Família Fridrich


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Publicado em: 01/06/2012

Família Fridrich: união, pioneirismo e foco no fazer bem feito

Marcos Roberto Fridrich, agricultor no Rio Grande do Sul, conduz junto com o pai Edelmar Fridrich e os irmãos André, Rubens e Luiz, duas propriedades, uma no município gaúcho de Ajuricaba e outra em Uruçuí, no Piauí.

A história da família Fridrich no Brasil iniciou com Ludwig Friedrich, bisavô paterno de Marcos, vindo da Europa em 1902. Ainda muito jovem ele trouxe na mochila algumas mudas de roupa, muita coragem, disposição para o trabalho e espírito empreendedor. ”Meu bisavô veio da Alemanha com 15 anos junto com outras famílias que emigravam para o Brasil”, conta Marcos. De acordo com os relatos de Reinhard Friedrich, avô de Marcos, uma família que emigrava da Alemanha para o Brasil perdeu um filho adolescente antes da viagem e o bisavô Ludwig usou a documentação desse rapaz para viajar junto com a família.

A chegada ao Brasil aconteceu no Porto de Santos, no Estado de São Paulo, depois os imigrantes alemães vieram para o Rio Grande do Sul. O bisavô de Marcos se instalou em Ajuricaba, na Linha 28, constituindo família e permanecendo na região. Mais tarde seu filho Reinhard, avô de Marcos, construiu com os cunhados uma olaria na propriedade que pertence à família há 60 anos e que hoje é a sede da Faxinal Sul.

Vista área da sede da Faxinal Sul, em Ajuricaba, RS.

O envolvimento com a agricultura começou com o avô paterno Reinhard que cultivava apenas para subsistência da família, o direcionamento para agricultura empresarial foi dado por Edelmar Fridrich, no final da década de 1960, quando a principal cultura nas propriedades rurais do Estado era o trigo.

O pioneirismo e certa ousadia nas atividades, sempre estiveram presentes. ”Nossa família nunca esteve isolada, sempre participou das iniciativas para a melhoria da agricultura da região”. Um exemplo disso é o Clube Amigos da Terra de Ajuricaba que foi fundado em 1987 tendo como ativo participante do grupo Edelmar Fridrich, que também foi um dos pioneiros no plantio direto da região.

Marcos lembra que o principal motivo para adoção do plantio direto foi a erosão que assolava a grande maioria das propriedades rurais no início da década de 1980. Além do grave problema de erosão, as horas gastas no preparo do solo para o plantio também motivaram a adoção. ”Lembro que quando ainda criança ajudava nas atividades da lavoura, e se o plantio da soja era finalizado antes do dia 25 de dezembro, se festejava. Hoje se planta com muita folga ainda no mês de novembro. É um ganho extraordinário de tempo” exemplifica.

À esquerda com a mãe Edela (já falecida) em Ajuricaba, no início da década de 1980, e na direita em Urucuí, Piauí, com o pai Edelmar Fridrich, os filhos Marcos, André (em pé) e Rubens e Luiz trabalham em sistema de parceria.

A primeira plantadeira para fazer plantio direto no inverno foi uma Imasa, adquirida em 1984. No verão parte da área tinha o solo preparado e na outra se tentava fazer plantio direto. Para os Fridrich esse foi um período de aprendizado. De acordo com Marcos, a partir de 1989 toda área da Faxinal Sul, inverno e verão, teve plantio direto continuo. ”No início as plantas daninhas foram limitantes, pois o glifosato era muito caro e usávamos Gramoxone que não fazia um controle adequado, as invasoras rebrotavam depois que a cultura estava estabelecida. Nessa fase, dois nomes que merecem destaque são o do Gilberto Aiolfi, Engenheiro-Agrônomo da ICI Agrícola, e do Pesquisador José Ruedell, da Fundacep-Fecotrigo (hoje CCGL Tecnologia) que incentivaram muito o sistema aqui na Região, eles deram atenção aos agricultores que buscavam solução para os problemas iniciais do plantio direto”.

Marcos relata que a primeira semeadora Imasa fazia bem o plantio do trigo e nas culturas de verão trabalhava com certa limitação, mas eles não desistiam do plantio direto, continuaram buscando alternativas e fazendo adaptações. ”Tivemos também a fase da plantadeira ”Frankenstein”. O chassi de uma máquina, a caixa de inox de outra comprada no ferro velho e as demais adaptações feitas no ferreiro, isso em meados da década de 1980. No início de 1990 adquirimos uma semeadora hidráulica Semeato. Em 1994 uma PSE-8 da Semeato e depois uma Stara. Estamos na quarta plantadeira de plantio direto de verão na propriedade”.

A importância do milho

Na busca pelo conhecimento e troca de experiências com outros agricultores o grupo fundador do Clube Amigos da Terra de Ajuricaba organizou uma viagem ao Paraná no final da década de 1980,o destino foi a Região dos Campos Gerais.

Na ocasião fizeram uma visita a Manoel Henrique Pereira, o Nonô, um dos pioneiros do plantio direto no Brasil. Dessa visita à lembrança de um comentário de Nonô Pereira ao abordar a rotação de culturas ficou marcado na lembrança. Nonô disse em tom de brincadeira que os gaúchos eram mais ricos e podiam se dar ao luxo de esperar a colheita da soja para fazer o caixa da propriedade, já os paranaenses plantavam milho porque precisavam colher no início do ano e garantir um pouco de dinheiro. Todos voltaram motivados para inserir a cultura em suas propriedades, pois ficaram impressionados pelo fato do Paraná colher 100 sacos de milho por hectare, produtividade considerada alta para aquela época.

Os agricultores que participavam do Clube Amigos da Terra de Ajuricaba adotaram plantio direto com rotação de culturas como o princípio do fazer bem feito, não abriram mão disso, independente de clima ou do preço, o milho está presente nas propriedades. ”No inicio dos anos 1990 nossas propriedades já tinham 100% de plantio direto, parecendo ilhas de solo coberto com palha. Depois eram as ilhas de terra vermelha que apareciam na paisagem e só mais tarde o plantio direto em toda região, mas infelizmente sem rotação de culturas”, lamenta Marcos.

Quando os desafios iniciais do plantio direto estavam sendo superados os agricultores foram surpreendidos pelo aparecimento de uma praga até então desconhecida nas lavouras da região. ”Tivemos uma fase difícil com o Tamanduá da Soja. A presença dessa praga foi o fator que solidificou a rotação de culturas na propriedade a partir de 1990. Na safra de 1989 o tamanduá da soja comeu quase 50% da lavoura. Colhemos 25 sacos/hectare e na safra anterior tínhamos colhido 44 sacos. Ninguém conhecia o problema ou sabia o que estava acontecendo nas lavouras”, lembra.

De acordo com Marcos, na safra seguinte, verão de 1990, foi feito o plantio do milho para o controle do Tamanduá da Soja, mas a seca acabou com a lavoura e os Fridrich tiveram que recorrer ao Proagro. ”O lucro de um ano foi embora com o Tamanduá da Soja e no ano seguinte perdemos com a seca, tanto no milho como na soja que teve o rendimento reduzido pela falta de água. Dois anos seguidos sem renda. Conseguimos recuperar um pouco do prejuízo na safra de 1992, com o bom rendimento das lavouras de inverno e verão”.

Colheita de milho safra 1991, no Rio Grande do Sul problemas com estiagem, produtividade de 3.600 kg/ha e colheita de milho safra 2012, no Piauí, produtividade média de 9.000 Kg/ha.

Nos registros da propriedade consta que em 1995 foram plantados 37 híbridos de milho para teste. Essa foi uma ação do CAT para estimular a adoção da rotação de culturas no plantio direto da região. ”Faz parte da história da família testar, validar, buscar o novo, adotar as tecnologias disponíveis para melhorar a produção”.

Para Marcos o milho apresenta muitos benefícios, como exemplo ele cita o aumento da matéria orgânica no solo, o controle de pragas e doenças e plantas daninhas, a cultura também representa uma fonte de renda adicional para a propriedade, otimiza o uso de máquinas e a distribuição da mão de obra, reduz os riscos de ter uma única cultura na safra de verão.

Na propriedade em Ajuricaba, a principal cultura para adubação verde é o nabo forrageiro que em algumas situações é usado em consórcio com a aveia. ”Para plantar o milho do cedo em agosto não semeio a cobertura após a colheita de soja, assim exponho o azevém resistente e consigo fazer um bom controle dessa planta invasora. A semente do milho vai para um solo sem tanta cobertura, aquece mais rápido garantindo bom desenvolvimento inicial da cultura, pois nessa época a umidade e o solo frio não favorecem a germinação do milho. Depois da colheita as áreas recebem nabo forrageiro para cobertura antecedendo a cultura do trigo. Esse é um pousio consciente que tem razões bem específicas” explica Marcos.

Uma ferramenta bastante utilizada é o registro das informações, esse hábito passou do pai Edelmar para os filhos que desde 1980 registram tudo o que acontece na propriedade. ”Temos o registro do volume de chuvas na propriedade desde 1980 e é muito interessante analisar a variação de um ano para outro. Lembro que há 10 anos no mês de março a soja estava começando a fase de maturação. Hoje na primeira quinzena de março já se colhe soja no Rio Grande do Sul. Nas minhas anotações percebi que a produção de soja tem relação muito estreita com o volume de chuvas nos meses de janeiro/fevereiro e março. Isso é muito útil para perceber a real evolução que se tem no sistema. Numa análise superficial, em 15 anos mesmo com o plantio direto, rotação de culturas e uso das tecnologias disponíveis, as produtividades não subiram tanto. Mas, analisando de forma atenta os gráficos, é possível perceber que se está conseguindo bons índices de produtividade com um volume de chuvas muito menor. Estamos colhendo mais tendo 60% da chuva de anos anteriores. Eu atribuo essa eficiência ao aperfeiçoamento continuo dos processos envolvidos na produção, principalmente a rotação de culturas, claro que também se deve considerar a fertilidade do solo, a genética, a semeadura bem feita no momento certo e a adequada proteção de plantas”.

Gestão da propriedade

Apesar do pouco estudo, Marcos faz com eficiência a gestão administrativa e financeira das propriedades junto com o irmão Rubens. ”É uma parceria agrícola entre o pai e os quatro filhos. São cinco sócios. Dois que cuidam mais da parte financeira/administrativa e os outros três atuam na operacional. Considero o controle e a gestão da atividade agrícola fundamental. Entre nós as decisões só acontecem em consenso, pois enquanto há grande divergência de opiniões não se toma decisões importantes. Sempre se busca conciliar e decidir em conjunto”.

Marcos Fridrich é favorável a racionalidade no momento de adquirir máquinas e equipamentos. ”Hoje existe uma grande ”toxidez de ferro nas propriedades”, não no solo. É muita máquina. Mesmo que o agricultor consiga pagar, o exagero na aquisição de maquinário está sugando a renda e a capacidade de investimento, prejudicando a eficiência e a busca pela qualidade da produção em si. Muitas vezes máquinas e equipamentos ficam subutilizados. Ter um trator que trabalha apenas 200 horas por ano é um exagero. Por isso, vejo como próximo desafio para os agricultores à aquisição e uso mais racional de máquinas e equipamentos. Hoje eles têm custo e tamanhos cada vez maiores. A menor colheitadeira de hoje é maior que a maior de 20 anos atrás. Para produzir não adianta ter um trator grande 4 x 4, é preciso garantir boa semeadura, boa pulverização e ter muito conhecimento aplicado na lavoura, esses sim são fatores que estão envolvidos de forma direta na produção e na rentabilidade da propriedade”.

Linha de semeadura? Na Faxinal Sul semeadura quase invisível da cultura do trigo, só quem plantou sabe onde ela está.

Alargando fronteiras

Em 1994 Marcos Fridrich fez uma viagem de reconhecimento pela Região do Cerrado. O roteiro contemplou regiões agrícolas dos Estados da Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão. O objetivo foi conhecer a agricultura do norte do país e prospectar áreas para uma possível expansão da atividade. Em 1999 a Família Fridrich adquiriu terras em Urucuí, Piauí, e iniciou um processo de mudança.

”Eu tinha o sonho de fazer agricultura bem feita desde o início, em um solo que ainda não tivesse sido cultivado. Outro motivo que nos levou a buscar áreas fora do Rio Grande do Sul é que as possibilidades de ampliação em Ajuricaba ou mesmo no Estado eram praticamente nulas. Não existem mais terras à venda e quando aparece o custo por hectare é muito alto. Como somos quatro irmãos o jeito foi alargar as fronteiras. Uma área nova apresenta dificuldades iniciais, mas o custo de aquisição é bem menor. É preciso investir e trabalhar muito para obter retorno no médio e longo prazo nessas situações, mas vale a pena”, considera.

Momento decisivo na história da família em julho de 2000, o caminhão carregado com a mudança, tratores, implementos e sonhos, rumo ao Piauí.

Marcos conta que no momento da aquisição já foi registrada a reserva legal e somente depois da licença do IBAMA foi feito o desmate na propriedade. Em 2000 os irmãos Ruben e Luiz Alberto Fridrich mudaram para o Piauí para iniciar os trabalhos de implantação da lavoura. ”Nos primeiros anos com plantio convencional, na abertura das áreas o arroz fazia a rotação com soja. Agora estamos com 100% de plantio direto e com milho presente na rotação de culturas” comemora.

Evolução dentro do Sistema

Com o passar do tempo o plantio direto começou a andar sozinho, as dificuldades diminuíram e reduziu a necessidade dos encontros para discutir o andamento do sistema propriamente dito. Começaram a surgir outros tipos de eventos, mais focados em demandas específicas dos agricultores. Em Ajuricaba o mesmo grupo que formava o CAT originou uma sociedade denominada Condomínio Amigos da Terra e mais tarde Cerealista Amigos da Terra. Esse grupo que anteriormente se reunia para discutir o problema da erosão, da fertilidade do solo, do manejo da palha, começou a falar de armazenagem, de comercialização, de agregação de valor a produção e se organizaram em uma sociedade para conduzir essas questões.

Atualmente os Amigos da Terra tem estrutura de armazenagem, Unidade de Beneficiamento de Sementes com marca própria. Reúne em torno de 50 sócios com áreas que variam de 50 a 200 hectares. O núcleo desse grupo é formado pelos agricultores que fundaram o Clube Amigos da Terra de Ajuricaba, no final da década de 1980.

São agricultores que fazem um plantio direto de qualidade, não abrem mão da rotação de culturas e buscam agregar valor a produção e obter o máximo de rentabilidade na propriedade. ”Muitas vezes o crescimento por mérito é motivo de questionamentos de pessoas que não entendem a origem das coisas. Muitos integrantes do grupo, alguns com 75 anos de idade, trabalham do clarear do dia até às 22 horas durante a safra. Todos trabalham muito, se preocupam em fazer bem feito e o resultado que estão tendo é mais que merecido. É o bônus pelo esforço, pelo trabalho sério e honesto”, reforça Marcos Fridrich.

É possível perceber que o pioneirismo está presente nesse grupo de agricultores, primeiro foi o desenvolvimento do plantio direto, depois a armazenagem e comercialização de grãos, agora a produção de sementes e a agregação de valor através de uma marca própria. São agricultores que estão à frente, essa é a característica mais marcante e a família Fridrich, como não poderia deixar de ser, também participa da iniciativa.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 129, maio/junho de 2012.