Bioestimulantes: estabelecimento
Geraldo Chavarria1*, Ana Cláudia Pedersen2, Carolina Cardoso Deuner11Professor Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo - RS. *Autor para correspondência: geraldochavarria@upf.br2Mestranda Programa de Pós-graduação em Agronomia, Universidade de Passo Fundo, Caixa Postal 611, CEP 99001-970, Passo Fundo - RS.
Introdução
A cultura do trigo (Triticum aestivum L.) é de fundamental importância no sistema de produção agrícola do Sul do Brasil. A produção anual oscila entre 5 e 6 milhões de toneladas, porém o consumo anual no país tem se mantido em torno de 10 milhões de toneladas. Os principais estados produtores do Brasil são Paraná e Rio Grande do Sul, sendo que cerca de 90% da produção de trigo está concentrada no Sul do Brasil (IBGE, 2011). O Brasil, apresenta-se entre os países que mais importam este cereal, tendo como desafio tornar a cultura competitiva frente aos demais países produtores, sobretudo, no Mercosul.
O crescimento da produção e o aumento da capacidade produtiva do trigo brasileiro estão aliados aos avanços científicos e à disponibilização uma série de tecnologias no setor produtivo. Um desses avanços pode estar calcado na utilização de bioestimulantes.
Segundo CASTRO & VIEIRA (2001) o termo bioestimulante, refere-se à mistura de reguladores vegetais com outros compostos como aminoácidos, nutrientes e vitaminas. Esses podem ser naturais ou sintéticos que aplicados nas plantas, alteram os processos vitais ou estruturais, com a finalidade de lograr aumentos na produção, melhorar a qualidade e facilitar a colheita (LACA-BUENDIA, 1989). Todavia, segundo CID (2000), denomina-se regulador de crescimento, uma substância sintética que compartilha com os hormônios a maioria de suas características.
O emprego de bioestimulantes vegetais como técnica agronômica, para otimizar a produção tem crescido nos últimos anos, junto com a pressão comercial para a sua utilização. Estudos utilizando bioestimulantes, demonstrando ganho em produtividade, podem ser verificados para várias culturas como soja, arroz, milho e feijão (CASTRO & VIERA, 2001; 2003; KLAHOLD, 2005). O efeito dessas substâncias sobre as plantas cultivadas têm sido pesquisado com o intuito de melhorar qualitativa e quantitativamente a produtividade das culturas.
ALLEONI et al. (2000) relatam que a imersão de sementes de feijão em soluções com reguladores vegetais pode possibilitar a superação da dormência, uniformidade na emergência além de evitar a fitotoxicidade destes produtos quando aplicados na parte aérea via pulverização foliar, que pode ocasionar modificações morfológicas e fisiológicas nas plântulas, dependendo da concentração utilizada destes reguladores vegetais. De acordo com TAIZ & ZEIGER (2004), o tratamento com citocinina promove uma expansão celular adicional, sem aumentar a massa seca de cotilédones em plantas de mostarda, pepino e girassol.
Os bioestimulantes têm apresentado resultados promissores, em determinadas situações, principalmente em culturas que já atingiram elevado nível tecnológico e de manejo (VIEIRA & CASTRO, 2004). Essas substâncias podem incrementar o crescimento e desenvolvimento vegetal, em função da sua composição e concentração, estimulando a divisão celular, diferenciação e o alongamento das células, favorecer o equilíbrio hormonal da planta, podendo ainda aumentar a absorção e a utilização de água e nutrientes pelas plantas (CASTRO& VIEIRA, 2003). Porém, pouco se sabe sobre o real efeito desses produtos na produtividade das culturas (FERREIRA et al., 2007). E há uma grande distância entre um efeito sobre uma função fisiológica da planta e um ganho efetivo em produtividade.
Dessa forma, o objetivo do presente trabalho foi avaliar a influência de bioestimulante (Stimulate®), aplicado em diferentes estádios da cultura do trigo, sobre o crescimento e desenvolvimento de plântulas, massa de mil sementes, peso do hectolitro e produtividade.
Material e métodos
O trabalho foi conduzido em duas etapas, uma no Laboratório de Fisiologia Vegetal e outra a campo, na estação experimental da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS, em dois anos consecutivos 2009 e 2010 utilizando a cultivar de trigo Marfim.
No experimento de laboratório, as sementes de trigo foram tratadas com diferentes doses de Stimulate® 0, 2, 4, 6, 8 e 10 mL kg-1 de semente, com adição de água para completar 3% da massa de sementes visando padronizar o volume de calda. O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado com seis tratamentos e quatro repetições.
Para determinar o percentual de germinação das sementes, quatro repetições de 50 sementes foram distribuídas em substrato papel toalha, previamente umedecido com água destilada, na proporção de 2,5 vezes a massa do papel. Em seguida, os rolos foram acondicionados em germinador previamente regulado a 25ºC (BRASIL, 1992). As avaliações foram realizadas no 14° dia após a semeadura em papel sendo avaliado comprimento de raiz e da parte aérea e suas relações, massa seca da raiz e da parte aérea e suas relações.
A determinação do comprimento da raiz e da parte aérea foi efetuada com paquímetro. Com relação à massa seca, as plântulas foram divididas em raiz e parte aérea, e em seguida secas em estufa na temperatura de 70 ºC por um período de 72 horas. Decorrido esse período as amostras foram pesadas em balança analítica apresentando resultados em grama.
Com relação ao experimento a campo, o trigo foi cultivado em semeadura direta com os tratos culturais executados de acordo com as indicações técnicas para a cultura do trigo e triticale (INFORMAÇÕES, 2010). As semeaduras dos experimentos de campo foram realizadas nos dias 19 de junho de 2009 e 15 de julho de 2010, utilizando-se 350 sementes viáveis por metro quadrado, distribuídas em linhas espaçadas em 0,17 m. Cada parcela mediu 1 m de largura x 5 m de comprimento, com área total e útil 5 m2. A adubação de semeadura de N, P e K, efetuou-se conforme interpretação da análise de solo de acordo com o Manual de Adubação e Calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (SOCIEDADE, 2004). Durante o desenvolvimento das plantas realizou-se o controle de plantas daninhas, doenças e pragas, sempre que necessário de forma homogênea na área.
O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados com nove tratamentos e quatro repetições. Os tratamentos com Stimulate® foram aplicados em diferentes estádios fenológicos do trigo: tratamento 1: testemunha; tratamento 2: 4 mL kg-1 nas sementes (TS); tratamento 3: 250 mL ha-1 em duplo anel; tratamento 4: 250 mL ha-1 no perfilhamento; tratamento 5: 4 mL kg-1 nas sementes + 250 mL ha-1 em duplo anel; tratamento 6: 4 mL kg-1 semeadura TS + 250 mL ha-1 no perfilhamento; tratamento7: 4 mL kg-1 semeadura TS + 250 mL ha-1 no florescimento; tratamento 8: 250 mL ha-1 no perfilhamento + 250 mL ha-1 no florescimento, tratamento 9: 250 mL ha-1 em duplo anel + 250 mL ha-1 em perfilhamento + 250 mL ha-1 no florescimento.
No tratamento de sementes as doses foram misturadas com água para completar 3% da massa de sementes tratada visando padronizar o volume de calda. No tratamento da parte aérea foram aplicadas as doses com pulverizador costal com pressurização através de CO2 na vazão de 150 L ha-1. Para a determinação do momento de aplicação no estádio de duplo anel foi avaliado semanalmente um conjunto de 20 plantas coletadas aleatoriamente.
Após a colheita das parcelas, determinou-se o percentual de umidade dos grãos, a massa de mil sementes (g), o peso do hectolitro (kg hl-1) e calculada a produtividade de grãos (kg ha-1) corrigidos para 13% de umidade.
Os resultados obtidos no experimento do laboratóiro e do campo foram submetidos à análise de variância e as médias dos tratamentos comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade do erro.
Resultados e discussão
Experimento no laboratório
Avaliação na germinação e no crescimento de plântulas de trigo
Com relação ao percentual de germinação das sementes de trigo da cultivar Marfim, não houve diferença estatística entre os tratamentos com diferentes doses de Stimulate® nos dois anos de estudo (Tabela 1). Sabe-se que as auxinas e citocininas desempenham funções importantes na divisão e na expansão de células (TAIZ & ZEIGER, 2004), portanto sendo fundamental no processo germinativo. A giberelina, conhecidamente, desempenha uma função no processo germinativo de cereais, desencadeando a atividade das enzimas e ß amilases que degradam reservas, principalmente o amido, sendo disponibilizadas ao embrião, favorecendo o crescimento da plântula (FERREIRA et al., 2007). Como já mencionado anteriormente, embora o composto avaliado tenha os três reguladores descritos, tais efeitos citados não foram observados (Tabela 1).
Tabela 1. Germinação e crescimento de plântulas de trigo da cultivar Marfim tratadas com Stimulate®, avaliados em dois anos (2009/2010). Passo Fundo, 2011.
Em trabalho realizado com milho houve resultado inverso a hipótese esperada, nesta situação observou-se que o Stimulate® inibiu a enzima -amilase (SILVA et al., 2008). Os fitormônios (produzidos pelas plantas) ou reguladores de crescimento (sintéticos) atuam no metabolismo em concentrações baixas. Desta maneira, em determinadas situações concentrações mais elevadas de um determinado composto pode atuar como inibidor de outro composto. O Stimulate® é um bioestimulante, que pode estimular o desenvolvimento radicular (plântulas) e radicial (plantas), aumentando a absorção de água e nutrientes pelas raízes, podendo favorecer também o equilíbrio hormonal da planta (CASTRO & VIEIRA, 2001). Este regulador vegetal estudado tem os seguintes constituintes: ácido índolbutírico (auxina) 0,005%, cinetina (citocinina) 0,009% e ácido giberélíco (giberelina) 0,005%.
Em contrapartida, outros trabalhos mostram que aplicação do Stimulate® promoveu maiores valores no crescimento radicular das plantas de soja para as concentrações compreendidas no intervalo (1,3 a 5,0 mL kg-1 de sementes), sendo que a o melhor resultado foi obtido na concentração de 1,3 mL (CASTRO & VIEIRA, 2001). A interação entre biostimulantes e genótipos também deve ser destacada como um fator relevante, em função de possíveis variações metabólicas entre cultivares as respostas aos produtos podem ser diferenciadas.
As demais variáveis avaliadas em laboratório como o comprimento da raiz e da parte aérea e suas relações, massa seca da raiz e da parte aérea e suas relações também não apresentaram diferenças significativas entre as diferentes doses de Stimulate (Tabela 1). Esse dados não corroboram com VIERA & CASTRO (2004), que testaram várias doses de bioestimulante obtendo resultados significativos da utilização do produto na germinação, massa seca e crescimento de plântulas de soja.
O aspecto de maior interesse na utilização de bioestimulantes reside no estímulo das plantas, sobretudo, do crescimento das raízes. Havendo um crescimento radicial em maior escala na planta, esta tem maior capacidade de absorção de água e nutrientes. Ao passo, que em condições de estresse hídrico por déficit, a planta sofrerá menores efeitos desta condição adversa. Pesquisas devem ser conduzidas visando esclarecer como os bioestimulantes interferem na fisiologia das plantas sob estresse ambiental. A composição de bioestimulantes deve apresentar uma variedade de materiais orgânicos, tais como substâncias húmicas, extratos de algas, matéria orgânica, e aminoácidos para melhorar a tolerância ao estresse (VASCONCELOS et al., 2009).
Avaliação de componentes de rendimento e produtividade do trigo
Na avaliação de produtividade da cultivar de trigo Marfim não houve diferença estatística entre os tratamentos no qual se aplicou Stimulate® nas sementes, na parte aérea ou em ambas as situações (Tabela 2) no ano de 2009. Para o ano de 2010, a produtividade de grãos mostrou-se significativa, porém os tratamentos não diferiram estatisticamente entre si. Esse dados corroboram com os trabalho de FERREIRA et al. (2007) para a cultura do milho também não foi observado interferência sobre a produtividade. BERNARDES et al. (2010) estudando a utilização de regulador de crescimento e variações de espécies de cobertura na cultura do feijoeiro também não observou influência do regulador sobre os componentes do rendimento, e consequentemente, na produtividade.
Tabela 2. Componentes de rendimento e produtividade de trigo da cultivar Marfim tratadas com Stimulate®, avaliados em dois anos (2009/2010). Passo Fundo, 2011.
Todavia, VIEIRA (2001) utilizando o mesmo regulador de crescimento utilizado no presente trabalho observou que para as culturas de feijão, arroz e milho houve um efeito significativa nos componentes do rendimento comparativamente com plantas testemunha sem a aplicação de regulador. Esses dados concordam com os observados por CATO (2006) e FERREIRA et al. (2007) quanto ao rendimento médio de grãos de trigo e soja, respectivamente, quando utilizado bioestimulantes, associados a fertilizantes via tratamento de sementes.
A utilização de giberelina, deve-se ao fato de que ela geralmente produz um estímulo no crescimento do caule, podendo ser aplicada para aumento em produtividade, cujo maior crescimento tem sido observado em gramíneas, hortaliças e ornamentais (TAIZ & ZEIGER, 2004).
Para o peso do hectolitro e massa de mil sementes, não houve diferença estatística entre as doses e estádios de aplicação de Stimulate® testadas. Esses dados se repetiram tanto para o ano de 2009 quanto para 2010. As variáveis de peso hectolítro e massa de mil sementes estão relacionadas diretamente com o acúmulo de carbono na sementes, fator esse ligado à atividade fotossintética propriamente dita, como também, à mobilização de reservas em direção das sementes. A citocinina aplicada em fase vegetativa e reprodutivda, presente no bioestimulante estudado, tem capacidade de fazer com que um determinado orgão tenha uma capacidade de dreno mais agressiva e com isso receba mais fotoassimilados e reverta em produção e qualidade de grãos, devido ao maior acúmulo de carbono (NAGEL et al., 2001).
Um aspecto de extrema relevância é os efeitos sinérgico e antagônicos de reguladores de crescimento. Existem uma série de trabalhos na literatura científica demonstrando alguns efeitos sobre a produtividade. Contudo, quando existem produtos que associam diversos reguladores de crescimento estes efeitos podem ser mitigados. Segundo JALLAIS & CHORY (2010) os fitormônios trabalham em uma rede de genes, ou seja, os processos de transdução são integrados. E os autores sugerem que, sobretudo, a auxina desempenhe um papel de integrador das atividades dos demais fitormônios. Desta maneira, reguladores de crescimento que são colocados de forma associada em alguns produtos podem não apresentar efeitos sobre a produtividade das plantas, como observado neste experimento (Tabela 1 e 2), em função desta associação que pode virar antagônica.
Portanto, a maior relevância dos resultados obtidos neste trabalho, ao longo de duas safras de cultivo (2009 e 2010) para a cultivar Marfim, é que o produto em questão não promove o efeito benéfico na planta, incremento somente os custos de produção, reduzindo neste caso, a lucratividade do produtor rural. Pois, embora haja um grande pressão comercial para a sua utilização existe uma escassez de trabalhos científicos apontando resultados benéficos da sua utilização.
Conclusão
O bioestimulante Stimulate® utilizado na cultura do trigo cultivar Marfim, tanto via semente, folha ou estruturas reprodutivas, não afeta a germinação de sementes, o desenvolvimento de plântulas, massa de mil sementes, o peso hectolitro das mesmas e a produtividade.
Referências
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Artigo publicado na Revista Plantio Direto, edição 128, março/abril de 2012. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.