Família Canova


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Publicado em: 01/04/2012

Família Canova: quebrando paradigmas, é preciso adubar o sistema

Marcelo, José Antônio e Gilberto Canova, agricultores em Espumoso, RS, um exemplo de gestão familiar eficiente.

Gilberto e Marcelo Canova conduzem com o pai José Antonio a propriedade rural no município de Espumoso, RS. Gilberto cuida, principalmente, da compra de insumos, equipamentos e comercialização das produções, o irmão Marcelo atende a parte técnica e prática de condução da lavoura. A supervisão das atividades fica com o pai que faz o acompanhamento dos trabalhos e decisões da gestão do negócio. ”Ele fiscaliza e cobra”, brinca Gilberto.

A família Canova está envolvida com agricultura desde 1970. ”Nosso avô nasceu no município de Garibaldi, RS, em uma família que sempre trabalhou com agricultura. O bisavô, além da lavoura, tinha também como atividade uma serraria”.

De acordo com Gilberto, o avô Alberto Canova mudou-se para Espumoso em 1920, aos 13 anos, juntamente com sua família, em busca de terras mais férteis, pois acreditava que em regiões de mata fechada e pinheiros os solos eram melhores.

No início, plantavam milho e soja consorciada no verão; e trigo no inverno. As primeiras áreas, que foram abertas para a agricultura, degradavam-se rapidamente, tornando-se improdutivas. Os solos ácidos e a toxidez de alumínio limitavam o crescimento das raizes e a disponibilidade de nutrientes para as plantas. Essa situação era característica para os solos de planalto ou de coxilha, como diziam os agricultores.

Outro fator limitante e muito importante naquela época eram as formigas. Por causa da dificuldade de controle e os intensos danos causados pela praga, a presença de formigas determinava o valor da terra e o abandono de algumas áreas para agricultura. Interessante destacar que a presença e severidade das formigas definia a viabilidade da agricultura nas décadas de 1950 e 1960 em na região Noroeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Hoje, a facilidade de controle dessa praga com o uso de inseticidas fez esquecer o problema.

Os agricultores vendo suas famílias crescerem, e sem poder proporcionar melhores condições de vida aos seus descendentes, vendiam as áreas, e mudavam de atividade ou migravam para outras regiões ou estados. Estes fatos aconteceram a partir da década de 1960, lembra José Antonio.

Nos primeiros anos, a família Canova, os pais juntamente com filhos e filhas (dez ao todo), genros e netos, trabalhavam nas terras do nono Alberto, sendo que nessa época preparava-se a lavoura com ”pescoço de boi” (tração animal). Somente no final da década de 1960, que a família adquiriu o primeiro trator, um modelo pequeno, de 50 CV.

Com o passar dos anos, os netos cresceram, e a área total de terras foi dividida entre os filhos. Com isso, em meados da década de 1970, parte dos tios migrou para o Paraná e depois para o Mato Grosso. Ficaram na propriedade trabalhando com o pai somente o filho mais novo e o mais velho, José Antonio e João, respectivamente.

Mudanças

Para José Antonio, um dos marcos da mudança na forma de se fazer agricultura foi a ”Operação Tatu”. O uso de calcário foi possível recuperar e corrigir a fertilidade das áreas degradadas, que foram reintegradas a produção de grãos. Para ele, ”isso deu um ânimo para continuar”.

Com a emigração dos irmãos, José Antonio comprou parte das terras e ampliou suas áreas de cultivo, da mesma forma fez seu irmão João. As demais áreas foram adquiridas por pessoas que não pertenciam à família Canova.

Foi nessa fase que o modelo ”granja”, que contemplava o uso de máquinas agrícolas substituiu o modelo de colônia, onde todo o trabalho era feito a ”pescoço de boi”. Na época se estabeleceu o binômio soja-trigo, sendo a base do sistema produtivo da agricultura.

Depois da Operação Tatu, ocorreram alguns pontos historicamente importantes na evolução da agricultura da região: não queimar a palha, a construção das curvas de nível e os terraços tipo base larga.

O programa de conservação de solos, na década de 1970, foi lançado com o objetivo de conter a erosão e reter a água nas lavouras. No qual, as áreas eram lavradas para a construção das curvas de nível, desta forma, consumia-se muito combustível, desgastava-se máquinas, motores e equipamentos, com custo elevado. ”Mesmo assim a tecnologia não era segura, não apresentava eficiência proporcional ao trabalho e ao investimento financeiro”, relata Gilberto.

Gilberto e Marcelo Canova dividem com o pai a administração da propriedade em Espumoso.

”Até com os terraços a água não ficava na lavoura, mas escorria livremente, por causa da topografia das áreas. Com isto o solo era levado pela erosão, para o leito dos rios, em vários períodos do ano. Foi uma fase muito difícil, a situação era desesperadora”.

Com a introdução dos terraços de base larga, na década de 1980, a erosão diminuiu. Foi uma fase que teve menor duração do que as anteriores. Mesmo assim, em alguns pontos, o solo ainda era levado pela água da chuva, o que deixava nós agricultores ainda assustados, reforça Gilberto.

Na sequência veio o plantio direto, a mudança mais importante. De todas as fases passadas na evolução da agricultura, foi essa que trouxe a grande quebra de paradigma: plantar sem revolver o solo, sobre a palha da cultura anterior. De acordo com Gilberto, ”havia muita resistência e desconfiança dos agricultores com essa prática, por causa dos custos elevados das construções de terraços e das frustrações no controle da erosão. Por isso, os novos procedimentos deixaram os agricultores um pouco ”sestrosos”.

Nas lavouras da família Canova, o plantio direto teve início final da década de 80. Foi motivado, principalmente, pela realização de dias de campo, que aconteciam como forma de difusão tecnológica e mobilização dos agricultores para adoção, de acordo com Marcelo. Ele também ressalta que, tais eventos eram promovidos pelas Cooperativas, Emater e pelas empresas que tinham interesse na realização do plantio direto, e que o foco principal era a semeadura, o controle de plantas daninhas, o comparativo entre o plantio convencional e o direto, além de parcelas demonstrando resultados da prática de rotação de culturas. Segundo Gilberto, a Fundacep foi um referêncial para quem estava começando realizar o plantio sobre a palhada.

Entretanto tinham-se dificuldades para fazer o plantio direto, sendo que a maior era as semeadoras adaptadas com ”kits” e sem disco de corte. Para conseguir semear a soja ”a aveia e o trigo eram colhidos bem baixinhos”. A segunda dificuldade era a dúvida de como controlar as invasoras no meio da palha, já que não existiam herbicidas eficientes para a dessecação e os herbicidas de contato eram muito caros. Para contornar essa situação, as áreas eram limpas com enxada, ou seja, a capina manual. Muitas vezes arriscava-se semear em áreas sujas e depois capinava”.

”A assistência técnica dizia que o plantio direto era para quem tinha dinheiro para comprar semeadoras sofisticadas, no entanto, o pequeno agricultor usando semeadoras adaptadas fez plantio direto, com maior dificuldade, é claro, mas conseguiu pela vontade e persistência”.

A primeira colhedora da família Canova foi adquirida em 1973 e a pri-meira semeadora de plantio direto em 1997. ”A semeadora com disco e sul-cador foi importante, mas o que viabilizou definitivamente o plantio direto foi a soja transgênica (RR). Essa tecnologia deu um novo impulso à agricultura”, defende Marcelo Canova.

Manejo diferenciado

As primeiras plantas daninhas resistentes a herbicidas ocorreram na década de 1990, na região de Espumoso, e foram o leiteiro e o picão-preto. ”Nossas áreas eram limpas porque mantínhamos livres da presença de invasoras capinando manualmente, mas em áreas maiores não se conseguia limpar. O problema com as plantas daninhas foi resolvido, somente com a introdução da soja trasgênica”, lembra Gilberto. Esse problema voltou e está se agravando, principalmente com a buva resistente a glifosato, isto nos últimos três anos. ”Em nossas lavouras a buva resistente chegou um ano depois do restante das propriedades da região” relata ele, por causa das práticas de capina e limpeza das lavouras.

Gilberto Canova: o plantio direto foi a mudança mais importante na forma de fazer agricultura.

Na propriedade da família Canova a principal cultura, no verão, é a soja que nunca deixou de ser plantada, desde a década de 1970. Nessa época o trigo era a principal cultura de inverno, mas não foi cultivado durante doze anos, a partir de 1985, devido a incidência de doenças como o mal-do-pé e ferrugem. Nesse período optou-se por pastagem para o gado e aveia preta para produção de semente”, de acordo com o relato de Gilberto. Somente em 1997, o trigo voltou a ser produzido, quando lançaram o Fundacep 32. ”Então dividíamos a área entre o gado, aveia e trigo, sendo que com o passar dos anos fomos aumentado a área de trigo gradativamente, até que em 2001, terminamos com o gado, e abrimos os campos para fazer lavoura. No inverno 50% da área é destinada para o cultivo de trigo, sempre em rotação (nunca se repete trigo sobre trigo), e os outros 50% é cultivado com aveia preta e milho, respectivamente 25% para cada cultura. Com aveia preta, na safra 2011, chegamos produzir 2000 kg/ha. Na cultura do trigo a evolução também foi muito boa, passamos de 35 sacos por hectare em 2003, para 75 sc/ha em 2011, com áreas chegando a produzir 92 sc/ha.”

Gilberto e Marcelo começaram a acreditar mais em trigo quando atingiram a produtividade de 60 sc/ha. ”Lembro que nessa época, Dirceu Gassen falava que era possível produzir 65 sc/ha de trigo, e o padrão em nossa região era de 40 sc/ha. Para projetar a produção ele recomendava que se medisse um m² na lavoura e contasse o número de espigas, sendo que para atingir os 65 sc/ha precisa-se ter 400 espigas/m². Escolhemos 10 hectares, que haviam sido cultivados no capricho, quando fomos realizar a segunda aplicação de agroquímicos (tratamento) decidimos medir e contar o número de espigas, obtivemos o resultado de 430 espigas/m². Então, antes de iniciar a colheita, medimos a área total e projetamos 68 sc/ha. Entusiasmados com a estimativa de produção, contamos para nosso pai, mas ele não acreditou. Realizamos a colheita e a média fechou em 65 sc/ha, confirmando as expectativas”, lembra Marcelo.

A cultura do milho, deixou de ser semeada em 1997, depois de três safras frustradas. Mas, com o intuito de aumentar a produção de soja e controlar doenças, veio a necessidade de inserir a rotação de culturas na propriedade, e em 2003, o cultivo de milho voltou, claro que com variedades mais produtivas que as de antigamente. Começamos com 10% da área e fomos aumentado aos poucos, hoje estamos próximos a 25% da área semeada com milho, que é plantado somente nas áreas próprias, não arrendadas”, explica. Em 2010 a produção desta cultura na propriedade, ficou entre 170-180 sc/ha. Segundo os Canova, para obter sucesso com milho, é importante planejar a lavoura. Marcelo conta que rotação que eles utilizam contempla a sucessão nabo/milho/nabo/trigo/soja. ”Começamos produzindo 90 sc/ha de milho e chegamos a 180 sc/ha, sendo que nossa meta é 200 sc/ha, apesar da Região não ter tradição no cultivo dessa cultura, pois a falta de chuva é um fator limitante”.

”Nossas áreas sempre foram bem cuidadas, desde o início nosso pai fazia o que tinha de melhor. Há três anos, estamos adubando a cultura da aveia e o nabo, utilizando 300 kg/ha. Entretanto, os nutrientes não são para a cultura implantada, e sim para a soja que será cultivada na sequência. Estou perdendo o medo de adubar o sistema, porém é necessário pensar em como disponibilizar o nitrogênio para o arranque da soja, precisa-se que o inoculante funcione nos primeiros 15 dias e faça com que o rizóbio esteja completamente estabelecido”, ressalta ele.

A boa distribuição de palha durante a colheita garante, na sequência, um plantio em melhores condições.

No manejo, para garantir boas condições de semeadura precisa-se de maior atenção por parte do produtor. É de extrema importância fazer a distribuição uniforme da palha, em toda a faixa da colhedora. A regulagem da semeadora para que a distribuição das sementes seja satisfatória. Efetuar o plantio em condições de umidade do solo adequadas, não semear no barro, e também ter cuidado com a velocidade de plantio, para que as sementes sejam bem distribuídas. ”Muitas vezes condições de lavoura são adversas, às áreas apresentam desuniformidade em vários aspectos, faz torrão ou leiva, por exemplo. Em casos assim, fazer uma boa semeadura é arte”, conclui Gilberto.

Para José Antonio, Gilberto e Marcelo Canova, o segredo do sucesso é fazer o que se gosta e buscar o aprimoramento constante nos processos que compõe a atividade. Pai e filhos têm orgulho do trabalho que realizam nas terras herdadas do avô e procuram manter a tradição da família: fazer bem feito para obter resultados positivos.

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 128, março/abril de 2012. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.