Manejo de Plantas Daninhas em Pós-Emergência


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Publicado em: 01/04/2012

Manejo de plantas daninhas em pós-colheita da soja

Nilvo AltmannEngenheiro-Agrônomo, Diretor Técnico da Sigma Assessoria e Consultoria E-mail: nilvo@sigmaac.com.brAutor do livro: ”Direto no Cerrado: 25 anos acreditando no sistema”.

1 Manejo pós-colheita

O sucesso no manejo de invasoras se inicia pelo manejo das mesmas no final do ciclo das culturas antecessoras. Qualquer deslize nesse manejo compromete posteriormente o controle de invasoras na cultura sucedânea.

O manejo pós-colheita é uma operação realizada para evitar a proliferação de invasoras, de pragas e de doenças na entressafra. Ou seja, é uma prática indispensável ao manejo integrado de invasoras, pragas e doenças diminuindo o potencial de inóculo na entressafra, fazendo com que as culturas sucedâneas tenham uma vantagem competitiva em relação às lavouras onde a operação não tenha sido feita.

A figura 1 mostra uma lavoura com a proliferação de fedegoso (Senna obtusifolia), invasora de difícil controle, dificultando o manejo da invasora na próxima cultura.

Figura 1. Proliferação de fedegoso (Senna obtusifolia) dentre outras invasoras na lavoura.

2. Ferrugem da soja e o vazio sanitário

O manejo de plantas daninhas em pós-colheita é imprescindível para o controle de tigueras visando atender ao vazio sanitário, que é uma medida legislativa que consta em deixar a lavoura livre de hospedeiros e da cultura da soja, para evitar que o fungo da ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi) se multiplique ou sobreviva na entressafra. Nos estados da Bahia e Maranhão, o vazio sanitário compreende o período de 15/agosto a 15/outubro, no Mato Grosso de 15/junho a 15/setembro, e nos estados de Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, de 01/julho a 30/Setembro.

A sua eficácia na redução da pressão de doenças é indiscutível: em anos em que o produtor adere ao vazio sanitário, não só para atender a legislação, mas sim para acabar com as sojas tigueras, ocorre uma condição de baixa pressão da doença, incidindo somente na fase reprodutiva inicial. Ao contrário, em anos em que é realizada somente para atender a legislação vigente, a doença já se manifesta nos estágios vegetativos (V5 em diante).

Portanto, negligenciar o vazio sanitário, além das penalidades legais, submete o produtor a dar um ”tiro-no-pé” e pagar muito caro pela atitude ilícita, tendo um custo de produção maior do que se tivesse realizado o vazio sanitário de acordo com as recomendações técnicas e a legislação em vigor.

Basta fazer a conta do que é menos oneroso: uma dessecação pós-colheita ou o risco de perder produtividade mesmo com uma a duas aplicações adicionais de fungicidas para o esperado efeito curativo da doença que nunca obtém resultados satisfatórios.

3. Manejo pós-colheita e a proliferação de nematoides

Além das tigueras das culturas comerciais suscetíveis, diversas são as invasoras que hospedam nematóides e os proliferam de uma safra à outra (tabela 1).

Tabela 1. Relação de algumas invasoras hospedeiras de nematoides.

O manejo em pós-colheita é imprescindível para o controle de invasoras e tigueras que são hospedeiras de nematoides, especialmente o das lesões (Pratylenchus brachyurus) que está causando epidemias nas regiões produtoras no Cerrado.

Por exemplo, a Crotalaria spectabilis apresenta fator de reprodução zero para o nematoides das lesões (P. brachyurus), controlando praticamente a totalidade dos nematoides dessa espécie. No entanto, quando nessa cultura de cobertura e sanidade do solo, não se conseguir controlar as invasoras suscetíveis, a proliferação será inevitável e a população de nematoides continuará alta e proporcional à invasora e não à cultura de cobertura.

Portanto, para o manejo de nematoides, também é imprescindível o controle de invasoras na entressafra, inclusive durante o cultivo de culturas que visem o controle dos nematóides.

Figura 2. Proliferação de soja tiguera entre plantas invasoras na lavoura.

Figura 3. Proliferação de soja tiguera no meio das invasoras na lavoura de milho safrinha.

4. O manejo pós-colheita e a safrinha

A safrinha, além de ser uma forma de agregar renda extra ao produtor, é uma excelente forma de financiar a obtenção de material orgânico no sistema plantio direto, cuja demanda em palha varia de 10 a 16 ton/ha/ano.

No entanto, além de se buscar culturas e cultivares resistentes às doenças e nematoides incidentes nas culturas de verão, devem-se controlar também as invasoras e soja tiguera para evitar a proliferação destas na safrinha.

Dessa forma, a safrinha vem a dar maior sustentabilidade ao sistema de produção, ao contrário de quando ela é realizada sem critério técnico-econômico.

5. Uso de invasoras para a cobertura de solo em plantio direto

Nos primórdios do plantio direto no Cerrado, a ausência de uma cultura de cobertura adaptada à região, levou à adoção do plantio diretamente sobre a palhada rasa e irregular de invasoras presentes na área. Sucederam-se resultados muitos bons e alguns tropeços com a seleção de invasoras cada vez mais resistentes aos herbicidas, levando o produtor a revolver o solo e reiniciar o sistema de plantio.

O capim favorito (Rhynchelytrum repens) é uma planta daninha herbácea anual, rústica, entouceirada, ereta e perfilhada, com até 60 cm de altura e inflorescências róseas que geram sementes facilmente disseminadas pelo vento. É facilmente encontrada ao longo das estradas, especialmente em lavouras abandonadas e sem controle de invasoras em pós-colheita. Representa uma boa opção em áreas de alta infestação, proporcionando excelente cobertura do solo no sistema plantio direto (Figura 4). Porém, quando a infestação é desuniforme, as plantadeiras apresentam desempenho igualmente insatisfatório devido à dificuldade de manter a profundidade de semeadura. Esse tem sido o principal entrave do uso dessa e de outras invasoras em área extensiva, devendo-se preferir o cultivo de culturas de cobertura específicas, observando os aspectos de susceptibilidade a doenças e nematóides acima abordados.

Figura 4. O capim favorito é uma excelente cobertura do solo em plantio direto.

6. Alternativas para o manejo pós-colheita

No manejo de invasoras em pós-colheita, podem ser utilizadas roçadeiras, impedindo que estas plantas se desenvolvam e produzam sementes ou propágulos que irão contribuir para o aumento do banco de sementes do solo. Também são utilizadas grades que desestruturam o solo, a ponto de provocar erosões em sulcos.

A dessecação pós-colheita normalmente é realizada no final do outono, aplicando-se herbicidas dessecantes sistêmicos ou de contato para impedir a proliferação das invasoras na entressafra. Com o uso intensivo de determinados grupos de herbicidas, tem sido observado o surgimento de plantas daninhas resistentes. O manejo de plantas daninhas pós-colheita contribui para a não proliferação das plantas daninhas resistentes, facilitando o controle nas safras subsequentes.

Dentre os principais produtos utilizados na dessecação pós-colheita após soja convencional, destacam-se o Glyphosate, o 2,4-D e o Paraquat.

Para o manejo de invasoras em soja Roundup-Ready o uso de Glyphosate controla eficientemente as invasoras, mas não tem efeito sobre a soja tiguera com o gene de resistência a esse herbicida. Assim sendo, torna-se necessário a dessecação com o uso de 2,4D, o Paraquat, o Carfentrazone-ethyl e o Flumioxazin, dentre outros recomendados para a modalidade de uso.

A dessecação pós-colheita utiliza o stress hídrico do final de inverno, típico no Cerrado, para complementar o controle de invasoras de difícil controle, esgotando todas suas reservas que reduzem sua resistência ao longo período seco posterior.

Figura 5. Lavoura com dessecação pós-colheita antes da formação da nova sementeira

No controle da trapoeraba (Commelina benghalensis), foi obtido controle total aos 180 dias após a aplicação de 720 g/ha i.a. (1,0 l/ha p.c.) de 2,4-D Amina, devido ao esgotamento da reserva da planta na seca.

Resultado semelhante foi obtido, na dessecação em maio, utilizando 1080 g/ha i.a. (3,0 l/ha p.c.) de gliphosate e 1,0 l/ha de óleo mineral, proporcionando um controle de 88% de andropógon (Andropogon gayanus), que passou o período da seca sem reservas, morrendo em meados de agosto e setembro. Na lavoura, a aplicação de final de inverno, antes do estresse hídrico das invasoras, proporcionou um controle superior ao controle obtido no início da primavera.

Atribuiu-se o efeito à camada cerosa que ainda não está formada sobre as folhas antes do estresse. No início da primavera, a persistência da camada cerosa sobre as folhas, reduziu a eficiência do dessecante.

A adição de 1% v/v de óleo mineral na calda do dessecante aumentou significativamente a absorção e a eficiência do gliphosate, nas dessecações do início da primavera. A hipótese mais aceita foi a de que o óleo mineral rompeu ou dissolveu a camada cerosa e reduziu o obstáculo para a absorção do produto.

Para a Brachiaria ruziziensis, os resultados são semelhantes. Porém, a dessecação antecipada no final do inverno, só se justifica em áreas onde existe a infestação de percevejo castanho (Scaptocoris castanea), ou quando a cultura de cobertura já atingiu o volume máximo possível de massa seca, passando por um longo período seco até o plantio. A probabilidade de sucesso em aguardar o rebrote para a dessecação da cultura de cobertura é limitada pelo regime pluviométrico regional. Nestas condições, a palha fica praticamente intacta na superfície do solo seco, até o reinício das chuvas na primavera.

O segredo desta modalidade é aplicar o dessecante antes da invasora gerar sementes ou entrar em estresse hídrico. Nessas duas situações indesejáveis, há a multiplicação da invasora, quer seja pela nova sementeira, ou pela redução da absorção dos dessecantes através pela barreira formada pela camada cerosa.

Para evitar ou minimizar o aumento da população de plantas daninhas existente em uma área, pode-se adotar técnicas como a rotação de culturas e a semeadura de cobertura. Culturas de cobertura, como milheto, nabo forrageiro e sorgo, assim como outras, na entressafra, têm grande capacidade de supressão na emergência e no desenvolvimento das plantas daninhas.

Mais detalhes sobre a tecnologia podem ser obtidos no livro ”Direto no Cerrado: 25 anos acreditando no sistema” publicado pela Aldeia Norte Editora.

Artigo Publicado na Revista Plantio Direto edição 128, março/abril de 2012. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.