caso de manchas ou mistura de triazol + estrobilurina se o alvo for a ferrugem.
As previsões climáticas também indicam temperaturas mais elevadas em setembro e ocorrência normal de chuvas. Por isso, esperam-se condições mais favoráveis à giberela nesta safra. Ressalta-se a necessidade de posicionar a aplicação de fungicidas em função do estádio da cultura e da ocorrência de chuvas. Estando o trigo em floração e havendo previsão de chuvas, sugere-se a aplicação com um ou dois dias de antecedência.
No monitoramento da lavoura, a avaliação das doenças deve considerar sempre a condição do tempo, anterior e posterior à avaliação. Se esta foi precedida por períodos de temperatura e molhamento foliar favoráveis às doenças, é provável que as infecções já estejam em andamento. O mesmo pode acontecer em uma situação de chuvas nos dias que seguem à avaliação. Em ambos os casos pode-se recomendar a aplicação de fungicidas, mesmo não havendo a presença de sintomas de doenças foliares.
Os fungicidas em trigo apresentam controle satisfatório por um período de 18 a 20 dias. Se os mesmos forem aplicados curativamente, o período de proteção será menor. Por isso, o programa de aplicações mais utilizado envolve três tratamentos com fungicidas, tendo como base misturas de triazol + estrobilurinas, o qual pode ser modificado para atender a necessidades específicas de cultivar, clima, e sistema de cultivo. Como sugestão, apresentamos três programas de aplicações que podem ajudar ao produtor a manejar melhor as doenças do trigo.
Quadro 1. Sugestões de programas de aplicação de fungicidas para controle de doenças em trigo.
Publicado na Revista Plantio Direto, edição 129, maio/junho de 2012.