Calagem e Uso de Gesso em Sistema Plantio Direto


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Publicado em: 01/04/2012

Calagem e uso de gesso em Sistema Plantio Direto

Eduardo Fávero Caires11Professor Associado do Departamento de Ciência do Solo e Engenharia Agrícola, Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Ponta Grossa, PR. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.E-mail: efcaires@uepg.br

1. Introdução

A acidez do solo limita a produção agrícola em consideráveis áreas do mundo. A deficiência de cálcio (Ca) e a toxidez causada por alumínio (Al) e manganês (Mn) são considerados os fatores que mais limitam a produtividade de solos ácidos em regiões tropicais e subtropicais (Coleman & Thomas, 1967). Os problemas da acidez do solo são normalmente corrigidos por meio da aplicação de calcário.

O sistema plantio direto (SPD) tem se destacado como uma das estratégias mais eficazes para melhorar a sustentabilidade da agricultura em regiões tropicais e subtropicais, contribuindo para minimizar perdas de solo e de nutrientes por erosão. No Brasil, esse sistema tem apresentado rápido crescimento em área cultivada, ocupando atualmente pouco mais de 26,5 milhões de hectares.

No estabelecimento do SPD, é recomendável realizar a correção da acidez do solo por meio da aplicação de calcário com incorporação. Depois do SPD já estabelecido, a correção da acidez do solo deve ser feita por meio da aplicação de calcário na superfície sem incorporação. A calagem superficial não tem um efeito rápido na redução da acidez do subsolo, particularmente em solos com cargas variáveis (Ernani et al., 2004). A acidez nas camadas subsuperficiais, em caso de níveis tóxicos de Al e/ou deficiência de Ca, pode comprometer a penetração de raízes e a nutrição das plantas, deixando as culturas susceptíveis ao estresse hídrico. No Brasil, esse assunto adquire importância muito grande pela ocorrência generalizada de Al3+ trocável na maioria dos solos (Olmos & Camargo, 1976). Contudo a solução é difícil, principalmente, em áreas SPD estabelecido onde o calcário não é incorporado ao solo. Em uma revisão de vários experimentos onde o calcário e o gesso foram aplicados na superfície, Sumner (1995) verificou que ambos os materiais foram efetivos em movimentar Ca2+ para o subsolo e reduzir a toxicidade de Al. Entretanto, as alterações no subsolo foram pequenas com adições de calcário na ausência ou na presença de pouco fertilizante nitrogenado acidificante.

Os estudos sobre controle da acidez do solo no SPD avançaram muito no Brasil, especialmente nos últimos anos. O uso de gesso pode ser uma alternativa interessante para melhoria do ambiente radicular em plantio direto, mas ainda existem dúvidas com relação às condições em que se podem esperar efeitos favoráveis de sua aplicação nos rendimentos das culturas e quanto ao método de recomendação do produto. Nesse artigo são discutidos os avanços alcançados com as pesquisas sobre controle da acidez e melhoria no ambiente radicular por meio da utilização de calcário e gesso em SPD.

2. Correção da acidez do solo por meio da calagem na superfície

A aplicação de calcário na superfície sem incorporação cria uma frente de correção da acidez do solo em profundidade, proporcional à dose e ao tempo. Ao longo do tempo após a aplicação superficial de calcário em plantio direto vai ocorrendo melhoria no gradiente de acidez da superfície em direção ao subsolo. A reaplicação superficial de calcário em solo já corrigido com calagem na superfície pode facilitar a movimentação do calcário em direção ao subsolo e proporcionar melhoria ainda mais acentuada na acidez do perfil do solo. Caires et al. (2008) verificaram pouca influência da calagem superficial abaixo de 5 cm, até 3 anos após a aplicação de 3 t ha-1 de calcário em parcelas anteriormente sem calagem (Figura 1). Na camada superficial do solo (0-5 cm), o efeito da aplicação de 3 t ha-1 de calcário, após 3 anos, ou da aplicação de 6 t ha-1 de calcário, após 10 anos, foi semelhante. No entanto, após 10 anos da aplicação de 6 t ha-1 de calcário, o pH foi maior e os níveis de Al3+ trocável e de saturação por Al3+ foram mais baixos que o tratamento sem calagem, até a profundidade de 40 ou 60 cm, o que não aconteceu após 3 anos da aplicação de 3 t ha-1 de calcário. Quando se realizou a calagem (3 t ha-1) sobre as parcelas que já haviam recebido calcário (6 t ha-1), a reaplicação do corretivo ocasionou aumento mais acentuado no pH, até a profundidade de 60 cm, do que o tratamento que havia recebido apenas 6 t ha-1 de calcário, indicando que houve movimentação do calcário reaplicado na superfície para maiores profundidades do solo quando a acidez na camada mais superficial era mais baixa. A reaplicação do calcário (3 t ha-1) sobre as parcelas anteriormente com calagem (6 t ha-1) resultou nos mais baixos níveis de Al 3+ trocável (≤ 2 mmolcdm-3) e de saturação por Al3+ (≤ 5%) em todo o perfil do solo (0-60 cm).

Os mecanismos que podem estar envolvidos na melhoria das condições de acidez no subsolo por meio da calagem na superfície em plantio direto são: (i) deslocamento vertical de partículas finas de calcário decorrente de condições favoráveis de estruturação do solo, e (ii) mobilização química do calcário nas formas inorgânicas, principalmente com sais de nitrato e sulfato, e orgânicas.

3. Importância da correção da acidez do solo para o crescimento das raízes

As raízes da maior parte das plantas cultivadas não se desenvolvem bem em solos ácidos devido ao excesso de Al e/ou à deficiência de Ca. Em geral, os efeitos prejudiciais do Al refletem-se nas raízes, que se tornam mais lentas em alongar. Devido às interferências do Al no processo de divisão celular, as raízes paralisam o crescimento e apresentam alterações morfológicas profundas. Mais tarde elas engrossam e não se ramificam normalmente. Em estágios mais avançados de toxidez, a parte aérea também é danificada. O excesso de Al prejudica a absorção e o metabolismo de nutrientes pelas plantas, principalmente de N, P, Ca e Mg (Furlani, 1989). Como conseqüência das alterações no crescimento das raízes, o sistema radicular torna-se pouco desenvolvido e, em condições de campo, resulta em reduções expressivas na capacidade de absorção de água e nutrientes das camadas subsuperficiais do solo, induzindo maior susceptibilidade das plantas à deficiência hídrica e nutricional durante períodos de estiagem, causando reflexos negativos na produtividade.

A toxicidade de Al para as plantas cultivadas no SPD tem sido considerada mais baixa do que no sistema convencional de preparo do solo. Tais efeitos têm sido relacionados com a presença de menor concentração de espécies tóxicas de Al (Al3+ e AlOH2+) e maior concentração de Al complexado com ligantes orgânicos em SPD (Salet et al., 1999). A menor atividade do Al na solução do solo em SPD tem resultado em implicações importantes na definição de critérios ou índices de tomada de decisão para a recomendação de calagem nesse sistema. Porém, é preciso cuidado com essas informações porque a complexação do Al com ligantes orgânicos e a toxicidade do Al para as plantas cultivadas em plantio direto precisam ser mais estudadas em condições de seca. Em uma área manejada há longo período no SPD, a acidez do solo não influenciou a densidade de comprimento de raízes de milho e soja na ausência de limitação de chuvas, mas limitou drasticamente o crescimento radicular do trigo por causa de prolongada falta de água ocorrida durante a fase de desenvolvimento vegetativo da cultura (Caires et al., 2008). A calagem na superfície ocasionou aumento ≥ 100% na densidade de comprimento de raízes de trigo nas profundidades de 0–10 e 10–20 cm. O crescimento radicular foi favorecido pelo aumento no pH e no teor de Ca2+ trocável, e pela redução no teor de Al3+ trocável e na saturação por Al3+ do solo, decorrentes da calagem superficial. O nível crítico de Al3+ trocável no solo para o crescimento radicular do trigo foi estimado em 3 mmolc dm-3. Como as plantas de trigo crescidas nas parcelas sem calcário mostraram-se cloróticas e com problemas de desenvolvimento, principalmente durante os períodos de estiagem que ocorreram na fase vegetativa, a toxicidade do Al para as plantas deve ter se manifestado de forma mais intensa na presença de menor umidade disponível do solo. Portanto, em situações desfavoráveis de chuvas, a fitotoxicidade de Al3+ ocasionada pela acidez do solo no SPD é intensificada e compromete seriamente o crescimento radicular de plantas com pouca tolerância ao Al.

4. Calagem na superfície e produção de grãos das culturas

No Brasil, vários estudos com calagem em Latossolos ácidos demonstraram a eficiência do calcário aplicado na superfície para a produção de grãos de culturas no SPD (Tabela 1). Merece destaque, no entanto, as altas produtividades das culturas obtidas na ausência de calagem, em solos com elevada acidez (pH baixo e alumínio trocável alto) nesse sistema. As explicações para esses altos rendimentos de grãos em solos ácidos sob plantio direto têm sido relacionadas com os seguintes fatores: (i) menor toxicidade do Al para as plantas, (ii) concentrações suficientes de cátions trocáveis e (iii) maior umidade disponível no solo. Essas informações têm gerado dúvidas a respeito da necessidade de calagem para o SPD, levando à interpretação de que a quantidade de calcário necessária para esse sistema seria menor do que a exigida pelo sistema convencional de preparo do solo. Cabe destacar que as altas produtividades das culturas em solos ácidos manejados em plantio direto têm sido obtidas em estudos realizados no campo, sem a ocorrência de limitação hídrica. Aumentos de mais de 100% na produção de grãos de cevada com a aplicação superficial de calcário em SPD foram observados por Pöttker & Ben (1998). Essa alta resposta da cevada à calagem foi atribuída à sensibilidade da cultura às condições de acidez do solo, mas não foram apresentados os dados de chuvas ocorridas durante o ciclo da cultura. Em um experimento de longa duração com calagem superficial em plantio direto na região Centro-Sul do Paraná, expressivo aumento na produção de grãos de trigo foi obtido com a aplicação de calcário na superfície, quando houve falta de chuvas durante longos períodos da fase vegetativa e logo após o florescimento da cultura (Caires et al., 2005). A produção de trigo foi aumentada em 200%, de 1,25 para 3,75 t ha-1 de grãos, após 10 anos da aplicação superficial de 4 t ha-1 de calcário. Esse elevado incremento na produção de trigo após longo período da aplicação de calcário na superfície mostra, de forma bastante clara, que a resposta das culturas à calagem superficial depende do regime hídrico que ocorre durante o ciclo de desenvolvimento das plantas. Por essa razão, é muito importante que os estudos que visam definir critérios para a recomendação de calagem na superfície em plantio direto sejam realizados durante longo período no campo e considerem as condições de clima.

Tabela 1. Efeito da aplicação de calcário na superfície em sistema plantio direto sobre a produção de grãos de culturas em Latossolos ácidos do sul do Brasil.

5. Necessidade de calagem na superfície em plantio direto

O cálculo da necessidade de calagem, com base na análise química do solo, e a freqüência de aplicação de calcário na superfície, em SPD, são assuntos polêmicos. A decomposição de resíduos de plantas de cobertura e a reação de adubos nitrogenados na superfície em SPD favorecem a acidificação do solo. Por outro lado, os resíduos vegetais mantidos na superfície também podem exercer efeitos positivos sobre a acidez do solo (Miyazawa et al., 1993). O assunto é complexo e existem informações discordantes a respeito de critérios de recomendação de calagem na superfície para o SPD. Assim, para o Estado de Minas Gerais, sugere-se que, após a instalação do plantio direto, as doses de calcário sejam diminuídas em um terço, quando a amostragem de solo é feita na camada de 0-20 cm, e à metade, quando a amostragem de solo é feita na camada de 0-10 cm (Lopes, 1999). Nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a recomendação é de realizar a amostragem de solo na camada de 0-10 cm e de aplicar metade da dose indicada pelo método da solução tampão SMP para elevar o pHágua do solo a 5,5 (Comissão..., 2004).

No Estado do Paraná, a influência de doses de calcário na superfície sobre a produção de grãos de culturas foi avaliada em um período de 5 e 10 anos (Figura 2). A produção acumulada de grãos de sete colheitas (soja-milho-soja-trigo-soja-triticale-soja), em 5 anos (Figura 2a), e de treze colheitas (soja-milho-soja-trigo-soja-triticale-soja-soja-soja-milho-soja-soja-trigo), em 10 anos (Figura 2b), aumentou de acordo com o modelo quadrático. Estimou-se que a máxima eficiência técnica (MET) e a econômica (MEE) ocorreriam, respectivamente, com as doses de 3,8 e 3,3 t ha-1 de calcário, em 5 anos, e de 4,2 e 4,0 t ha-1 de calcário, em 10 anos. A dose de calcário para a MEE foi a recomendada pelo método da elevação da saturação por bases para 65%, no período de 5 anos, e para 70%, no período de 10 anos, em amostra de solo coletada na profundidade de 0-20 cm. O retorno econômico da calagem na superfície em plantio direto, na média de 10 anos, foi da ordem de US$ 60 ha-1 ano-1 (Caires et al., 2005).

Figura 2. Efeito da aplicação superficial de calcário no sistema plantio direto sobre a produção acumulada de grãos de culturas no período de 1993 a 1998 (a) e de 1993 a 2003 (b). O calcário foi aplicado em 1993. **: p < 0,01 e *: p < 0,05. Fontes: Caires et al. (2000, 2005).

Em outro estudo realizado no Estado do Paraná, no período de 1998 a 2003, a produção acumulada de grãos de culturas no SPD (soja–cevada–soja–trigo–soja–milho–soja) foi maior com a calagem, independentemente se o calcário foi aplicado na superfície, em dose total ou parcelada durante 3 anos, ou com incorporação (Caires et al., 2006). A dose de calcário (4,5 t ha-1) foi estabelecida conforme a necessidade de calagem determinada pelo método da elevação da saturação por bases do solo para 70%, na profundidade de 0-20 cm. Embora a receita bruta das culturas tenha sido semelhante entre os tratamentos de calagem, o retorno econômico foi maior quando o calcário foi aplicado na superfície, em dose total (US$ 39 ha-1 ano-1) ou parcelada durante 3 anos (US$ 35 ha-1 ano-1), do que quando o calcário foi incorporado no solo (US$ 22 ha-1 ano-1), devido ao custo da incorporação. O retorno econômico obtido com a aplicação de calcário, nesse estudo, foi bastante satisfatório considerando que os resultados foram analisados dentro de um período de apenas 5 anos e que o solo tinha baixa concentração de Al3+ trocável e teores suficientes de Ca2+ e Mg2+ trocáveis. Considerando que a agricultura no Brasil não é subsidiada, a redução dos custos iniciais de produção com o parcelamento das doses de calcário pode ser uma opção viável, especialmente para pequenos agricultores.

6. Uso de gesso agrícola na melhoria do ambiente radicular em plantio direto

O gesso agrícola ou ”fosfogesso” (CaSO4.2H2O) é um subproduto da indústria de ácido fosfórico que contém principalmente sulfato de cálcio e pequenas concentrações de P e flúor (F). O interesse pelo uso de gesso agrícola para a melhoria do ambiente radicular em camadas profundas de solo é decorrente da solubilidade do sal, o que permite a sua penetração abaixo das camadas superficiais. O gesso, quando aplicado na superfície do solo, movimenta-se no perfil com a influência do excesso de umidade. Quando alcança o subsolo, o gesso proporciona aumento no suprimento de Ca2+ e redução na toxicidade do Al (Sumner, 1995). Como resultado dessa melhoria do subsolo, as raízes são capazes de desenvolver em maior profundidade, permitindo maior eficiência na absorção de água e nutrientes.

Apesar do grande avanço no conhecimento gerado com as pesquisas sobre o uso de gesso na agricultura, o comportamento do gesso e os benefícios de sua utilização em SPD ainda necessitam ser mais bem compreendidos. Resultados de pesquisas realizadas em Latossolos sob plantio direto da região Centro-Sul do Paraná mostraram que a aplicação de gesso na superfície foi eficiente na melhoria do ambiente radicular no subsolo, causando redução no teor de Al3+ trocável e na saturação por Al3+, e aumento nos teores de Ca2+ trocável e de sulfato (Caires et al., 1999, 2003). O sulfato do gesso não permanece por muito tempo nas camadas superficiais do solo e se movimenta no perfil, acumulando-se em camadas do subsolo, porque a acidez é mais baixa e os teores de matéria orgânica e de P são mais elevados a partir da superfície em direção ao subsolo. O uso de gesso também pode aumentar o teor de P na camada superficial do solo quando altas doses são aplicadas na superfície em SPD (Caires et al., 2003), devido à presença de P como impureza na composição do gesso.

O maior problema que pode ser ocasionado com a utilização de gesso em solos está relacionado com a movimentação e bases trocáveis que é proporcionada com a sua aplicação. Além da movimentação de Ca2+ em profundidade, o gesso também ocasiona lixiviação de Mg2+ trocável no solo (Oliveira & Pavan, 1996; Ernani et al., 2001; Caires et al., 1998, 2003). Em função disso, quando os teores de Mg2+ trocável são limitantes no solo, o uso de gesso não deve ser recomendado de forma isolada, e sim em combinação com a aplicação de calcário dolomítico. No caso do K+ trocável, embora a sua lixiviação com o uso de gesso possa ocorrer em função do tipo de solo (Sousa & Ritchey, 1986; Sumner, 1995), essa movimentação tem sido pequena em SPD (Caires et al., 2001a).

As maiores dúvidas com relação à utilização de gesso se residem nas condições em que se podem esperar efeitos favoráveis de sua aplicação no rendimento das culturas e quanto ao método de recomendação do produto. Em um estudo realizado em um Latossolo Vermelho textura média sob plantio direto, na região Centro-Sul do Paraná, não se observou resposta positiva da cultura da soja, em seis cultivos, ao gesso aplicado na superfície (Caires, 2000). Entretanto, no mesmo experimento, as doses de gesso ocasionaram aumento na produção de grãos de milho (Figura 3). De acordo com a curva ajustada, a máxima produção de milho seria obtida com a aplicação de 9,5 t ha-1 de gesso, proporcionando aumento na produção da ordem de 1.100 kg ha-1.

Figura 3. Produção de grãos de milho (1994-95) considerando as doses de gesso aplicadas na superfície, em um Latossolo Vermelho textura média sob SPD. Gesso aplicado em 1993. Adaptado de Caires et al. (1999).

Em outro estudo realizado em plantio direto no Centro-Sul do Paraná, em um Latossolo Vermelho textura argilosa, também não houve resposta da soja, em três anos de cultivo, às doses de gesso aplicadas (Caires et al., 2003). Porém, nesse mesmo experimento, as doses de gesso aumentaram em 12% a produção de trigo (Figura 4a) e a produção de milho também foi aumentada com as doses de gesso aplicadas, quando a acidez do solo foi corrigida com calcário dolomítico (Figura 4b). Considerando o rendimento médio obtido com as doses de gesso na ausência de calcário, o aumento na produção de milho com a maior dose de gesso aplicada (9 t ha-1) na presença de calagem foi de 17%.

Resposta diferenciada das culturas de milho e soja ao gesso também foi observada após longo período da aplicação de gesso e com a sua reaplicação em SPD (Caires et al., 2011). A produção de grãos de milho aumentou de 8-12% depois de 7-10 anos da aplicação de 9,0 t ha-1 de gesso. A reaplicação de 6,0 t ha-1 de gesso aumentou a produção de milho (6-9%) e de trigo (15%), e ocasionou um pequeno incremento na produção de soja, da ordem de 3%, em um único ano de cultivo com soja, dentro de um período de quatro anos (Caires et al., 2011).

A menor resposta da soja à aplicação de gesso pode estar relacionada com a tolerância dos genótipos ao Al. De acordo com Farina (1993), citado por Sumner (1995), a cultura da soja apresenta notável capacidade para penetrar em subsolos ácidos, quando bem suprida com molibdênio (Mo). Deve-se considerar também que as poáceas (gramíneas) apresentam raízes com CTC radicular mais baixa que as fabáceas (leguminosas). Para plantas cereais, tais como milho, trigo e arroz, a CTC radicular varia de 100 a 200 mmol(+) kg-1 de matéria seca de raízes, enquanto que para plantas leguminosas, tais como soja e feijão, a CTC radicular varia de 400 to 800 mmol(+) kg-1 de matéria seca de raízes (Fernandes & Souza, 2006). As raízes com mais alta CTC tendem a acumular íons bivalentes ao contrário de raízes com mais baixa CTC que absorvem mais íons monovalentes (Broyer & Stout, 1959). Sendo assim, as poáceas são menos eficientes do que as fabáceas na absorção de Ca2+ da solução do solo. A absorção de Ca2+ pelas poáceas, como o milho, a cevada e o trigo, pode, portanto, ser favorecida pelo aumento do Ca2+ trocável, da saturação por Ca2+ e da relação Ca/Mg no solo proporcionado pela aplicação de gesso (Caires et al., 1999, 2001a, 2002b, 2004). Da mesma forma, a menor resposta das fabáceas, como a soja, ao gesso aplicado, pode estar relacionada à maior eficiência da cultura na absorção de Ca2+. Além disso, a adição de gesso aumenta a eficiência de uso do N pelas plantas, em decorrência do maior crescimento e aprofundamento do sistema radicular, sendo este um aspecto de grande importância para os cereais, uma vez que a soja apresenta alta eficiência no processo de fixação simbiótica do N2. Destaca-se, ainda, que existem diferenças no comportamento da absorção e redistribuição de S em plantas de milho e soja. Silva et al. (2003) observaram que grande parte do S absorvido pelo milho foi retido na raiz, enquanto a soja absorveu consideravelmente menos S, porém apresentou maior eficiência na translocação do nutriente na planta. Assim, o aumento na concentração de sulfato no solo com a adição de gesso pode beneficiar mais a eficiência de uso de S pelo milho do que pela soja. Também não podem ser desprezados os ganhos na disponibilidade de P no solo que ocorrem quando doses elevadas de gesso são aplicadas visando a melhoria do ambiente radicular no subsolo (Caires et al., 2003). Esse aumento na disponibilidade de P no solo com a adição de gesso pode melhorar a nutrição de P das plantas (Sumner et al., 1986; Caires et al., 2003), mas esse efeito tem sido muito pouco considerado nos estudos com o uso de gesso na agricultura.

7. Conclusões e Recomendações

A calagem na superfície em SPD apresenta eficiência na correção da acidez de camadas superficiais e do subsolo. O efeito de neutralização da acidez em profundidade pela aplicação de calcário na superfície em plantio direto demanda tempo e pode estar relacionado com as condições físicas do solo favoráveis ao deslocamento vertical de partículas finas de calcário e com a mobilização química do calcário nas formas inorgânicas e orgânicas.

A deposição de resíduos vegetais na superfície e os consideráveis aumentos nos teores de matéria orgânica do solo que ocorrem em plantio direto exercem influência positiva na produção de grãos das culturas em condições de alta acidez. No entanto, a resposta das culturas à calagem na superfície depende da tolerância ao Al dos genótipos que são utilizados no esquema de rotação e do regime hídrico que ocorre durante o ciclo de desenvolvimento das plantas. A toxicidade do Al para as plantas cultivadas SPD aumenta consideravelmente quando ocorre falta de chuvas durante o desenvolvimento das culturas no campo.

O método da elevação da saturação por bases para 70%, em amostra de solo coletada na profundidade de 0-20 cm, apresenta estimativa adequada para a recomendação de calcário na superfície nesse sistema. A dose de calcário, calculada por esse método, pode ser distribuída sobre a superfície do solo em uma única aplicação ou de forma parcelada durante até três anos. Porém, recomenda-se que a calagem na superfície seja realizada somente para solo com pH (H2O) inferior a 6,0 ou saturação por bases inferior a 60%, na camada de 0-10 cm.

O gesso agrícola apresenta eficiência na melhoria das condições químicas do perfil do solo em SPD. O gesso pode ser empregado em solos com deficiência de Ca2+ e/ou com teores tóxicos de Al3+ em camadas do subsolo e também em solos com deficiência de S-SO42- e/ou com estreita relação Ca2+/Mg2+ nas camadas superficiais. Ainda não é possível estimar com precisão as doses mais econômicas de gesso a serem empregadas em solos sob SPD. Sugere-se que a necessidade de gesso (NG, em kg ha-1) seja estimada com base no teor de argila (g kg-1) do subsolo, com base na equação: NG = 8 a 10 × teor de argila. Por exemplo: em solos com 40 % de argila a dose de gesso deveria ser entre 320 e 400 kg/ha. A aplicação de gesso deve ser realizada, preferencialmente, após a correção da acidez do solo com calcário dolomítico. Maiores benefícios com a sua utilização de gesso são esperados para a cultura do milho e para os cereais de inverno.

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Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 128, março/abril de 2012. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.